TALHADO
PARA SER DIVINO
Calmeiro Matias

a)
O Dinamismo da Vida Psíquica
b)
Emergência da Vida Espiritual e Salvação
a) O Dinamismo da Vida Psíquica
O nosso psiquismo é entretecido de vida emocional e vida intelectiva.
Assenta num tripé que está na base de todos os nossos mecanismos mais profundos.
Este tripé é constituído pelo princípio de prazer, o princípio de posse ou ter
e o princípio de poder.
A face emocional da vida psíquica é constituída fundamentalmente por
afectos e impulsos. A força dos impulsos é o desejo. A força que configura e
molda os nossos afectos é a ternura que fomos recebendo dos outros. A nossa
vida afectiva é o termómetro da ternura que os outros nos deram ou nos negaram.
A inteligência é possibilitada e condicionada pelas interacções entre as
capacidades intelectivas com a dinâmica dos impulsos e dos afectos.
Podemos dizer que a inteligência de pessoa emerge como capacidade
intelectiva e cognitiva a partir da interacção do património genético com a
estrutura dos afectos e dos impulsos.
Na situação presente da pessoa humana, não existe a inteligência como
capacidade intelectiva e cognitiva separada e independente da vida emocional de
cada pessoa.
A vida psíquica tem uma vertente corporal e outra social ou relacional. A
vertente social é tão importante para a estruturação psíquica da pessoa como a
sua vertente genética. A pessoa humana só pode realizar-se em relações.
A vida ética de uma pessoa consiste em trabalhar os princípios de prazer,
de ter ou possuir e de poder, orientando-os no sentido da humanização da
pessoa.
A lei da humanização é emergência pessoal mediante relações de amor e
convergência para a comunhão humana universal.
O princípio de prazer, no começo totalmente hedonista e narcisista pode
converter-se, pouco a pouco, em atitudes de dom alegre e gratuito.
O princípio de ter, no começo totalmente egoísta, pode converter-se,
gradual e progressivamente em atitudes de partilha e solidariedade.
O princípio do poder, no começo totalmente prepotente e dominador, pode
converter-se através de opções, escolhas ou decisões em atitudes de serviço à
fraternidade e ao bem comum.
A dimensão espiritual da pessoa emerge como salto qualitativo que
transcende o nível biológico e psíquico da pessoa. A matriz deste salto é a
densidade nova da vida biológica e psíquica humana. É um processo de emergência
pessoal-espiritual. Inicia-se no seio materno e vai crescendo ao longo vida
alimentado pelo amor.
A complexidade específica do ser humano, quer se trate do nível biológico
quer do psíquico, constitui o salto da hominização a que chegou a marcha
evolutiva da vida animal.
É este o barro amassado e preparado para receber da boca de Deus o beijo
primordial que comunica ao homem o sopro da vida.
Depois de se constituir a complexidade bio-psíquica, específica, específica
do Homem, acontece a intervenção especial de Deus na criação do Homem (cf. Gn
2, 7)
c)
Emergência da Vida Espiritual e Salvação
Como vimos acima, a humanização do homem acontece como processo de
espiritualização. Levamos no nosso íntimo o eu pessoal espiritual a emergir o
qual só pode desabrochar com a temperatura relacional do amor.
Emergir como pessoa significa crescer em densidade espiritual livre,
consciente, responsável, única, original e capaz de reciprocidade amorosa.
O projecto que Deus sonhou para a Humanidade implica duas vertentes:
criação e salvação. Nenhuma destas vertentes pode acontecer sem a acção do
Espírito Santo.
A primeira, a criação, acontece como dinâmica histórica de humanização. A
segunda, a salvação, acontece como introdução da Humanidade na plenitude da
comunhão com Deus.
É assim que o ser humano atinge plenitude que é o dom gratuito da
divinização. São estes os dois pilares do projecto de Deus para o Homem.
Cada um destes aspectos é iniciado através de um beijo de Deus. A vertente
da criação do homem, isto é, o processo histórico de humanização, é iniciada
com o beijo primordial de Deus Pai.
A palavra hebraica “Neshama” significa beijo e sopro. O texto do Génesis,
em hebraico, sugere que Deus, depois de o barro estar amassado, lhe deu um
beijo. Como consequência deste beijo, o hálito dinâmico e gerador de vida
espiritual (o Espírito de Deus), passou de Deus para o Homem e este torna-se um
ser espiritualmente animado. É a intervenção especial de Deus na criação do
Homem (Gn 2, 7).
O segundo beijo é-nos dado por Deus filho que, ao encarnar, se enxertou na
Humanidade em Jesus de Nazaré. Este beijo inaugura a plenitude dos tempos ou a
face da divinização.
Mediante o segundo beijo, o Espírito Santo, princípio animador de relações
e vínculo de comunhão orgânica, é-nos comunicado intrinsecamente, a fim de nos
introduzir na comunhão da Santíssima Trindade.
Qualquer destes beijos é uma realidade dinâmica e progressiva que se
continua e prolonga ao longo da vida de cada pessoa e do processo histórico da
Humanidade. O dinamismo destes beijos do Pai e do Filho possibilitam e
dinamizam a génese da humanização, e a dinâmica da plenitude ou divinização do
Homem.
Deus sonhou a Humanidade para viver e comungar com a Divindade. São Paulo
diz que Deus concorre em tudo para o bem dos que o amam (Rm 8,28).
Pelo primeiro beijo, Deus cria-nos à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27).
Pelo segundo, Deus integra-nos na Família Divina (Jo 1, 12-14). O primeiro
beijo dá-nos a possibilidade de sermos humanos. O segundo, a possibilidade de
sermos divinos: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em
mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo
modo quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).
A comunhão da carne e sangue de Cristo ressuscitado não é uma realidade
biológica. Não somos antropófagos. Jesus ressuscitado alimenta-nos com o seu
próprio dinamismo vital. Por outras palavras, a carne e o sangue de Cristo é o
seu princípio vital humano-divino, isto é, o Espírito Santo (Jo 6, 62-63). A
carne como realidade física não faz parte do reino de Deus, diz São Paulo (1
Cor 15, 50).
Por ser uma pessoa humana unida de modo orgânico e dinâmico a uma pessoa
divina, Cristo é o medianeiro deste projecto salvador de Deus.
Na interioridade pessoal humana de Jesus, o Espírito Santo encontrou
proporcionalidade suficiente para estabelecer uma interacção orgânica directa
com a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Deste modo faz um, como o Pai e o
Filho, em Deus, fazem um no Espírito Santo (Jo 10, 30).
Como vemos, é sólido o alicerce da nossa divinização. Jesus Cristo é a
condição para o dinamismo salvador do Espírito Santo se difundir organicamente
pela Humanidade, incorporando-a na família da Santíssima Trindade. Cristo, diz
a Carta aos Romanos, é o primogénito de muitos irmãos (Rm 8, 29).
O Evangelho de João exprime esta verdade, dizendo que Jesus é a cepa da
videira da qual nós somos os ramos (Jo 15, 1-8). É a imagem da Árvore da Vida
de que fala o livro do Génesis (Gn 2, 9). A raiz desta Árvore da Vida é a
comunhão orgânica da Santíssima Trindade que se comunica para nós pelo Espírito
Santo e faz de nós membros da Família Divina (cf. Rm 8, 14-16).
É em Cristo ressuscitado que acontece a assunção e incorporação da
Humanidade no próprio mistério de Deus. Através de uma vida imortal, isto é,
pela sua ressurreição, Jesus tornou-se nosso Sumo-sacerdote, isto é, medianeiro
dessa plenitude que é a nossa divinização (Heb 11,16).
Este sonho amoroso de Deus é para toda a Humanidade, não apenas para os
homens e mulheres que vieram depois de Cristo. No momento da morte e ressurreição
de Jesus Cristo, a humanidade que o precedeu, a qual já fazia uma união
orgânica de grandeza humana, passou a fazer uma união orgânica de grandeza
humano-divina em Cristo. A primeira Carta de São Pedro fala desta assunção da
Humanidade na comunhão divina mediante através de Cristo ressuscitado.
A primeira Carta de Pedro revela, ainda que de maneira incipiente, este
mistério da incorporação orgânica da Humanidade na comunhão da Santíssima
Trindade: “Também Cristo padeceu pelos pecados de uma vez para sempre; o justo
pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus. Morto na carne, mas vivificado no
Espírito Santo, foi então pregar aos espíritos cativos, outrora incrédulos, nos
tempos em que, nos dias de Noé, Deus os esperava pacientemente enquanto se construía
a arca” (1 Pd 3, 19-20).
Os que precederam Jesus Cristo, no momento da morte e ressurreição do
Senhor, não mudaram de lugar, mas de densidade espiritual, ao passarem da
comunhão humana universal à comunhão humano-divina.
Segunda a linguagem do Novo Testamento, a nossa comunhão orgânica com Deus
acontece na nossa interioridade pessoal-espiritual. Somos incorporados na
família de Deus pelo Espírito Santo e a partir do nosso coração.
São Paulo insiste em que o Espírito Santo é “O amor de Deus derramado nos
nossos corações” (Rm 5, 5). Outra imagem muito usada por Paulo é que o nosso
coração é templo do Espírito Santo: “Nós é que somos o templo do Deus vivo,
como disse o próprio Deus: Habitarei e caminharei no meio deles, serei o seu
Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6, 16).
Na primeira Carta aos Coríntios Paulo desenvolve esta mesma ideia: “Não
sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (…).
O templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1 Cor 3, 16-17). É portanto a
partir do nosso íntimo que se constitui essa organicidade que nos incorpora na
Família de Deus: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo que
está em vós e que recebestes de Deus? “ (1 Cor 6t, 19).
O Espírito Santo é o grande arquitecto que projecta, no nosso íntimo, o
templo de Deus, ajudando-nos a passar do egoísmo para o amor. Com efeito, Deus
é amor e só habita num contexto de relações de amor.
A única força que pode destruir em nós o templo de Deus é o egoísmo o qual
o responsável pelo fracasso humano: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o
Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o
destruirá, pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1 Cor 3,
16-17).
A Humanidade está entretecida com Jesus, homem perfeito e, através dele,
faz uma comunhão interactiva com a Santíssima Trindade.
O livro do Apocalipse descreve esta comunhão orgânica do Homem com Deus de
maneira muito bonita: “E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: ‘Esta
é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com os homens e eles serão o
seu povo. O próprio Deus estará com eles e será o seu Deus, enxugando todas as
lágrimas dos seus olhos e não haverá mais morte nem pranto nem dor”. (Apc 21,
3-4).