O
NOSSO SUMO-SACERDOTE É JESUS CRISTO
CALMEIRO MATIAS

a)O Sacerdócio
Messiânico no Antigo Testamento
b) O Sacerdócio de
Cristo, Superior ao dos Levitas
c) Sacerdócio de
Cristo e Salvação da Humanidade
a) O Sacerdócio Messiânico
no Antigo Testamento
A primeira profecia messiânica foi dirigida ao
rei David pelo profeta Natã cerca do ano mil antes de Cristo (2 Sam 7, 12-16).
Surge num contexto
relacionado com a construção do templo.
David conquista a
cidade de Jerusalém e faz dela a capital do Reino.
Como não existia
templo na cidade, o rei pensa na hipótese de iniciar a construção de um templo.
O rei construiu o
palácio real e instalou-se nele. Agora pensa em construir uma morada para Deus.
David não quis
iniciar o seu plano sem consultar antes o profeta Natã:
“Quando o rei se
instalou no seu palácio, Deus deu-lhe paz, livrando-o dos seus inimigos.
Então David disse
ao profeta Natã:
“Como vês, moro
num palácio de Cedro, enquanto a Arca da Aliança está abrigada numa tenda.
O profeta Natã
disse ao rei: “pois bem, faz o que te dita o coração, pois o Senhor está
contigo!”.
Mas naquela mesma
noite, o Senhor falou a nata dizendo-lhe: “Vai dizer ao meu Servo David: “És tu
quem me vai construir uma casa para eu habitar?” (2 Sam 7, 1-5).
David estava longe
de imaginar o que Deus tinha para lhe
dizer:
“Quando chegares
ao fim dos teus dias e te juntares aos teus antepassados, suscitarei para ti um
descendente, o qual vai nascer de ti e consolidarei o seu reino.
Será ele que vai construir
um templo ao meu nome e eu consolidarei o seu trono real.
Eu serei para ele
um pai e ele será para mim um filho.
Se cometer alguma
falta hei-de corrigi-lo com vara de homens e com açoites.
Mas não lhe
tirarei a minha graça como fiz a Saul, a quem afastei diante de ti.
A tua casa e o teu
reino permanecerão para sempre diante de mim, e o teu trono estará firme para
sempre” (2 Sam 7, 12-16).
David pensou que a
profecia se referia ao seu filho Salomão.
David preparou
Salomão no sentido de fazer da construção do templo a sua primeira realização.
E Salomão actuou
de acordo com as directrizes de seu Pai, como ele mesmo confessa no dia da
inauguração do templo:
“Depois Salomão
colocou-se diante do altar do Senhor, em frente a toda a assembleia de Israel.
Depois, levantando
as mãos para o Céu disse: “Senhor, Deus de Israel, não há Deus semelhante a ti,
nem no méis alto dos Céus, nem cá em baixo na terra.
Tu guardas a tua
misericordiosa Aliança para com os servos que, de todo o coração, caminham na
tua presença.
Tu cumpriste
sempre as tuas promessas, para com o teu servo David, meu pai.
O que disseste com
a tua boca o realizaste com a tua mão como hoje se vê.
Agora, Senhor,
Deus de Israel, realiza as promessas que fizeste ao teu servo David, meu pai,
quando lhe disseste: “nunca mais deixará de sentar-se no trono de Israel e na
minha presença, algum descendente teu, desde que caminhem na minha presença.
Que agora se
cumpra, Senhor, Deus de Israel, a promessa que fizeste ao teu servo David, meu
pai” (1 Rs 8, 22-26).
A profecia de Natã
garante a David que o seu descendente será um filho de Deus:
“Eu serei para ele
um pai e ele será para mim um filho” (2 Sam 7, 14).
Salomão e os seus
descendentes ficam com as funções de sumo-sacerdotes.
Depois de colocada
a Arca no Santuário, a glória de Deus, oculta numa nuvem, encheu o templo,
razão pela qual os sacerdotes não puderam realizar o ministério sacerdotal (1
Rs 8, 10-11).
Nesse momento
Salomão assume as funções de Sumo-sacerdote:
“Depois o rei
voltou-se para a assembleia de Israel, abençoou a assembleia dos filhos de
Israel que se mantinha de pé” (1 Rs 8, 14).
Logo a seguir,
Salomão colocou-se diante do altar do Senhor, perante toda a assembleia de
Israel, levantou as mãos para o Céu e disse:
“Senhor Deus de
Israel, não há Deus semelhante a ti, nem no mais alto dos Céus, nem cá em baixo
na terra” (1 Rs 8, 22-23).
A associação do
Messias como membro da casa de David e, ao mesmo tempo, filho de Deus, vai
permanecer ao longo de todo o Antigo Testamento e ocupa um lugar central no
novo Testamento.
Lucas faz esta
associação no texto da anunciação do anjo a Maria:
“Ele será grande e
chamar-se-à Filho do Altíssimo. Vai herdar o trono de seu pai David e reinará
eternamente sobre a casa de Jacob” (Lc 1, 32-33).
São Paulo, na Carta
aos Romanos vê a ressurreição de Jesus como o dia em que Jesus, filho de David,
é entronizado no Céu como Filho de Deus (Rm 1, 3-5).
Sempre que um
príncipe da casa de David subia ao trono, era proclamado o salmo 2 o qual
lembrava ao novo rei a sua condição de filho de Deus:
“Fui eu que
consagrei o meu rei sobre o meu monte santo de Sião!
Vou anunciar o
decreto do Senhor.
Ele disse-me: “Tu
és meu filho, hoje mesmo te gerei” (Sal 2, 6-7).
Logo a seguir era
proclamado o salmo 110, o qual lembrava ao rei que a sua unção real o
constituía sumo-sacerdote.
O rei não era
sacerdote segundo a ordem dos levitas, os quais ficaram impedidos de realizar o
culto perante a majestade do Senhor oculta na sombra.
Com efeito, David
e Salomão não pertenciam á tribo de Levi, mas sim à tribo de Judá.
O salmo 110
lembrava ao rei que o seu sacerdócio era real e não meramente cultual como o
sacerdócio dos levitas:
“Tu és sacerdote
para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sal 110, 4).
O rei Melquisedec,
diz o livro do Génesis, era rei de Salém e Sacerdote do Deus Altíssimo, ao qual
Abraão pagou o dízimo (Gn 14, 18-19).
O pagamento do
dízimo significa que Abraão reconheceu que as bênçãos de Deus vêem sobre ele e
seus descendentes através do rei de Salém, antigo nome de Jerusalém.
Os filhos de
David, sumo-sacerdotes e filhos de Deus.
O Salmo 110 lembra
ao príncipe que acaba de ser constituído como rei e sumo-sacerdote.
Ao mesmo tempo,
repetindo o que diz o salmo 2, acaba de ser gerado como filho de Deus no
esplendor do templo onde acontece a unção real e sacerdotal:
“Disse Deus ao meu
Senhor (o rei): “Senta-te á minha direita, e eu farei dos teus inimigos um
estrado para os teus pés (…).
A tua família é de
nobres desde o dia em que nasceste no esplendor do santuário, tal como o
orvalho é gerado nas entranhas da madrugada, assim eu te gerei.
O Senhor jurou e
não volta atrás: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec”
(Sal 110, 1. 4).
Os profetas, na
sua maioria, reforçam esta linha de pensamento.
Isaías vê o Messias
a brotar como um rebento do tronco de Jessé, o Pai de David.
Graças à plenitude
do Espírito Santo que o habita, o Messias vai corrigir as desordens deste mundo
marcado pela violência fratricida.
Num texto de
beleza extrema, Isaías, sonha o mundo novo que vai surgir graças à acção do
Messias:
“Brotará um
rebento do tronco de Jessé,
E um renovo
brotará das suas raízes.
Sobre ele
repousará o Espírito do Senhor:
Espírito de
sabedoria e de entendimento,
Espírito de
Conselho e de fortaleza,
Espírito de Ciência
e de temor do Senhor.
Não julgará pelas
aparências nem proferirá sentenças apenas pelo que ouvir dizer.
Julgará os pobres
com justiça,
E com equidade os
humildes da terra (…).
A justiça será o
cinto dos seus rins,
E a lealdade
circundará os seus flancos.
Então o lobo
habitará com o cordeiro,
E o leopardo
deitar-se-à ao lado do cabrito.
O novilho e o leão
comerão juntos,
E um menino os
conduzirá.
A vaca pastará com
o urso,
E as suas crias
repousarão juntas.
O leão comerá
palha com o boi.
A criancinha
brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da
serpente.
Não haverá dano
nem destruição no meu Monte Santo,
Pois a terra está
cheia da sabedoria do Senhor” (Is 11, 1-9).
Com o
enfraquecimento da monarquia, a ideia do sacerdócio real segundo a ordem de
Melquisedec vai-se diluindo.
Os sacerdotes
levitas aproveitam-se da fragilidade real para reivindicarem as funções de
sumo-sacerdote para o ministério do culto no templo.
Com a queda da
monarquia ideia do sacerdócio real segundo a ordem de Melquisedec é esquecida.
Jeremias vê o
rebento de David a restaurar a paz e a justiça em Jerusalém, após o regresso do
cativeiro de Babilónia.
As suas funções
são exclusivamente reais, não sacerdotais:
“Dias virão em que
farei brotar de David um rebento justo que será rei e governará com sabedoria.
Exercerá no país o
direito e a justiça, oráculo do Senhor.
Nos seus dias Judá
será salvo e Israel viverá em segurança (…).
Eis que chegarão
dias, oráculo do Senhor, em que já não se dirá:
“Viva o Senhor que
libertou Israel do Egipto”, mas sim:
“Viva o Senhor que
tirou e reconduziu a linhagem de Israel do país do Norte (Babilónia) e de todos
os países nos quais os tinha dispersado, fazendo-os habitar na sua terra” (Jer
23, 5-6).
Zacarias vê dois Messias
entronizados: o rei e o Sumo-sacerdote levita.
Por um lado vê o
filho de David, o gérmen, a edificar o Templo do Senhor exercendo, ao mesmo
tempo, as funções reais.
Mas, ao mesmo
tempo, vêm o Sumo-sacerdote como um personagem diferente do rei.
Isto significa que
do rei Sumo-sacerdote já estava totalmente esquecida.
O ideal, Segundo
Zacarias, é que exista cooperação e paz entre os dois ungidos (Messias):
“Assim fala o
Senhor do Universo:
“Eis o homem cujo
nome é Gérmen,
Do qual brotará a
germinação.
Ele reconstruirá o
templo do Senhor.
Sim é ele que vai
edificar o templo do Senhor e usar as insígnias reais.
Como soberano
sentar-se-á no seu trono.
Haverá também um
sacerdote no seu trono.
Entre ambos
existirá uma paz perfeita” (Zac 6, 12-13).
O profeta é ainda
mais explícito a este respeito:
“
Mas os profetas
começaram a denunciar os cultos e sacrifícios realizados pelos sacerdotes
levitas:
Estes cultos, diz
o profeta Isaías, repugnam a Deus, pois aqueles que os oferecem são pessoas
injustas que exploram os pobres e desprotegidos. O que agrada a Deus é a
justiça e o amor (Is 1, 10-19).
O salmo 40 insiste
em que a Deus não lhe interessam os cultos e sacrifícios, mas sim que as
pessoas oiçam a Palavra de Deus (Sal 40 7-8)
O profeta Jeremias
denuncia os sacerdotes que não passam de falsos pastores que exploram as
ovelhas. Deus vai punir estes pastores e vai suscitar um pastor justo, o qual
sairá da casa de David (Jer 23, 1- 6).
Também denuncia
aqueles que praticam a injustiça e depois vêm ao templo pensando encontrar ali
a salvação.
Procedendo deste
modo estão a fazer do Templo um covil de ladrões e do culto uma manifestação de
mentira e da falsidade (Jer 7, 4-11).
Com a experiência
pascal, os discípulos começam a anunciar Cristo ressuscitado e entronizado à
direita de Deus.
O Novo testamento
redescobre o sacerdócio real, o qual, segundo acentua a Carta aos Hebreus, é
muito superior ao sacerdócio cultual dos sacerdotes levitas, o qual não tem
qualquer poder para realizar a salvação:
“Por isso, ao
entrar no mundo, Cristo diz:
“Não te agradaram
os holocaustos nem os sacrifícios pelos pecados.
Então eu disse:
“Eis que venho,
Como está escrito
de mim no livro,
Para fazer,
Ó Deus,
A tua vontade (…).
Suprime assim o primeiro
culto para instaurar o segundo” (Heb 10, 5-9).
b) O Sacerdócio de
Cristo, Superior ao dos Levitas
Jesus Cristo nunca
teve qualquer pretensão a exercer funções sacerdotais no Templo. Jesus era um
leigo, não um clérigo.
No evangelho de
João aparece Jesus a \dizer à Samaritana que Deus quer um culto realizado em
espírito e verdade e não os cultos do templo (Jo 4, 21-24).
A Carta aos
Hebreus acentua que o sacerdócio da Nova e Eterna Aliança é o portador das
bênçãos prometidas a Abraão.
Jesus Cristo ressuscitado,
o nosso Sumo-sacerdote, é superior a todos os medianeiros da Antiga Aliança:
É superior aos
profetas e aos anjos:
“Muitas vezes e de
muitos modos, Deus falou nos tempos antigos aos nossos pais, por meio dos
profetas.
Nestes dias, que
são os últimos, Deus falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu
herdeiro de todas as coisas e por meio de que fez o mundo.
O filho é o
resplendor da glória do Pai, a imagem fiel do seu ser, o qual sustenta todas as
coisas com a sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação do
pecado, sentou-se à direita da majestade de Deus nas alturas.
Ele é tanto mais
superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança.
Com efeito, a qual
dos anjos Deus disse alguma vez: “ Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei?” E
ainda: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho?” (Heb 1, 1-5).
Entronizado à
direita de Deus como rei e Sumo-sacerdote, Jesus é medianeiro de uma Aliança
muito superior à Aliança que fez com Moisés:
“Considerai Jesus
como Apóstolo e o sumo-sacerdote da Fé que professamos.
Ele é fiel àquele
que o constituiu, tal como Moisés foi fiel em toda a casa de Deus.
Mas Jesus foi
considerado mais digno de glória do que Moisés (…).
Na verdade, Moisés
foi fiel em toda a casa de Deus enquanto servo, a fim de prefigurar tudo aquilo
ia ser anunciado.
Cristo, porém, foi
fiel sobre a casa de Deus que somos todos nós” (Heb 3, 1-6).
Jesus é superior a
Aarão o pai do sacerdócio levítico. O sacerdócio de Aarão é um ofício meramente
cultual.
O sacerdócio de
Cristo é real, por isso lhe é concedido por ser o Filho de Deus, aquele que se
senta à direita da majestade divina no Céu:
“Todo o
Sumo-sacerdote tomado de entre os homens é constituído em favor dos homens, nas
coisas que dizem respeito a Deus, a fim de oferecer dons e sacrifícios pelos
pecados.
Pode compadecer-se
dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza.
Por isso oferece
sacrifícios, tanto pelos seus pecados como pelos pecados do povo.
E ninguém tomou para
si esta honra, mas apenas o que foi chamado por Deus como Aarão.
Assim também
Cristo não se atribuiu a glória de se tornas Sumo-sacerdote.
Esta glória
foi-lhe atribuída por aquele que lhe disse:
“Tu és meu Filho,
hoje mesmo te gerei”. E ainda: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de
Melquisedec” (…).
Apesar de ser
Filho, teve de aprender a obediência pelo sofrimento.
Uma vez atingida a
perfeição, tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna ao
ser proclamado por Deus Sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedec” (Heb 5,
1-10).
Com Cristo morto e
ressuscitado consumou-se a Nova e Eterna Aliança, a qual é muito superior à
Antiga.
A Nova Aliança
está alicerçada em promessas muito melhores (Heb 8, 7-13).
Realiza-se num
santuário muito superior ao antigo santuário de Jerusalém (Heb 9, 1-28).
Por seu lado, o
novo sacrifício é muito superior aos antigos.
Este novo
sacrifício é constituído pela fidelidade incondicional de Cristo á missão que o
Pai lhe confiou. Jesus era da tribo de Judá, não da tribo de Aarão.
Isto quer dizer se
o seu serviço não tem nada a ver com o sacerdócio cultual.
A sua missão
encontrou uma feroz resistência. Mas Jesus, por ser incondicionalmente fiel,
foi fiel até ao fim, sofrendo a morte violenta da cruz.
Deste modo
ofereceu um sacrifício infinitamente superior aos antigos sacrifícios de touros
e cabritos. Todas estas ideias aparecem muito bem sintetizadas no seguinte
texto:
“O ponto principal
do que estamos a dizer é este: “Temos um sumo-sacerdote que se sentou nos Céus
à direita da Majestade divina como ministro do santuário e da verdadeira tenda,
construída por Deus e não pelo homem (…).
Se Cristo
estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, pois já existem aqueles que
oferecem os dons segundo a Lei.
Estes sacerdotes
realizam um culto que é uma imagem e uma sombra das realidades celestes, tal
como foi revelado a Moisés que estava a planear a construção da tenda (…).
Se a primeira
Aliança tivesse sido perfeita não havia lugar para uma segunda” (Heb 8, 1-7).
Jesus ressuscitado
é o nosso Sumo-sacerdote por eleição de Deus e não por pertencer à tribo dos
sacerdotes:
“Se a perfeição
tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico, que necessidade havia de que
surgisse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a ordem
de Aarão?
Jesus pertence a
outra tribo, da qual nenhum membro fez o serviço do altar.
É claro que o
Senhor pertence á tribo de Judá, tribo acerca da qual Moisés nada disse a
propósito de sacerdotes (Heb 7, 11-14).
Cristo foi
constituído Sumo-sacerdote pela sua ressurreição, isto é, por uma vida imortal:
“Ele foi
instituído não segundo o mandamento de uma lei humana, mas segundo o poder de
uma vida imortal.
Na verdade, dele
se testemunha:
“Tu és sacerdote
para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (Heb 7, 16-17).
Pela sua
ressurreição, Jesus Cristo sentou-se à direita de Deus onde realiza para sempre
a sua missão de sumo-sacerdote real.
O Novo Testamento afirma
várias vezes que Jesus ressuscitado, sentado à direita de Deus é o medianeiro
da Salvação:
“O Sumo-sacerdote
voltou a interrogá-lo: “És tu o Messias, o Filho de Deus Bendito? Jesus
respondeu: Sou eu. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder e vir
sobre as nuvens do céu” (Mc 14, 61-62).
Pela sua Ascensão,
Jesus subiu ao céu, diz o evangelho de marcos e sentou-se à direita de Deus:
“Então o Senhor
Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se á direita
de Deus” (Mc 16, 19).
Os Actos dos
Apóstolos dizem que Jesus, pela sua ressurreição é elevado à direita de Deus e
torna-se o Chefe e salvador de todos:
“O Deus de nossos
pais ressuscitou Jesus, a quem matastes, suspendendo-o num madeiro.
Foi a ele que Deus
elevou, com a sua direita, como Chefe e Salvador, a fim de conceder a Israel o
arrependimento e a remissão dos pecados” (Act 5, 30-31).
Estas são algumas
das principais características do nosso Sumo-sacerdote e do culto da Nova
Aliança que consiste em fazer a vontade de Deus:
“Ao entrar n
mundo, Cristo diz: “Tu não quiseste sacrifício nem oferenda (…). Não te
agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados.
Então eu disse:
“Eis que venho como está escrito no livro a meu respeito, para fazer, ó Deus, a
tua vontade (…).
Suprime, assim, o
primeiro culto, para instaurar o segundo” (Heb 10, 5-9).
Este culto,
segundo o evangelho de João acontece em espírito e verdade:
“Jesus disse à
Samaritana: “Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que nem neste monte
(templo dos Samaritanos), nem em Jerusalém (templo dos judeus) haveis de adorar
o Pai (…).
Mas vai chegar a
hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em
Espírito e verdade, pois são estes os adoradores que o pai pretende.
Deus é Espírito.
Por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 21- 24).
Este Novo culto
pressupõe um novo templo, o qual nada tem a ver com o anterior:
O templo de
Jerusalém foi feito pela mão do Homem. Ora, como Salomão disse logo no dia da
inauguração do templo, Deus não habita em templos feitos pela mão do homem:
“Mas será que Deus
poderia habitar neste lugar, sobre a terra? Se em os céus te podem conter,
quanto mais este templo que eu edifiquei?” (1 Rs 8, 27).
Também o mártir
Santo Estêvão, pouco antes de ser martirizado, declara aos judeus que Deus não
habita em templos feitos pela mão do homem:
“Mas o Altíssimo
não habita em casas feitas pela mão do Homem” (Act 7, 48).
O mesmo diz São
Paulo no discurso que fez no Areópago de Atenas:
“O Deus que criou
o mundo e tudo quanto nele existe, Ele, que é o Senhor do céu e da terra, não
habita em santuários construídos pela mão do Homem” (Act 17, 24).
São Paulo diz que
Jesus está sentado à direita do Pai intercedendo por nós:
“Jesus que morreu,
mais, que ressuscitou, que está sentado à direita de Deus intercedendo por nós”
(Rm 8, 34).
Os Actos dos
Apóstolos dizem que o mártir Santo Estêvão, no momento em que estava a ser
martirizado, declarou estar a ver Jesus sentado à Direita de Deus Pai” (Act 7,
55-56).
A Carta aos
Hebreus diz que pela sua ressurreição, Jesus sentou-se no céu, o verdadeiro
santuário onde Deus habita e que não foi construído pela mão do Homem:
“ Mas Cristo veio
como Sumo-sacerdote dos bens futuros, através de uma tenda maior e mais perfeita,
a qual não foi feita pela mão do homem, isto é, não pertence a este mundo
criado.
Entrou uma só vez
no Santuário, não com o sangue de carneiros ou vitelos, mas com o seu próprio
sangue, tendo obtido uma redenção eterna” (Heb 9, 11-12).
E ainda:
“Na realidade,
Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro
santuário, mas entrou n próprio céu para se apresentar agora diante de Deus e
interceder em nosso favor” (Heb 9, 24).
O nosso
Sumo-sacerdote foi investido nas suas funções pela sua ressurreição.
A sua missão no
céu, não na terra. Daqui se deduz claramente que o seu sacerdócio messiânico
nada tem a ver com o sacerdócio cultual do levitas:
“Temos um
Sumo-sacerdote que se sentou nos céu à direita do trono de Deus” (Heb 8, 3).
E ainda:
“Se Cristo
estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, pois já existem cá os que
oferecem os dons segundo a Lei.
Estes prestam um
culto que é apenas uma imagem e uma sobra da realidade celeste, tal como foi
revelado a Moisés quando estava a construir a Arca” (Heb 8, 4-5; cf. Ex 25,
40).
Falando deste
mediação de Cristo como medianeiro da salvação São Paulo diz:
“Há um só Deus e
um só medianeiro entre Deus e o Homem, Jesus Cristo, Homem” (1 Tim 2, 5).
Como medianeiro,
Jesus era rei. Mas não pretendeu ser rei à maneira dos filhos de David.
Como medianeiro
entre Deus e o Homem também era sacerdote.
Mas não pretendeu
ser sacerdote à maneira dos levitas.
Nunca pretendeu
exercer funções sacerdotais no templo.
Jesus
compreendia-se a si mesmo como rei e Sumo-sacerdote, mas não na linha dos reis
da casa de David nem dos sacerdotes da casa de Levi.
Jesus entendia-se
na linha de Melquisedec, rei e sacerdote do Deus Altíssimo, o qual foi o
portador das Bênçãos de Deus para Abraão (Gn 14, 18).
Como rei e
sacerdote messiânico, Jesus é o medianeiro de uma Nova Aliança (Heb 9,15; 12,
24).
Na ceia pascal,
Jesus escolheu o pão e o vinho e não o cordeiro pascal para celebrar a Páscoa
da N
Isto quer dizer
que Jesus se ligou ao sacerdócio real de Melquisedec.
No momento em que
comunicou as bênçãos de Deus a Abraão, Melquisedec não ofereceu a Deus um
cordeiro imolado, mas um sacrifício de pão e vinho (Gn 14, 18-19).
Isto indica que
Jesus tinha consciência de ser o portador das bênçãos de Deus para todas as
famílias de Terra, como deus tinha prometido a Abraão (Gn 12, 3).
Ao escolher o pão
e o vinho para celebrar a Páscoa da Nova Aliança, Jesus tinha plena consciência
de ser o Sumo-sacerdote Messiânico, o qual vinha conduzir à plenitude o plano
salvador de Deus.
Os sacerdotes
Levitas eram homens mortais. Por isso eram muitos, a fim de se poderem suceder
uns aos outros.
Cristo, pelo
contrário, foi constituído Sumo-sacerdote por uma vida imortal.
Eis a razão pela
qual Jesus não precisa de ser substituído por outros sacerdotes, pois foi
constituído Sumo-sacerdote por uma vida imortal:
“O Senhor jurou e
não se arrependerá: “Tu és sacerdote para sempre”.
Eis a razão pela
qual Jesus se tornou o garante de uma Aliança superior.
Os sacerdotes levitam
eram numerosos porque a morte os impedia de continuar.
Mas Cristo, em
virtude de permanecer eternamente, possui um sacerdócio que não acaba.
Por esta razão,
Cristo pode salvar de modo definitivo, o que por meio dele se aproximam de
Deus, pois ele está vivo para sempre, a fim de interceder por todos” (Heb 7,
20-25).
A esta luz, o
ministério na Igreja não deve ser entendido como uma função sacerdotal de tipo
cultual.
O ministério é
fundamental para a edificação da comunidade cristã, mas não para oferecer
cultos e sacrifício para aplacar Deus e obter o perdão para os pecados do povo.
A Carta aos
Hebreus diz que na Nova aliança isto já não tem mais sentido:
“Esta é a aliança
que estabelecerei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: “Porei as minhas
leis nos seus corações e gravá-las-ei nas suas mentes.
Não voltarei a
recordar-me dos seus pecados nem das suas iniquidades”.
Ora, onde há
perdão dos pecados, já não há necessidade para oferenda dos pecados” (Heb
10,16-18).
Jesus, rei e
Sumo-sacerdote constituiu a Igreja como povo sacerdotal, isto, é corpo de
Cristo ou mediação de comunicação da Palavra de deus para o mundo:
“Jesus Cristo é a
testemunha fiel, o primeiro vencedor da morte e o Soberano dos reis da terra.
Ele ama-nos e
purificou-nos dos nossos pecados com o seu sangue, fazendo de nós um reino de
sacerdotes para Deus seu Pai” (Apc 1, 5-6).
A Primeira Carta
de Pedro vai nesta mesma linha quando diz:
“Vós porém, sois
povo eleito, sacerdócio real, nação santa, um povo adquirido, a fim de proclamardes
as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1 Pd
2, 9).
c) Sacerdócio de
Cristo e Salvação da Humanidade
Como rei e
Sumo-sacerdote Messiânico, Jesus ressuscitado tornou-se fonte de salvação
eterna para os que obedecem:
“Tornou-se para
todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna, pois foi proclamado por
Deus Sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedec” (Heb 5, 9-10o).
A primeira Carta
de São João diz que o papel de Jesus como nosso salvador consiste em estar junto
do Pai como um advogado que intercede constantemente em nosso favor:
“Filhinhos.
Escrevo-vos estas coisas, a fim de não pecardes.
Mas se alguém
pecar fique sabendo que temos junto do Pai um advogado, Jesus Cristo, o Justo.
Ele é a vítima que
expia os nossos pecados. E não somente os nossos mas os do mundo inteiro” (1 Jo
2, 1-2).
Jesus é o Cristo,
isto é, o ungido. Deus ungiu-o com o Espírito Santo, a fim de realizar a sua
missão em favor de todos os que sofrem, inaugurando, deste modo, a plenitude
dos tempos. É por esta unção que ele se tornou nosso rei e Sumo-sacerdote.
Num dia de sábado,
Jesus foi à sinagoga de Nazaré. No momento da leitura, Jesus levantou-se para
ler.
Entregaram-lhe o
rolo do profeta Isaías. Jesus, desenrolando-o deparou com a passagem em que
está escrito:
“O Espírito do
Senhor está sobre mim,
Porque me ungiu
para anunciar a boa Nova aos pobres.
Enviou-me a
proclamar a libertação aos cativos,
A recuperação da
vista aos cegos,
A mandar em
liberdade os oprimidos.
Enviou-me a mandar
em liberdade os oprimidos e a proclamar o ano favorável da parte do Senhor”.
Depois enrolou o
livro,
Entregou-o ao
responsável,
E sentou-se.
Todos os que
estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.
Jesus começou
então a dizer-lhes:
“Cumpriu-se hoje
esta Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 18-21).
Foi assim que
Jesus tomou consciência da sua missão messiânica de rei que nada tinha a ver
com os filhos de David e de Sumo-sacerdote que nada tinha a ver com os levitas.
Foi ungido pelo
Espírito Santo durante a sua vida terrena, mas só entrou plenamente em funções
com a sua ressurreição, como diz Paulo:
“Filho de David
segundo a carne, constituído Filho de Deus com todo o seu poder, pelo Espírito
Santificador, mediante a sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo,
Senhor nosso” (Rm 1, 3-4).
Em resumo podemos
dizer que Jesus Cristo ressuscitado é o nosso rei e Sumo-sacerdote Messiânico.
Isto significa que
por ele e graças a ele nos foi concedido um medianeiro que nos proporciona um
novo jeito de nos relacionarmos com Deus:
Graças a Jesus
Cristo podemos comunicar com Deus em clima de total confiança, pois ele é o
nosso Sumo-sacerdote que, no céu, está sentado à direita de Deus, intercedendo
permanentemente em nosso favor.
São Paulo diz que,
em Cristo morto e ressuscitado, Deus nos reconciliou consigo, não levando mais
em conta os nossos pecados. Por isso Deus pôs nos nossos lábios uma mensagem de
reconciliação (2 Cor 5, 18-19).
Podemos
relacionar-nos com Deus de modo pessoal. Não precisamos de uma sistema sacerdotal
para que nos substitua na nossa relação e comunhão com Deus.
São Mateus diz que
no momento da morte de Jesus se rasgou o véu do templo, isto é, a cortina que
separava o povo da comunicação directa com Deus no Santo dos Santos.
Este texto quer dizer
que Jesus estabeleceu a comunicação directa com Deus, não sendo preciso
intermediários que substituam as pessoas:
“E Jesus, clamando
com voz forte, expirou. Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a
baixo” (Mt 27, 50-51).
Agora podemos
relacionar-nos com Deus em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois a presença
de Deus acontece no nosso coração.
O templo não
oferece qualquer garantia de comunhão com Deus. Jesus não deixou quaisquer
dúvidas a este respeito:
Um dia Jesus aos
judeus:
“Destruí este
templo e eu, em três dias o levantarei. Disseram-lhe os judeus: “Foram precisos
quarenta e seis anos para construir este templo e tu vais levantá-lo em três
dias?” Ele porém, falava do templo do seu corpo” (Jo 2, 19-21).
Aos discípulos que
admiravam a grandiosidade do templo, Jesus disse: “Não ficará pedra sobre
pedra” (Mt 24, 1-3).
E tudo isto como
disse o diácono Estêvão no momento do seu martírio, Deus não habita em templos
feitos pela mão do homem (Act 7, 48; cf. 17, 24).
Eis a razão pela
qual a Carta aos Hebreus acrescenta que Cristo atravessou uma tenda maior e
mais perfeita que não é obra de mãos humanas, isto é, não pertence a esta
criação” (Heb 9, 11-12).
São Paulo resume
toda esta doutrina de modo muito bonito:
“Nós é que somos o
templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus: “habitarei e caminharei no meio
deles. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6, 16).
Noutra passagem,
São Paulo acrescenta:
“Não sabeis que
sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 9).
Uma vez que Deus
não habita em templos feitos pela mão do Homem e se Jesus é o Messias anunciado
a David, então tem de ser o construtor do templo onde Deus habita, como foi
prometido a David
A Primeira Carta
de Pedro responde a esta questão de modo muito claro:
“Também vós, como
pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual, o qual está em
função de um sacerdócio santo cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais a
Deus, através de Jesus Cristo” (1 Pd 2, 5)
Este texto está na
mesma linha do evangelho de São João quando afirma que Deus não habita no
templo de Jerusalém nem no templo dos samaritanos, (Garizim).
Deus quer um outro
culto, por isso escolheu outro santuário onde o culto se realiza em Espírito e
Verdade (Jo 4, 21-23).
Graças ao dom do
Espírito que habita em nós a Palavra de Deus brota no nosso coração como um
acontecimento vivo que nos conduz à verdade plena.
O templo onde Deus
habita é a comunidade Cristã, a qual forma uma unidade orgânica cujo centro e
plenitude é a própria Santíssima Trindade:
“ Se alguém me tem
amor guardará a minha Palavra e meu Pai o amará.
Depois nós viremos
a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 23).
Como vemos, o novo
templo é uma realidade viva, orgânica e dinâmica a caminhar para a plenitude da
comunhão com Deus.
O templo que Deus
quer, portanto, é uma construção levada a cabo pelo Messias, tal como foi
anunciado a David.
Não se trata de um
edifício físico, mas de uma edifício vivo.
Através de Cristo
podemos comungar com Deus no nosso leito, na viagem para o trabalho ou
passeando na rua.
O nosso Deus está
disponível para nós vinte e quatro horas por dia. E acolhe-nos de graça!
A essência do
culto da Nova Aliança, como vimos acima, consiste essencialmente e fazer a
vontade de Deus (Heb 10, 6-9).
Jesus, no
evangelho de João declara abertamente que está permanentemente unido ao Pai,
pois faz sempre o que lhe agrada. É este o culto da Nova Aliança:
“E aquele que me
enviou está comigo. Ele não me deixa só, pois faço sempre aquilo que lhe
agrada” (Jo 8, 29)
Quem realiza a
vontade de Deus está em permanente comunhão com Deus. Eis a eficácia do culto
da Nova Aliança.
Fazer a vontade de
Deus é encontrar a própria realização e salvação.
Com efeito, a
vontade de Deus coincide exactamente com o que é melhor para nós:
“Aos que o
receberam deu o poder de ser tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram da
carne, do sangue ou da vontade do Homem, mas sim da vontade de Deus” (Jo 1,
13).
Agora podemos
entender melhor o alcance das seguintes afirmações de Jesus:
“O meu alimento é
fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sai obra” (Jo 4, 34).
Ou ainda:
“Eu não procuro a
minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).
A Primeira Carta a
Timóteo diz que a vontade de Deus é que todos os homens se salvem e cheguem ao
conhecimento da verdade.
Foi exactamente
isto que fez Jesus Cristo, o nosso Sumo-sacerdote.