O NOSSO SUMO-SACERDOTE É JESUS CRISTO

                       CALMEIRO MATIAS

 

 

 

a)O Sacerdócio Messiânico no Antigo Testamento

b) O Sacerdócio de Cristo, Superior ao dos Levitas

c) Sacerdócio de Cristo e Salvação da Humanidade

 

 

a) O Sacerdócio Messiânico no Antigo Testamento

 A primeira profecia messiânica foi dirigida ao rei David pelo profeta Natã cerca do ano mil antes de Cristo (2 Sam 7, 12-16).

Surge num contexto relacionado com a construção do templo.

David conquista a cidade de Jerusalém e faz dela a capital do Reino.

Como não existia templo na cidade, o rei pensa na hipótese de iniciar a construção de um templo.

O rei construiu o palácio real e instalou-se nele. Agora pensa em construir uma morada para Deus.

David não quis iniciar o seu plano sem consultar antes o profeta Natã:

“Quando o rei se instalou no seu palácio, Deus deu-lhe paz, livrando-o dos seus inimigos.

Então David disse ao profeta Natã:

“Como vês, moro num palácio de Cedro, enquanto a Arca da Aliança está abrigada numa tenda.

O profeta Natã disse ao rei: “pois bem, faz o que te dita o coração, pois o Senhor está contigo!”.

Mas naquela mesma noite, o Senhor falou a nata dizendo-lhe: “Vai dizer ao meu Servo David: “És tu quem me vai construir uma casa para eu habitar?” (2 Sam 7, 1-5).

David estava longe de imaginar o    que Deus tinha para lhe dizer:

“Quando chegares ao fim dos teus dias e te juntares aos teus antepassados, suscitarei para ti um descendente, o qual vai nascer de ti e consolidarei o seu reino.

Será ele que vai construir um templo ao meu nome e eu consolidarei o seu trono real.

Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho.

Se cometer alguma falta hei-de corrigi-lo com vara de homens e com açoites.

Mas não lhe tirarei a minha graça como fiz a Saul, a quem afastei diante de ti.

A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim, e o teu trono estará firme para sempre” (2 Sam 7, 12-16).

David pensou que a profecia se referia ao seu filho Salomão.

David preparou Salomão no sentido de fazer da construção do templo a sua primeira realização.

E Salomão actuou de acordo com as directrizes de seu Pai, como ele mesmo confessa no dia da inauguração do templo:

“Depois Salomão colocou-se diante do altar do Senhor, em frente a toda a assembleia de Israel.

Depois, levantando as mãos para o Céu disse: “Senhor, Deus de Israel, não há Deus semelhante a ti, nem no méis alto dos Céus, nem cá em baixo na terra.

Tu guardas a tua misericordiosa Aliança para com os servos que, de todo o coração, caminham na tua presença.

Tu cumpriste sempre as tuas promessas, para com o teu servo David, meu pai.

O que disseste com a tua boca o realizaste com a tua mão como hoje se vê.

Agora, Senhor, Deus de Israel, realiza as promessas que fizeste ao teu servo David, meu pai, quando lhe disseste: “nunca mais deixará de sentar-se no trono de Israel e na minha presença, algum descendente teu, desde que caminhem na minha presença.

Que agora se cumpra, Senhor, Deus de Israel, a promessa que fizeste ao teu servo David, meu pai” (1 Rs 8, 22-26).

A profecia de Natã garante a David que o seu descendente será um filho de Deus:

“Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho” (2 Sam 7, 14).

Salomão e os seus descendentes ficam com as funções de sumo-sacerdotes.

Depois de colocada a Arca no Santuário, a glória de Deus, oculta numa nuvem, encheu o templo, razão pela qual os sacerdotes não puderam realizar o ministério sacerdotal (1 Rs 8, 10-11).

Nesse momento Salomão assume as funções de Sumo-sacerdote:

“Depois o rei voltou-se para a assembleia de Israel, abençoou a assembleia dos filhos de Israel que se mantinha de pé” (1 Rs 8, 14).

Logo a seguir, Salomão colocou-se diante do altar do Senhor, perante toda a assembleia de Israel, levantou as mãos para o Céu e disse:

“Senhor Deus de Israel, não há Deus semelhante a ti, nem no mais alto dos Céus, nem cá em baixo na terra” (1 Rs 8, 22-23).

A associação do Messias como membro da casa de David e, ao mesmo tempo, filho de Deus, vai permanecer ao longo de todo o Antigo Testamento e ocupa um lugar central no novo Testamento.

Lucas faz esta associação no texto da anunciação do anjo a Maria:

“Ele será grande e chamar-se-à Filho do Altíssimo. Vai herdar o trono de seu pai David e reinará eternamente sobre a casa de Jacob” (Lc 1, 32-33).

São Paulo, na Carta aos Romanos vê a ressurreição de Jesus como o dia em que Jesus, filho de David, é entronizado no Céu como Filho de Deus (Rm 1, 3-5).

Sempre que um príncipe da casa de David subia ao trono, era proclamado o salmo 2 o qual lembrava ao novo rei a sua condição de filho de Deus:

“Fui eu que consagrei o meu rei sobre o meu monte santo de Sião!

Vou anunciar o decreto do Senhor.

Ele disse-me: “Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei” (Sal 2, 6-7).

Logo a seguir era proclamado o salmo 110, o qual lembrava ao rei que a sua unção real o constituía sumo-sacerdote.

O rei não era sacerdote segundo a ordem dos levitas, os quais ficaram impedidos de realizar o culto perante a majestade do Senhor oculta na sombra.

Com efeito, David e Salomão não pertenciam á tribo de Levi, mas sim à tribo de Judá.

O salmo 110 lembrava ao rei que o seu sacerdócio era real e não meramente cultual como o sacerdócio dos levitas:

“Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” (Sal 110, 4).

O rei Melquisedec, diz o livro do Génesis, era rei de Salém e Sacerdote do Deus Altíssimo, ao qual Abraão pagou o dízimo (Gn 14, 18-19).

O pagamento do dízimo significa que Abraão reconheceu que as bênçãos de Deus vêem sobre ele e seus descendentes através do rei de Salém, antigo nome de Jerusalém.

Os filhos de David, sumo-sacerdotes e filhos de Deus.

O Salmo 110 lembra ao príncipe que acaba de ser constituído como rei e sumo-sacerdote.

Ao mesmo tempo, repetindo o que diz o salmo 2, acaba de ser gerado como filho de Deus no esplendor do templo onde acontece a unção real e sacerdotal:

“Disse Deus ao meu Senhor (o rei): “Senta-te á minha direita, e eu farei dos teus inimigos um estrado para os teus pés (…).

A tua família é de nobres desde o dia em que nasceste no esplendor do santuário, tal como o orvalho é gerado nas entranhas da madrugada, assim eu te gerei.

O Senhor jurou e não volta atrás: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (Sal 110, 1. 4).

Os profetas, na sua maioria, reforçam esta linha de pensamento.

Isaías vê o Messias a brotar como um rebento do tronco de Jessé, o Pai de David.

Graças à plenitude do Espírito Santo que o habita, o Messias vai corrigir as desordens deste mundo marcado pela violência fratricida.

Num texto de beleza extrema, Isaías, sonha o mundo novo que vai surgir graças à acção do Messias:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé,

E um renovo brotará das suas raízes.

Sobre ele repousará o Espírito do Senhor:

Espírito de sabedoria e de entendimento,

Espírito de Conselho e de fortaleza,

Espírito de Ciência e de temor do Senhor.

Não julgará pelas aparências nem proferirá sentenças apenas pelo que ouvir dizer.

Julgará os pobres com justiça,

E com equidade os humildes da terra (…).

A justiça será o cinto dos seus rins,

E a lealdade circundará os seus flancos.

Então o lobo habitará com o cordeiro,

E o leopardo deitar-se-à ao lado do cabrito.

O novilho e o leão comerão juntos,

E um menino os conduzirá.

A vaca pastará com o urso,

E as suas crias repousarão juntas.

O leão comerá palha com o boi.

A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente.

Não haverá dano nem destruição no meu Monte Santo,

Pois a terra está cheia da sabedoria do Senhor” (Is 11, 1-9).

Com o enfraquecimento da monarquia, a ideia do sacerdócio real segundo a ordem de Melquisedec vai-se diluindo.

Os sacerdotes levitas aproveitam-se da fragilidade real para reivindicarem as funções de sumo-sacerdote para o ministério do culto no templo.

Com a queda da monarquia ideia do sacerdócio real segundo a ordem de Melquisedec é esquecida.

Jeremias vê o rebento de David a restaurar a paz e a justiça em Jerusalém, após o regresso do cativeiro de Babilónia.

As suas funções são exclusivamente reais, não sacerdotais:

“Dias virão em que farei brotar de David um rebento justo que será rei e governará com sabedoria.

Exercerá no país o direito e a justiça, oráculo do Senhor.

Nos seus dias Judá será salvo e Israel viverá em segurança (…).

Eis que chegarão dias, oráculo do Senhor, em que já não se dirá:

“Viva o Senhor que libertou Israel do Egipto”, mas sim:

“Viva o Senhor que tirou e reconduziu a linhagem de Israel do país do Norte (Babilónia) e de todos os países nos quais os tinha dispersado, fazendo-os habitar na sua terra” (Jer 23, 5-6).

Zacarias vê dois Messias entronizados: o rei e o Sumo-sacerdote levita.

Por um lado vê o filho de David, o gérmen, a edificar o Templo do Senhor exercendo, ao mesmo tempo, as funções reais.

Mas, ao mesmo tempo, vêm o Sumo-sacerdote como um personagem diferente do rei.

Isto significa que do rei Sumo-sacerdote já estava totalmente esquecida.

O ideal, Segundo Zacarias, é que exista cooperação e paz entre os dois ungidos (Messias):

“Assim fala o Senhor do Universo:

“Eis o homem cujo nome é Gérmen,

Do qual brotará a germinação.

Ele reconstruirá o templo do Senhor.

Sim é ele que vai edificar o templo do Senhor e usar as insígnias reais.

Como soberano sentar-se-á no seu trono.

Haverá também um sacerdote no seu trono.

Entre ambos existirá uma paz perfeita” (Zac 6, 12-13).

O profeta é ainda mais explícito a este respeito:

Mas os profetas começaram a denunciar os cultos e sacrifícios realizados pelos sacerdotes levitas:

Estes cultos, diz o profeta Isaías, repugnam a Deus, pois aqueles que os oferecem são pessoas injustas que exploram os pobres e desprotegidos. O que agrada a Deus é a justiça e o amor (Is 1, 10-19).

O salmo 40 insiste em que a Deus não lhe interessam os cultos e sacrifícios, mas sim que as pessoas oiçam a Palavra de Deus (Sal 40 7-8)

O profeta Jeremias denuncia os sacerdotes que não passam de falsos pastores que exploram as ovelhas. Deus vai punir estes pastores e vai suscitar um pastor justo, o qual sairá da casa de David (Jer 23, 1- 6).

Também denuncia aqueles que praticam a injustiça e depois vêm ao templo pensando encontrar ali a salvação.

Procedendo deste modo estão a fazer do Templo um covil de ladrões e do culto uma manifestação de mentira e da falsidade (Jer 7, 4-11).

Com a experiência pascal, os discípulos começam a anunciar Cristo ressuscitado e entronizado à direita de Deus.

O Novo testamento redescobre o sacerdócio real, o qual, segundo acentua a Carta aos Hebreus, é muito superior ao sacerdócio cultual dos sacerdotes levitas, o qual não tem qualquer poder para realizar a salvação:

“Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz:

“Não te agradaram os holocaustos nem os sacrifícios pelos pecados.

Então eu disse:

“Eis que venho,

Como está escrito de mim no livro,

Para fazer,

Ó Deus,

A tua vontade (…).

Suprime assim o primeiro culto para instaurar o segundo” (Heb 10, 5-9).

 

b) O Sacerdócio de Cristo, Superior ao dos Levitas

Jesus Cristo nunca teve qualquer pretensão a exercer funções sacerdotais no Templo. Jesus era um leigo, não um clérigo.

No evangelho de João aparece Jesus a \dizer à Samaritana que Deus quer um culto realizado em espírito e verdade e não os cultos do templo (Jo 4, 21-24).

A Carta aos Hebreus acentua que o sacerdócio da Nova e Eterna Aliança é o portador das bênçãos prometidas a Abraão.

Jesus Cristo ressuscitado, o nosso Sumo-sacerdote, é superior a todos os medianeiros da Antiga Aliança:

É superior aos profetas e aos anjos:

“Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou nos tempos antigos aos nossos pais, por meio dos profetas.

Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do seu Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de que fez o mundo.

O filho é o resplendor da glória do Pai, a imagem fiel do seu ser, o qual sustenta todas as coisas com a sua palavra poderosa. Depois de ter realizado a purificação do pecado, sentou-se à direita da majestade de Deus nas alturas.

Ele é tanto mais superior aos anjos quanto superior ao deles é o nome que recebeu em herança.

Com efeito, a qual dos anjos Deus disse alguma vez: “ Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei?” E ainda: “Eu serei para ele um pai e ele será para mim um filho?” (Heb 1, 1-5).

Entronizado à direita de Deus como rei e Sumo-sacerdote, Jesus é medianeiro de uma Aliança muito superior à Aliança que fez com Moisés:

“Considerai Jesus como Apóstolo e o sumo-sacerdote da Fé que professamos.

Ele é fiel àquele que o constituiu, tal como Moisés foi fiel em toda a casa de Deus.

Mas Jesus foi considerado mais digno de glória do que Moisés (…).

Na verdade, Moisés foi fiel em toda a casa de Deus enquanto servo, a fim de prefigurar tudo aquilo ia ser anunciado.

Cristo, porém, foi fiel sobre a casa de Deus que somos todos nós” (Heb 3, 1-6).

Jesus é superior a Aarão o pai do sacerdócio levítico. O sacerdócio de Aarão é um ofício meramente cultual.

O sacerdócio de Cristo é real, por isso lhe é concedido por ser o Filho de Deus, aquele que se senta à direita da majestade divina no Céu:

“Todo o Sumo-sacerdote tomado de entre os homens é constituído em favor dos homens, nas coisas que dizem respeito a Deus, a fim de oferecer dons e sacrifícios pelos pecados.

Pode compadecer-se dos ignorantes e dos que erram, pois também ele está cercado de fraqueza.

Por isso oferece sacrifícios, tanto pelos seus pecados como pelos pecados do povo.

E ninguém tomou para si esta honra, mas apenas o que foi chamado por Deus como Aarão.

Assim também Cristo não se atribuiu a glória de se tornas Sumo-sacerdote.

Esta glória foi-lhe atribuída por aquele que lhe disse:

“Tu és meu Filho, hoje mesmo te gerei”. E ainda: “Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (…).

Apesar de ser Filho, teve de aprender a obediência pelo sofrimento.

Uma vez atingida a perfeição, tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna ao ser proclamado por Deus Sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedec” (Heb 5, 1-10).

Com Cristo morto e ressuscitado consumou-se a Nova e Eterna Aliança, a qual é muito superior à Antiga.

A Nova Aliança está alicerçada em promessas muito melhores (Heb 8, 7-13).

Realiza-se num santuário muito superior ao antigo santuário de Jerusalém (Heb 9, 1-28).

Por seu lado, o novo sacrifício é muito superior aos antigos.

Este novo sacrifício é constituído pela fidelidade incondicional de Cristo á missão que o Pai lhe confiou. Jesus era da tribo de Judá, não da tribo de Aarão.

Isto quer dizer se o seu serviço não tem nada a ver com o sacerdócio cultual.

A sua missão encontrou uma feroz resistência. Mas Jesus, por ser incondicionalmente fiel, foi fiel até ao fim, sofrendo a morte violenta da cruz.

Deste modo ofereceu um sacrifício infinitamente superior aos antigos sacrifícios de touros e cabritos. Todas estas ideias aparecem muito bem sintetizadas no seguinte texto:

“O ponto principal do que estamos a dizer é este: “Temos um sumo-sacerdote que se sentou nos Céus à direita da Majestade divina como ministro do santuário e da verdadeira tenda, construída por Deus e não pelo homem (…).

Se Cristo estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, pois já existem aqueles que oferecem os dons segundo a Lei.

Estes sacerdotes realizam um culto que é uma imagem e uma sombra das realidades celestes, tal como foi revelado a Moisés que estava a planear a construção da tenda (…).

Se a primeira Aliança tivesse sido perfeita não havia lugar para uma segunda” (Heb 8, 1-7).            

Jesus ressuscitado é o nosso Sumo-sacerdote por eleição de Deus e não por pertencer à tribo dos sacerdotes:

“Se a perfeição tivesse sido realizada pelo sacerdócio levítico, que necessidade havia de que surgisse outro sacerdote segundo a ordem de Melquisedec, e não segundo a ordem de Aarão?

Jesus pertence a outra tribo, da qual nenhum membro fez o serviço do altar.

É claro que o Senhor pertence á tribo de Judá, tribo acerca da qual Moisés nada disse a propósito de sacerdotes (Heb 7, 11-14).

Cristo foi constituído Sumo-sacerdote pela sua ressurreição, isto é, por uma vida imortal:

“Ele foi instituído não segundo o mandamento de uma lei humana, mas segundo o poder de uma vida imortal.

Na verdade, dele se testemunha:

“Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec” (Heb 7, 16-17).

Pela sua ressurreição, Jesus Cristo sentou-se à direita de Deus onde realiza para sempre a sua missão de sumo-sacerdote real.

O Novo Testamento afirma várias vezes que Jesus ressuscitado, sentado à direita de Deus é o medianeiro da Salvação:

“O Sumo-sacerdote voltou a interrogá-lo: “És tu o Messias, o Filho de Deus Bendito? Jesus respondeu: Sou eu. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do poder e vir sobre as nuvens do céu” (Mc 14, 61-62).

Pela sua Ascensão, Jesus subiu ao céu, diz o evangelho de marcos e sentou-se à direita de Deus:

“Então o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao céu e sentou-se á direita de Deus” (Mc 16, 19).

Os Actos dos Apóstolos dizem que Jesus, pela sua ressurreição é elevado à direita de Deus e torna-se o Chefe e salvador de todos:

“O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, a quem matastes, suspendendo-o num madeiro.

Foi a ele que Deus elevou, com a sua direita, como Chefe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados” (Act 5, 30-31).

Estas são algumas das principais características do nosso Sumo-sacerdote e do culto da Nova Aliança que consiste em fazer a vontade de Deus:

“Ao entrar n mundo, Cristo diz: “Tu não quiseste sacrifício nem oferenda (…). Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados.

Então eu disse: “Eis que venho como está escrito no livro a meu respeito, para fazer, ó Deus, a tua vontade (…).

Suprime, assim, o primeiro culto, para instaurar o segundo” (Heb 10, 5-9).

Este culto, segundo o evangelho de João acontece em espírito e verdade:

“Jesus disse à Samaritana: “Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que nem neste monte (templo dos Samaritanos), nem em Jerusalém (templo dos judeus) haveis de adorar o Pai (…).

Mas vai chegar a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em Espírito e verdade, pois são estes os adoradores que o pai pretende.

Deus é Espírito. Por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (Jo 4, 21- 24).

Este Novo culto pressupõe um novo templo, o qual nada tem a ver com o anterior:

O templo de Jerusalém foi feito pela mão do Homem. Ora, como Salomão disse logo no dia da inauguração do templo, Deus não habita em templos feitos pela mão do homem:

“Mas será que Deus poderia habitar neste lugar, sobre a terra? Se em os céus te podem conter, quanto mais este templo que eu edifiquei?” (1 Rs 8, 27).

Também o mártir Santo Estêvão, pouco antes de ser martirizado, declara aos judeus que Deus não habita em templos feitos pela mão do homem:

“Mas o Altíssimo não habita em casas feitas pela mão do Homem” (Act 7, 48).

O mesmo diz São Paulo no discurso que fez no Areópago de Atenas:

“O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele existe, Ele, que é o Senhor do céu e da terra, não habita em santuários construídos pela mão do Homem” (Act 17, 24).

São Paulo diz que Jesus está sentado à direita do Pai intercedendo por nós:

“Jesus que morreu, mais, que ressuscitou, que está sentado à direita de Deus intercedendo por nós” (Rm 8, 34).

Os Actos dos Apóstolos dizem que o mártir Santo Estêvão, no momento em que estava a ser martirizado, declarou estar a ver Jesus sentado à Direita de Deus Pai” (Act 7, 55-56).

A Carta aos Hebreus diz que pela sua ressurreição, Jesus sentou-se no céu, o verdadeiro santuário onde Deus habita e que não foi construído pela mão do Homem:

“ Mas Cristo veio como Sumo-sacerdote dos bens futuros, através de uma tenda maior e mais perfeita, a qual não foi feita pela mão do homem, isto é, não pertence a este mundo criado.

Entrou uma só vez no Santuário, não com o sangue de carneiros ou vitelos, mas com o seu próprio sangue, tendo obtido uma redenção eterna” (Heb 9, 11-12).

E ainda:

“Na realidade, Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas, figura do verdadeiro santuário, mas entrou n próprio céu para se apresentar agora diante de Deus e interceder em nosso favor” (Heb 9, 24).

O nosso Sumo-sacerdote foi investido nas suas funções pela sua ressurreição.

A sua missão no céu, não na terra. Daqui se deduz claramente que o seu sacerdócio messiânico nada tem a ver com o sacerdócio cultual do levitas:

“Temos um Sumo-sacerdote que se sentou nos céu à direita do trono de Deus” (Heb 8, 3).

E ainda:

“Se Cristo estivesse na terra, nem sequer seria sacerdote, pois já existem cá os que oferecem os dons segundo a Lei.

Estes prestam um culto que é apenas uma imagem e uma sobra da realidade celeste, tal como foi revelado a Moisés quando estava a construir a Arca” (Heb 8, 4-5; cf. Ex 25, 40).

Falando deste mediação de Cristo como medianeiro da salvação São Paulo diz:

“Há um só Deus e um só medianeiro entre Deus e o Homem, Jesus Cristo, Homem” (1 Tim 2, 5).

Como medianeiro, Jesus era rei. Mas não pretendeu ser rei à maneira dos filhos de David.

Como medianeiro entre Deus e o Homem também era sacerdote.

Mas não pretendeu ser sacerdote à maneira dos levitas.

Nunca pretendeu exercer funções sacerdotais no templo.

Jesus compreendia-se a si mesmo como rei e Sumo-sacerdote, mas não na linha dos reis da casa de David nem dos sacerdotes da casa de Levi.

Jesus entendia-se na linha de Melquisedec, rei e sacerdote do Deus Altíssimo, o qual foi o portador das Bênçãos de Deus para Abraão (Gn 14, 18).

Como rei e sacerdote messiânico, Jesus é o medianeiro de uma Nova Aliança (Heb 9,15; 12, 24).

Na ceia pascal, Jesus escolheu o pão e o vinho e não o cordeiro pascal para celebrar a Páscoa da N

Isto quer dizer que Jesus se ligou ao sacerdócio real de Melquisedec.

No momento em que comunicou as bênçãos de Deus a Abraão, Melquisedec não ofereceu a Deus um cordeiro imolado, mas um sacrifício de pão e vinho (Gn 14, 18-19).

Isto indica que Jesus tinha consciência de ser o portador das bênçãos de Deus para todas as famílias de Terra, como deus tinha prometido a Abraão (Gn 12, 3).

Ao escolher o pão e o vinho para celebrar a Páscoa da Nova Aliança, Jesus tinha plena consciência de ser o Sumo-sacerdote Messiânico, o qual vinha conduzir à plenitude o plano salvador de Deus.

Os sacerdotes Levitas eram homens mortais. Por isso eram muitos, a fim de se poderem suceder uns aos outros.

Cristo, pelo contrário, foi constituído Sumo-sacerdote por uma vida imortal.

Eis a razão pela qual Jesus não precisa de ser substituído por outros sacerdotes, pois foi constituído Sumo-sacerdote por uma vida imortal:

“O Senhor jurou e não se arrependerá: “Tu és sacerdote para sempre”.

Eis a razão pela qual Jesus se tornou o garante de uma Aliança superior.

Os sacerdotes levitam eram numerosos porque a morte os impedia de continuar.

Mas Cristo, em virtude de permanecer eternamente, possui um sacerdócio que não acaba.

Por esta razão, Cristo pode salvar de modo definitivo, o que por meio dele se aproximam de Deus, pois ele está vivo para sempre, a fim de interceder por todos” (Heb 7, 20-25).

A esta luz, o ministério na Igreja não deve ser entendido como uma função sacerdotal de tipo cultual.

O ministério é fundamental para a edificação da comunidade cristã, mas não para oferecer cultos e sacrifício para aplacar Deus e obter o perdão para os pecados do povo.

A Carta aos Hebreus diz que na Nova aliança isto já não tem mais sentido:

“Esta é a aliança que estabelecerei com eles, depois daqueles dias, diz o Senhor: “Porei as minhas leis nos seus corações e gravá-las-ei nas suas mentes.

Não voltarei a recordar-me dos seus pecados nem das suas iniquidades”.

Ora, onde há perdão dos pecados, já não há necessidade para oferenda dos pecados” (Heb 10,16-18).

Jesus, rei e Sumo-sacerdote constituiu a Igreja como povo sacerdotal, isto, é corpo de Cristo ou mediação de comunicação da Palavra de deus para o mundo:

“Jesus Cristo é a testemunha fiel, o primeiro vencedor da morte e o Soberano dos reis da terra.

Ele ama-nos e purificou-nos dos nossos pecados com o seu sangue, fazendo de nós um reino de sacerdotes para Deus seu Pai” (Apc 1, 5-6).

A Primeira Carta de Pedro vai nesta mesma linha quando diz:

“Vós porém, sois povo eleito, sacerdócio real, nação santa, um povo adquirido, a fim de proclamardes as maravilhas daquele que vos chamou das trevas para a sua luz admirável” (1 Pd 2, 9).

 

c) Sacerdócio de Cristo e Salvação da Humanidade

Como rei e Sumo-sacerdote Messiânico, Jesus ressuscitado tornou-se fonte de salvação eterna para os que obedecem:

“Tornou-se para todos os que lhe obedecem fonte de salvação eterna, pois foi proclamado por Deus Sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedec” (Heb 5, 9-10o).

A primeira Carta de São João diz que o papel de Jesus como nosso salvador consiste em estar junto do Pai como um advogado que intercede constantemente em nosso favor:

“Filhinhos. Escrevo-vos estas coisas, a fim de não pecardes.

Mas se alguém pecar fique sabendo que temos junto do Pai um advogado, Jesus Cristo, o Justo.

Ele é a vítima que expia os nossos pecados. E não somente os nossos mas os do mundo inteiro” (1 Jo 2, 1-2).

Jesus é o Cristo, isto é, o ungido. Deus ungiu-o com o Espírito Santo, a fim de realizar a sua missão em favor de todos os que sofrem, inaugurando, deste modo, a plenitude dos tempos. É por esta unção que ele se tornou nosso rei e Sumo-sacerdote.

Num dia de sábado, Jesus foi à sinagoga de Nazaré. No momento da leitura, Jesus levantou-se para ler.

Entregaram-lhe o rolo do profeta Isaías. Jesus, desenrolando-o deparou com a passagem em que está escrito:

“O Espírito do Senhor está sobre mim,

Porque me ungiu para anunciar a boa Nova aos pobres.

Enviou-me a proclamar a libertação aos cativos,

A recuperação da vista aos cegos,

A mandar em liberdade os oprimidos.

Enviou-me a mandar em liberdade os oprimidos e a proclamar o ano favorável da parte do Senhor”.

Depois enrolou o livro,

Entregou-o ao responsável,

E sentou-se.

Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.

Jesus começou então a dizer-lhes:

“Cumpriu-se hoje esta Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 18-21).

Foi assim que Jesus tomou consciência da sua missão messiânica de rei que nada tinha a ver com os filhos de David e de Sumo-sacerdote que nada tinha a ver com os levitas.

Foi ungido pelo Espírito Santo durante a sua vida terrena, mas só entrou plenamente em funções com a sua ressurreição, como diz Paulo:

“Filho de David segundo a carne, constituído Filho de Deus com todo o seu poder, pelo Espírito Santificador, mediante a sua ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo, Senhor nosso” (Rm 1, 3-4).

Em resumo podemos dizer que Jesus Cristo ressuscitado é o nosso rei e Sumo-sacerdote Messiânico.

Isto significa que por ele e graças a ele nos foi concedido um medianeiro que nos proporciona um novo jeito de nos relacionarmos com Deus:

Graças a Jesus Cristo podemos comunicar com Deus em clima de total confiança, pois ele é o nosso Sumo-sacerdote que, no céu, está sentado à direita de Deus, intercedendo permanentemente em nosso favor.

São Paulo diz que, em Cristo morto e ressuscitado, Deus nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os nossos pecados. Por isso Deus pôs nos nossos lábios uma mensagem de reconciliação (2 Cor 5, 18-19).

Podemos relacionar-nos com Deus de modo pessoal. Não precisamos de uma sistema sacerdotal para que nos substitua na nossa relação e comunhão com Deus.

São Mateus diz que no momento da morte de Jesus se rasgou o véu do templo, isto é, a cortina que separava o povo da comunicação directa com Deus no Santo dos Santos.

Este texto quer dizer que Jesus estabeleceu a comunicação directa com Deus, não sendo preciso intermediários que substituam as pessoas:

“E Jesus, clamando com voz forte, expirou. Então, o véu do templo rasgou-se em dois, de alto a baixo” (Mt 27, 50-51).

Agora podemos relacionar-nos com Deus em qualquer tempo e em qualquer lugar, pois a presença de Deus acontece no nosso coração.

O templo não oferece qualquer garantia de comunhão com Deus. Jesus não deixou quaisquer dúvidas a este respeito:

Um dia Jesus aos judeus:

“Destruí este templo e eu, em três dias o levantarei. Disseram-lhe os judeus: “Foram precisos quarenta e seis anos para construir este templo e tu vais levantá-lo em três dias?” Ele porém, falava do templo do seu corpo” (Jo 2, 19-21).

Aos discípulos que admiravam a grandiosidade do templo, Jesus disse: “Não ficará pedra sobre pedra” (Mt 24, 1-3).

E tudo isto como disse o diácono Estêvão no momento do seu martírio, Deus não habita em templos feitos pela mão do homem (Act 7, 48; cf. 17, 24).

Eis a razão pela qual a Carta aos Hebreus acrescenta que Cristo atravessou uma tenda maior e mais perfeita que não é obra de mãos humanas, isto é, não pertence a esta criação” (Heb 9, 11-12).

São Paulo resume toda esta doutrina de modo muito bonito:

“Nós é que somos o templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus: “habitarei e caminharei no meio deles. Eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6, 16).

Noutra passagem, São Paulo acrescenta:

“Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 9).

Uma vez que Deus não habita em templos feitos pela mão do Homem e se Jesus é o Messias anunciado a David, então tem de ser o construtor do templo onde Deus habita, como foi prometido a David

A Primeira Carta de Pedro responde a esta questão de modo muito claro:

“Também vós, como pedras vivas, entrais na construção de um edifício espiritual, o qual está em função de um sacerdócio santo cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais a Deus, através de Jesus Cristo” (1 Pd 2, 5)

Este texto está na mesma linha do evangelho de São João quando afirma que Deus não habita no templo de Jerusalém nem no templo dos samaritanos, (Garizim).

Deus quer um outro culto, por isso escolheu outro santuário onde o culto se realiza em Espírito e Verdade (Jo 4, 21-23).

Graças ao dom do Espírito que habita em nós a Palavra de Deus brota no nosso coração como um acontecimento vivo que nos conduz à verdade plena.

O templo onde Deus habita é a comunidade Cristã, a qual forma uma unidade orgânica cujo centro e plenitude é a própria Santíssima Trindade:

“ Se alguém me tem amor guardará a minha Palavra e meu Pai o amará.

Depois nós viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 23).

Como vemos, o novo templo é uma realidade viva, orgânica e dinâmica a caminhar para a plenitude da comunhão com Deus.

O templo que Deus quer, portanto, é uma construção levada a cabo pelo Messias, tal como foi anunciado a David.

Não se trata de um edifício físico, mas de uma edifício vivo.

Através de Cristo podemos comungar com Deus no nosso leito, na viagem para o trabalho ou passeando na rua.

O nosso Deus está disponível para nós vinte e quatro horas por dia. E acolhe-nos de graça!

A essência do culto da Nova Aliança, como vimos acima, consiste essencialmente e fazer a vontade de Deus (Heb 10, 6-9).

Jesus, no evangelho de João declara abertamente que está permanentemente unido ao Pai, pois faz sempre o que lhe agrada. É este o culto da Nova Aliança:

“E aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixa só, pois faço sempre aquilo que lhe agrada” (Jo 8, 29)

Quem realiza a vontade de Deus está em permanente comunhão com Deus. Eis a eficácia do culto da Nova Aliança.

Fazer a vontade de Deus é encontrar a própria realização e salvação.

Com efeito, a vontade de Deus coincide exactamente com o que é melhor para nós:

“Aos que o receberam deu o poder de ser tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram da carne, do sangue ou da vontade do Homem, mas sim da vontade de Deus” (Jo 1, 13).

Agora podemos entender melhor o alcance das seguintes afirmações de Jesus:

“O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sai obra” (Jo 4, 34).

Ou ainda:

“Eu não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).

A Primeira Carta a Timóteo diz que a vontade de Deus é que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.

Foi exactamente isto que fez Jesus Cristo, o nosso Sumo-sacerdote.