O PECADO COMO FORÇA DE BLOQUEIO
Calmeiro Matias

O Amor é uma dinâmica que faz desabrochar o homem interior que, por ser
pessoal, é livre, consciente, responsável e capaz de comunhão amorosa.
O contrário do amor é o pecado, recusa do ser humano a realizar-se e
crescer como pessoa através do amor.
O pecado gera sempre bloqueios na interioridade da pessoa que peca. Estes
bloqueios condicionam as possibilidades de a pessoa se comunicar amorosamente
com Deus e os outros seres humanos numa dinâmica de amor.
O ser humano começa sempre por ser o que os outros fizeram dele. Ninguém
escolhe a raça, a língua, a cultura ou o século em que queria viver.
As pessoas humanas não são peças de artesanato feitas em série. Cada pessoa
é única, original e irrepetível. As possibilidades de realização que recebemos
dos outros, na linguagem do Evangelho, são os nossos
talentos ou possibilidades. Estes talentos variam de pessoa para pessoa (Mt 25,
14-30).
É dos outros que recebemos as possibilidades de realização humana. Mas
ninguém nos pode substituir na tarefa da nossa realização.
As nossas acções, quer positivas quer negativas, têm consequências pessoais
e consequências históricas.
As consequências pessoais positivas são a realização e crescimento pessoal
resultado do nosso agir na linha do amor. As consequências pessoais negativas
são os bloqueios interiores que resultam das nossas recusas de amor. Estes
bloqueios limitam as nossas possibilidades de comunicarmos em dinâmica de amor
e comunhão com os outros.
As consequências sócio-históricas do nosso agir
podem ser positivas ou negativas. As positivas são os ritmos humanizantes que
vamos inscrevendo no tecido social através do bem que fazemos. Estes ritmos
formam um entretecido de possibilidades de humanização activas no tecido
social.
As consequências negativas do nosso agir, pelo contrário, são os ritmos
negativos que resultam das nossas recusas de amor e que provocam bloqueios no
tecido social.
Estes bloqueios limitam a humanização da sociedade, mesmo depois da nossa
morte. Estes ritmos negativos estruturam-se como forças desumanizantes
em estruturas sociais: associações, grupos de pressão, instituições, forças
organizadas para oprimir explorar ou roubar.
O drama dos bloqueios produzidos pelas recusas de amor não é difícil de
entender se olharmos, por exemplo, para um casal. Sabemos bem como as recusas
de amor dos esposos bloqueiam as suas capacidades de relacionamento e comunicação
amorosa.
Estes bloqueios interiores podem ir até ao extremo de gerar uma situação de
morte relacional: a comunicação torna-se impossível e os esposos já nem são
capazes de se olhar nos olhos.
Sabemos que o ser humano se realiza através de relações de amor. Bloquear
estas relações é bloquear a realização pessoal. As consequências sociais das
nossas recusas de amor vão afectar os outros, tal como as consequências
pessoais nos afectam a nós. Por isso, face ao pecado, a pessoa pode estar em
situação de vítima ou de culpada.
Estar em situação de vítima, face ao pecado, significa sofrer as
consequências do pecado sem dele ter culpa. Estar em situação de culpado
significa sofrer as consequências do seu próprio pecado. A primeira vítima do
pecado é sempre o próprio pecador
As consequências sociais do pecado limitam o leque de possibilidades ou
talentos dos outros. Por seu lado, as consequências pessoais do nosso pecado
provocam bloqueios no nosso interior, que são como que rasgões na nossa
identidade pessoal.
Este rasgão da própria identidade significa uma não correspondência entre
os possíveis ou talentos que recebemos dos outros e a realização pessoal que
decidimos atingir.
A pessoa faz-se através de opções, decisões e realizações na linha do amor.
Por outro lado, ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado. É o amor dos
outros que nos capacita para amar.
Mas o amor não se impõe. Uma pessoa amada em densidade cinco pode
recusar-se a amar nessa mesma densidade.
Do mesmo modo, uma pessoa vítima de muitas recusas de amor, pode estar a
dar o melhor de si, apesar das muitas cabeçadas, distorções e tensões que
provoca à sua volta.
De tudo isto podemos deduzir como é grande a sabedoria do mandamento
evangélico que nos proíbe julgar os outros. Este princípio não significa que
devamos fechar os olhos ao mal. A sociedade deve defender-se de tudo aquilo que
punha em perigo a vida e os valores fundamentais. O que o Evangelho quer dizer
é que face ao mal praticado por uma pessoa, nunca podes saber se esta pessoa é
má ou vítima do mal.
De facto, a lei do amor é esta: “Ninguém é capaz de amar, antes de ter sido
amado e o mal amado amará sempre mal, mesmo quando dá o melhor de si”.
Amar mal significa, neste contexto, que a pessoa ama com condicionamentos,
bloqueios, limitações ou perversões, sem disso ser culpada.
Como vemos, a dimensão ética do ser humano é a capacidade que este tem de
se realizar numa linha de fidelidade ao amor. O sucesso ou insucesso de uma
realização humana passa sempre pelo amor. Por outras palavras, assim como a
componente básica da nossa vida corporal é a água, a componente básica da nossa
vida pessoal-espiritual são as relações de amor.
Sem água o corpo morre. Sem contexto relacional amoroso, a pessoa fica em
estado de morte. A situação de inferno não é mais que o estado de uma pessoa
que, por opção pessoal, se estruturou numa linha de recusa total ao amor.
O estado de inferno é a situação de solidão total e definitiva a que pode
chegar uma pessoa que, através de decisões, opções e comportamentos, se
estruturou de modo sistemático e incondicional, em situação de oposição ao
amor.
Mas não podemos esquecer que apenas há pecado quando é possível responder
amorosamente a uma situação concreta e dizemos não. Ninguém peca sem querer.
Uma pessoa que ama mal, por ter sido mal amada, é vítima e não culpada.
É nesta perspectiva que devemos entender o pecado de Adão, também chamado
pecado original, cuja verdade essencial é esta: “Todos os seres humanos, ainda
antes de serem pecadores, são vítimas do pecado”. Mas não da mesma maneira e em
grau igual.
Com efeito, as pessoas são possibilitadas pelos outros, mas não em igual
densidade. Por isso os talentos variam. Do mesmo modo, os seres humanos são
todos condicionados pelos outros e condicionantes em relação aos demais. Mas
não todos de modo igual. Os talentos, tal como os condicionamentos, variam de
pessoa para pessoa. Como já afirmámos acima, não somos seres feitos em série.
Como vemos, o pecado é uma força totalmente contrária ao amor e, como consequência,
à realização humana. Face a esta realidade, compreendemos a importância
decisiva do amor e a gravidade fundamental do pecado.
Não exageramos nada se dissermos que o amor é o coração e a origem do
Universo. Como sabemos, Deus é amor (1 Jo 4, 16). Quem ama sintoniza com Deus e
atinge a plenitude no mesmo Deus.
Vejamos a este propósito o que diz a primeira Carta de São João:
“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. Aquele que
ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não
conheceu a Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8).
O pecado é uma força bloqueadora do processo histórico da humanização cuja
lei é: “Emergência pessoal-espiritual mediante relações de amor e convergência
para a comunhão universal”.
Esta comunhão universal, em linguagem cristã, chama-se Reino de Deus ou
comunhão humano-divina. É um dom que resultou da Encarnação do Filho de Deus. O
mistério da Encarnação significa o enxerto da Divindade na Humanidade, a fim de
a Humanidade ser divinizada.
Não é difícil concluir que o pecado atinge o Homem no seu próprio coração.
É, como dissemos acima, uma recusa do ser humano a realizar-se e crescer como
pessoa mediante relações de amor. O pecado é capaz de provocar o malogro e o
fracasso de uma pessoa. E como Deus não manipula o Homem, o pecado é sempre uma
possibilidade em aberto.