O RETRATO DE CRISTO NO EVANGELHO DE SÃO JOÃO

                      CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

a) Jesus Cristo é o Enviado do Pai

b) Jesus Vem Destruir o Pecado, não o Pecador

c) Cristo e a Comunicação do Espírito Santo

d) A Divindade de Cristo

1- O Filho Eterno de Deus

2- Traços Divinos de Cristo

 

a) Jesus Cristo é o Enviado do Pai

O tema central dos evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas é o Reino de Deus.

No evangelho de São João, o tema central é Jesus como o Messias enviado pelo Pai para realizar a sua obra.

A missão messiânica de Jesus tem como origem o Pai. Por outro lado, Jesus aparece como o enviado que realiza plenamente a vontade daquele que o enviou:

“Eu não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).

De tal maneira o ser e o viver de Jesus Cristo se identificam com o Pai que ele teve a ousadia de dizer:

“Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Por isso quem vê o modo de falar e agir de Jesus pode entender perfeitamente qual seja a vontade do Pai acerca da Humanidade:

“Quem me vê, vê o Pai. Como é que ainda me dizes: “Mostra-nos o Pai”. Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?

As Palavras que vos digo não as digo por mim. É o Pai que, estando em mim, realiza a sua obra” (Jo 14, 9-10).

Como Jesus procurava agir sempre em conformidade com o plano salvador do Pai, Jesus nunca se sentia sozinho:

“O Pai não me deixa sozinho, pois faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8, 29).

Para São João, O Messias não é apenas o Filho de David ungido e consagrado pelo Espírito Santo.

Esta era a visão dos outros evangelistas e de São Paulo (cf. Rm 1, 3-5; Act 10, 37-38; Mt 3, 13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22).

Para o quarto evangelho, Cristo é o Filho eterno de Deus, o unigénito, isto é, o único a ser gerado por Deus Pai.

Ele é Deus desde toda a eternidade. É a Vida e o Criador do Universo. A vida de tudo o que existe estava nele desde o princípio. (Jo 1, 1-5).

É por ele que vem a Vida Eterna para a Humanidade.

Pela Encarnação, a Divindade uniu-se de modo orgânico à Humanidade, concedendo aos seres humanos o poder de se tornarem filhos de Deus.

Este poder é dado ao Homem pela comunicação nova do Espírito Santo.

Os seres humanos são incorporados na família divina, não por vontade da carne, do sangue ou do impulso humano, mas por vontade de Deus (Jo 1, 12-14).

São Paulo diz que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos de Deus.

O Espírito Santo, no nosso íntimo actua como um Espírito de adopção, levando-nos a dirigir-nos a Deus à maneira de Jesus, isto é, chamando-o de “Abba”, isto é, Papá. (Rm 8, 14-16).

São João afirma o mesmo, dizendo que o Espírito Santo nos faz nascer de novo, a fim de tomarmos parte no Reino de Deus como membros da Família de Deus:

“O que nasceu da carne é carne, o que nasce do Espírito é Espírito. Não te admires por eu te haver dito, tendes de nascer de novo” (Jo 3, 6).

Deus Pai, o seu Filho ao mundo, a fim deste realizar um projecto de amor e salvação:

“De tal modo Deus amou o mundo que lhe entregou o seu Filho unigénito, a fim de que todo o que crê nele não pereça mas tenha a vida eterna.

De facto, Deus não enviou o seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 16-17).

O Espírito Santo vem-nos por Jesus Cristo. Por isso ele é o alicerce e a cúpula da Nova Humanidade:

“Ora, os enviados dos fariseus perguntaram a João: “qual a razão porque baptizas se tu não és o Messias, nem Elias, nem o profeta?”.

João respondeu-lhes: “eu baptizo com água, mas no meio de vós está alguém que não conheceis. Ele é aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias (…).

Eu não o conhecia, mas quem me enviou a baptizar com água é que me disse: “Aquele sobre quem virdes descer o Espírito e poisar sobre ele, é o que baptiza com o Espírito Santo.

Eu vi e, portanto, dou testemunho de que ele é i Filho de Deus” (Jo 1, 24-34).

A comunicação do Espírito Santo é o núcleo da missão de Jesus Cristo. A Hora de Jesus, um tema fundamental no evangelho de João, é o momento da comunicação do Espírito Santo.

 

b) Jesus Vem Destruir o Pecado, Não os Pecadores

Jesus veio para tirar o pecado do mundo:

“No dia seguinte, ao ver Jesus que se dirigia para ele, João exclamou: “Eis o cordeiro de Deus, o que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 29).

Jesus tira o pecado do mundo mediante a comunicação do Espírito Santo, o qual vai transformando o coração egoísta dos seres humanos em corações abertos à comunhão.

Jesus tem consciência de ter vindo ao mundo para destruir o pecado.

A teologia apocalíptica São Paulo e dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, imaginaram uma segunda vinda de Jesus para restaurar o reino messiânico e destruir os pecadores.

Com efeito, foi enorme a influência dos apocalipses dos profetas e do judaísmo nos discípulos de Jesus. Foram estes escritos que serviram para elaborar o cenário trágico associado à segunda vinda de Cristo e ao juízo final, tal como é descrito pelos evangelhos sinópticos.

Não é esta a visão do evangelho de São João. O Reino do qual Jesus é rei não é deste mundo (Jo 18, 36-37).

O cenário apocalíptico é um condicionamento cultural, não um elemento constitutivo da essência da revelação.

A Palavra de Deus é sempre veiculada pela palavra e as culturas humanas. Por isso é importante saber distinguir entre condicionamento cultural e aquisição teologal ou revelacional na Escritura.

A revelação é uma cadeia de aquisições teologais. As Escrituras foram-se interpretando a si mesmas. Além disso, uns textos abriam horizontes novos aos anteriores dos quais dependiam.

Para lá dos condicionamentos culturais associados à última vinda de Jesus, ao fim da História e ao juízo, o Novo testamento tem uma série de conceitos sobre a plenitude do Reino.

O juízo, no evangelho de São João, é a vitória de Cristo ressuscitado sobre os poderes do mal. Ele é o rei, isto é, o medianeiro que vai governar a Nova Criação.

Uma vez ressuscitado, Jesus torna-se o vencedor das forças hostis ao plano salvador de Deus.

O juízo, nesta perspectiva, tem o sentido de finalização da Criação levada a cabo por Deus. Só passa a fazer parte da plenitude o que tem a marca do amor.

Olhando o juízo à luz do evangelho de João, podemos dizer que a condenação de uma pessoa não é nunca uma decisão de Deus.

A vontade de Deus é que toda a gente se salve. O Pai enviou o Filho, não para condenar o mundo, mas para o salvar (Jo 3, 17-18).

A pessoa que se condena condena-se por sua própria decisão.

A salvação de Deus é um dom, não uma imposição. A pessoa humana pode aceitar ou rejeitar esta proposta.

Jesus veio para destruir o pecado, mas isso não significa que tenha vindo destruir o pecador.

Face ao judaísmo hipócrita, Jesus toma partido pela mulher adúltera (Jo 8, 1-11). Isto não significa que Jesus seja defensor do adultério.

Ele tem consciência de que a sua missão é destruir o pecado, não o pecador.

 

c) Cristo e a Comunicação do Espírito Santo

A comunicação do Espírito Santo, no evangelho de João, é uma realidade intrínseca.

A hora de Jesus é o momento da sua ressurreição. Nesse momento, a Humanidade fica organicamente unida a Cristo, vivendo a mesma vida humano-divina de Cristo:

“No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim. Quem acredita em mim que venha e sacie a sua sede!

Tal como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água via.

Ora ele disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que nele acreditassem.

Com efeito, o Espírito Santo ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-39.

Este mesmo tema da Água viva é abordado no diálogo de Jesus com a Samaritana:

“ Disse-lhe a mulher: “Senhor, nem sequer tens um balde e o poço é fundo. Onde consegues, então, a água viva?

Porventura és maior do que o nosso patriarca Jacob, o qual nos deu este poço do qual beberam ele, os seus filho e os seus rebanhos?”

Jesus respondeu-lhe: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede, mas aquele que beber da água que eu tenho para lhe dar nunca mais voltará a ter sede.

Com efeito, a água que eu lhe der tornar-se-à nele uma fonte de vida eterna” (Jo 4, 11-14).

As Bodas de Caná são uma catequese magnífica sobre a Hora de Jesus:

“Ao terceiro dia, celebrava-se uma boda em Caná da Galileia” (Jo 2, 1).

Naturalmente que o terceiro dia é uma alusão simbólica à ressurreição de Cristo.

A prova disto é ainda mais clara se verificarmos que nesta boda também está Maria e os discípulos.

Isto não corresponde à verdade histórica. Maria não acompanhou com os discípulos antes da ressurreição, isto é, antes da hora de Jesus.

Nessa altura, como testemunham os Actos dos Apóstolos, Maria e os discípulos aparecem juntos na comunidade de Jerusalém:

“E os Apóstolos, unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente á oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (Act 1, 14).

O relato das bodas de Caná faz uma catequese muito bonita sobre a importância de Maria na formação da personalidade de Jesus.

Os evangelhos sinópticos são muito claros em afirmar que aquilo que Jesus é como Messias é obra do Espírito Santo, não de Maria.

João afirma esta mesma verdade. No entanto vai mais longe e sublinha a importância de Maria na formação de Jesus.

Resumindo o pensamento de João podíamos resumir a importância de Maria no acontecimento messiânico do seguinte modo: o que Jesus é como Messias é obra do Espírito Santo, não de Maria.

Mas Maria esteve antes da hora de Jesus, modelando o seu coração no sentido de se dar aos outros na medida em que estes precisem.

Procedendo deste modo, Maria foi a grande mediação para o Espírito Santo encontrar um eco grande no coração de Jesus:

“Como visse a faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “não têm vinho!”

Jesus respondeu-lhe: “Mulher, que tem isso a ver connosco? Ainda não chegou a minha hora.

A mãe de Jesus disse aos discípulos: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2, 3-5).

Aqui a grandeza de Maria está no facto de ser a mãe de Jesus.

Por isso João nunca lhe chama Maria. Ou é a mãe de Jesus ou é mulher.

A importância de Maria está no facto de ter sido uma mãe excelente para Jesus.

Foi este o modo como Maria foi a grande mediação do Espírito Santo para o acontecimento messiânico.

Mas isto não significa que Jesus, como Messias, seja obra da mãe de Jesus. Eis a razão pela qual Jesus, ao contrário de João, não lhe chama mãe, mas mulher.

A Lei de Moisés com sua multidão de normas e preceitos é representada pelos vasos de água que serviam para os ritos de purificação:

“Ora havia ali seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com a capacidade de duas ou três medidas cada uma.

Disse-lhes Jesus: “enchei as vasilhas de água. Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes: tirai agora e levai ao chefe da mesa”.

Eles assim fizeram. O chefe a mesa provou a água transformada em vinho (…) e disse ao noivo: “toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido bem, é que serve o pior.

Tu porém, guardaste o melhor vinho até agora” (Jo 2, 6-10).

A bebida das bodas do Reino de Deus não são as normas e os preceitos da lei dos judeus, mas o vinho bom de Jesus Cristo, isto é, o Espírito Santo.

São Paulo diz que a letra da lei mosaica mata. O Espírito Santo, pelo contrário, dá:

“É Deus que nos torna aptos para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito. Com efeito, a letra mata, mas o espírito dá vida” (2 Cor 3, 6).

Na Carta aos Romanos, São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Como vimos, é também este o sentido da Água Viva que faz jorrar a Vida Eterna no nosso íntimo (Jo 7, 37-39; 4, 14).

No relato das Bodas de Caná o vinho está simbolicamente associado à Eucaristia, a celebração que explicita de modo especial o banquete da festa bodas do Reino de Deus.

No evangelho de João, a carne e o sangue de Cristo, na Eucaristia, nada têm a ver com tecidos, células ou glóbulos vermelhos.

O pão e o vinho da Eucaristia corporizam, explicitam ou visibilizam a nossa união a Jesus Cristo ressuscitado, o qual prolonga em nós a dinâmica da ressurreição:

“Então os judeus exaltados puseram-se a discutir dizendo: “Como pode ele dar-nos a sua carne a comer?”

Disse-lhes Jesus: “Em verdade em verdade vos digo: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia, pois a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira bebida.

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.

Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 52-57).

Este alimento é o Espírito que o Senhor ressuscitado nos comunica.

Por outras palavras, o Jesus da Eucaristia é o Senhor ressuscitado, aquele para quem já chegou a sua hora.

O Jesus da Eucaristia é o Senhor glorificado, aquele que nos comunica a sua vida pelo dom do Espírito Santo:

 “Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que eu vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).

À luz do evangelho de João, comer a carne de Jesus e beber o seu sangue significa ser alimentado com o próprio princípio vital de Cristo ressuscitado, isto é, o Espírito Santo.

A Eucaristia explicita a nossa comunhão orgânica com Cristo, cujo princípio vivificante é o Espírito Santo.

Segundo o quarto evangelho, a imagem usada por Jesus para significar esta união orgânica é a da cepa da videira e seus ramos:

“Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor (…).

Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim.

Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer.

Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo e seca.

Esses ramos são apanhados e lançados ao fogo e ardem” (Jo 15, 1-6).

E porque Cristo é a cepa da videira, é a mediação indispensável para também nós sermos assumidos e incorporados na comunhão familiar divina:

“Jesus respondeu-lhe: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao pai senão por mim” (Jo 14, 6).

A interioridade humana é o ponto de encontro desta comunhão e incorporação na Família Divina:

“Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha Palavra e o meu Pai o amará. Então nós viremos a ele e faremos nele morada” (Jo 14, 23).

O Espírito Santo, o grande dom messiânico, vem continuar e completar a missão de Cristo, tanto no sentido da revelação como da divinização do Homem:

“O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse” (Jo 14, 26).

 

d) A Divindade de Cristo

1-O Filho Eterno de Deus

São João não se limita a apresentar Jesus Cristo como Filho de Deus preexistente.

Ele pretende igualmente descrever o tipo de relação que existe entre Deus Pai e Deus Filho.

O Pai e o Filho fazem um (Jo 10, 30). Não por se confundirem ou fundirem, mas porque vivem uma união de tipo orgânico, onde o Espírito Santo aparece como princípio animador de relações e vínculo de comunhão entre o Pai e o Filho.

O modo de agir de Jesus está em perfeita conformidade com a vontade do Pai. Olhar para Jesus é descobrir o rosto e o jeito de Deus amar.

São João tem uma visão muito equilibrada de Cristo como filho de Deus.

Apesar de ter sempre como pano de fundo o Filho Eterno, não anula a outra dimensão fundamental do Cristo: o Homem.

Em Cristo, o filho Eterno de Deus e Jesus de Nazaré, fazem uma unidade interactiva e dinâmica.

Por isso o acontecimento messiânico inclui o mistério da Encarnação (Jo 1, 14).

Mediante a Encarnação, o humano e o divino ficaram organicamente unidos.

Nesta união perfeita, o homem Jesus é a expressão humana da divindade do Filho Eterno de Deus, mas sem ser anulado ou substituído na sua humanidade.

Em São João a humanidade e a divindade de Cristo mantêm uma perfeita autonomia, embora numa interacção perfeita e indestrutível.

Por outras palavras, a interioridade espiritual humana de Jesus e a interioridade espiritual divina do Filho eterno de Deus, apesar de organicamente unidas, não se funde, nem se anulam ou confundem.

Do mesmo modo, o Logos mantém-se plenamente divino e em comunhão infinitamente perfeita com o Pai sem que haja qualquer limitação provocada pelo homem Jesus.

Graças a esta união orgânica do humano com o divino em Cristo, a Humanidade foi divinizada.

Como Filho Eterno de Deus, Cristo e o Pai fazem um (Jo 10, 30).

 

Eis alguns textos em que se afirma a divindade de Cristo sem quaisquer ambiguidades ou dúvidas:

O Filho desceu do Céu:

“Ninguém foi ao Céu, a não ser o que desceu do Céu” (Jo 3,13).

Jesus e o Pai fazem um (Jo 10, 30).

Isto não significa que Jesus Cristo e o Pai são a mesma realidade ou que são realidades que não se distinguem.

Apesar de formarem uma união perfeita, o Pai e o Filho não se fundem nem confundem.

O Pai e o Filho são duas pessoas divinas que constituem uma perfeita unidade orgânica, interactiva e dinâmica:

“ O Pai está permanentemente a actuar e eu actuo também como o Pai.

Eis a razão pela qual tentavam matar Jesus, pois não só desrespeitava o sábado, senão que também falava de Deus como seu Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5, 17-18).

Face a estas ameaças Jesus não se desdisse mas reafirmou e esclareceu o que antes tinha dito, reafirmando a sua união orgânica ao Pai.

É esta união orgânica que capacita o Filho para agir em harmonia com o agir do Pai:

“Em verdade vos digo: “O Filho não pode fazer nada por si mesmo. Só faz o que vê o Pai fazer.

De facto, o Filho só pode fazer o que vê o Pai fazer, pois o Filho faz exactamente o que o Pai faz.

De facto, o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo aquilo que faz” (Jo 5, 19-20).

 

Graças a esta união orgânica da humanidade com Cristo que a nossa vida fecunda:

“Permanecei em mim, que eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim.

Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).

A seiva que circula a partir da videira vivifica os ramos e torna-os fecundos.

Esta seiva é como uma Água Viva que Jesus nos dá e se torna, no nosso íntimo, uma fonte a jorrar vida eterna.

Esta Água viva, acrescenta São João, é o Espírito Santo que Jesus viria a comunicar no momento da sua glorificação (Jo 7, 37-39).

Jesus Cristo, tal como o Pai, actua pelo Espírito Santo que é a pessoa divina que actua como princípio animador de relações de amor e comunhão.

É pelo Espírito Santo que o Pai actua. Do mesmo modo, é pelo Espírito Santo que o Filho actua.

É pelo Espírito Santo que o filho encarna. O Espírito Santo é a carne e o sangue de Cristo, isto é, o seu dinamismo vital com o qual o Senhor nos vivifica (Jo 6, 62-63).

É pelo Espírito Santo que somos constituídos filhos e herdeiros de Deus Pai e irmãos e co-herdeiros de Deus Filho (Rm 8, 14-16).

É o Espírito Santo que clama em nós Abba, Papá (Ga 4, 4-6).

O Espírito Santo está no centro do mistério de Cristo como está no centro do mistério de Deus.

Como portador do Espírito Santo, Jesus torna-se o mediador da reconciliação do Homem com Deus.

O Espírito Santo é o princípio que anima a relação do Filho com o Pai e dá ao filho um jeito tal de actuar que o filho se torna a expressão perfeita do agir do Pai:

“Disse-lhe Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos Basta!”

Jesus respondeu-lhe: “Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheceste, Filipe?”.

Quem me vê, vê o Pai! Não crês que estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14, 8-10).

É pelo Espírito Santo que Jesus faz um todo orgânico com a Humanidade e esta, através de Jesus faz um todo orgânico com o Pai e o Filho:

“Nesse dia compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós (…). Nós viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 20-23).

Nada disto pode acontecer connosco sem a mediação de Jesus Cristo. Ele é a única mediação indispensável:

“Ninguém pode ir ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6-b).

Sendo Deus como o Pai e o Espírito Santo, Cristo realiza a sua missão em total sintonia com o Pai.

Além disso, a sua missão histórica tem características próprias, distintas das características da missão do Pai:

“O Pai não julga ninguém, mas entregou ao Filho o poder de julgar, a fim de os homens honrarem o Filho como honram o Pai.

Aquele que não honra o Filho também não honra o Pai, pois o Filho foi enviado pelo Pai” (5, 22- 23).

Depois da Encarnação, a fé no Filho é uma componente fundamental da fé em Deus.

“Aquele que acredita em mim, não só acredita em mim, mas também naquele que me enviou” (Jo 12, 44).

O Filho actua em perfeita sintonia com o Pai. O Pai entregou nas mãos do Filho a realização do seu plano de salvação:

“O pai ama o filho e colocou todas as coisas nas suas mãos” (Jo 3, 35).

Por isso o Filho está sempre unido ao Pai:

“E aquele que me enviou está comigo e em mim. Com efeito, o Pai não me deixou sozinho, pois eu faço constantemente as coisas que lhe agradam” (Jo 8, 29).

Pelo mistério da Encarnação, o Filho de Deus tornou-se irmão dos homens, dando-lhes o poder de ser tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12-14)

Jesus agora considera-se irmão dos homens, pois estes são filhos do mesmo Pai:

“Eu subo para junto do meu Pai e vosso Pai; Para o meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).

Este texto é muito significativo, pois demonstra que João, apesar de insistir constantemente que Jesus é Deus como o Pai, não ignora que ele é homem como nós.

Nós somos incorporados na família de Deus, não como seres isolados, mas na medida em que formamos uma união com Cristo.

Estamos em dinâmica de salvação na medida em que estamos organicamente unidos a Jesus Cristo.

O evangelho de João diz que esta união é de tipo orgânico, isto é, interactivo e interdependente.

Segundo a bonita imagem usada pelo quarto evangelho, trata-se de uma união que existe entre os ramos da videira e a cepa da qual lhes vem a seiva vivificante (Jo 15, 1-8).

A seiva que alimente esta união vital é o Espírito Santo. São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

João começa o seu evangelho afirmando que Cristo é a Palavra.

O Filho de Deus é o grito criador e salvador de Deus em favor da Humanidade.

A Bíblia diz que a Palavra de Deus é eficaz, ou seja, realiza sempre o que significa.

Por isso Jesus Cristo vem como o grito amoroso do Pai que diz aos seres humanos: sois meus filhos.

Eis a razão pela qual o Verbo Encarnou e habitou entre nós. E deu-nos o poder de nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1,12-14).

Depois de ter realizado esta missão, o Filho volta para Deus afirmando que, agora, já somos membros da família divina.

Depois de ter realizado a missão que Deus lhe confiara, o Filho vai par junto do Pai, a fim de nos introduzir na Família Divina:

“Eu Saí do Pai e vim para o mundo. Agora deixo o mundo e vou para o Pai” (Jo 16, 28).

E ainda:

“Nesse dia compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).

Como já vimos, o evangelho de João mantém um perfeito equilíbrio entre a afirmação de Cristo como filho eterno de Deus e a sua condição de homem em tudo igual a nós excepto no pecado.

Jesus de Nazaré e o Filho Eterno de Deus fazem uma união orgânica, isto é, interactiva e dinâmica.

Esta união, no entanto, não é fusão do divino com o humano.

Pelo contrário, estas duas realidades mantêm uma distância suficiente para o homem poder ser plenamente homem, sem interferência do Logos.

Do mesmo modo, o Logos mantém-se plenamente divino sem qualquer bloqueio provocado pelo homem.

Como filho eterno de Deus, Cristo e o Pai fazem um (Jo 10, 30).

Por isso, quem vê o seu modo de actuar está a ver a própria vontade do Pai a nosso respeito (Jo 14, 9).

Tomé, depois de ver o Senhor ressuscitado exclama:

“Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28).

No evangelho de João Jesus declara-se Deus usando a mesma expressão que Yahvé usou no Monte Sinai:

“Agora digo-vos estas coisas antes que aconteçam, a fim de que, quando elas acontecerem, acrediteis que eu sou” (Jo 13, 19).

Por outro lado, como homem, Jesus reconhece que vai para junto do seu e nosso Pai, do seu e nosso Deus” (Jo 20, 17).

João não ignora que Jesus é um homem como nós.

Sabe que o divino não anula o humano, tal como o humano não mutila o divino.

Por isso ele diz que Cristo, Como Filho Eterno de Deus é igual ao Pai. Mas devido à sua condição de homem, o Pai é maior do que o Filho:

“Ouvistes o que eu vos disse: “Eu vou mas voltarei para vós”.

Se me tivésseis amor, devíeis alegrar-vos por eu ir para o Pai, pois o Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28).

O evangelho de São João diz que os judeus, ao notarem que Jesus se fazia igual a Deus, começaram a fazer planos para o matar:

“Devido ao facto de Jesus realizar estes prodígios em dia de sábado, os judeus começaram a perseguí-lo.

Em resposta, Jesus disse aos judeus: “O meu Pai continua a realizar obras até agora, e eu também continuo!”

Perante estas afirmações cresceu mais nos judeus a vontade de matar Jesus, pois não só anulava o sábado, mas também chamava a Deus seu Pai, fazendo-se, deste modo, igual a Deus” (Jo 5, 16-18).

A compreensão de Cristo como Filho eterno de Deus não foi o ponto de partida, mas sim o ponto de chegada da Fé das Comunidades Apostólicas.

Compreender o mistério de Cristo como Filho de Deus, o qual é Deus como o Pai supõe um salto de qualidade teologal.

Foi com este salto de qualidade que a Fé cristã chegou ao mistério da Santíssima Trindade. Além disso, implica a reformulação do mistério central da fé judaica: o monoteísmo unipessoal.

Com efeito, reconhecer que Cristo é Deus como o Pai, leva consigo a afirmação de que Deus não é apenas o Yahvé do Antigo testamento, mas uma comunidade familiar de pessoas:

“Não acreditais que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?

As palavras que eu vos digo não são ditas por minha própria iniciativa.

O Pai que habita em mim é que faz as obras. Acreditai que eu estou no Pai e o Pai está em mim. Ao menos acreditai nisto por causa das mesmas obras” (Jo 14, 10-11).

A fidelidade incondicional de Jesus ao pai é fonte de vida eterna para a Humanidade. Por isso ele procura fazer as coisas tal como o Pai lhe mandou:

“Eu não falei por mim mesmo. O pai, que me enviou, foi quem me comunicou o que devo dizer.

E eu sei que este meu mandato traz consigo a vida Eterna.

Eis a razão pela qual eu digo exactamente o que o Pai me disse para dizer” (Jo 12, 49-50).

Por ser Deus com o Pai, Cristo é fonte de vida, tal como o Pai:

“Assim como o Pai tem vida em si mesmo, também o Filho tem vida em si mesmo” (Jo 5, 26).

Por isso Cristo pode afirmar:

“Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenho morrido, viverá.

Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre” (Jo 11, 25-26).

João afirma a divindade de Cristo inspirando-se na tradição das teofanias ou manifestações de Israel, de modo particular a Moisés.

Eis o modo como Jesus, no evangelho de João, afirma a sua igualdade com Yahvé, o Deus dos antepassados:

“Abraão, vosso pai, exultou pensando em ver o meu dia. Viu-o e ficou feliz.

Disseram-lhe, então, os judeus: “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão? Jesus respondeu-lhes: “Em verdade em verdade vos digo: antes de Abraão existir, eu sou” (Jo 8, 57-58).

Foi com este simbolismo brilhante que o quarto evangelho afirmou de modo indiscutível a divindade de Cristo.

Mas é sobretudo no Jardim das Oliveiras que João faz questão em afirmar a divindade de Cristo.

No momento da prisão de Jesus, João afirma de modo solene o poder divino de Cristo, a fim de sublinhar que a prisão de Jesus não é um acto de fraqueza mas um acto de amor a Deus e à Humanidade:

“Judas, então, guiando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumo-sacerdotes e dos fariseus, chegaram munidos de lanternas archotes e armas.

Jesus, sabendo o que lhes ia a acontecer, adiantou-se e disse-lhes: “Quem buscais?”

Responderam-lhe: “Jesus o Nazareno”. Disse-lhes ele: “Eu sou” (…).

Logo que Jesus lhes disse: “Eu sou”, os soldados recuaram e caíram por terra.

Jesus perguntou-lhes segunda vez: “Quem buscais?” Disseram-lhe: “Jesus o Nazareno”. Já vos disse que “Eu sou”. (Jo 18, 3-8).

Deus é amor omnipotente. Mas só pode o que pode o amor.

Deus é amor. Sabe tudo o que o amor sabe, isto é, dar-se incondicionalmente.

Eis a razão pela qual Jesus Cristo é preso e morto. Mas o amor vence a morte, por isso ressuscitou.

De facto, o amor gera vida e vence a morte!

 

2- Traços Divinos de Cristo

Só no evangelho de João os discípulos reconhecem a divindade de Jesus Cristo. Tomé, depois de ver o Senhor ressuscitado exclama:

“Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28).

Eis alguns traços com os quais João tenta afirmar a divindade de Cristo:

*Habitou desde sempre no Céu junto do Pai.

*Veio de junto do Pai que está no Céu.

*A sua relação com o Pai é única e distinta da dos demais homens.

*Ao voltar para junto do Pai vai enviar-nos o Espírito Santo.

*Os judeus entendiam bem que ele se estava a equiparar com Deus.

*Cristo conhece tudo o que o Pai faz.

*Ele é a ressurreição e a vida.

*É o único que pode falar correctamente do Pai, pois viveu junto dele desde toda a eternidade.

*Dá a vida e ressuscita os mortos.

*Ele é o Filho Unigénito.

Eis alguns textos escritos para afirmar explicitamente a divindade de Cristo:

Os judeus recusam-se a vir até Jesus, o caminho que tinham para obterem a vida (Jo 5, 40).

Jesus é o Pão de Deus que veio do Céu para dar a vida ao mundo (Jo 6, 33).

Ninguém jamais viu a Deus, excepto o Filho que veio de Deus (Jo 6, 46).

Os discípulos verão o Filho subir para onde estava antes (Jo 6, 62).

Certo dia Jesus disse aos judeus que eles são cá de baixo, enquanto ele é lá de cima (Jo 8, 23).

Jesus insiste em que apenas diz o que viveu e viu junto do Pai (Jo 8, 38).

Após a última Ceia, Jesus pede ao Pai que o glorifique com a mesma glória que tinha antes do mundo ser criado (Jo 17, 5).

A origem do Filho de Deus, portanto, é o Céu, não a Terra.

Pouco antes de morrer, Jesus declara aos discípulos que veio do Pai e agora, de novo, volta para o Pai (Jo 16, 28).

O Filho é Deus com o Pai. Eis a razão pela qual tudo o que o Pai tem é do Filho e tudo o que o filho tem é do Pai (Jo 17, 10).

No evangelho de João Jesus define-se como Deus, usando a expressão que Yahvé usou quando disse a Moisés quem era:

“Moisés disse a Deus: “Eis que vou ter com os filhos de Israel e lhes digo: o Deus de vossos pais enviou-me a vós”.

Eles, no entanto, podem dizer-me: “Qual é o nome dele?” Que lhes direi?”

Deus disse a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. Por isso dirás aos filhos de Israel: “Eu sou, enviou-me a vós” (Ex 3, 13-14).

Jesus utiliza esta mesma linguagem para falar da sua condição divina:

“Disseram-lhe, então, os judeus: “Ainda não tem cinquenta anos e viste Abraão?

Jesus respondeu-lhes: “Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, EU SOU” (Jo 8, 57-58).

São João dá ao sentido Filho de Deus o seu sentido mais profundo: o Filho é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Este salto de qualidade tem como consequência a modificação do próprio rosto do monoteísmo:

A divindade não é unipessoal. Deus, sem deixar de ser um é uma comunidade de três pessoas.

O Uno em Deus é a comunhão. O plural é constituído pelas pessoas da Santíssima Trindade.

Deus é uma família de três pessoas e as pessoas humanas estão convidadas a fazer parte da Família divina.