REALIZAÇÃO PESSOAL E FELICIDADE

                                                           Calmeiro Matias

 

 

 

 

 

A felicidade de uma pessoa coincide com a sua plena realização. A dimensão ética do ser humano é a sua capacidade de se realizar numa linha de fidelidade ao amor. Mas como o amor não se impõe, a pessoa pode malograr a sua realização, dizendo não aos apelos que o amor faz no concreto das situações.

Com efeito, a realização pessoal não é uma fatalidade. O ser humano realiza-se como pessoa livre, consciente e responsável. Isto significa que ninguém nos pode substituir na nossa realização pessoal. Os membros mais nobres da raça humana são aqueles que procuram viver em total fidelidade ao amor.

Sabemos pela Bíblia que Deus é amor (Jo 4, 16). Isto quer dizer que o amor é a plenitude da vida divina. O amor, em Deus, não é uma questão ética, pois Deus é uma plenitude amorosa. A questão ética tem a ver com o livre arbítrio, isto é, a capacidade de optar pelo bem ou pelo mal.

O livre arbítrio não é a liberdade, mas apenas a possibilidade de ser livre. Ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente. O livre arbítrio dá-nos a possibilidade de escolhermos pelo sucesso ou o fracasso da nossa realização. Deus não tem livre arbítrio, pois não pode optar pelo mal. Mas Deus não precisa do livre arbítrio, pois é liberdade infinitamente perfeita.

É na medida em que optamos pelo amor que nos tornamos livres. A liberdade não é algo que temos antecipadamente. É o resultado de uma cadeia de opções na linha do amor. Por isso é mais livre quem é mais capaz de se relacionar amorosamente.

É verdade que a liberdade é um dom de Deus. Mas os dons de Deus são-nos concedidos sempre em forma de talentos ou possibilidades, a fim de os podermos aceitar ou não. A possibilidade de ser livre é o livre arbítrio, isto é, a capacidade de optar. Aceitamos este dom de Deus, na medida em que optamos na linha do amor.

Como vemos, ninguém se torna livre sem o desejar. A possibilidade de sermos livres vem-nos de Deus. Mas a realização desta possibilidade é tarefa nossa, da qual ninguém nos pode substituir. A recusa a realizar-se como pessoa mediante relações de amor é a forma de o homem recusar o dom que Deus nos faz de podermos ser livres.

No homem, a fome de amor é imensa. Isto quer dizer que levamos em nós uma fome imensa de realização pessoal e felicidade. É perigoso iludir esta fome de amor, alienando-nos e tentando distorcer os seus apelos. Com efeito, a pessoa humana não é um ser realizado e só pode realizar-se mediante relações de amor.

Amar ou não amar, eis a decisão do sucesso ou do fracasso de uma vida humana. Jesus Cristo reduziu a multidão dos preceitos religiosos e morais da tradição judaica ao mandamento do amor.

O amor é o mandamento da plenitude dos tempos que é o tempo da Nova Aliança: “Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros tal como eu vos amei. Todos saberão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 34-35).

Quando uma pessoa está disposta a dar a vida para gerar morte, consegue matar e destruir muita gente. Do mesmo modo, quando uma pessoa está disposta a dar a vida para amar os outros e torná-los felizes, converte-se em mediação de vida e alegria para muita gente.

Há um jeito cristão de viver o amor, o qual recebe o nome de caridade. A caridade é o amor vivo ao jeito de Deus. O cristão adquire este jeito pela acção da Palavra de Deus e do Espírito Santo.

O que distingue um cristão do não cristão é a vida teologal de fé, esperança e caridade. A vida teologal é a sabedoria que emerge no coração dos crentes pela acção maternal do Espírito Santo que proclama a palavra de Deus Pai no nosso coração.

Esta sabedoria capacita-nos para saborearmos as coisas com a luz da revelação, dando-nos critérios para modelarmos as nossas atitudes de acordo com a Palavra de Deus.

Deste modo, o nosso coração vai-se modelando gradual e progressivamente em sintonia com o coração de Jesus Cristo. O coração, em sentido ético, não significa o músculo que activa a circulação sanguínea, mas o jeito de eleger o outro como próximo, isto é, alvo do nosso amor. Neste sentido, os animais não têm coração.

O Espírito Santo, com o seu jeito maternal de amar, vai moldando o nosso coração, configurando-o gradual e progressivamente com o coração de Jesus Cristo: “Foi em Cristo que acreditastes e fostes marcados com o selo do Espírito Santo prometido, o qual é a garantia da nossa herança celeste” (Ef 1, 13-14).

Como vimos, o pecado é a recusa do ser humano a realizar-se e crescer como pessoa através do amor. A primeira vítima do pecado é o próprio pecador que, através do pecado, bloqueia as possibilidades de realização pessoal e, por consequência, de as possibilidades de ser feliz. Como vemos, a felicidade é algo que temos de construir. Atinge a sua plenitude na comunhão universal da Família de Deus.

A fonte da felicidade humana não é o dinheiro, nem o poder ou o saber, mas o amor. É muito perigoso brincar com o amor. Não porque o amor se vingue, mas porque a pessoa que brinca com o amor está a entrar no caminho do malogro e do fracasso.

O amor não é vingativo. Não castiga ninguém. Mas as recusas de amor levam em si o seu próprio castigo. Brincar com o amor ou brincar com Deus é a mesma coisa, pois Deus é amor (Jo 4, 7-8).

A realização pessoal é a tarefa principal de todo o ser humano. Seremos eternamente a pessoa que se realiza agora. Esta tarefa não pode ser realizada sem os outros. Além disso, o cristão sabe que pode contar com o Espírito Santo que, no seu coração, vai inspirando, convidando e interpelando, no sentido de actuar de acordo com o amor. É este o caminho da realização pessoal sem roturas e, portanto, o caminho da felicidade.