SACRAMENTOS
E VIDA CRISTÃ
CALMEIRO MATIAS

a)Baptismo Como
Boa Nova de Salvação
b)A Eucaristia
1- Sentido Teológico da Eucaristia
2- A Reserva Eucarística
c)Dinamismo
Sacramental do Matrimónio
d)Sentido Cristão
do Celibato
3- Sexualidade e Relações Humanas
4- Significado de Uma Opção
Celibatária
a) O Baptismo,
Como Boa Nova da Salvação
Como sacramento, o
baptismo é uma celebração comunitária da Salvação. Os sacramentos não são ritos
mágicos para salvar pessoas. Proclamam o projecto salvador de Deus na
diversidade dos seus aspectos e dimensões.
Como celebração da
Fé, o baptismo proclama o perdão do pecado (2 Cor 5, 17-19) e a introdução do
Homem na Família Divina: filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a
Deus Filho (Rm 8, 14-16; Ga 4, 4-7). São Paulo diz que Deus Pai, no seu
projecto salvador, preparou as coisas de modo a fazer de Cristo o primogénito
de muitos irmãos (Rm 8, 29). Com efeito, o acontecimento que fundamenta o
projecto proclamado pelos sacramentos é Jesus Cristo. Foi nele que Deus
realizou o seu plano salvador.
O perdão do pecado
e a filiação divina é realizado no interior das pessoas pela acção do Espírito
Santo, grande dom messiânico para a humanidade. O Espírito Santo é verdadeiramente
a indulgência plena e a benignidade total que Deus nos concedeu em Cristo. Os
sacramentos celebram uma realidade que os transcende. Por outras palavras, não
coincidem plenamente com a realidade que explicitam. No Reino de Deus existe
apenas a realidade que os sacramentos proclamam. No Céu já não há sacramentos.
O Baptismo, além
da dimensão do perdão e da filiação divina, fala ainda de outra realidade
importante para a edificação da Igreja: o baptismo no Espírito. É importante
não confundir celebração litúrgica do baptismo com baptismo no Espírito. Este é
a dimensão pentecostal da vida cristã. Dura a vida toda e, no caso do baptismo
do adulto, começa antes da celebração litúrgica do baptismo.
A vida teologal de
fé, esperança e caridade é um dom que nos é concedido mediante o baptismo no
Espírito. Não se pode baptizar um adulto se este não possui já a vida teologal.
Isto significa que a dinâmica pentecostal do baptismo no Espírito, no caso do
adulto, começou antes da celebração litúrgica do baptismo.
Quando Pedro foi
pregar à casa de Cornélio, proclamou a Palavra de Deus a uma família de pagãos
não baptizados. Com grande espanto apercebeu-se de que a dinâmica do baptismo
no Espírito aconteceu antes da celebração litúrgica do baptismo: “Pedro estava
ainda a falar quando o Espírito Santo desceu sobre quantos ouviam a Palavra.
Os fiéis
circuncisos que tinham vindo com Pedro ficaram estupefactos ao verem que o
Espírito Santo fora derramado também sobre os pagãos, pois ouviam-nos falar em
línguas e glorificar a Deus. Pedro então declarou: ‘poderá alguém recusar a
água do baptismo aos que receberam o Espírito Santo como nós?’.
E ordenou que fosse baptizados em nome de Jesus Cristo” (Act 10, 44-48). O
baptismo no Espírito começa no momento em que o Espírito Santo diz, no coração
de uma pessoa, a Palavra de Deus.
O baptismo no
Espírito relaciona-se com a acção revelacional do Espírito Santo na Igreja.
Pela celebração litúrgica do baptismo, o crente entra na plenitude do baptismo
no Espírito. O catecúmeno já está a viver a dinâmica do baptismo no Espírito,
mas não em plenitude, pois não tem acesso aos sacramentos. Com efeito, as
celebrações sacramentais são espaços privilegiados para o Espírito Santo actuar
no coração dos crentes que os celebram.
O baptismo no
Espírito é a fonte da qual brota a sabedoria que vem do alto, isto é, a vida
teologal. Esta sabedoria capacita os crentes para saborearem as coisas com os
critérios que vêm de Deus. Reduzir o baptismo no Espírito à celebração
litúrgica do baptismo é não entender a verdade da vida cristã e fazer das
celebrações sacramentais ritos mágicos.
A pregação do
Evangelho, a catequese, a partilha da Palavra na comunidade e a oração são
grandes mediações da acção revelacional do Espírito Santo no coração dos crentes.
A celebração litúrgica do baptismo introduz o crente oficialmente na
comunidade, espaço adequado para a plenitude do baptismo no Espírito. De facto,
este atinge a sua plenitude na vida comunitária.
O catecúmeno ainda
não participa de modo pleno na vida comunitária. Isto significa que não vive
ainda em plenitude a vida pentecostal da Igreja: acção revelacional do Espírito
que faz emergir no coração dos fiéis a vida de fé, esperança e caridade. As
celebrações sacramentais são espaços privilegiados para esta acção do Espírito
Santo.
O baptismo não é um
acto mágico. A verdade que os sacramentos já são reais na pessoa que os
celebra: filiação divina, reconciliação com Deus em Cristo (2 Cor 5, 17-19).
Mas é no momento da celebração do baptismo que estes aspectos são proclamados
publicamente sobre o baptizando, conferindo densidade sacramental à sua vida
pela incorporação na Igreja. Jesus Cristo já era Filho de Deus quando foi
baptizado. Mas o seu baptismo foi a proclamação pública da condição messiânica
de Jesus, o Filho de Deus (Mc 1, 9-11). A pessoa que vai ser baptizada já é
filha de Deus. Mas é no momento do seu baptismo que a Igreja proclama
publicamente esta condição de filha de Deus Pai, irmã de Deus Filho, membro do
Povo de Deus e corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27; 12, 13).
O baptismo leva
consigo uma exigência comunitária (Ga 3, 27-28). Os hebreus ficavam plenamente
membros do povo de Deus pela circuncisão. São Paulo compara o baptismo a uma
circuncisão feita, não pela mão do homem mas pelo Espírito Santo (Col 2, 11).
Somos sacramento da Nova Criação em Cristo (2 Cor 5, 17). Pela imersão e
emersão do baptismo exprimimos a nossa participação na morte do homem velho e
ressurreição do Homem Novo cuja cabeça é Cristo (Col 2, 12).
O baptismo das
crianças é portador de uma mensagem importante para os pais e a comunidade
celebrante:
1- A comunidade eclesial é o espaço
adequado para acolhermos o dom da Fé. É na comunidade que a vida teologal se
vai comunicando de geração em geração pela acção do Espírito Santo.
2- A Família cristã é uma igreja
doméstica. Na medida em que a família seja um espaço onde aconteça oração,
partilha da Palavra de Deus e diálogo crente, a família torna-se uma pequena comunidade
onde o Espírito Santo encontra condições para dizer a Palavra de Deus. Deste
modo a criança pode crescer na vida teologal.
3- Não é uma violência baptizar uma
criança. Todos começámos por ser o que os outros fizeram de nós. Os pais têm o
direito e o dever de comunicar aos filhos o que pensam ser o melhor. Não
esperam que a criança cresça para escolher a raça, a língua, a nacionalidade, a
cultura ou a religião que quer ter. Mais tarde, se a criança decidir alterar os
dados recebidos poderá fazê-lo.
4- O baptismo não é a última
palavra, mas a primeira. A criança vai sendo inserida na vida cristã através
dos pais. Mais tarde será chamada a dar a sua própria resposta. Ninguém pode
ser crente em vez do outro. Mas também ninguém se torna crente sem a mediação
dos outros.
5- A família cristã tem uma dinâmica teologal. Na
medida em que é cristão, o casamento é sacramento, isto é, espaço privilegiado
para acontecer a acção revelacional do Espírito Santo. Esta acção é condição de
crescimento na vida de fé, esperança e caridade para as crianças, os esposos e
outras pessoas que vivam em comunhão com esta família. O Espírito Santo é o
princípio vivificante dos sacramentos, incluindo o sacramento do Matrimónio. É
importante não reduzir o dinamismo sacramental do matrimónio à simples
celebração litúrgica.
b) A Eucaristia
1 – Sentido
Teológico da Eucaristia
Como sacramento, a
Eucaristia é uma celebração comunitária da Fé. O sujeito celebrante é a
comunidade presidida pelo presbítero ou o bispo. Para os não crentes a
Eucaristia, como os demais sacramentos, não tem qualquer significado. Por outras
palavras, a sua mensagem revelacional é apenas para os crentes.
A Eucaristia
corporiza ou visibiliza o mistério da comunhão orgânica que liga Cristo e a
Humanidade. A comunidade é, para o mundo, o corpo de Cristo. O pão e o vinho
consagrados são para os crentes o corpo de Cristo. Corpo significa, neste
contexto sacramental, mediação de encontro. Ninguém, neste mundo, se encontra
com os outros a não ser pela mediação do corpo. O mundo só pode experimentar a
realidade de Cristo através dos crentes, tal como os cristãos experimentam a
realidade de Cristo através dos sacramentos.
Segundo a visão
bíblica, a união da Humanidade a Cristo é orgânica. Comemos do mesmo pão porque
formamos o corpo de Cristo (1 Cor 10, 17). Somos corpo de Cristo e seus
membros, cada um na parte que lhe toca (1 Cor 12, 27). Somos baptizados no
mesmo Espírito, a fim de formarmos o corpo de Cristo (1 Cor 12, 13).
Cristo e a
Humanidade inteira formam uma união orgânica. Esta união é semelhante á que
existe entre a cepa da videira e seus os ramos (Jo 15, 1-8). A seiva que
vitaliza os ramos vem da cepa. É a Água viva que faz germinar torrentes de vida
eterna no nosso íntimo (Jo 4, 14; 7, 37-38). Esta seiva é o Espírito Santo,
sangue divino a circular nas nossas veias (Jo 6, 63; 7, 39; 1 Cor 6, 17; Ef 4,
16).
Esta realidade é
expressa de modo especial no mundo pela comunidade cristã e na comunidade pelo
sacramento da Eucaristia. Além da união orgânica que liga Cristo e a
Humanidade, os cristãos estão ligados a Cristo por um vínculo sacramental. A
Eucaristia é, por excelência, o sacramento que corporiza este mistério da união
orgânica com Cristo. A Eucaristia é sacramento para a comunidade e edifica a
Igreja, sacramento para o mundo.
Na linguagem dos
seus símbolos e ritos, vivificados pela Palavra e o Espírito Santo, a
Eucaristia explicita a nossa ligação orgânica a Cristo como se de um corpo se
tratasse. É por Cristo que temos acesso ao Pai: ”Quem come a minha carne e bebe
o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive
e eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por
mim” (Jo 6, 56-57).
O Pai e o filho
fazem um, isto é, uma união orgânica no Espírito Santo (cf. Jo 10, 30). Do
mesmo modo é na medida em que fazemos um com Cristo que temos acesso à comunhão
da Família de Deus: o Filho fazendo um com o Pai e nós fazendo um com o Filho, formando
uma união com a Trindade Divina (Jo 17, 21-23).
A carne e o sangue
de Cristo são o corpo de Cristo ressuscitado. Por outras palavras, trata-se de
uma realidade espiritual e não biológica: “O Espírito é que dá vida. A carne
não serve para nada. As palavras que vos disse são espírito e vida” (Jo 6, 63).
A Eucaristia é o fruto da Árvore da Vida ao nosso alcance. Quem come o fruto
dessa vida viverá para sempre (Gn 3, 22).
Adão, ao
impedir-nos o acesso ao fruto desta árvore, privou-nos da vida eterna (Gn 3,
23-24). Mas Cristo, no momento da sua morte-ressurreição, o fruto desta Árvore
ao nosso alcance: “Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”
(Lc 23, 43). A carne e o sangue de Cristo são princípio de ressurreição para os
que o comem (Jo 6, 50-51). Cristo é o novo Adão. Pelo primeiro veio-nos a
morte, pelo segundo veio-nos a vitória sobre a morte (Rm 5, 17-19).
Os sinópticos e
Paulo interpretam a Eucaristia como a festa que explicita e antecipa o sentido
da segunda vinda de Cristo. O Senhor vai vir de novo para restaurar a Nova
Humanidade e destruir as forças da morte e do pecado. Surgirá, então, o reino
messiânico da fraternidade universal (1 Cor 11, 25-27; Lc 22, 27-30). João
interpreta a Eucaristia numa perspectiva sapiencial: é o sacramento da união
orgânica que existe entre Cristo e a Humanidade mediante o Espírito Santo. É
assim que o Filho está unido ao Pai (Jo 17, 21-23).
2 – A Reserva
Eucarística
É fundamental
termos presente que não existem dois sacramentos da eucaristia: a celebração e
a reserva. A Eucaristia é um sacramento e, como tal, é uma celebração
comunitária da Fé. A tradição de guardar a reserva eucarística vem desde os
primórdios da Igreja. Mas no princípio não existia qualquer prática cultual em
relação à mesma reserva. A finalidade de guardar a reserva era a comunhão dos
presos, dos ausentes e doentes. Pouco a pouco a reserva foi-se tornando objecto
de veneração e culto.
A reserva continua
a linguagem sacramental da celebração da Eucaristia: A presença de Jesus entre
os homens, formando com eles uma comunhão orgânica. Esta presença, no entanto,
acontece no coração dos crentes. O pão é corpo de Cristo, isto é, mediação de
encontro com o Senhor. Do mesmo modo, o vinho é sangue de Cristo, isto é, vida
divina a circular nas “veias” do nosso eu interior,
pessoal-espiritual.
A comunidade unida
a Cristo é o templo da Nova Aliança (1 Pd 2, 5; 2 Cor 6, 16). A Eucaristia é o
novo culto em Espírito e verdade (Jo 4, 21-24). A reserva continua a ser
mediação de encontro e comunhão com o Senhor que, na celebração eucarística, se
nos comunicou como espírito que dá vida (Jo 6, 63). Com efeito, o corpo de
Cristo ressuscitado é espiritual e não biológico (1 Cor 15, 42-45).
c) Dinamismo
Sacramental do Matrimónio
É importante não
confundir a celebração litúrgica do Matrimónio com o dinamismo sacramental do
casamento cristão. Enquanto a celebração litúrgica pode durar cerca de uma
hora, o dinamismo sacramental do matrimónio é uma realidade que dura toda a
vida. O casamento não é uma realidade estática. Só acontece dinamismo
sacramental no matrimónio dos esposos cristãos. O Espírito Santo ilumina e vai
dizendo a palavra de Deus nos acontecimentos que entretecem a vida do casal e
seus filhos.
O casamento é uma
aliança que se apresenta como projecto a realizar. A dinâmica
fundamental da realização matrimonial são as relações de amor. É
importante não confundir amor com paixão. Esta vem sem a pessoa decidir e
desaparece como que por encanto. A paixão é uma questão emocional. Não depende
da vontade. O amor, pelo contrário, depende da vontade e cultivá-lo é
verdadeiramente uma arte.
O amor
concretiza-se em atitudes livres, conscientes e responsáveis: amar é eleger o
outro como alvo de bem-querer; aceitá-lo como é, apesar de ser diferente;
valorizá-lo nas suas diferenças e agir de modo a facilitar a sua realização e
felicidade. Os esposos que procurem realizar estas atitudes podem ter a certeza
que construirão uma história bonita de amor.
O matrimónio é uma
opção básica. Isto significa que é um dos caminhos fundamentais para a
humanização das pessoas. Tem como alternativa o celibato assumido, condição
para construir família não segundo os laços do sangue mas segundo os laços do
Espírito Santo. Como projecto de edificação familiar, o matrimónio é um lugar
de amadurecimento dos esposos e seus filhos. A fidelidade ao amor é uma
condição básica para a edificação equilibrada da família.
No coração da vida
amorosa dos esposos acontece o amor plenificante de Deus. Por outras palavras,
o Espírito Santo surge no interior da comunhão da família humana, conduzindo-a
à plenitude da família divina. Crescer como comunhão amorosa é crescer em
santidade. A santidade total é uma comunhão familiar infinitamente perfeita. A anti-santidade
absoluta é o estado de inferno, isto é, a pessoa reduzida a si mesma.
O estado de
inferno é a ausência total de comunhão com as pessoas humanas, as divinas e
todas as outras que possa haver. A pessoa que se encontra em estado de inferno
não tem ninguém para trocar um sorriso, fazer uma festa ou para lhe dizer:
gosto de ti. O inferno é, por excelência, a situação anti-familiar: a pessoa
reduzida a si mesma. É o malogro total do ser humano, pois este está vocacionado
para a comunhão.
Não fomos talhados
para estar sós. A solidão faz-nos sofrer e tira-nos o gosto de viver. É este o
sofrimento do inferno. É tanto mais doloroso quanto é verdade que não existe
qualquer esperança de este estado vir um dia a acabar. Assim como no céu
dançaremos para sempre a música do amor com o jeito que treinarmos agora, no
estado de inferno recusaremos a comunhão e o amor com o jeito com que o fizemos
ao longo da vida.
É importante que
os esposos saibam que o amor é uma dinâmica que deve ser constantemente
alimentada. Na medida em que é reinventado, o amor não cansa. Bem vivido, o
amor é uma fonte permanente de novidade. O que cansa na vida matrimonial é o
repetitivo, a falta de generosidade, a não valorização das diferenças, não se
dispor a agir de modo a facilitar a realização e felicidade do outro. O que
cansa verdadeiramente e o torna desgastante é o egoísmo.
O diálogo é um dos
pilares fundamentais para o crescimento do amor e da comunhão familiar. O
diálogo deve assentar no pressuposto de que cada pessoa é única, original e
irrepetível. Cada um dos esposos leva consigo uma carga hereditária e uma
história que facilita ou dificulta as relações e a comunhão amorosa. Todos nós
somos portadores de feridas interiores que não são fáceis de cicatrizar.
O amor é uma
realidade dinâmica que é preciso recriar ou reinventar através de pequenos
gestos e atitudes criativas. Amar é uma arte. O amor não se impõe. Ninguém pode
dizer ao outro: quer queiras, quer não, tens de me amar. O amor implica uma
cadeia de decisões, escolhas e atitudes que é preciso cultivar no dia a dia. O
outro só será amado por nós na medida em que o elegermos no nosso íntimo como
alvo de bem-querer.
O casal que
procura edificar uma aliança de amor está verdadeiramente capacitado para
chamar filhos ao banquete da vida. Sabemos que, sem amor, ninguém é capaz de
ser feliz. Procriar sem amor é pecado. Na verdade, é chamar seres à
infelicidade.
Não há melhor
sacramento do céu do que uma família a edificar-se em clima de amor. Também não
há melhor sacramento do inferno do que uma família estruturada em clima de
violência onde as pessoas se sentem constantemente rejeitadas: não há sorrisos
nem rostos felizes. Ninguém se olha nos olhos. A presença do outro vai-se
tornando pouco a pouco insuportável. Isto é sobretudo importante para os
filhos.
Não podemos
esquecer que as crianças são modeladas pelo meio em que nascem e crescem:
Se crescem num
contexto de Fé, aprendem a ser crentes;
Se o seu meio
familiar é indiferente, as crianças aprendem a ser indiferentes;
Se no ambiente
familiar das crianças a vida é considerada um projecto onde é preciso tomar
decisões, escolhas, opções e orientações de acordo com o amor e a comunhão
fraterna, as crianças aprendem a ser comprometer-se e a ser fiéis;
Se vivem
permanentemente em ambientes críticos, aprendem a julgar e condenar os outros;
Se vivem rodeadas
de atitudes hostis, aprendem a ser agressivas;
Se vivem dominadas
pelo medo, tornam-se seres apreensivos e neuróticos;
Se as pessoas
actuam com compaixão em relação a elas, começarão a sentir compaixão de si
mesmas;
Se são
ridiculizadas, tornam-se tímidas;
Se vivem em meios
marcados pela inveja, aprendem a ser invejosas;
Se vivem em meios
dominados pela vergonha, começarão a sentir-se culpadas;
Se vivem em meios
marcados pela tolerância, aprenderão a ser pacientes;
Se são encorajadas
tornam-se confiantes;
Se vivem em meios
que se orgulham delas, aprendem a apreciar-se;
Se sentem
aprovação, aprendem a ser elas mesmas;
Se o meio em que
vivem as aceita e valoriza, apercebem-se de que há amor no mundo;
Se são
reconhecidas, aprendem a programar objectivos para a vida;
Se vivem em espaços
onde acontece a partilha, aprendem a ser generosas;
Se vivem rodeadas
por atitudes de honestidade e rectidão, aprendem a agir segundo a verdade e a
justiça;
Se vivem em
ambientes de segurança, aprendem a ter fé em si e nos que vivem a seu lado;
Se vivem rodeadas
por atitudes de amizade, aprendem a ver o mundo como um lugar bonito para
viver;
Se vivem rodeadas
de compreensão e serenidade experimentam o que é a paz de coração.
d) Sentido Cristão
do Celibato
1 - Sexualidade e
Relações Humanas
A constituição
morfológica e fisiológica do nosso corpo talha-nos para uma interacção sexual. O mesmo podemos dizer da nossa vida psíquica. A sexualidade
é um instinto vital que marca os indivíduos até ao nível genético. Somos
portadores de cromossomas sexuais. Somos seres sexualmente entretecidos, tanto
a nível biológico como psíquico.
Estamos talhados
para a relação, para o face a face amoroso. Ninguém vê directamente o seu
próprio rosto. Apenas vemos de modo directo o rosto dos outros. Devido à
presença envolvente da sexualidade, as nossas relações são todas sexuadas. Não
devemos confundir este termo com relações sexuais ou genitais. Dizer que as
nossas relações são sexuadas significa que é como seres sexuados que nos
relacionamos com os outros.
A sexualidade
confere às nossas relações o carácter da diferença. Isto a todos os níveis: relações sociais, profissionais, desportivas, culturais, relações
de pais e filhos, etc. Diferença, aqui, não quer dizer melhor ou pior.
Significa que reagimos de modo diferente consoante nos relacionemos com pessoas
da nossa condição sexual ou de condição sexual diferente. É importante termos
consciência deste facto, a fim de vivermos as nossas relações de modo
consciente e sem tabus ou sentimentos de culpa. Foi Deus que nos quis assim.
Devemos aceitar esse facto e orientar a nossa afectividade no sentido do amor e
da comunhão fraterna. De facto, a nível humano, a sexualidade atinge a sua
perfeição no amor. Relações sexuais sem amor reduzem o outro a mero objecto de
prazer. Procriar sem amor é pecado.
2 - Significado de
uma opção celibatária.
Nascemos para
renascer. A pessoa humana não nasce acabada. Somos chamados a realizarmo-nos a
partir de um leque de possibilidades que recebemos. Começámos por ser o que os
outros fizeram de nós: Os evangelhos dizem que uns recebem cinco talentos,
outros três, dois, ou um. Ninguém é culpado por ter recebido um. Também ninguém
é herói por ter recebido cinco (Mt 25, 14-30; Lc 19, 12-27). O importante é o
modo como nos realizamos com os talentos que recebemos dos demais.
A pessoa não é
igual aos talentos que recebeu, mas sim aos que realiza. O homem realiza-se,
realizando; faz-se, fazendo. Por isso somos julgados por termos ou não feito
render os talentos.
Uma pessoa é
fecunda na medida em que gera vida humana. Não é o número de filhos que torna
uma vida fecunda, mas a densidade de amor com que esses filhos foram acolhidos
e preparados para a vida. Isto só pode acontecer através de uma história de
amor, o que é muito mais que o mero acto de procriar.
A fecundidade de
uma pessoa mede-se, portanto, em termos de humanização. Uma vida será tanto
mais fecunda quanto mais for agente de humanização para si e para o outros.
Quantas crianças procriadas sem amor! Muitas destas, porém, foram acolhidas e
bem amadas. Hoje são homens e mulheres felizes e realizados. Os pais humanos
destas pessoas são os que as acolheram e amaram, possibilitando-as para uma
vida feliz. De facto, ninguém é capaz de amar antes de ser amado. O mal amado
ama mal, isto é, com condicionamentos e bloqueios. É vítima, não culpado. De
qualquer modo recebeu condicionamentos que limitam a sua realização.
Em termos evangélicos,
o pior mal que pode acontecer a uma pessoa é ser estéril, isto é, não dar
frutos de humanização. É culpavelmente estéril a pessoa que se recusa a amar. É
a figueira estéril que não tomar parte no pomar da vida (Mt 21, 19-20; Mc 11,
13-20; Lc 13, 6-7).
A virgindade ou
celibato por amor do Evangelho é um dom que Deus concede a algumas pessoas.
Deus não pede uma opção deste tipo a todos os crentes. A pessoa que faz esta
opção deve sentir que está a escolher o melhor para si. Ao agir assim, a pessoa
sente que esta é a maneira de ter uma vida mais fecunda. O celibatário sabe que
fez a melhor escolha para si, mas não pretende impô-la aos outros. Os carismas
são diferentes e acontecem segundo a originalidade de cada pessoa. Não somos
seres feitos em série. Cada pessoa é única, original e irrepetível.
Uma pessoa a quem
tenha sido dado o dom de se consagrar à causa do Evangelho de modo celibatário
será menos fecunda se optar doutro modo. Não está a ser plenamente fiel aos
seus talentos. Mas seria completamente errado pensar que a opção pelo celibato,
só por si, é superior à opção pelo matrimónio.
Neste aspecto, a
pessoa deve optar segundo sente ser o melhor para si. Será este o modo de ter
uma vida mais fecunda e, portanto, atingir uma realização mais plena e ser
mediação de realização para os outros. A parábola das virgens insensatas diz
que estas não entraram no Reino de Deus (Mt 25, 1-13). Na Igreja há uma grande
diversidade de dons ou carismas. Aquilo que é a melhor opção para uma pessoa
pode não o ser para outra.
O celibatário que
opta assim para se consagrar ao Reino de Deus não é um desenraizado em termos
familiares. Ele deve empenhar-se seriamente na edificação da Família de Deus,
sabendo que esta não assenta nos laços da carne e do sangue, mas sim nos laços
do Espírito Santo: “ Todos os que são movidos pelo espírito de Deus são filhos
de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas o Espírito de
adopção graças ao qual chamais “Abba”, papá. Se sois filhos sois igualmente
herdeiros. Herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8, 14-16).
Se o celibato é
vivido em função do Reino de Deus, a sua vida será muito fecunda em termos de
edificar família. A fecundidade espiritual, na história, é muito mais duradoira
que a fecundidade procriadora: Cristo, São Bento, Santa Clara, São Francisco,
Madre Teresa de Calcutá e tantos outros fundadores de famílias espirituais cuja
fecundidade se prolonga pelos séculos fora. Estas pessoas, apesar de não terem
procriado, deixaram na história uma multidão de filhos e filhas que prolongam a
sua obra pelos séculos fora.
A opção
celibatária adquire um sentido muito especial na consagração religiosa. O
religioso está chamado a viver em comunidade. A construção da comunidade é a
edificação da família de Deus, a qual não assenta na carne e no sangue mas no
Espírito Santo: “Mas aos que receberam Cristo, aos que crêem nele, deu-lhes o
poder se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram dos laços do sangue ou do
impulso da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus” (Jo 1, 12-13).
Deus é a primeira
realidade familiar. Ainda antes de existir o Universo já existia uma comunhão
familiar de três pessoas. Esta é a nossa vocação fundamental: ser membros da
família de Deus (Ga 4, 4-7). Para pertencermos à Família de deus temos de nascer
de novo mediante o Espírito Santo, diz o evangelho de João (Jo 3, 6).
Vista nesta
óptica, a vocação religiosa completa a linguagem sacramental do matrimónio. As
pessoas que casam estão chamadas a edificar uma família humana cuja plenitude
acontecerá na incorporação do Reino de Deus que é a Família Divina. A vida
religiosa proclama que a família de Deus assenta, não nos vínculos da carne e
do sangue, mas nos laços do Espírito Santo: “Minha mãe e meus irmãos são
aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8, 21).
A esta luz
torna-se claro que a paternidade e a maternidade humana são mediações da
paternidade e maternidade divina. No Céu já não existem laços de sangue. Na
plenitude da ressurreição os seres humanos são totalmente pneumáticos, isto é,
“como os anjos de Deus” (Lc 21, 34-36). Na medida em que as famílias se abram à
acção do Espírito Santo começarão a abrir-se à comunhão para lá dos laços do
sangue. O Espírito Santo abre o nosso coração à fraternidade, condição para sermos
filhos do Pai do Céu. Do mesmo modo, Na medida em que as comunidades religiosas
se abram ao Espírito Santo, tenderão a constituir-se cada vez mais como
famílias que cujos vínculos assentam nos laços do Espírito Santo.