OS NOMES DE CRISTO NO NOVO TESTAMENTO
Calmeiro Matias

1 – Filho de David
2 – Filho de Deus
3 – Messias, Cristo ou Ungido
3.1- Jesus Ungido Pelo Espírito Santo
3.2- Jesus Como o Comunicador do Espírito Santo
4 – O Messias Profeta
5 – O Novo Adão
6 – Jesus o Sumo-sacerdote
7– Jesus o Redentor
8 – O Bom Pastor
9 – O Pão da Vida
10 – Templo da Nova Aliança
11 – O Filho da Homem
12- A Árvore da Vida
13 – Jesus Cristo é a Plenitude da Revelação
1 – O Filho de David
A grande diversidade de títulos usados pelo Novo Testamento para falar de
Jesus é sinal da riqueza e profundidade da sua missão messiânica, a qual não
pode ser expressa com uma só palavra.
Assim, além dos grandes títulos como Filho de Deus, Filho de David, Filho
do Homem, aparecem ainda muitos outros que tentam especificar e completar a
riqueza da missão salvadora de Jesus Cristo.
É importante vermos a profundidade de conteúdos subjacente aos principais
títulos de Jesus no Novo Testamento. É sobretudo significativo sabermos que os
autores do Novo Testamento tinham consciência clara do alcance dos respectivos
títulos.
Foi com o título de Filho de David que surgiu a primeira profecia
messiânica. Esta foi dirigida pelo profeta Natan ao
rei David (cf. 2 Sam 7, 12-16).
Segundo a profecia, Deus vai suscitar um Filho a David, o qual construirá
um templo para o Senhor. Este descendente real conduzirá à plenitude o Reino de
Deus. A casa e o reino de David permanecerão para sempre, graças ao filho agora
anunciado e prometido a David. Deus garantiu a David que ia ser um Pai para o
Filho de David (2 Sam 7, 13-14). Deste modo, sempre que os príncipes da casa de
David sobem ao trono são declarados filhos de Deus (Sal 2, 6-7).
As tentações de Jesus indicam que o Senhor entrou em crise no momento de
iniciar a sua missão messiânica (Lc 4, 1-13). A leitura do Profeta Isaías foi
uma mediação privilegiada para Jesus descobrir o modo como Deus o chamava a
realizar a sua missão (Lc 4, 18.21).
2 –O FILHO DE DEUS: Segundo a profecia de Natan, Deus será um pai para o filho prometido a David (2
Sam 7, 14). Na perspectiva do Antigo Testamento isto significava uma adopção.
Deus compromete-se a proteger o Filho de David como se fosse seu próprio filho.
O monoteísmo judaico era unipessoal e, portanto, não tinha qualquer sentido
falar de um filho eterno, uma pessoa divina como o Pai.
O próprio São Paulo interpreta neste sentido a filiação divina de Jesus. A
sua ressurreição é o momento em que Jesus foi ungido pelo Espírito Santo e
constituído filho de Deus.
Mediante a unção com o Espírito Santo no momento da Ressurreição, Jesus
torna-se o rei Davídico, o filho de Deus entronizado no Céu à direita de Deus. (Rm
1, 3-5).
O salmo 110 declara que os filhos de David, no momento da sua unção e entronização
real, são constituídos filhos de Deus sentando-se, por isso, à direita da
majestade divina (cf. Sal 110, 1).
É a partir da perspectiva do Filho de David, constituído filho de Deus, que
vai evoluir a teologia do filho de Deus. Esta evolução avança até chegar à
noção do Filho Unigénito de Deus (Jo 3, 16).
Este é eterno e é Deus, tal como o Pai e o Espírito Santo. Já estava
totalmente activo na obra da criação (Jo 1, 1-10).
No início, antes da criação do Universo, já existia o filho unigénito. Este,
pela Encarnação, tornou-se filho primogénito, isto é, o primeiro de muitos
irmãos (Rm 8, 29).
Pela dinâmica da Encarnação, o Filho de Deus deu-nos o poder de nos
tornarmos também nós filhos de Deus. Não por vontade da carne ou decisão do
homem, mas por vontade de Deus (Jo 1, 12-14).
Pela encarnação, o Filho Eterno de Deus e Jesus, o Filho de Maria,
tornam-se um e o mesmo. Não no sentido de se confundirem ou fundirem, mas
porque formam uma unidade orgânica animada pelo Espírito Santo. De tal modo
existe harmonia entre Cristo e seu Pai, que Jesus podia dizer: “Quem me vê, vê
o Pai” (Jo 14, 9).
Pelo facto de ser homem, Jesus faz uma unidade orgânica connosco e, com
ele, todos nós passamos a ser igualmente membros da família de Deus. Esta união
orgânica acontece mediante o Espírito Santo, princípio animador de relações e
vínculo orgânico de comunhão (Rm 8, 14-16; Gl 4,
4-7). Por esta razão Jesus nos convida a nascer de novo pelo Espírito Santo (Jo
3, 3-6).
“O amor de Deus está no facto de não termos sido nós que amámos Deus em
primeiro lugar, mas sim Deus, o qual nos amou e enviou o seu Filho, a fim de
sermos purificados dos nossos pecados” (1 Jo 4, 1-9). Como Filho, Cristo é o
muito amado de Deus Pai (Mt 17, 5).
3 - MESSIAS, CRISTO OU UNGIDO:
3.1- Jesus é ungido pelo Espírito Santo
Jesus não foi apenas baptizado com água. Foi também ungido com o Espírito
Santo. Pedro confessou a sua fé em Jesus, declarando que Ele era o Messias, o
Filho do Deus Vivo (Mt 16, 16).
Mas esta declaração ainda estava longe de afirmar o alcance mais profundo
da realidade de Cristo. O Coração do mistério de Cristo é o Espírito Santo. Pedro
via as coisas com outras lentes, por isso Jesus lhe chama Satanás (Mt 16,
16-23).
Após a sua morte e ressurreição, Jesus inaugura o baptismo no Espírito,
isto é, a dimensão pentecostal da vida cristã.
Foi ungido por Deus com o Espírito Santo, a fim de cumprir o plano salvador
de Deus em favor da Humanidade (Jo 1, 32-33). Graças à plenitude do Espírito
que o habitava todos nós fomos divinizados. Tornamo-nos ramos da videira que
recebem a seiva da vida divina da cepa que é Cristo (Jo 15, 1-7). Participamos
da sua unção para continuarmos a sua missão.
3.2- Jesus Como Comunicador do Espírito Santo
Jesus via-se como o Messias. O essencial da sua missão era edificar a
Família de Deus, oferecendo a todos o dom do perdão e da reconciliação com
Deus.
Como Messias, Jesus é obra do Espírito Santo. O Evangelho de Lucas diz isto
de modo muito bonito:
“Jesus veio a Nazaré, onde se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou
em dia de Sábado na sinagoga e levantou-se para ler.
Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a
passagem em que está escrito:
“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa
Nova aos pobres.
Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e,
Aos cegos,
A recuperação da vista.
Enviou-ma para mandar em liberdade os oprimidos e proclamar um ano
favorável da parte do Senhor.
Depois,
Enrolou o livro,
Entregou-o ao responsável e sentou-se.
Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos postos nele.
Começou,
Então a dizer-lhes:
“Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura,
Que acabais de ouvir” (Lc 4, 18-21).
João Baptista anuncia que Jesus é o Messias que vai difundir o Espírito Santo
sobre os seres humanos:
“Eu baptizo-vos com água para o arrependimento. Mas depois de mim virá
alguém que é mais poderoso que eu, cujas sandálias eu não sou digno de
transportar.
Esse baptizar-vos-à no Espírito e no fogo” (Mt 3, 11; cf. Mc 1, 7-8; Lc 3,
16).
Jesus parte para enviar a plenitude do Espírito:
“Eu vou para vos enviar aquele que o meu Pai prometeu. Permanecei na cidade
até ao momento em que sereis revestidos com o poder do Alto” (Lc 24, 49).
No quarto evangelho, João Baptista declara que não conhecia Jesus, mas que
Deus lhe dera como sinal para o conhecer a descida do Espírito Santo sobre.
Trata-se, naturalmente, de uma alusão ao baptismo de Jesus:
“E eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a baptizar com água disse-me:
“O homem sobre o qual vires o Espírito descer e permanecer é ele que baptizará
no Espírito Santo” (Jo 1, 33).
A realização do baptismo no Espírito terá a sua plena realização com a
ressurreição de Jesus:
“Os discípulos ficaram cheios de alegria por verem o Senhor. E Jesus voltou
a dizer-lhes: “A paz esteja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos
envio a vós”.
Em seguida soprou sobre eles e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles
a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados (alusão ao baptismo). Àqueles a
quem os retiverdes, ficarão retidos” (Jo 20, 20-23).
O dom do Espírito não é para o mundo, pois este não o conhece:
“Eu pedirei ao pai que vos enviará outro Paráclito, a fim de estar sempre
convosco, o Espírito da Verdade que o mundo não pode receber, pois não o vê nem
conhece.
Vós conhecei-lo, pois permanece junto de vós, e habita em vós” (Jo 14,
16-17).
O Espírito Santo tem a tarefa de continuar a missão de Jesus Cristo.
Continuará a revelar aos discípulos o projecto salvador de Deus,
conduzindo-os para a verdade plena:
“Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é
que vos ensinará tudo e há-de recordar-vos tudo o que vos disse” (Jo 14, 26).
Graças ao dom do Espírito somos incorporados na família de Deus. Já podemos
chamar “Abba”, papá a Deus Pai e irmão a Jesus Cristo, pois somos co-herdeiro
com ele da herança de Deus (Rm 8, 14-17).
A comunicação do Espírito é cúpula e a plenitude da missão messiânica de
Jesus. É o coração da Nova e Eterna Aliança!
4- O Messias Profeta
Com a morte de Salomão, o Reino de David dividiu-se em dois: ao sul, o
reino de Judá, ligado à casa de David.
Ao norte o reino de Israel, constituído pelas dez tribos separatistas.
Eis como o livro dos reis descreve o conflito que levou à divisão do Reino:
“Todo o Israel (as dez tribos separatistas) viu então que o rei não queria
ouvi-los e replicaram: “Que temos nós a ver com a casa de David? Nós temos
herança com o filho de Jessé!
Governa a tua casa David!” E Israel foi para as suas tendas.
Mas o rei Roboão continuou a reinar sobre os filhos de Israel que
pertenciam à tribo de Judá” (1 Rs 12, 16-17).
O rei do reino do Norte não era da casa de David. Eis a razão pela qual não
estava ligado à promessa messiânica.
Os escribas do reino do norte redigem um livro, assinando-o com o nome de
Moisés, a fim de lhe dar credibilidade.
O livro é um resumo da Lei mosaica já existente. No livro do Deuteronómio,
a esperança messiânica não é associada à casa de David, pois os reis do norte
não eram descendentes de David.
O futuro Messias será um profeta à maneira de Moisés.
Temos assim um messianismo associado à casa de David, outro associado à
teologia sacerdotal dos levitas e, finalmente, outro associado à missão
profética de Moisés.
O rei, para a teologia ligada à esperança davídica (2 Sam 7, 12-16), é o
medianeiro entre Deus e o povo.
Com o desaparecimento da monarquia, a teologia sacerdotal começa a acentuar
cada vez mais a vinda de um Messias sacerdote.
O Sumo-sacerdote, agora passa a ser, não o rei, mas um sacerdote eleito
pelos demais sacerdotes.
Este Sumo-sacerdote é o medianeiro entre Deus e o Povo. Realiza tarefas
políticas, pois não existe rei.
Os textos proféticos começam a falar de dois Messias: um da casa de David e
outro da linhagem sacerdotal (Zac 3, 8; 6, 11-12; Jer 33, 17-22).
Com a divisão do reino de David, o medianeiro entre Deus e o povo, para o
reino do norte é o profeta.
O Deuteronómio anuncia o futuro Messias como tratando-se de um profeta:
Disse Moisés: “As gentes das terras que vos vou dar acreditam em agoireiros
e adivinhos, mas a ti, o Senhor Deus não o permite.
O Senhor teu Deus suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um
profeta como eu. Deves escutá-lo.
No Monte Horeb dissestes: “Não queremos mais ouvir o Senhor no meio de
relâmpagos e trovões, nem voltar a ver o fogo enorme, a fim de não morrermos.”
O Senhor disse-me então: Está certo o que eles dizem. Suscitar-lhes-ei um
profeta como tu, dentre os seus irmãos.
Porei as minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que eu lhes
ordenar.
Os que não derem crédito às palavras que esse profeta vai pronunciar em meu
nome, eu próprio lhe pedirei contas” (Dt 18, 14-19).
A tradição cristã atribuiu a Cristo esta tríplice missão messiânica,
dizendo que Jesus Cristo é rei, sacerdote e profeta.
Se quisermos ser fieis ao pensamento bíblico
teremos de dizer que é uma maneira de dizer que Jesus possui a plenitude da
função de medianeiro.
São Paulo diz que o Senhor ressuscitado é o único medianeiro entre Deus e o
Homem (1 Tim 2, 5).
Jesus, nos evangelhos, designa-se a si próprio como um profeta com uma
sorte idêntica à dos outros profetas:
“Hoje, amanhã e depois devo seguir o meu caminho, pois não pode acontecer
que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13, 33).
Jesus declara que nenhum profeta é honrado na sua terra. As pessoas da sua
terra diziam:
“Não é ele o filho do carpinteiro? Não se chama a sua mãe Maria e seus
irmãos Tiago, José, Simão e Judas?
E as suas irmãs não vivem todas entre nós? De onde lhe vem, pois, tudo
isto?
Estavam, pois, escandalizados por causa de Jesus. Mas Jesus disse-lhes: “Um
profeta só é desprezado na sua pátria e em sua casa.
E não fez ali muitos milagres por causa da falta de fé daquela gente” (Mt
13, 55-58).
As palavras do evangelho de Marcos são praticamente as mesmas que as do
evangelho de Mateus de Mateus (cf. Mc 6, 4).
O evangelho de João e o de Lucas limitam-se a dizer que, certo dia, Jesus
afirmou que um profeta não é bem recebido na sua terra (Jo 4, 43; Lc 4, 24).
O facto destas afirmações de Jesus estarem nos quatro evangelhos significa
que têm um grande peso histórico.
Jesus, portanto, dá-se a si mesmo o título de profeta. As multidões também
o aclamam como profeta:
“A multidão dizia: “Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia” (Mt 21,
11).
Os chefes dos judeus procuravam matar Jesus, mas tinha receio, pois a
multidão considerava-o um profeta:
“Os sumo-sacerdotes e os fariseus, ao ouvirem as suas parábolas,
compreenderam que eram eles os visados.
Embora procurassem um meio de prender Jesus tinham receio, pois o povo
considerava Jesus um profeta” (Mt 21, 45-46).
Os discípulos de Emaús, após a morte do Senhor falam dele como de um grande
profeta:
“E um deles, chamado Cléofas, respondeu: “Tu és o único forasteiro a
ignorar o que lá se passou nestes dias?” Ele perguntou-lhes: “Que foi”.
Responderam-lhe: “O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras
e palavras diante de Deus e de todo o povo” (Lc 24, 18-19).
A Samaritana falando com Jesus chama-lhe profeta. Jesus não rejeitou este
título (Jo 4, 19).
Mais à frente, o próprio Jesus diz á Samaritana que é o Messias (Jo 4, 26).
Como vemos, os evangelhos não vêem dificuldade em chamar profeta a Jesus
Cristo, apesar que saberem antecipadamente que ele é o Messias.
No evangelho de João, ao ver as obras de Jesus, o povo interroga-se sobre
se ele não será o Messias Profeta à maneira de Moisés, tal como foi anunciado
por Moisés (Dt 18, 15; 18-19). Depois da multiplicação dos pães, o povo diz que
Jesus é realmente o profeta anunciado:
“Aquela gente, ao ver o milagre que Jesus fizera dizia: “Este é realmente o
profeta que devia vir ao mundo”. Por isso Jesus, sabendo que viria buscá-lo
para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (Jo 6, 14-15).
Também aqui se vê claramente a associação do Messias profeta com o Messias
rei sem que isso trouxesse qualquer problema.
Ao falar de Jesus como sacerdote, o Novo Testamento nunca associa o
sacerdócio de Jesus ao sacerdócio cultual dos levitas:
“Mas Cristo veio como Sumo-sacerdote dos bens futuros, através de uma tenda
maior e mais perfeita, a qual não foi feita por mãos humanas, isto é, não
pertence ao mundo criado.
Entrou uma só vez no Santuário, não com o sangue de carneiros ou de vitelos
(como os sacerdotes levitas), mas com o seu próprio sangue, obtendo assim uma
redenção eterna” (Heb 9, 11-12).
São João diz que depois de Jesus prometer o Espírito Santo como fonte de
Vida Eterna, alguns dos ouvintes diziam que Jesus era o profeta, outros diziam
que ele era o Messias:
“Entre a multidão de pessoas que escutaram o ensinamento de Jesus dizia-se:
“Ele é realmente o profeta”. Outros diziam: “É o Messias” (Jo 7, 40-41).
É curioso notar que, João sublinha que as pessoas diziam que Jesus era o
profeta, não um profeta. Esta maneira de falar referia-se, naturalmente, ao
Messias profeta anunciado no Deuteronómio.
Por outras palavras, dizer que Jesus é o profeta é o mesmo que dizer que
ele é o Messias.
Segundo o evangelho de Lucas, Jesus reconhece que a unção profética
anunciada por Isaías se referia á sua pessoa:
“Jesus veio a Nazaré onde se tinha criado. Segundo o seu costume entrou em
dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler.
Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a
passagem em que está escrito:
“O Espírito do Senhor está sobre mim,
Porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres.
Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e,
Aos cegos,
O recobrar da vista.
Enviou-me para mandar em liberdade os oprimidos e a proclamar um ano de
graça da parte do Senhor”.
Depois enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se.
Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.
Começou,
Então a dizer-lhes:
“Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4,
16-21).
Os evangelhos vêem Jesus como o Servo sofredor que foi maltratado e
humilhado.
O Servo é justo e, por isso, não merecia aquelas humilhações.
Por ser solidário com os pecadores, o seu sofrimento e a sua morte violenta
acabou por trazer vida para os seus pecadores que mereciam, esses sim, ser
humilhados e castigados.
Jesus não é um profeta, mas o profeta, diz o evangelho de João. Isto
significa que Jesus realiza a sua missão messiânica como rei, sacerdote e
profeta.
5- O NOVO ADÃO: São Paulo diz que, assim como no primeiro Adão todos
morrem, assim em Cristo, o Novo Adão, todos ressuscitam (1 Cor 15, 20-21; Rm 5,
17-19).
Utilizando o simbolismo próprio do mundo hebraico, a Bíblia diz que Adão,
depois do pecado, foi expulso do Paraíso em cujo centro estava a árvore da
Vida. As pessoas que comessem o fruto dessa árvore viveriam para sempre. Por
isso Deus expulsou Adão do Paraíso (Gn 3, 23).
Agora Cristo, o Novo Adão, reabre as portas do Paraíso através da sua
Ressurreição. No momento da sua morte declara ao Bom Ladrão: “ Digo-te com toda
a verdade que, hoje mesmo, estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).
O Senhor ressuscitado tornou-se a Árvore da Vida para nós. Quem comer o
fruto desta Árvore viverá para sempre. O fruto desta Árvore é o Espírito Santo,
a Água Viva que, no interior das pessoas, faz jorrar um manancial de Vida
Eterna (Jo 4, 14; Jo 7, 37-39).
É esta a dinâmica da salvação trazida por Cristo, o último Adão. A força
ressuscitante do Espírito, o fruto da árvore da Vida, restaura-nos, corrigindo
a distorção causada pelo primeiro Adão. São Paulo diz que Adão era um sopro
vivente, enquanto Cristo Ressuscitado, se tornou um espírito vivificante (1 Cor
15, 45).
Graças à presença do Espírito Santo, dom que nos vem de Cristo Ressuscitado,
Estamos a ser interiormente transformados, tornando-nos gradual e
progressivamente imagens de Cristo (2 Cor 3, 18).
Mesmo que o homem velho, o eu
exterior, se vá degradando com a idade, o homem novo, no nosso interior, vai-se
renovando progressivamente graças à acção do Espírito Santo (2 Cor 4, 16).
A acção restauradora do Novo Adão converte-nos numa Nova Criação
reconciliada com Deus, pois o Senhor já não leva em conta os pecados dos homens
(2 Cor 5, 17-19).
6- Jesus Sumo-Sacerdote
“O ponto principal do que estamos a tratar é que temos um sumo-sacerdote
que se sentou nos Céus à direita do trono da majestade, como ministro do
santuário e da verdadeira tenda, construída pelo Senhor e não pelo homem (…). Se
Cristo estivesse na terra nem sequer seria sacerdote, pois já existem aqueles
que oferecem os dons segundo a Lei de Moisés. Esses prestam um culto que é uma
imagem e uma sombra das realidades celestes, tal como foi revelado a Moisés
quando estava par construir a tenda” (Heb 8, 1-5).
A Carta aos Hebreus diz que o culto dos sacerdotes da Antiga Aliança, os levitas, foi totalmente ineficaz para realizar a
reconciliação com Deus. Esta reconciliação, como diz São Paulo, foi realizada
por Deus através de Jesus Cristo: “Se alguém está em Cristo é uma nova criação.
As coisas velhas passaram. Eis que tudo se fez novo. Isto vem de Deus que, em
Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os pecados dos
homens” (2 Cor 5, 17-19).
Jesus Cristo, diz a Carta aos Hebreus, ao vir ao mundo declarou abertamente
que os cultos do Antigo Testamento não tinham qualquer interesse para Deus. Por
esta razão Jesus resolveu realizar o culto que agrada a Deus, isto é, fazer a
vontade do Pai.
Este culto nada tem a ver com um sacrifício expiatório exigido pela
primeira pessoa da santíssima trindade. Hoje não existe qualquer dúvida de que
a morte violenta sofrida por Jesus foi um crime asqueroso que não agradou a
Deus Pai.
Portanto, podemos afirmar com toda a segurança que, aquilo que agradou Pai, foi a fidelidade incondicional de Cristo, a qual exprimiu
uma amor levado até às últimas consequências: “ainda que me matem, não deixarei
de levar adiante a missão que o Pai me confiou.
A missão messiânica de Jesus consistia fundamentalmente em anunciar o Reino
de Deus e introduzir os homens na família divina, a qual assenta, não nos laços
do sangue mas no vínculo orgânico do Espírito Santo, como diz a Carta aos
Romanos: “Todos os que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”
(Rm 8,14).
Jesus Cristo tinha uma consciência clara de que o único culto que agrada a
Deus é fazer a vontade de Deus, como diz a Carta aos Hebreus: “Por isso, ao
entrar no mundo, Cristo diz: ‘Não quiseste sacrifícios
nem oferendas, mas preparaste-me um corpo. Não te agradaram holocaustos nem
sacrifícios pelos pecados. Então eu disse: ‘eis que venho, como está escrito no
livro a meu respeito, para fazer, ó Deus, a tua vontade (…).
Suprime assim o primeiro culto para estabelecer o segundo. E foi por esta
vontade que nós fomos santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo”
(Heb 10, 5- 11).
O Corpo significa a mediação de comunicação de Cristo com os homens. A
morte cruenta de Jesus é a expressão máxima da fidelidade incondicional de
Cristo ao Pai.
Mais tarde, São Paulo dirá que a comunidade cristã é o corpo de Cristo,
isto é, mediação de comunicação de Cristo e do mundo com Cristo. Sem corpo,
Cristo não pode realizar a sua missão salvadora.
É este o culto em Espírito e Verdade de que fala São João: “Jesus
declarou-lhe (à Samaritana): ‘mulher acredita em mim: chegou a hora em que, nem
neste monte (Garizim: santuário dos samaritanos) nem em Jerusalém (templo dos
judeus) haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis, nós adoramos o
que conhecemos. Mas chegou a hora em que os verdadeiros adoradores hão-de
adorar o Pai em Espírito e Verdade, pois são assim os adoradores que o Pai
pretende” (Jo 4, 21-23).
A primeira profecia messiânica declara a David que Deus lhe vai suscitar um
Filho, a fim de este construir um templo para Deus. Graças a este facto, Deus
seria um Pai para o descendente de David e este seria constituído filho de Deus
(2 Sam 7, 12-16).
Fundamentado nesta profecia, o povo bíblico começa a chamar filhos de Deus
aos reis filhos de David. No dia da sua entronização real, Deus estabelecia com
eles uma interacção de paternidade filiação como diz o Salmo dois: “Fui eu quem
constituiu o meu rei no meu Monte Sião. Vou anunciar o decreto do Senhor: tu és
meu filho, eu hoje te gerei” (Sal 2, 6-7).
A partir deste dia, diz o salmo 110, o rei é considerado um homem sagrado,
constituído medianeiro entre Deus e o povo. No dia da sua subido ao trono, o
rei, além de ser constituído Filho de Deus é também constituído Sumo-sacerdote
segundo a ordem de Melquisedec (Sal 110, 4).
De facto, no mundo bíblico antigo era sempre o rei que presidia ao culto
nas grandes solenidades: Saúl preside ao culto em Guilgal (1 Sam 13, 8-9). David veste as roupas sacerdotais
e preside ao corteja da Arca da Aliança (2 Sam 6, 14-15). Oferece holocaustos e
abençoa o Povo (2 Sam 6, 17-18). Também o rei Salomão preside ao culto e
abençoa o povo (1 Rs 8, 13-14; 8, 54-55).
Salomão consagra o Templo de Jerusalém e, no fim da celebração despede o
povo (2 Cron 7, 7-9). Ainda no século VIII, Acaz preside ao culto (2 Rs 16,
12-13). Acaz reserva um altar só para si. O sacerdote Urias,
por ordem do rei, realiza os cultos num altar determinado, deixando o outro
para os dias em que o rei preside ao culto (2 Rs 16,15-16).
Mas é evidente que o rei não pode estar habitualmente no templo. Por isso
escolhe sacerdotes que o representem a ele que é o sumo-sacerdote. Os
sacerdotes eram funcionários reais ao lado dos outros funcionários (2 Sam 8,
17-18). David escolheu vários filhos seus para realizarem a função cultual em nome
do rei, o sumo-sacerdote (2 Sam 8, 18). Mais tarde David escolhe Sadoc e Amalec para chefes dos
sacerdotes do templo (2 Sam 8, 17).
Foi com David que a realeza passou a ter como capital a cidade de
Jerusalém. Por isso o sacerdócio dos reis, filhos de David, pertencia à ordem
de Melquisedec, rei de Salém, antigo nome de Jerusalém. Foi Melquisedec que
abençoou Abraão, comunicando-lhe as bênçãos da Aliança que Deus lhe tinha
prometido. E Abraão pagou a Melquisedec o dízimo de todas as coisas (Gn 14,
18-20).
Os reis eram considerados como os seres mais próximos de Deus. Por isso,
como declara o salmo de entronização real, o trono real fica colocado à direita
de Deus: “Disse o Senhor (Deus) ao meu senhor (o rei): ‘Senta-te à minha
direita, até eu pôr os teus inimigos debaixo dos teus pés” (Sal 110, 1).
Jesus conhecia todos estes factos e, por isso se ligou não à tradição dos
sacerdotes levitas, mas à tradição real ligada a Melquisedec. Por isso, ao
entregar aos apóstolos a Eucaristia, isto é, a Ceia Pascal da nova Aliança, não
escolhe o cordeiro, elemento básico da ceia pascal da Antiga Aliança, mas
escolhe o pão e o vinho, elementos utilizados por Melquisedec ao abençoar
Abraão.
É muito significativo este texto do livro do Génesis: “Melquisedec, rei de
Salém, trouxe pão e vinho e, como era sacerdote do Deus Altíssimo, abençoou
Abraão dizendo: ‘Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo que criou o Céu e a
terra. Bendito seja o Deus Altíssimo que entregou os teus inimigos nas tuas
mãos! E Abraão deu-lhe o dízimo de tudo” (Gn 14, 18-20).
Jesus, escolhendo o pão e o vinho para a Eucaristia quis significar a sua
condição messiânica que o ligava à casa de David, a portadora das bênçãos
prometidas a Abraão. Esta condição vinha-lhe do facto de a casa de David reinar
em Jerusalém, cidade onde reinava Melquisedec, rei do Deus Altíssimo, nos
tempos de Abraão.
O significado do pão e do vinho para a Eucaristia são a prova da
compreensão teológica e bíblica de Jesus acerca da sua missão messiânica.
Segundo o texto do Génesis, as bênçãos que Deus concedia à descendência de
Abraão destinavam-se a todas as famílias da terra (Gn 12, 3). Deste modo, Jesus
se entendeu como o portador das bênçãos de Deus para todas as famílias de
terra.
Com a descoberta de um livro desconhecido, chamado Deuteronómio e atribuído
a Moisés, as coisas vão alterar-se totalmente. O livro foi escrito não em Judá
mas no Reino do Norte onde o rei não era da casa de David e, portanto, a sua
casa não pertencia à aliança feita com David.
Um dia em que o rei do Norte (Jeroboão) estava a
presidir ao culto aparece um profeta e denuncia a inautenticidade dos cultos
presídios por este rei. Nesse momento o rei enfureceu-se contra o profeta, mas
a sua mão ficou colada ao altar no qual estava a presidir ao culto. Foi preciso
o profeta orar ao Senhor para que o rei conseguisse libertar a mão (1 Rs 13,
4-5). O problema resolveu-se colocando à frente do culto os levitas.
Jeroboão não tinha sido ungido como eram os reis
filhos de David (cf. 1 Rs 11,31).
O livro do Deuteronómio, escrito para o povo do Norte, tinha esta visão. Aliás
o livro era obra dos sacerdotes do Norte, mas apresentava-se como sendo a
síntese das últimas normas e ensinamentos dados por Moisés.
Com o desaparecimento do Reino do Norte o livro foi guardado num compartimento
no Templo de Jerusalém. Passados cem anos um dos sacerdotes do templo encontra
o livro e julgando tratar-se de um livro de Moisés leva-o a Josias,
rei de Jerusalém, que fica assustado ao descobrir que o rei não tem quaisquer
poderes cultuais.
Josias faz
uma reforma no reino do Sul, aplicando as lei do Deuteronómio renunciando à sua
missão cultual, confiando esta missão aos levitas. É a chamada reforma deuteronómica levada a cabo pelo rei Josias.
A reforma deuteronómica é uma obra clerical. O rei,
com medo dos castigos de Deus, diz aos sacerdotes para fazerem as reformas
ditadas por Moisés.
A reforma torna-se uma obra clerical. Todos os lugares de culto são
destruídos, excepto o culto do templo de Jerusalém. Josias
é declarado como o filho de David que acaba com os cultos ilegítimos (1 Rs 13,
2).
Com a reforma deuteronómica, os saduceus, filhos
de Sadoc, o homem a quem David tinha confiado a
missão de o representar no serviço cultual (2 Sam 8, 17) passam a reivindicar a
primazia do serviço cultual. O chefe dos saduceus passa a chamar-se
sumo-sacerdote. Em breve começam as lutas para obter este cargo.
Após o exílio, como já não há reis, o sumo-sacerdote faz-se ungir. A unção
era um rito exclusivo para o rei (cf. Ex 29, 30; 28, 31; Lev 2, 7-8; 8, 12).
Jeremias, no tempo do exílio, já prevê dois Messias em Jerusalém: o sacerdote filho de Sadoc e o rei filho de David (Jer 33, 21). Os descendentes
dos levitas e os descendentes de David serão incontáveis (Jer 33, 22).
Mais tarde, o profeta Zacarias, já fala de dois Messias, um sacerdotal e
outro real, filho de David (Zac 4, 11-14). Em 172 o sumo-sacerdote Onias III, descendente de Sadoc é
assassinado e os reis da Síria nomeiam sacerdotes não saduceus. Em 134 o
sumo-sacerdote (não saduceu) João Hircano intitula-se
rei, sumo-sacerdote e profeta. Surge assim uma dinastia sacerdotal considerada
não legítima pelos saduceus que se organizam como grupo da oposição.
Em 103 o sumo-sacerdote Alexandre Janen dá-se o
título de rei e manda cunhar moeda (cf. Calmeiro Matias, Jesus Cristo o Homem
Novo, p 62). Os fariseus consideram este procedimento uma blasfémia, pois a
realeza pertence à casa de David. A reacção contra estes procedimentos reaviva
fortemente a esperança messiânica na linha da promessa feita a David (2 Sam 7,
12-16).
Jesus tinha consciência clara de toda esta distorção à volta do
sumo-sacerdote, isto é, do medianeiro da salvação, o portador das bênçãos
prometidas a toda a Humanidade.
Por isso, ao substituir o cordeiro da Ceia Pascal pelo pão e o vinho, quis
significar exactamente que a Páscoa de Nova Aliança realiza plenamente o plano
salvador de Deus em favor de toda a Humanidade.
A Carta aos Hebreus diz que a realização deste sacerdócio é perfeita, pois
Cristo é constituído sumo-sacerdote pela sua ressurreição, isto é, através de
uma vida imortal. Por isso não precisa de ser substituído, pois é sacerdote
para sempre.
Como sumo-sacerdote da Nova aliança, leva à plenitude o projecto salvador
de Deus: “Se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico que
necessidade havia de que surgisse um outro sacerdote segundo a ordem de
Melquisedec e não segundo a ordem de Aarão (…). Isto é ainda mais claro quando
aparece outro sacerdote à semelhança de Melquisedec instituído, não segundo o
mandamento de uma lei humana, mas segundo o poder de uma vida indestrutível”.
7- JESUS O REDENTOR: Criação e salvação são as duas faces da mesma
realidade. A salvação consiste em a humanidade ser incorporada na própria
família da Santíssima Trindade.
Mas a inserção da pessoa humana na comunhão familiar das pessoas divinas só
podia acontecer mediante a Encarnação, enxerto ou inserção orgânica da vida
divina no interior da pessoa humana.
Isto significa que, mesmo que não houvesse pecado, a Encarnação fazia parte
do projecto criador e salvador de Deus. É pela encarnação que O Espírito Santo
passa a circular no nosso íntimo como sangue de Deus (Jo 6, 63).
Somos membros da família de Deus na medida em que somos movidos pela
dinâmica do Espírito Santo (Rm 8, 14-16; 1 Cor 12, 13).
Mas o pecado surgiu como força negativa a contrariar o processo da
humanização e sua plenitude que é a divinização. Devido à força negativa do
pecado, a encarnação tornou-se um processo doloroso, pois encontrou forças de resistência,
provocando a morte de Cristo.
Sem o pecado, a encarnação seria o momento da divinização do homem e da
plena revelação de Deus mediante o seu Filho. Devido ao pecado tornou-se
Redenção, isto é, restauração das distorções provocadas pelo pecado.
Devido ao pecado, a dinâmica da Encarnação encontrou oposição violenta, a
qual só podia ser vencida por uma fidelidade plena e incondicional, ao ponto de
aceitar morrer violentamente para que a salvação pudesse acontecer.
Não foi a morte de Jesus que agradou a Deus Pai, mas sim a sua fidelidade
incondicional. Era necessário que acontecesse a morte de Jesus para acontecer a
salvação.
Com efeito, só através da sua morte, Jesus podia entrar nas coordenadas da
universalidade. De facto, o homem, enquanto vive na história, está nas
coordenadas limitativas de ordem biológica, psíquica, rácica, linguística e
outras. Só mediante a morte se liberta destas coordenadas limitativas e entra
nas coordenadas da universalidade.
No momento da sua morte, Jesus uniu-se em comunhão orgânica e universal a
toda a Humanidade. Mas isto não significa que Jesus tivesse de morrer daquela
morte, crime odioso e injusto que Deus nunca poderia desejar.
Cristo, nosso Salvador, devido ao pecado, tornou-se também nosso Redentor,
isto é, restaurou o Homem rasgado pelo pecado, mediante o sofrimento e a morte
violenta, consequência da sua fidelidade incondicional à sua missão messiânica.
8 - O BOM PASTOR: São Lucas compara Jesus a um pastor que tinha cem
ovelhas. Perdeu uma e deixou todas as outras para encontrar a ovelha perdida. Depois
de a ter encontrado pega nela ao colo e, com toda a ternura, trá-la para casa
(Lc 15, 4-7).
No evangelho de São João, Jesus chama-se a si mesmo o Bom Pastor, disposto
a dar a sua vida pelas ovelhas (Jo 10, 11). O mercenário, como não ama as
ovelhas, ao ver o lobo, abandona-as e foge. Jesus, pelo contrário, enfrenta os
perigos do lobo, mesmo que tenha de dar a vida (Jo 10, 12).
Como Bom Pastor, Jesus conhece as suas ovelhas e estas conhecem-no, tal
como conhece o Pai e é conhecido por Ele. Conhecer significa no mundo bíblico,
uma relação de intimidade amorosa ( Jo 10, 14).
O princípio animador desta intimidade do Pai com o Filho e do Pastor com as
ovelhas é o Espírito Santo.
Este conhecimento, portanto, significa incorporação numa comunhão orgânica,
como se pode ver na oração de Jesus pelos discípulos, suas ovelhas: “Que todos
sejam um só, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti.
Que eles sejam também um em nós (……). Eu neles e tu em mim, a fim de
chegarem à perfeição da unidade” (Jo 17, 21-23). Aqui o pastor não dá apenas o
alimento às ovelhas, mas comunica-lhes a sua própria vida de comunhão com o
Pai. O Senhor diz que veio para que tenhamos vida em abundância (Jo 10, 10). A
Eucaristia é justamente o sacramento desta comunicação da própria vida do
Pastor às ovelhas.
A primeira carta de São Pedro diz que, antes de Cristo, éramos como ovelhas
dispersas, mas agora voltámos para o nosso guardião e Bom Pastor (1 Pe 2, 25). O
nosso Pastor conduz-nos para a fonte das Águas vivas e, deste modo, não mais
teremos sede nem fome” (Apc 7, 16-17). No evangelho de João, Jesus afirma que
tem uma Água para dar. No íntimo dos que bebem esta Água, emerge um manancial
de vida eterna (Jo 4,14). Esta Água Viva, diz João, é o Espírito Santo (Jo 7,
37-39).
9 - O PÃO DA VIDA: Jesus é apresentado no Novo Testamento como o Pão da
Vida. Dá-se-nos como pão, a fim de nós construirmos o seu Corpo (1 Cor 10, 17).
Este pão é, naturalmente, o dinamismo vital de Cristo a comunicar-se-nos no Espírito
Santo (1 Cor 12, 13).
Cada cristão é um membro do Corpo Cristo (1 Cor 12, 27). Este Corpo,
portanto, é uma comunhão orgânica. Ser Corpo de Cristo significa ser mediação
para Cristo se comunicar com o mundo. Todos precisamos de um corpo para nos comunicarmos
com os outros. Se somos corpo de Cristo, somos mediação e prolongamento da sua
missão.
Estas afirmações exprimem a condição original do cristão no mundo:
sacramento, isto é, corporização ou mediação para os não cristãos se poderem
encontrar com Cristo.
A nossa missão de comunicadores do Evangelho só será eficaz se formos corpo
de Cristo. Para isso temos de estar unidos ao Senhor de modo orgânico, como
ramos de uma videira que apenas podem viver e dar frutos unidos à cepa (Jo 15,
1-8).
O Senhor é verdadeiro alimento, diz o Evangelho de São João. Ele é o Pão da
vida. Aquele que come deste pão ficará saciado (Jo 6, 35).
Jesus, ao dar-se a nós, gera unidade orgânica, fonte de vida Eterna: “Assim
como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo quem come deste
pão viverá por mim” (Jo 6, 57).
Este ensinamento, diz Jesus, é Palavra de Vida Eterna e não carne no
sentido biológico (Jo 6, 62-63).
10- TEMPLO DA NOVA ALIANÇA: Logo na primeira profecia messiânica, o profeta
Natan anuncia que o descendente que o Senhor vai
suscitar a David, construirá um templo para Deus e, devido a esse facto, Deus
vai confirmar, para sempre, o seu trono real (2 Sam 7, 13).
David pensava que a profecia se referia ao filho que lhe ia suceder logo a
seguir. Por isso Salomão construiu a Templo de Jerusalém pensando estar a
cumprir a profecia que Natan dirigiu a David, seu pai
(1 Rs 8, 22-25).
Com a morte de Salomão, o Reino de David dividiu-se em dois. O povo
apercebeu-se que a profecia de Natan se referia a
outra personagem. E começam a esperar o filho prometido a David (Is 7, 13-14).
Os sacerdotes diziam ao povo que a salvação estava no culto do templo de
Salomão. Os profetas, pelo contrário, diziam que a salvação está na justiça, na
fraternidade, na fidelidade a Deus e no amor aos irmãos (Is 1, 10-15).
Na medida em que o povo seja fiel à Aliança, o Templo e a cidade de
Jerusalém serão mediação das bênçãos de Deus para toda a terra. É este o grande
sonho do profeta Isaías: “Naqueles tempos os povos acorrerão ao Templo do
Senhor. Jerusalém será a sede da Sabedoria e da Palavra de Deus” (Is 2, 3).
Também Miqueias anuncia os tempos em que os povos pagãos virão ao templo em
busca da Sabedoria e da Palavra de Deus (Mq 4, 2).
Mas as atitudes do povo são sinal de grande infidelidade a Deus. Por isso o
templo vai ser destruído, diz Jeremias (Jer 7, 14). Num texto muito duro,
anuncia a destruição do templo pelos Persas: “Vou fazer deste templo o que fiz
ao santuário de Cilo. De Jerusalém farei um lugar de
maldição para os povos da terra” (Jer 26, 6).
Jeremias acentua que o templo não é uma garantia mágica de salvação. As
pessoas não se salvam pelos ritos, mas pela qualidade da sua vida:
“Apresentais-vos diante de mim, neste templo onde o meu nome é invocado e
dizeis: estamos salvos. Mas depois continuais a cometer as vossas abominações”
(Jer 7, 10).
O templo estava a tornar-se um lugar de traficantes e de comerciantes
desonestos: “ Fizestes do templo onde invocam o meu nome um covil de ladrões”
(Jer 7, 11).
O profeta Zacarias sonha com outros tempos em que o povo volte a ser fiel à
Aliança de Deus. Nesses dias o templo será purificado e deixará de ser o covil
de ladrões de que fala Jeremias: “Naqueles dias não haverá mais comerciantes no
templo de Yahvé” (Zc 14, 21).
O Novo Testamento declara que Jesus é o Filho prometido a David e,
portanto, é o construtor do templo que Deus deseja. Salomão, no dia da
inauguração do templo, reconhece que a morada de Deus é o Céu. O Senhor não
habita em casas feitas pela mão dos homens (1 Rs 8, 27).
Entre as acusações feitas contra Jesus estava a acusação de que Ele
ameaçava destruir o templo feito por mãos humanas e construir um templo que não
é obra de mãos humanas (Mc 14, 58).
A carta aos Hebreus, referindo-se à ressurreição de Cristo, diz que Jesus é
sacerdote de um santuário que não é feito pela mão do Homem. O Senhor age como
sacerdote num santuário que não é obra dos homens, isto é, o próprio Céu” (Heb
8, 2).
Noutra passagem diz: “De facto, Cristo não entrou num santuário feito por
mãos humanas, figura do verdadeiro santuário. Pelo contrário, entrou no Céu, a
fim de se apresentar diante de Deus e interceder em nosso favor” (Heb 9, 24).
O diácono Estêvão, no momento da sua morte, declara aos judeus que o
acusavam de afirmar que o templo não era uma garantia de salvação, pois “O
Altíssimo não habita em casas erguidas pela mão dos homens” (Act7, 48).
São Paulo, ao pregar no areópago de Atenas diz a mesma coisa aos filósofos
gregos: “O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra é o Senhor do
Céu e da terra. Não habita em santuários construídos pela mão do homem, nem é
servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa. É Ele que a todos
dá a vida, a respiração e tudo o mais” (Act 17, 24-25).
Segundo o Evangelho de Mateus, os judeus no momento em que Jesus estava
pregado na cruz, escarneciam dele dizendo: “Tu que destruías o templo e o
reconstruías em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da
cruz” (Mt 21, 15).
Segundo João, depois de expulsar os vendilhões do templo, Jesus disse aos
sacerdotes e doutores da Lei: “Destruí este templo e eu, em três dias, o
reedificarei” (Jo 2, 18-19). Depois acrescenta: “Jesus falava do templo do seu
corpo” (Jo 2, 21).
No relato do encontro de Jesus com a Samaritana, o Senhor declara
abertamente ultrapassada a questão do verdadeiro templo. Nem vale mais o de
Jerusalém nem menos o do Garizim. Chegou a hora em que Deus deseja um culto em
Espírito e verdade. Isto não é uma questão de edifícios materiais (Jo 4, 21-23).
A primeira carta de São Pedro vai mais longe e declara que o verdadeiro
templo é a comunidade cristã.
Jesus garantiu aos discípulos que estaria presente quando dois ou mais se
juntassem em seu nome. Por isso a primeira carta de Pedro diz: “Como pedras
vivas, entrai na edificação de um templo espiritual, formando um sacerdócio
santo destinado a oferecer sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por meio
de Cristo” (1 Pd 2, 5).
São Paulo completa esta visão bíblica fundamental dizendo: “Não sabeis que
o vosso corpo é templo do Espírito Santo? O templo de Deus é Santo. Ora, esse
templo sois vós e vós sois de Cristo” (1 Cor 6, 19).
Os crentes, unidos a Cristo ressuscitado, são o verdadeiro templo que Deus
tinha sonhado: “Em Cristo, toda a construção se ergue bem ajustada, a fim de
formar um templo santo no Senhor” (Ef 2, 2).
Os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas dizem que, no momento da morte de
Jesus o véu do Templo se rasgou de alto a baixo (cf. Mc 15, 38). Com esta
observação, os evangelistas querem afirmar que, com a morte e ressurreição de
Jesus todos temos acesso a Deus. O véu que afastava os crentes do Santo dos
Santos foi rasgado.
Agora, o Senhor ressuscitado envia-nos o grande dom do Espírito Santo que
nos introduz na família de Deus como filhos em relação ao Pai e irmãos em
relação ao Filho (Rm 8, 14-16).
Jesus é o nosso Sumo-sacerdote. Exerce as suas funções no Santuário da Nova
Aliança. É o único que exerce funções no Templo onde Deus habita e que não é
obra das mãos humanas.
Ele é o único medianeiro entre Deus e os homens (1 Tim 2, 5). Ele é a
possibilidade orgânica para a acção salvadora de Deus acontecer em nós pela
acção do Espírito Santo (Jo 15, 1-7).
11- O FILHO DO HOMEM
a) Jesus e o Título de Filho do Homem
No livro de Ezequiel Deus chama o profeta mais de noventa vezes com o
título “Filho de Homem”.
Logo ao indicar-lhe a sua missão profética, Deus chama-o com este título:
“Filho de homem, põe-te de pé que vou falar contigo.
O Espírito penetrou em mim enquanto me falava. Então ouvi alguém que me
chamava. Disse-me: “Filho de homem, vou enviar-te aos filhos de Israel” (Ez 2,
1-2).
É esta a primeira vez que aparece na Bíblia o título Filho de Homem.
No contexto do livro de Ezequiel, o título não tem qualquer conotação
messiânica.
A expressão significa homem ou filho de Adão e pretende apenas sublinhar a
distância intransponível entre a transcendência divina e o Homem.
Já não podemos dizer o mesmo do significado da expressão “Filho do Homem”
no livro do profeta Daniel.
Aqui, a expressão tem um sentido e um alcance messiânico:
“Entre as nuvens do Céu vinha alguém como um filho de Homem. Chegou perto
do Ancião (Deus) e foi conduzido à sua presença.
Foram-lhe dadas soberania, glória e realeza. Todos os povos, todas as
nações e as gentes das diversas línguas o servem.
O seu império é um império eterno que não passará jamais e o seu Reino
nunca será destruído” (Dn 7, 13-14).
Não é difícil ver aqui reflexos da primeira profecia messiânica da história
do povo bíblico.
Esta profecia foi pronunciada pelo profeta Natã e dirigida ao rei David:
“Quando chegar o fim dos teus dias, disse Deus a David através do profeta
Natã, e repousares com teus pais, vou manter a tua descendência, consolidando o
teu reino através do teu descendente.
Ele construirá um templo ao meu nome e eu firmarei para o seu trono real.
Eu serei para ele um pai e ele será um filho para mim (…).
A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim e o teu
trono estará firme para sempre” (2 Sam 7, 12-16).
No conjunto das profecias messiânicas relatadas pela Bíblia, a profecia do
Filho do Homem é a última.
Surge num momento em que o povo estava a ser martirizado pelos descendentes
de Alexandre Magno, os quais queriam impor a religião e os costumes pagãos aos
judeus.
A profecia é elaborada em linguagem apocalíptica, a linguagem própria dos
momentos de grande perseguição.
Nesta profecia o nome de David é substituído pelo nome de Filho do Homem, a
fim de não ser mais um motivo de perseguição.
Não há dúvida de que o título de Filho do Homem aplicado a Jesus
pressupunha, da parte dos discípulos, a experiência da ressurreição.
Se Jesus utilizou este título para falar da sua missão messiânica não há
qualquer dúvida de que ele tinha consciência de que a plenitude da sua missão
messiânica iria acontecer com a vitória sobre a morte.
Na verdade, de entre os títulos atribuídos pelo Novo Testamento a Jesus, o
mais usado é o “Filho do Homem”. Aparece nos evangelhos mais de oitenta vezes.
O Novo Testamento utiliza-o por ser o que melhor se adapta para dizer que
Jesus é o Rei Messiânico entronizado no Céu.
Para justificar esta afirmação diante dos judeus, os apóstolos recorrem à
profecia do “Filho de Homem”.
O título adaptava-se perfeitamente para falar de Jesus como rei messiânico,
entronizado no Céu pela sua ressurreição:
“Acerca do Filho de Deus, nascido da descendência de David segundo a carne,
constituído Filho de Deus (rei entronizado) em todo o seu poder, pelo Espírito
Santo, no momento da sua ressurreição de entre os mortos” (Rm 1, 3-5).
Como Messias, Jesus devia subir ao trono na terra. Mas como os judeus o
mataram, Deus ressuscitou-o e entronizou-o no Céu (Act 2, 22-24).
Tal como o livro de Daniel previu, Jesus foi investido no seu poder real na
presença de Deus (Dn 7, 14).
Após a experiência da ressurreição, os evangelistas, ao falarem do Jesus
histórico, vão atribuir-lhe muitas características próprias do Filho do Homem
entronizado no Céu.
É muito provável que o título tenha sido usado pelo próprio Jesus. De
facto, todas as fontes evangélicas dizem que Jesus utilizava este título quando
falava de si.
Se assim é, temos de reconhecer que Jesus tinha consciência de que o seu
ser como Messias e a sua missão transcendia a simples dimensão de um homem
ungido com o Espírito Santo para realizar uma missão meramente histórica.
Graças ao rei messiânico entronizado no Céu, sugere a profecia de Daniel,
dá origem ao reino dos Santos, isto é, à comunhão dos justos:
“Os santos do Altíssimo são os que hão-de receber a realeza e guardá-la por
toda a eternidade” (Dn 7, 18).
Como sabemos, para a mentalidade bíblica, o rei e o povo fazem um todo
orgânico.
Eis a razão pela qual o texto passa da figura singular do Filho do Homem,
para a figura colectiva do povo.
Logo mais à frente tem exactamente o mesmo procedimento.
O último dos quatro reis monstruosos é o pior de todos. Naturalmente que se
trata do que está a martirizar o povo.
Mas a intervenção do ancião, Deus, faz justiça aos seus santos e estes
tomam posse do seu reino:
Eu tinha visto esse chifre fazer guerra aos santos e levar vantagem sobre
eles.
Mas o ancião, quando veio, fez justiça aos santos do Altíssimo.
Como aquela era a hora deles, obtiveram a posse do reino” (Dn 7, 21-22).
b) Características da Missão do Filho do Homem
Nos evangelhos o título Filho do Homem aponta para o facto de Jesus ser
mais que um simples homem escolhido por Deus e ungido com o Espírito Santo:
O Filho do Homem tem poder para perdoar os pecados (Mt 9, 6).
Este poder implica a missão de comunicar o dom do Espírito Santo.
Com efeito, o perdão do pecado não é um mero acto jurídico de absolver ou
riscar do livro.
O perdão do pecado pressupõe uma recriação, um fazer da Humanidade uma Nova
Criação:
“Por isso, se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. O que era velho
passou. Eis que tudo se fez novo.
Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por meio de Jesus Cristo”
(2 Cor 5, 17-18).
O perdão do pecado, diz o evangelho de São João implica um novo nascimento
pelo Espírito Santo. Este novo nascimento é explicitado pela água do baptismo,
o sacramento que corporiza o acontecimento da morte e ressurreição do Homem em
Cristo:
“Jesus respondeu a Nicodemos: “Em verdade em verdade te digo: quem não
nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus”. Aquilo que
nasce da carne é carne. O que nasce do Espírito é Espírito” (Jo 3, 5-6).
O Filho do Homem é Senhor do Sábado (Mt 12, 8).
O dever de guardar o Sábado era indiscutível para qualquer judeu. Era um
ponto central na Lei que, segundo os judeus, vinha de Moisés.
As atitudes de Jesus face ao Sábado indicam que o Filho do Homem é superior
a Moisés
Assim com Jonas passou três dias no ventre da baleia, o Filho do Homem
passará três dias no seio da terra (Mt 12, 40).
Jesus atinge a plenitude da sua missão messiânica pela sua morte e
ressurreição.
É no momento da sua ressurreição que Jesus atinge a plenitude da sua missão
de Filho do Homem, isto é, Messias entronizado no Céu (Act 3, 19-21).
O Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os anjos e, então,
retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta (Mt 16, 27).
A missão messiânica de Jesus tem a função de realizar o juízo definitivo.
Naturalmente que o juízo final não deve ser visto como o momento da
condenação.
Pelo contrário, o juízo definitivo implica a salvação definitiva, pois é
este o plano de Deus:
“A vontade de Deus é que todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade” (1 Tim 2, 4).
O juízo final deve ser interpretado como a plena realização da missão
salvífica do Filho do Homem: nada do que de salvável existir no ser humano se
perderá no vazio da morte.
O Filho do Homem não condena ninguém. Os que vão para a morte eterna
condenam-se por sua própria decisão.
Após a transfiguração, Jesus pede aos Apóstolos para não contarem o que
viram sobre a montanha, até o Filho do Homem ressuscitar dos mortos (Mt 17,
19).
A vinda do Filho do Homem será como o relâmpago que sai do Oriente e brilha
até ao Ocidente (Mt 24, 27).
Os seres humanos que salvam salvam-se em Cristo. Mas isto não quer dizer
que apenas os cristãos se salvam.
A Salvação que Deus concede à Humanidade através do Filho do Homem é para
os homens de todas as raças, línguas, povos e nações:
“Então aparecerá o sinal do Filho do Homem no Céu. Todas as tribos da terra
baterão no peito e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do Céu com
grande poder e glória” (Mt 24, 30).
De agora em diante, o Filho do Homem estará sentado à direita do
Todo-poderoso (Lc 22, 69).
No momento do seu martírio, Estêvão disse: “Vejo o Céu aberto e o Filho do
Homem, de pé, à direita de Deus” (Act 7, 56).
Com o Evangelho de João, o Filho do Homem adquire as características de um
ser divino e preexistente.
Ele é o Filho Eterno, Deus com o Pai e o Espírito Santo: “Ninguém subiu ao
Céu a não ser aquele que desceu do Céu, o Filho do Homem” (Jo 3, 13).
Deus Pai deu ao Filho o poder de julgar, pois Ele é o Filho do Homem (Jo 5,
27).
Este texto de João tem subjacente a visão de Daniel, segundo a qual o Filho
do Homem é investido no Céu com poder e Glória, a fim de julgar todos os povos
(cf. Dn 7, 13).
“E se virdes o filho do Homem subir para onde estava antes?” (Jo 6, 62).
Aqui, o Filho do Homem actua não apenas como o filho de Maria, mas como o
Filho de Deus preexistente.
Os evangelhos dizem que o Filho do Homem vai vir de Novo. Todos os homens o
verão chegar sobre uma nuvem (Lc 21, 27; Mc 14, 62; Mt 26, 64).
A nuvem era o sinal que acompanhava normalmente as manifestações de Deus. Aqui
a missão do Filho do Homem com características universais à maneira do Filho do
Homem.
12 - A ÁRVORE DA
VIDA
“O Senhor Deus disse: ‘eis que o Homem, quanto ao conhecimento do bem e do
mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para
se apoderar também do fruto da Arvora da Vida e, comendo dele, viva para
sempre. Então, o Senhor Deus expulsou Adão do Jardim do Éden (…).
Depois de ter expulsado o Homem colocou a oriente do jardim uns Querubins
com uma espada flamejante, a fim de guardarem o caminho da Árvore da Vida” (Gn
3, 22-24).
De acordo com a linguagem simbólica do livro do Génesis, havia no centro do
Paraíso duas árvores importantes: a árvore do conhecimento do bem e do mal e a
Árvore da Vida. A seiva da árvore do conhecimento do bem e do mal é o egoísmo
que gera os frutos mortais da arbitrariedade e do caprichoso.
Os que comem o fruto desta árvore descobrem que estão nus, pois entraram no
caminho do malogro e do fracasso. Com efeito, as pessoas que se alimentam do
caprichoso e da arbitrariedade, não chegam a atingir a maturidade que dá frutos
de consciência amadurecida, liberdade comprometida e amor gerador de
fraternidade e comunhão.
Por seu lado, a Árvore da Vida faz germinar a Vida Eterna no coração dos
que comem os seus frutos. O fruto da Árvore da Vida é a fidelidade à Aliança de
Deus. No coração dos que comem este fruto começa a circular a seiva fecunda da
Árvore da Vida, isto é, o Espírito Santo.
As pessoas que comem o fruto da Árvore da Vida descobrem que estão
revestidos com a veste da Salvação: “E vi descer do Céu, a Cidade Santa, a Nova
Jerusalém, preparada, qual noiva vestida e adornada para o seu esposo” (Apc 21,
2).
Através de um pronunciamento belíssimo, o profeta Isaías vê o Messias como
o rebento salvador da Árvore da Aliança, cuja vida resulta do encontro harmonioso
do Homem, tronco de Jessé, o Pai de David, e Deus, a raiz deste tronco, do qual
brota o Espírito Santo que anima a Árvore toda: “Brotará um rebento do tronco
de Jessé, e um renovo brotará das suas raízes. Sobre Ele repousará o Espírito
do Senhor: Espírito de Sabedoria e entendimento, Espírito de Conselho e
Fortaleza. Espírito de Ciência e Temor de Deus” (Is 11, 1-2).
O Livro do Génesis diz que Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança (Gn
1,26-27). Por isso o ser humano tem um coração faminto de vida e amor. Isto
significa que a pessoa humana está talhada para comer o fruto da Árvore da
Vida. Mas como só pedia ser livre optando, tinha de haver uma alternativa no
Paraíso. Por isso ao lado da Árvore da Vida, Deus colocou a Árvore do
conhecimento do bem e do mal.
Qualquer das árvores estava ao perfeito alcance do homem. Esta simbologia
do livro do Génesis exprime de modo magnífico o que significa o livre arbítrio,
ou seja a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal. O Senhor confiava
no coração do Homem criado à imagem e semelhança da Divindade.
Mas o Homem cedeu à tentação e comeu o fruto errado. A tentação é sempre
uma insinuação mental convidando o Homem a agir em sentido oposto à proposta de
Deus. E eis que o Homem optou no sentido errado. Como consequência deste
pecado, o Paraíso foi fechado, ficando fora do alcance de Adão. A Humanidade é
introduzida por Adão no caminho do Malogro e do fracasso.
Como Deus é Amor infinito, não podia deixar de nos amar infinitamente. Por
isso, através do mistério da Encarnação, o beijo divinizante de Deus à
Humanidade, orientou de novo o Homem no sentido do projecto de Deus. E a
salvação ficou ao nosso alcance.
Na Sexta-feira Santa Jesus Cristo abriu o Paraíso e introduziu nele a
Humanidade que o tinha precedido na história. Eis as palavras de Jesus para o
Bom Ladrão: “Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,
43).
Cristo é o rebento do tronco de Jessé e o renovo que brota das raízes deste
tronco, a comunidade amorosa da Santíssima Trindade. De facto, Jesus Cristo não
é apenas da raça dos homens. A sua realidade é humano-divina. Isto quer dizer
que a raiz mais profunda do seu mistério é a própria comunhão da Trindade
Divina (Jo 1, 12-14). Por isso, mediante o mistério da Ascensão, é incorporado
na Família Divina, inserindo a Humanidade inteira nesta comunhão humano-divina.
Em Jesus ressuscitado, portanto, passámos a fazer parte da Árvore da Vida,
tornando-nos ramos ligados à cepa da Videira, Cristo, e às suas raízes que é a
comunhão orgânica da Trindade Divina. Jesus abriu as portas do Paraíso à
Humanidade e esta foi divinizada.
Deste modo podemos concluir que o relato paradisíaco do livro do Génesis
não foi nunca realidade existente num princípio mítico, mas projecto sonhado
por Deus para a plenitude dos tempos: “Quando chegou a plenitude dos tempos,
Deus enviou o seu Filho nascido de uma mulher (…), a fim de recebermos a
adopção de filhos” (Ga 4, 4-6).
Jesus Cristo é o Novo Adão, a cabeça da Humanidade reconciliada com Deus (2
Cor 5, 17-19). É a Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna: “Quem come
a minha carne e bebe o meu sangue tem a Vida Eterna e eu hei-de ressuscitá-lo
no último dia, pois a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue verdadeira
bebida.
Quem come a minha carne a bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim
como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá
por mim” (Jo 6, 54-57).
Mas São João tem o cuidado de acentuar que este mistério da comunhão
orgânica com Cristo ressuscitado nada tem de antropofagia. Por isso acrescenta:
“E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é que dá
vida, a carne não presta para nada; as palavras que vos disse são Espírito e
Vida” (Jo 6, 62-63). A carne e o sangue de Cristo são a seiva da Árvore da Vida
Eterna, isto é, o Espírito Santo.
Com Jesus, a Humanidade entra no Paraíso e é amorosamente assumida na
família de Deus sendo, por consequência, divinizada. O Paraíso, sonhado pelo
livro do Génesis, torna-se finalmente realidade. Os que são animados pela seiva
da Árvore da Vida, o Espírito Santo, passam a participar da Vida Eterna, sendo
organicamente incorporados na Família de Deus, como diz São Paulo: “Todos os
que são movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Vós não recebestes um
espírito de escravidão para andardes no temor. Pelo contrário, recebestes um
Espírito de adopção graças ao qual clamamos “Abba”, isto é Papá.
E se sois filhos sois também herdeiros. Herdeiros de Deus Pai e
co-herdeiros com Jesus Cristo, se formos fieis como ele foi, sofrendo pelo
Evangelho como Ele sofreu” (Rm 8, 14-17).
No Reino de Deus, os eleitos são todos alimentados pelo do fruto da Árvore
da Vida: “Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à Árvore da
Vida e poderem entrar nas portas da cidade” (Apc 22, 14).
13- JESUS
CRISTO É A PLENITUDE DA REVELAÇÃO
Jesus Cristo é o coração do mistério oculto desde toda a eternidade e que,
Na plenitude dos tempos,
Se revelou à Humanidade:
“De acordo com o Evangelho que vos anuncio pregando Jesus Cristo,
Segundo a revelação do mistério que esteve oculto desde os tempos antigos
mas que agora foi manifestado,
De acordo com a determinação de Deus” (Rm 16, 25-26).
Jesus Cristo é o explicitador do mistério de Deus
e do seu plano salvador:
“A Deus jamais alguém o viu. O Filho Unigénito que é Deus e está no seio do
Pai,
Foi ele quem o deu a conhecer” (Jo 1, 18).
Os antigos quiseram compreender este mistério,
Mas não tiveram esse privilégio.
Mas hoje este mistério é-nos revelado pelo Espírito Santo:
“Esta salvação foi objecto das investigações dos profetas,
Os quais predisseram a graça que vos estava destinada.
Eles averiguaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de
Cristo que os habitava.
Foi graças a este Espírito que eles profetizaram os padecimentos reservados
a Cristo,
Bem como a glória que se lhes seguiria.
Foi-lhes revelado,
Não para seu proveito,
Mas para vosso,
Que eles estavam ao serviço da verdade que agora vos foi anunciada pelos
que vos pregam o Evangelho em virtude da força do Espírito Santo enviado do
Céu” (1 Pd 1, 10-12).
Jesus Cristo testemunha de modo fiel o projecto de Deus, pois age
exactamente como o Pai lhe disse:
“Disse-lhes Jesus:
Quando tiverdes erguido ao alto o Filho do Homem,
Ficareis a saber que eu sou o que sou e que nada faço por mim mesmo,
Mas falo destas coisas tal como o Pai me ensinou.
De facto,
Aquele que me enviou está comigo.
Não me deixou só,
Pois faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8, 28-29).
Jesus Cristo proclama e realiza a salvação contida no mistério:
“Depois sentou-se e disse:
Hoje mesmo se realizou esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc
4, 21).
E ainda:
“Mas a quantos o receberam,
Aos que nele crêem,
Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram dos laços do sangue,
Nem dos impulsos da carne.
Não nasceram da vontade do homem,
Mas sim de Deus” (Jo 1, 12-13).
A encarnação é a garantia de salvação para toda a Humanidade:
“De facto,
Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo,
Mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 17).
Por isso Jesus passou a vida fazendo o bem e libertando as pessoas de tudo
o que as oprimia:
“Sabeis o que ocorreu em toda a Judeia,
A começar pela Galileia,
Depois do baptismo que João pregou:
Como Deus ungiu com o Espírito Santo e com o poder a Jesus de Nazaré,
O qual andou de lugar em lugar,
Fazendo o bem e curando todos os que eram oprimidos pelo maligno,
Pois Deus estava com ele” (Act 10, 37-38).
Jesus procedia assim sabendo que esta era a vontade do Pai. Por isso ele se
identificava plenamente com a vontade do Pai:
“Quem me vê,
Vê o Pai” (Jo 10, 30).
Ou então:
“Desci do Céu,
Não para fazer a minha vontade,
Mas a vontade de quem me enviou.
E a vontade daquele que me enviou é esta:
Que eu não perca nenhum dos que ele me deu,
Mas os ressuscite no último dia” (Jo 6, 38-39).
Noutra passagem,
Jesus diz que a sua razão de viver é fazer a vontade do Pai:
“O meu alimento é realizar a vontade daquele que me enviou e realizar a sua
obra” (Jo 5, 30).
Na verdade,
Diz Jesus no evangelho de João,
Quem vê o seu jeito de actuar fica a compreender perfeitamente a vontade de
Deus Pai:
“Disse-lhe Filipe:
Senhor,
Mostra-nos o Pai e isso nos basta.
Respondeu-lhe Jesus:
Há tanto tempo que estou convosco,
E ainda não me conheces,
Filipe?
Quem me vê,
Vê o Pai.
Como é que me dizes,
Então,
Mostra-nos o Pai?
Não crês que eu estou no Pai e o Pai está em mim?
As coisas que digo e faço não as realizo por mim
mesmo.
É o Pai que,
Estando em mim,
Realiza as obras” (Jo 14, 8-10).
Jesus Cristo é o Novo Adão,
O homem fiel que revela e realiza a salvação de Deus para a Humanidade.
O primeiro Adão,
Com a sua infidelidade,
Colocou a Humanidade numa condição desfavorável em relação à sua realização
e plenitude.
O primeiro Adão,
Criado à imagem de Deus,
Reivindicou ser igual a Deus,
Comendo o fruto proibido.
Por isso Deus o humilhou,
Tornando-o a causa do fracasso humano.
O Novo Adão,
Imagem perfeita de Deus,
Não reivindicou ser igual a Deus.
Pelo contrário,
Assumiu a sua condição de servo fiel ao plano de Deus para a Humanidade.
Por isso Deus o exaltou e o tornou causa de salvação para toda a humanidade
(Flp 2, 5-11).
Em Jesus Cristo Deus realiza a Nova e Eterna Aliança,
O projecto eterno de Deus.
As outras alianças são apenas mediações para Deus conduzir a Humanidade à
sua plenitude.
Por isso Jesus Cristo,
Medianeiro da Eterna Aliança,
É o protótipo do Homem tal como foi sonhado por Deus.
Por outras palavras,
Quando Deus elaborou o seu plano criador e salvador para a Humanidade,
Já tinha presente Jesus Cristo morto e ressuscitado,
A medida do Homem perfeito:
“Ele é a imagem do Deus invisível,
O primogénito de toda a criatura,
Pois foi nele que todas as coisas foram criadas,
Nos céus e na terra,
As visíveis e as invisíveis,
Os Tronos e as Dominações,
Os Poderes e as Autoridades.
Todas as coisas foram criadas por ele e para ele.
Ele é anterior a todas as coisas,
E todas subsistem nele.
É ele a cabeça do corpo,
Que é a Igreja.
Ele é o princípio,
O primogénito de entre os mortos,
A fim de ser o primeiro em tudo.
Aprouve a Deus que toda a plenitude habitasse nele,
Reconciliando nele e para ele todas as coisas,
Pacificando pelo sangue da sua cruz,
Tanto as da terra com as dos céus” (Col 1, 15-20).
Graças à fidelidade de Jesus Cristo a Nova Aliança concretiza-se e surge,
Como consequência,
A Nova Humanidade:
“Se alguém está em Cristo,
É uma nova criação.
O que era antigo passou.
Eis que surgiram coisas novas.
Tudo isto vem de Deus que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos
confiou o ministério da reconciliação.
Com efeito,
Foi Deus que reconciliou consigo o mundo consigo,
Em Jesus Cristo,
Não levando mais em conta os pecados dos homens e pondo em nós a palavra da
reconciliação” (2 Cor 5, 17-19).
Esta reconciliação não é um acto jurídico,
Mas uma acção recriadora realizada pelo Espírito Santo no coração do Homem.
A reconciliação operada por Deus no coração do Homem,
Portanto,
Significa a salvação,
A qual implica a incorporação das pessoas humanas na Família Divina:
“De facto,
Todos os que se deixam mover pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes com medo.
Pelo contrário,
Recebestes um Espírito de adopção graças ao qual chamamos “Abba”, ó Pai!
É o próprio Espírito Santo que,
No nosso interior nos garante que somos filhos de Deus.
Ora,
Se somos filhos somos também herdeiros de Deus pai e co-herdeiros com Jesus
Cristo,
Supondo que sofremos com ele para sermos glorificados com ele” (Rm 8,
14-17).