O RETRATO DE CRISTO NO EVANGELHO
DE SÃO JOÃO
CALMEIRO MATIAS

a) Jesus Cristo é
o Enviado do Pai
b) Jesus Vem
Destruir o Pecado, não o Pecador
c) Cristo e a
Comunicação do Espírito Santo
d) A Divindade de
Cristo
1- O Filho Eterno
de Deus
2- Traços Divinos
de Cristo
a) Jesus Cristo é
o Enviado do Pai
O tema central dos
evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas é o Reino de Deus.
No evangelho de
São João, o tema central é Jesus como o Messias enviado pelo Pai para realizar
a sua obra.
A missão
messiânica de Jesus tem como origem o Pai. Por outro lado, Jesus aparece como o
enviado que realiza plenamente a vontade daquele que o enviou:
“Eu não procuro a
minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).
De tal maneira o
ser e o viver de Jesus Cristo se identificam com o Pai que ele teve a ousadia
de dizer:
“Eu e o Pai somos
um” (Jo 10, 30).
Por
isso quem vê o modo de falar e agir de Jesus pode entender perfeitamente qual
seja a vontade do Pai acerca da Humanidade:
“Quem
me vê, vê o Pai. Como é que ainda me dizes: “Mostra-nos o Pai”. Não crês que eu
estou no Pai e que o Pai está em mim?
As Palavras que vos digo não as digo por mim. É o Pai que, estando em mim,
realiza a sua obra” (Jo 14, 9-10).
Como Jesus
procurava agir sempre em conformidade com o plano salvador do Pai, Jesus nunca
se sentia sozinho:
“O Pai não me deixa
sozinho, pois faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8, 29).
Para São João, O
Messias não é apenas o Filho de David ungido e consagrado pelo Espírito Santo.
Esta era a visão
dos outros evangelistas e de São Paulo (cf. Rm 1, 3-5; Act 10, 37-38; Mt 3,
13-17; Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22).
Para o quarto
evangelho, Cristo é o Filho eterno de Deus, o unigénito, isto é, o único a ser
gerado por Deus Pai.
Ele é Deus desde
toda a eternidade. É a Vida e o Criador do Universo. A vida de tudo o que
existe estava nele desde o princípio. (Jo 1, 1-5).
É por ele que vem
a Vida Eterna para a Humanidade.
Pela Encarnação, a
Divindade uniu-se de modo orgânico à Humanidade, concedendo aos seres humanos o
poder de se tornarem filhos de Deus.
Este poder é dado
ao Homem pela comunicação nova do Espírito Santo.
Os seres humanos
são incorporados na família divina, não por vontade da carne, do sangue ou do
impulso humano, mas por vontade de Deus (Jo 1, 12-14).
São Paulo diz que
todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos de Deus.
O Espírito Santo,
no nosso íntimo actua como um Espírito de adopção, levando-nos a dirigir-nos a
Deus à maneira de Jesus, isto é, chamando-o de “Abba”, isto é, Papá. (Rm 8,
14-16).
São João afirma o
mesmo, dizendo que o Espírito Santo nos faz nascer de novo, a fim de tomarmos
parte no Reino de Deus como membros da Família de Deus:
“O que nasceu da
carne é carne, o que nasce do Espírito é Espírito. Não te admires por eu te
haver dito, tendes de nascer de novo” (Jo 3, 6).
Deus Pai, o seu
Filho ao mundo, a fim deste realizar um projecto de amor e salvação:
“De tal modo Deus
amou o mundo que lhe entregou o seu Filho unigénito, a fim de que todo o que
crê nele não pereça mas tenha a vida eterna.
De facto, Deus não
enviou o seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja
salvo por ele” (Jo 3, 16-17).
O Espírito Santo
vem-nos por Jesus Cristo. Por isso ele é o alicerce e a cúpula da Nova
Humanidade:
“Ora, os enviados
dos fariseus perguntaram a João: “qual a razão porque baptizas se tu não és o
Messias, nem Elias, nem o profeta?”.
João
respondeu-lhes: “eu baptizo com água, mas no meio de vós está alguém que não
conheceis. Ele é aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de
desatar a correia das sandálias (…).
Eu não o conhecia,
mas quem me enviou a baptizar com água é que me disse: “Aquele sobre quem
virdes descer o Espírito e poisar sobre ele, é o que baptiza com o Espírito
Santo.
Eu vi e, portanto,
dou testemunho de que ele é i Filho de Deus” (Jo 1, 24-34).
A comunicação do Espírito
Santo é o núcleo da missão de Jesus Cristo. A Hora de Jesus, um tema
fundamental no evangelho de João, é o momento da comunicação do Espírito Santo.
b) Jesus Vem
Destruir o Pecado, Não os Pecadores
Jesus veio para
tirar o pecado do mundo:
“No dia seguinte,
ao ver Jesus que se dirigia para ele, João exclamou: “Eis o cordeiro de Deus, o
que tira o pecado do mundo!” (Jo 1, 29).
Jesus tira o
pecado do mundo mediante a comunicação do Espírito Santo, o qual vai
transformando o coração egoísta dos seres humanos em corações abertos à
comunhão.
Jesus tem
consciência de ter vindo ao mundo para destruir o pecado.
A teologia
apocalíptica São Paulo e dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, imaginaram
uma segunda vinda de Jesus para restaurar o reino messiânico e destruir os
pecadores.
Com efeito, foi
enorme a influência dos apocalipses dos profetas e do judaísmo nos discípulos
de Jesus. Foram estes escritos que serviram para elaborar o cenário trágico
associado à segunda vinda de Cristo e ao juízo final, tal como é descrito pelos
evangelhos sinópticos.
Não é esta a visão
do evangelho de São João. O Reino do qual Jesus é rei não é deste mundo (Jo 18,
36-37).
O cenário
apocalíptico é um condicionamento cultural, não um elemento constitutivo da
essência da revelação.
A Palavra de Deus
é sempre veiculada pela palavra e as culturas humanas. Por isso é importante
saber distinguir entre condicionamento cultural e aquisição teologal ou
revelacional na Escritura.
A revelação é uma
cadeia de aquisições teologais. As Escrituras foram-se interpretando a si
mesmas. Além disso, uns textos abriam horizontes novos aos anteriores dos quais
dependiam.
Para lá dos
condicionamentos culturais associados à última vinda de Jesus, ao fim da
História e ao juízo, o Novo testamento tem uma série de conceitos sobre a
plenitude do Reino.
O juízo, no
evangelho de São João, é a vitória de Cristo ressuscitado sobre os poderes do
mal. Ele é o rei, isto é, o medianeiro que vai governar a Nova Criação.
Uma vez
ressuscitado, Jesus torna-se o vencedor das forças hostis ao plano salvador de
Deus.
O juízo, nesta
perspectiva, tem o sentido de finalização da Criação levada a cabo por Deus. Só
passa a fazer parte da plenitude o que tem a marca do amor.
Olhando o juízo à
luz do evangelho de João, podemos dizer que a condenação de uma pessoa não é
nunca uma decisão de Deus.
A vontade de Deus
é que toda a gente se salve. O Pai enviou o Filho, não para condenar o mundo,
mas para o salvar (Jo 3, 17-18).
A pessoa que se
condena condena-se por sua própria decisão.
A salvação de Deus
é um dom, não uma imposição. A pessoa humana pode aceitar ou rejeitar esta
proposta.
Jesus veio para
destruir o pecado, mas isso não significa que tenha vindo destruir o pecador.
Face ao judaísmo
hipócrita, Jesus toma partido pela mulher adúltera (Jo
8, 1-11). Isto não significa que Jesus seja defensor do adultério.
Ele tem
consciência de que a sua missão é destruir o pecado, não o pecador.
c) Cristo e a
Comunicação do Espírito Santo
A comunicação do
Espírito Santo, no evangelho de João, é uma realidade intrínseca.
A hora de Jesus é
o momento da sua ressurreição. Nesse momento, a Humanidade fica organicamente
unida a Cristo, vivendo a mesma vida humano-divina de Cristo:
“No último dia, o
mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim.
Quem acredita em mim que venha e sacie a sua sede!
Tal como diz a
Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água via.
Ora ele disse isto
referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que nele acreditassem.
Com efeito, o
Espírito Santo ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tinha sido
glorificado” (Jo 7, 37-39.
Este mesmo tema da
Água viva é abordado no diálogo de Jesus com a Samaritana:
“ Disse-lhe a
mulher: “Senhor, nem sequer tens um balde e o poço é fundo. Onde consegues,
então, a água viva?
Porventura és
maior do que o nosso patriarca Jacob, o qual nos deu este poço do qual beberam
ele, os seus filho e os seus rebanhos?”
Jesus
respondeu-lhe: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede, mas aquele
que beber da água que eu tenho para lhe dar nunca mais voltará a ter sede.
Com efeito, a água
que eu lhe der tornar-se-à nele uma fonte de vida eterna” (Jo 4, 11-14).
As Bodas de Caná
são uma catequese magnífica sobre a Hora de Jesus:
“Ao terceiro dia,
celebrava-se uma boda em Caná da Galileia” (Jo 2, 1).
Naturalmente que o
terceiro dia é uma alusão simbólica à ressurreição de Cristo.
A prova disto é
ainda mais clara se verificarmos que nesta boda também está Maria e os
discípulos.
Isto não
corresponde à verdade histórica. Maria não acompanhou com os discípulos antes
da ressurreição, isto é, antes da hora de Jesus.
Nessa altura, como
testemunham os Actos dos Apóstolos, Maria e os discípulos aparecem juntos na
comunidade de Jerusalém:
“E os Apóstolos,
unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente á oração, com algumas
mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus” (Act
1, 14).
O relato das bodas
de Caná faz uma catequese muito bonita sobre a importância de Maria na formação
da personalidade de Jesus.
Os evangelhos
sinópticos são muito claros em afirmar que aquilo que Jesus é como Messias é
obra do Espírito Santo, não de Maria.
João afirma esta
mesma verdade. No entanto vai mais longe e sublinha a importância de Maria na
formação de Jesus.
Resumindo o
pensamento de João podíamos resumir a importância de Maria no acontecimento
messiânico do seguinte modo: o que Jesus é como Messias é obra do Espírito
Santo, não de Maria.
Mas Maria esteve
antes da hora de Jesus, modelando o seu coração no sentido de se dar aos outros
na medida em que estes precisem.
Procedendo deste
modo, Maria foi a grande mediação para o Espírito Santo encontrar um eco grande
no coração de Jesus:
“Como visse a
faltar o vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “não têm vinho!”
Jesus
respondeu-lhe: “Mulher, que tem isso a ver connosco? Ainda não chegou a minha
hora.
A mãe de Jesus
disse aos discípulos: “Fazei o que ele vos disser” (Jo 2, 3-5).
Aqui a grandeza de
Maria está no facto de ser a mãe de Jesus.
Por isso João
nunca lhe chama Maria. Ou é a mãe de Jesus ou é mulher.
A importância de
Maria está no facto de ter sido uma mãe excelente para Jesus.
Foi este o modo
como Maria foi a grande mediação do Espírito Santo para o acontecimento
messiânico.
Mas isto não
significa que Jesus, como Messias, seja obra da mãe de Jesus. Eis a razão pela
qual Jesus, ao contrário de João, não lhe chama mãe, mas mulher.
A Lei de Moisés
com sua multidão de normas e preceitos é representada pelos vasos de água que
serviam para os ritos de purificação:
“Ora havia ali
seis vasilhas de pedra preparadas para os ritos de purificação dos judeus, com
a capacidade de duas ou três medidas cada uma.
Disse-lhes Jesus:
“enchei as vasilhas de água. Eles encheram-nas até cima. Então ordenou-lhes:
tirai agora e levai ao chefe da mesa”.
Eles assim
fizeram. O chefe a mesa provou a água transformada em vinho (…) e disse ao
noivo: “toda a gente serve primeiro o vinho melhor e, depois de terem bebido
bem, é que serve o pior.
Tu porém,
guardaste o melhor vinho até agora” (Jo 2, 6-10).
A bebida das bodas
do Reino de Deus não são as normas e os preceitos da lei dos judeus, mas o
vinho bom de Jesus Cristo, isto é, o Espírito Santo.
São Paulo diz que
a letra da lei mosaica mata. O Espírito Santo, pelo contrário, dá:
“É Deus que nos
torna aptos para sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do
Espírito. Com efeito, a letra mata, mas o espírito dá vida” (2 Cor 3, 6).
Na Carta aos
Romanos, São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos
nossos corações (Rm 5, 5).
Como vimos, é
também este o sentido da Água Viva que faz jorrar a Vida Eterna no nosso íntimo
(Jo 7, 37-39; 4, 14).
No relato das
Bodas de Caná o vinho está simbolicamente associado à Eucaristia, a celebração
que explicita de modo especial o banquete da festa bodas do Reino de Deus.
No evangelho de
João, a carne e o sangue de Cristo, na Eucaristia, nada têm a ver com tecidos,
células ou glóbulos vermelhos.
O pão e o vinho da
Eucaristia corporizam, explicitam ou visibilizam a nossa união a Jesus Cristo
ressuscitado, o qual prolonga em nós a dinâmica da ressurreição:
“Então os judeus
exaltados puseram-se a discutir dizendo: “Como pode ele dar-nos a sua carne a
comer?”
Disse-lhes Jesus:
“Em verdade em verdade vos digo: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e
não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.
Quem come a minha
carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último
dia, pois a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira
bebida.
Quem come a minha
carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.
Assim como o Pai
que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também aquele
que me come viverá por mim” (Jo 6, 52-57).
Este alimento é o
Espírito que o Senhor ressuscitado nos comunica.
Por outras
palavras, o Jesus da Eucaristia é o Senhor ressuscitado, aquele para quem já
chegou a sua hora.
O Jesus da
Eucaristia é o Senhor glorificado, aquele que nos comunica a sua vida pelo dom
do Espírito Santo:
“Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do
Homem subir para onde estava antes? O Espírito é que dá vida. A carne não serve
para nada. As palavras que eu vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).
À luz do evangelho
de João, comer a carne de Jesus e beber o seu sangue significa ser alimentado
com o próprio princípio vital de Cristo ressuscitado, isto é, o Espírito Santo.
A Eucaristia
explicita a nossa comunhão orgânica com Cristo, cujo princípio vivificante é o
Espírito Santo.
Segundo o quarto
evangelho, a imagem usada por Jesus para significar esta união orgânica é a da
cepa da videira e seus ramos:
“Eu sou a videira
verdadeira e meu Pai é o agricultor (…).
Tal como o ramo
não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também
acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira e
vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem
mim nada podeis fazer.
Se alguém não
permanece em mim, é lançado fora, como um ramo e seca.
Esses ramos são
apanhados e lançados ao fogo e ardem” (Jo 15, 1-6).
E porque Cristo é
a cepa da videira, é a mediação indispensável para também nós sermos assumidos
e incorporados na comunhão familiar divina:
“Jesus
respondeu-lhe: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao pai
senão por mim” (Jo 14, 6).
A interioridade
humana é o ponto de encontro desta comunhão e incorporação na Família Divina:
“Se alguém me tem
amor, há-de guardar a minha Palavra e o meu Pai o amará. Então nós viremos a
ele e faremos nele morada” (Jo 14, 23).
O Espírito Santo,
o grande dom messiânico, vem continuar e completar a missão de Cristo, tanto no
sentido da revelação como da divinização do Homem:
“O Paráclito, o
Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos
recordará tudo o que vos disse” (Jo 14, 26).
d) A Divindade de
Cristo
1-O Filho Eterno
de Deus
São João não se
limita a apresentar Jesus Cristo como Filho de Deus preexistente.
Ele pretende
igualmente descrever o tipo de relação que existe entre Deus Pai e Deus Filho.
O Pai e o Filho
fazem um (Jo 10, 30). Não por se confundirem ou fundirem, mas porque vivem uma
união de tipo orgânico, onde o Espírito Santo aparece como princípio animador
de relações e vínculo de comunhão entre o Pai e o Filho.
O modo de agir de
Jesus está em perfeita conformidade com a vontade do Pai. Olhar para Jesus é
descobrir o rosto e o jeito de Deus amar.
São João tem uma
visão muito equilibrada de Cristo como filho de Deus.
Apesar de ter
sempre como pano de fundo o Filho Eterno, não anula a outra dimensão
fundamental do Cristo: o Homem.
Em Cristo, o filho
Eterno de Deus e Jesus de Nazaré, fazem uma unidade interactiva e dinâmica.
Por isso o
acontecimento messiânico inclui o mistério da Encarnação (Jo 1, 14).
Mediante a
Encarnação, o humano e o divino ficaram organicamente unidos.
Nesta união
perfeita, o homem Jesus é a expressão humana da divindade do Filho Eterno de
Deus, mas sem ser anulado ou substituído na sua humanidade.
Em
São João a humanidade e a divindade de Cristo mantêm uma perfeita autonomia,
embora numa interacção perfeita e indestrutível.
Por
outras palavras, a interioridade espiritual humana de Jesus e a interioridade
espiritual divina do Filho eterno de Deus, apesar de organicamente unidas, não
se funde, nem se anulam ou confundem.
Do
mesmo modo, o Logos mantém-se plenamente divino e em comunhão infinitamente
perfeita com o Pai sem que haja qualquer limitação provocada pelo homem Jesus.
Graças
a esta união orgânica do humano com o divino em Cristo, a Humanidade foi
divinizada.
Como
Filho Eterno de Deus, Cristo e o Pai fazem um (Jo 10, 30).
Eis alguns textos
em que se afirma a divindade de Cristo sem quaisquer ambiguidades ou dúvidas:
O Filho desceu do
Céu:
“Ninguém foi ao
Céu, a não ser o que desceu do Céu” (Jo 3,13).
Jesus e o Pai
fazem um (Jo 10, 30).
Isto
não significa que Jesus Cristo e o Pai são a mesma realidade ou que são
realidades que não se distinguem.
Apesar
de formarem uma união perfeita, o Pai e o Filho não se fundem nem confundem.
O Pai e o Filho
são duas pessoas divinas que constituem uma perfeita unidade orgânica,
interactiva e dinâmica:
“ O Pai está
permanentemente a actuar e eu actuo também como o Pai.
Eis a razão pela
qual tentavam matar Jesus, pois não só desrespeitava o sábado, senão que também
falava de Deus como seu Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5, 17-18).
Face a estas
ameaças Jesus não se desdisse mas reafirmou e esclareceu o que antes tinha
dito, reafirmando a sua união orgânica ao Pai.
É esta união
orgânica que capacita o Filho para agir em harmonia com o agir do Pai:
“Em verdade vos
digo: “O Filho não pode fazer nada por si mesmo. Só faz o que vê o Pai fazer.
De facto, o Filho
só pode fazer o que vê o Pai fazer, pois o Filho faz exactamente o que o Pai
faz.
De facto, o Pai
ama o Filho e mostra-lhe tudo aquilo que faz” (Jo 5, 19-20).
Graças a esta
união orgânica da humanidade com Cristo que a nossa vida fecunda:
“Permanecei em
mim, que eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo,
mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não
permanecerdes em mim.
Eu sou a videira;
vós, os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem
mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).
A seiva que
circula a partir da videira vivifica os ramos e torna-os fecundos.
Esta seiva é como
uma Água Viva que Jesus nos dá e se torna, no nosso íntimo, uma fonte a jorrar
vida eterna.
Esta Água viva,
acrescenta São João, é o Espírito Santo que Jesus viria a comunicar no momento
da sua glorificação (Jo 7, 37-39).
Jesus Cristo, tal
como o Pai, actua pelo Espírito Santo que é a pessoa divina que actua como
princípio animador de relações de amor e comunhão.
É pelo Espírito
Santo que o Pai actua. Do mesmo modo, é pelo Espírito Santo que o Filho actua.
É pelo Espírito
Santo que o filho encarna. O Espírito Santo é a carne e o sangue de Cristo,
isto é, o seu dinamismo vital com o qual o Senhor nos vivifica (Jo 6, 62-63).
É pelo Espírito
Santo que somos constituídos filhos e herdeiros de Deus Pai e irmãos e
co-herdeiros de Deus Filho (Rm 8, 14-16).
É o Espírito Santo
que clama em nós Abba, Papá (Ga 4, 4-6).
O Espírito Santo
está no centro do mistério de Cristo como está no centro do mistério de Deus.
Como portador do
Espírito Santo, Jesus torna-se o mediador da reconciliação do Homem com Deus.
O Espírito Santo é
o princípio que anima a relação do Filho com o Pai e dá ao filho um jeito tal
de actuar que o filho se torna a expressão perfeita do agir do Pai:
“Disse-lhe Filipe:
“Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos Basta!”
Jesus respondeu-lhe:
“Há tanto tempo que estou convosco, e ainda não me conheceste, Filipe?”.
Quem me vê, vê o
Pai! Não crês que estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14, 8-10).
É pelo Espírito
Santo que Jesus faz um todo orgânico com a Humanidade e esta, através de Jesus
faz um todo orgânico com o Pai e o Filho:
“Nesse dia
compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós (…). Nós viremos a
ele e nele faremos morada” (Jo 14, 20-23).
Nada disto pode
acontecer connosco sem a mediação de Jesus Cristo. Ele é a única mediação
indispensável:
“Ninguém pode ir
ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6-b).
Sendo Deus como o
Pai e o Espírito Santo, Cristo realiza a sua missão em total sintonia com o
Pai.
Além disso, a sua
missão histórica tem características próprias, distintas das características da
missão do Pai:
“O Pai não julga
ninguém, mas entregou ao Filho o poder de julgar, a fim de os homens honrarem o
Filho como honram o Pai.
Aquele que não
honra o Filho também não honra o Pai, pois o Filho foi enviado pelo Pai” (5,
22- 23).
Depois da
Encarnação, a fé no Filho é uma componente fundamental da fé em Deus.
“Aquele que
acredita em mim, não só acredita em mim, mas também naquele que me enviou” (Jo
12, 44).
O Filho actua em
perfeita sintonia com o Pai. O Pai entregou nas mãos do Filho a realização do
seu plano de salvação:
“O pai ama o filho
e colocou todas as coisas nas suas mãos” (Jo 3, 35).
Por isso o Filho
está sempre unido ao Pai:
“E aquele que me
enviou está comigo e em mim. Com efeito, o Pai não me deixou sozinho, pois eu faço
constantemente as coisas que lhe agradam” (Jo 8, 29).
Pelo mistério da
Encarnação, o Filho de Deus tornou-se irmão dos homens, dando-lhes o poder de
ser tornarem filhos de Deus (Jo 1, 12-14)
Jesus agora
considera-se irmão dos homens, pois estes são filhos do mesmo Pai:
“Eu subo para
junto do meu Pai e vosso Pai; Para o meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).
Este texto é muito
significativo, pois demonstra que João, apesar de insistir constantemente que
Jesus é Deus como o Pai, não ignora que ele é homem como nós.
Nós somos
incorporados na família de Deus, não como seres isolados, mas na medida em que
formamos uma união com Cristo.
Estamos em
dinâmica de salvação na medida em que estamos organicamente unidos a Jesus
Cristo.
O evangelho de
João diz que esta união é de tipo orgânico, isto é, interactivo e
interdependente.
Segundo a bonita
imagem usada pelo quarto evangelho, trata-se de uma união que existe entre os
ramos da videira e a cepa da qual lhes vem a seiva vivificante (Jo 15, 1-8).
A seiva que
alimente esta união vital é o Espírito Santo. São Paulo diz que o Espírito
Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
João começa o seu
evangelho afirmando que Cristo é a Palavra.
O Filho de Deus é
o grito criador e salvador de Deus em favor da Humanidade.
A Bíblia diz que a
Palavra de Deus é eficaz, ou seja, realiza sempre o que significa.
Por isso Jesus
Cristo vem como o grito amoroso do Pai que diz aos seres humanos: sois meus
filhos.
Eis a razão pela
qual o Verbo Encarnou e habitou entre nós. E deu-nos o poder de nos tornarmos
filhos de Deus (Jo 1,12-14).
Depois de ter
realizado esta missão, o Filho volta para Deus afirmando que, agora, já somos
membros da família divina.
Depois de ter
realizado a missão que Deus lhe confiara, o Filho vai par junto do Pai, a fim
de nos introduzir na Família Divina:
“Eu Saí do Pai e vim para o mundo. Agora deixo o mundo e vou
para o Pai” (Jo 16, 28).
E ainda:
“Nesse dia
compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).
Como já vimos, o evangelho
de João mantém um perfeito equilíbrio entre a afirmação de Cristo como filho
eterno de Deus e a sua condição de homem em tudo igual a nós excepto no pecado.
Jesus de Nazaré e
o Filho Eterno de Deus fazem uma união orgânica, isto é, interactiva e dinâmica.
Esta união, no
entanto, não é fusão do divino com o humano.
Pelo contrário,
estas duas realidades mantêm uma distância suficiente para o homem poder ser
plenamente homem, sem interferência do Logos.
Do mesmo modo, o
Logos mantém-se plenamente divino sem qualquer bloqueio provocado pelo homem.
Como filho eterno
de Deus, Cristo e o Pai fazem um (Jo 10, 30).
Por isso, quem vê
o seu modo de actuar está a ver a própria vontade do Pai a nosso respeito (Jo
14, 9).
Tomé, depois de
ver o Senhor ressuscitado exclama:
“Meu Senhor e meu
Deus” (Jo 20, 28).
No evangelho de
João Jesus declara-se Deus usando a mesma expressão que Yahvé usou no Monte
Sinai:
“Agora digo-vos
estas coisas antes que aconteçam, a fim de que, quando elas acontecerem,
acrediteis que eu sou” (Jo 13, 19).
Por outro lado,
como homem, Jesus reconhece que vai para junto do seu e nosso Pai, do seu e
nosso Deus” (Jo 20, 17).
João não ignora
que Jesus é um homem como nós.
Sabe que o divino
não anula o humano, tal como o humano não mutila o divino.
Por isso ele diz
que Cristo, Como Filho Eterno de Deus é igual ao Pai. Mas devido à sua condição
de homem, o Pai é maior do que o Filho:
“Ouvistes o que eu
vos disse: “Eu vou mas voltarei para vós”.
Se me tivésseis
amor, devíeis alegrar-vos por eu ir para o Pai, pois o
Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28).
O evangelho de São
João diz que os judeus, ao notarem que Jesus se fazia igual a Deus, começaram a
fazer planos para o matar:
“Devido ao facto
de Jesus realizar estes prodígios em dia de sábado, os judeus começaram a
perseguí-lo.
Em resposta, Jesus
disse aos judeus: “O meu Pai continua a realizar obras até agora, e eu também
continuo!”
Perante estas
afirmações cresceu mais nos judeus a vontade de matar Jesus, pois não só
anulava o sábado, mas também chamava a Deus seu Pai, fazendo-se, deste modo,
igual a Deus” (Jo 5, 16-18).
A compreensão de
Cristo como Filho eterno de Deus não foi o ponto de partida, mas sim o ponto de
chegada da Fé das Comunidades Apostólicas.
Compreender o
mistério de Cristo como Filho de Deus, o qual é Deus como o Pai supõe um salto
de qualidade teologal.
Foi com este salto
de qualidade que a Fé cristã chegou ao mistério da Santíssima Trindade. Além
disso, implica a reformulação do mistério central da fé judaica: o monoteísmo
unipessoal.
Com efeito,
reconhecer que Cristo é Deus como o Pai, leva consigo a afirmação de que Deus
não é apenas o Yahvé do Antigo testamento, mas uma comunidade familiar de
pessoas:
“Não acreditais
que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?
As palavras que eu
vos digo não são ditas por minha própria iniciativa.
O Pai que habita
em mim é que faz as obras. Acreditai que eu estou no Pai e o Pai está em mim.
Ao menos acreditai nisto por causa das mesmas obras” (Jo 14, 10-11).
A fidelidade
incondicional de Jesus ao pai é fonte de vida eterna para a Humanidade. Por
isso ele procura fazer as coisas tal como o Pai lhe mandou:
“Eu não falei por
mim mesmo. O pai, que me enviou, foi quem me comunicou o que devo dizer.
E eu sei que este
meu mandato traz consigo a vida Eterna.
Eis a razão pela
qual eu digo exactamente o que o Pai me disse para dizer” (Jo 12, 49-50).
Por ser Deus com o
Pai, Cristo é fonte de vida, tal como o Pai:
“Assim como o Pai
tem vida em si mesmo, também o Filho tem vida em si mesmo” (Jo 5, 26).
Por isso Cristo
pode afirmar:
“Eu sou a
Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenho morrido, viverá.
Todo aquele que
vive e crê em mim não morrerá para sempre” (Jo 11, 25-26).
João afirma a
divindade de Cristo inspirando-se na tradição das teofanias ou manifestações de
Israel, de modo particular a Moisés.
Eis o modo como
Jesus, no evangelho de João, afirma a sua igualdade com Yahvé, o Deus dos
antepassados:
“Abraão, vosso
pai, exultou pensando em ver o meu dia. Viu-o e ficou feliz.
Disseram-lhe,
então, os judeus: “Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão? Jesus
respondeu-lhes: “Em verdade em verdade vos digo: antes de Abraão existir, eu
sou” (Jo 8, 57-58).
Foi com este
simbolismo brilhante que o quarto evangelho afirmou de modo indiscutível a
divindade de Cristo.
Mas é sobretudo no
Jardim das Oliveiras que João faz questão em afirmar a divindade de Cristo.
No momento da
prisão de Jesus, João afirma de modo solene o poder divino de Cristo, a fim de
sublinhar que a prisão de Jesus não é um acto de fraqueza mas um acto de amor a
Deus e à Humanidade:
“Judas, então,
guiando o destacamento romano e os guardas ao serviço dos sumo-sacerdotes e dos
fariseus, chegaram munidos de lanternas archotes e armas.
Jesus, sabendo o
que lhes ia a acontecer, adiantou-se e disse-lhes: “Quem buscais?”
Responderam-lhe:
“Jesus o Nazareno”. Disse-lhes ele: “Eu sou” (…).
Logo que Jesus
lhes disse: “Eu sou”, os soldados recuaram e caíram por terra.
Jesus
perguntou-lhes segunda vez: “Quem buscais?” Disseram-lhe: “Jesus o Nazareno”.
Já vos disse que “Eu sou”. (Jo 18, 3-8).
Deus é amor
omnipotente. Mas só pode o que pode o amor.
Deus é amor. Sabe
tudo o que o amor sabe, isto é, dar-se incondicionalmente.
Eis a razão pela
qual Jesus Cristo é preso e morto. Mas o amor vence a morte, por isso
ressuscitou.
De facto, o amor
gera vida e vence a morte!
2- Traços Divinos
de Cristo
Só no evangelho de
João os discípulos reconhecem a divindade de Jesus Cristo. Tomé, depois de ver
o Senhor ressuscitado exclama:
“Meu Senhor e meu
Deus” (Jo 20, 28).
Eis alguns traços
com os quais João tenta afirmar a divindade de Cristo:
*Habitou desde
sempre no Céu junto do Pai.
*Veio de junto do
Pai que está no Céu.
*A sua relação com
o Pai é única e distinta da dos demais homens.
*Ao voltar para
junto do Pai vai enviar-nos o Espírito Santo.
*Os judeus
entendiam bem que ele se estava a equiparar com Deus.
*Cristo conhece
tudo o que o Pai faz.
*Ele é a
ressurreição e a vida.
*É o único que
pode falar correctamente do Pai, pois viveu junto dele desde toda a eternidade.
*Dá a vida e
ressuscita os mortos.
*Ele é o Filho
Unigénito.
Eis alguns textos escritos
para afirmar explicitamente a divindade de Cristo:
Os judeus
recusam-se a vir até Jesus, o caminho que tinham para obterem a vida (Jo 5,
40).
Jesus é o Pão de Deus
que veio do Céu para dar a vida ao mundo (Jo 6, 33).
Ninguém jamais viu
a Deus, excepto o Filho que veio de Deus (Jo 6, 46).
Os discípulos verão
o Filho subir para onde estava antes (Jo 6, 62).
Certo dia Jesus
disse aos judeus que eles são cá de baixo, enquanto ele é lá de cima (Jo 8,
23).
Jesus insiste em
que apenas diz o que viveu e viu junto do Pai (Jo 8, 38).
Após a última
Ceia, Jesus pede ao Pai que o glorifique com a mesma glória que tinha antes do
mundo ser criado (Jo 17, 5).
A origem do Filho
de Deus, portanto, é o Céu, não a Terra.
Pouco antes de
morrer, Jesus declara aos discípulos que veio do Pai e agora, de novo, volta
para o Pai (Jo 16, 28).
O Filho é Deus com
o Pai. Eis a razão pela qual tudo o que o Pai tem é do Filho e tudo o que o
filho tem é do Pai (Jo 17, 10).
No evangelho de
João Jesus define-se como Deus, usando a expressão que Yahvé usou quando disse
a Moisés quem era:
“Moisés disse a
Deus: “Eis que vou ter com os filhos de Israel e lhes digo: o Deus de vossos
pais enviou-me a vós”.
Eles, no entanto,
podem dizer-me: “Qual é o nome dele?” Que lhes direi?”
Deus disse a
Moisés: “Eu sou aquele que sou”. Por isso dirás aos filhos de Israel: “Eu sou,
enviou-me a vós” (Ex 3, 13-14).
Jesus utiliza esta
mesma linguagem para falar da sua condição divina:
“Disseram-lhe,
então, os judeus: “Ainda não tem cinquenta anos e viste Abraão?
Jesus
respondeu-lhes: “Em verdade, em verdade vos digo: Antes de Abraão existir, EU
SOU” (Jo 8, 57-58).
São João dá ao
sentido Filho de Deus o seu sentido mais profundo: o Filho é Deus com o Pai e o
Espírito Santo.
Este salto de
qualidade tem como consequência a modificação do próprio rosto do monoteísmo:
A divindade não é
unipessoal. Deus, sem deixar de ser um é uma comunidade de três pessoas.
O Uno em Deus é a
comunhão. O plural é constituído pelas pessoas da Santíssima Trindade.
Deus é uma família
de três pessoas e as pessoas humanas estão convidadas a fazer parte da Família
divina.