O MESSIAS REI

                  CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

 

 a) O Messias Rei no Antigo Testamento

b) Jesus Anuncia o Reino de Deus

c) O Messias Rei na Visão de São Paulo

 

a) O Messias Rei no Antigo Testamento

A primeira profecia messiânica foi pronunciada pelo profeta Natã cerca de mil anos antes de Cristo.

O rei David acabava de conquistar a cidade de Jerusalém e estava a planear construir aí templo para Yahvé.

O profeta Natã dirige-se ao rei dizendo-lhe que não é essa a vontade Deus.

Quando David morrer, acrescenta o profeta, Deus vai suscitar-lhe um filho, o qual irá construir um templo para Deus.

Eis a razão pela qual Deus será um pai para esse descendente de David, graças ao qual a casa real de David permanecerá para sempre (2 Sam 7, 12-16).

O rei David pensou que a profecia se referia ao seu filho Salomão. Eis a razão pela qual ele começou a preparar o seu filho para esta tarefa grandiosa.

Logo que subiu ao trono, Salomão construiu o templo de Jerusalém, convencido de estar a realizar a profecia de Natã.

No dia da inauguração do templo, o rei declara que, ao construir o templo, estava a realizar a vontade de Deus, tal como ela foi anunciada a David seu Pai:

“Depois, Salomão colocou-se diante do altar do Senhor, perante toda a assembleia de Israel; levantou as mãos para o céu e disse:

Senhor, Deus de Israel, não há Deus semelhante a ti, nem no mais alto dos Céus, nem cá em baixo na Terra.

Tu guardas a tua misericordiosa Aliança para com os teus servos que caminham na tua presença de todo o coração.

Tu cumpriste sempre as tuas promessas para com o teu servo David, meu pai.

Tudo o que a tua boca anunciou, a tua mão o realizou, como hoje podemos ver.

Agora, Senhor, Deus de Israel, realiza a promessa que fizeste ao teu servo David, meu Pai, quando lhe disseste:

“Nunca mais deixará de sentar-se, diante de mim, no trono de Israel, alguém da tua estirpe, desde que os teus filhos tenham o cuidado de ter uma conduta correcta, caminhando na minha presença, como tu fizeste (…).

Que o teu olhar esteja atento dia e noite sobre este lugar do qual disseste: “Aqui estará o meu nome. Ouve, pois, a oração que, neste lugar, te faz o teu servo” (1 Rs 8, 22-29).

Claro que a profecia de Natã não entrava em tantos pormenores, mas foi esta a interpretação que a casa de David fez da referida profecia de Natã.

Devido a esta profecia, os filhos de David, a partir do dia em que sobem ao trono, passam a ser designados filhos de Deus:

“Fui eu quem consagrei o meu rei sobre o meu monte santo de Sião!

Vou anunciar o decreto do Senhor. Ele disse-me: “Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei” (Sal 2, 6-7).

Fazendo referência à profecia de Natã, o Salmo 89 diz:

“Fiz uma Aliança com o meu eleito, jurei a David, meu servo:

Estabelecerei a tua descendência para sempre e o teu trono há-de manter-se eternamente” (Sal 89, 4-5).

E mais à frente o mesmo salmo acrescenta:

“Encontrei David, meu servo, e ungi-o com o óleo santo.

A minha mão estará sempre com ele e o meu braço há-de torná-lo forte (…).

Ele me invocará, dizendo: Tu és meu Pai, és o meu Deus e o rochedo da minha salvação!

Eu farei dele o meu primogénito, o maior entre os reis da terra (…).

Estabelecerei para sempre a sua descendência e o seu trono terá a duração dos Céus” (Sal 89, 21-30).

A profecia de Natã tornou-se o centro da esperança bíblica. Influenciou tanto os textos que se referem ao período anterior a David como os textos que referem ao período posterior.

É a profecia de Natã que está subjacente ao texto do Génesis no qual aparece a promessa do filho da mulher que virá para destruir as forças do mal:

“Então, o Senhor Deus disse à serpente: “Por teres feito isto, serás maldita entre todos os animais domésticos e entre os animais selvagens.

Rastejarás sobre o teu ventre, alimentar-te-às de terra, todos os dias da tua vida.

Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela.

Esta esmagar-te-à a cabeça e tu tentarás mordê-la no calcanhar” (Gn 3, 14-15).

É também a profecia de Natã que está presente à figura de Abraão quando este recebe as bênçãos de Deus através de Melquisedec, rei de Salém, antigo nome de Jerusalém.

Além de rei de Salém, Melquisedec era também Sumo-sacerdote do Deus Altíssimo. Abraão reconheceu que as bênçãos ligadas à Aliança vinha pelo rei de Salém, por isso lhe pagou o dízimo de tudo (Gn 14, 18-20).

É ainda a profecia de Natã a David que está subjacente à bênção e à profecia de Jacob à tribo de Judá, a tribo do rei David. Judá anuncia já a vinda do Messias, o rebento mais nobre da tribo de Judá:

“Tu és um leãozinho, ó meu filho Judá, quando regressas com a tua presa!

Quando se deita é o repouso do leão e da leoa.

Quem ousará despertá-lo?

O ceptro não sairá de Judá,

Nem o bastão de comando da sua descendência até que venha aquele a quem pertence o comando e ao qual obedecerão todos os povos” (Gn 49, 9-10).

Naturalmente que estes textos foram escritos muito depois da profecia de Natã.

Mas não foi apenas o passado que foi lido à luz da profecia messiânica de Natã.

Os profetas vão ampliar e fortalecer esta esperança, ao ponto de os tempos messiânicos começarem a ser interpretados como a plenitude dos tempos.

O profeta Isaías, falando dos tempos gloriosos que virão e da figura salvadora do Messias, proclama o nascimento do Messias como o sinal da bondade e da presença de Deus no meio do povo:

“Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado.

Sobre os seus ombros recairá o ceptro do poder. Será chamado Conselheiro Maravilhoso, Deus Altíssimo, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9, 6).

Face à incredulidade do rei Acaz, Deus vai dar-lhe um sinal, pois a jovem está grávida e dará à luz um filho, o qual será chamado Emanuel, isto é, Deus connosco (Is 7, 14).

Moisés foi enviado por Deus, a fim de conduzir o povo pelo deserto e, deste modo, poder atingir a terra prometida.

Do mesmo modo Deus vai enviar um líder que, no deserto, vai preparar e conduzir o povo ao Messias prometido:

“Uma voz clama no deserto: “Preparai os caminhos do Senhor. No deserto endireitai os caminhos para o Senhor nosso Deus” (Is 40, 3).

Naturalmente que este texto foi escrito para elevar os ânimos do povo escravizado em Babilónia.

O profeta tenta dizer aos exilados de Babilónia que, tal como Deus conduziu os escravos do Egipto pelo deserto até atingirem a plena liberdade na terra prometida, assim vai acontecer agora.

Mas os escritores do Novo Testamento, preocupados com a realização das Escrituras em Cristo, aplicam este texto a João Baptista.

Segundo Lucas, João realiza o papel do líder que, no deserto, conduz o povo de Deus para a vinda do Messias:

“João começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: Uma voz clama no deserto: “preparai os caminhos do Senhor, e endireitai as suas veredas.

Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos;

Os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos.

E toda a criatura verá a salvação de Deus” (Lc 3,3-5).

Isaías compara o Messias a um renovo ou rebento saído de uma planta chamada Jessé, o Pai de David. Sobre ele repousará o Espírito de Deus que o capacitará para criar uma Nova Humanidade:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé, e um renovo brotará das suas raízes.

Sobre ele repousará o Espírito do Senhor:

Espírito de sabedoria,

Espírito de entendimento,

Espírito de Conselho,

Espírito de Fortaleza,

Espírito de Ciência e de Temor do Senhor.

Não julgará pelas aparências nem proferirá sentenças somente pelo que ouviu dizer.

Pelo contrário,

Julgará os pobres com justiça e os humildes da terra com equidade (…).

Então o lobo habitará com o cordeiro,

E o leopardo deitar-se-à ao lado do cabrito.

O novilho e o leão comerão juntos,

E um menino os conduzirá (…).

A criancinha brincará na toca da víbora e o menino recém desmamado meterá a mão na toca da serpente.

Não haverá dano nem destruição em todo o meu santo monte,

Pois a terra está cheia do conhecimento do Senhor” (Is 11, 1-9).

É difícil dizer de maneira mais bonita o sonho da Nova Humanidade.

O profeta Jeremias dirá que a Humanidade restaurada pela acção salvadora do Messias é obra do Espírito Santo, o qual será o selo de uma Nova Aliança, a qual será indestrutível:

“Dias virão em que firmarei uma Nova Aliança com a Casa de Israel e a casa de Judá, oráculo do Senhor.

Não será como a aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egipto, aliança que eles não cumpriram, apesar de eu ser o seu Deus, oráculo do Senhor.

Esta será a aliança que eu estabelecerei, depois desses dias, com a casa de Israel, oráculo do Senhor:

Imprimirei as minhas leis no seu íntimo e gravá-las-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo (…).

Todos me conhecerão desde o maior ao mais pequeno,

Pois a todos perdoarei os seus pecados e não mais me lembrarei das suas iniquidades, oráculo do Senhor” (Jer 31, 31-34).

 

c) Jesus Anuncia o Reino de Deus

1- O Reino no Centro da Pregação de Jesus

Também a esperança messiânica do Novo Testamento está edificada sobre o alicerce da mesma profecia de Natã.

Não é difícil ver onde Lucas foi buscar o seu texto da anunciação, pondo na boca do anjo uma mensagem que é, de facto, uma síntese da esperança messiânica do Antigo Testamento:

“Disse-lhe o anjo: “Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus.

Hás-de conceber no teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.

Ele será grande e vai chamar-se filho do Altíssimo.

O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim” (Lc 1, 30-33).

O tema do Reino de Deus está no centro da pregação de Jesus.

Jesus inicia a sua pregação convidando as pessoas a converterem-se, pois o Reino de Deus está perto: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo: completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-15).

O Reino é um projecto de Deus que os homens desconhecem. É um mistério (segredo) que apenas é conhecido daqueles a quem Jesus o revela: “A vós é dado a conhecer o mistério do Reino de Deus. Mas aos de fora tudo lhes é proposto em parábolas” (Mc 4, 11).

A carta aos Efésios fala deste mistério do Reino que o Espírito Santo revelou aos escolhidos para anunciarem o plano salvador de Deus realizado em Cristo:

“Deus manifestou-nos o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha estabelecido para conduzir os tempos à sua plenitude: Submeter tudo a Cristo, reunindo nele o que há no Céu e na Terra” (Ef 1, 10).

A mesma carta aos Efésios diz ainda: “Por revelação me foi dado a conhecer o mistério, tal como antes o descrevi resumidamente.

Lendo-o podeis fazer uma ideia da compreensão que tenho do mistério de Cristo, o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em gerações passadas, como agora foi revelado aos seus santos Apóstolos e Profetas no Espírito Santo.

Segundo este mistério, os gentios são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo e participantes da mesma promessa em Cristo Jesus, por meio do Evangelho” (Ef 3, 3-6).

O Reino está em gestação na história, mas a sua plenitude está para lá da história. No Pai-Nosso, Jesus ensina os discípulos a pedirem ao Pai a vinda do Reino (Mt 6, 10; Lc 11, 2).

Jesus manda os discípulos a anunciar o Reino de Deus (Lc 9, 2). Os que forem perseguidos por causa da justiça, isto é, por causa da sua fidelidade à vontade de Deus, devem considerar-se felizes, pois deles é o Reino de Deus (Mt 5, 10).

Procurar o Reino de Deus é procurar o fundamental. É a garantia da salvação: “Procurai o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6, 33). A justiça significa a fidelidade à vontade de Deus. Procurar a justiça é procurar a vontade de Deus. Ser justo é ser fiel à vontade de Deus.

O Reino de Deus identifica-se com o poder de Deus, pois Deus pode tudo o que pode o amor.

Deus é amor infinitamente poderoso. Mas não pode nada que negue o amor, pois negar o amor é negar Deus.

De facto, Deus é amor (1 Jo 4, 8). “Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 16). O Reino assenta no poder de Deus e o poder de Deus é a força criadora e salvadora do amor: “O amor de Deus manifestou-se desta maneira no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por ele, tenhamos a vida” (l Jo 4, 9).

O tema da pregação de João Baptista era a conversão para acolher o Reino de Deus: “Convertei-vos, porque o Reino de Deus (dos Céus em Mateus) está próximo” (Mt 3, 1-2).

Os milagres de Jesus significavam que a dinâmica do Espírito Santo estava actuante. Segundo os profetas este era o sinal claro da acção libertadora do Messias e da chegada do Reino de Deus.

Foi esta a interpretação que Jesus fez da sua acção libertadora: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demónios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28; Lc 12, 31).

O Reino de Deus não se confunde com os reinos dos homens. Passa-se ao nível de uma vida nova. Por isso é preciso nascer de novo para entrar no Reino: “Quem não nasce do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne, o que nasce do Espírito é Espírito” (Jo 3, 5-6).

O Reino de Deus implica decisão e fidelidade à vontade de Deus, a qual coincida rigorosamente com o que é melhor para nós: “Quem lança mão do arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62). Ou então: “Se a vossa justiça (fidelidade à vontade de Deus) não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).

Depois da sua conversão, São Paulo passou a sua vida a anunciar o Reino de Deus (Act 28, 31).

Os Apóstolos, antes da Ressurreição não entendiam a realidade do Reino de Deus, pois ainda tinham os critérios da carne (mundo judaico) e não os de Deus que o Espírito Santo comunicaria após a Páscoa (Mc 10, 35-45).

A acção messiânica de Jesus inicia o Reino. Mas este só atinge a fase da plenitude com o acontecimento da Ressurreição.

O Reino de Deus tem dimensões humano-divinas. Integra a Humanidade em Comunhão com a Divindade. O Reino de Deus é o ponto mais alto do Plano Salvador de Deus para a Humanidade.

Em Cristo acontece o enxerto do divino no humano e a integração deste no divino. A união da Humanidade com a Divindade é de tipo orgânico, isto é, acontece como interacção directa, vivificada e dinamizada pelo Espírito Santo, amor maternal divino.

Na união orgânica, as partes não se fundem nem confundem. Formam a totalidade sem se anularem ou mutilarem. Jesus é plenamente homem em união orgânica com a Humanidade. Do mesmo modo, a Segunda pessoa da Santíssima Trindade é plenamente Deus com o Pai e o Espírito Santo.

A Encarnação significa o enxerto do divino no humano sem alterar ou mutilar e a integração do humano no divino sem o anular.

Como imagem diríamos que o ramo de limoeiro, enxertado na laranjeira, continua a dar limões e não laranjas. Na dinâmica da Encarnação nem a divindade é mutilada nem a Humanidade é anulada.

A seiva que alimenta a união orgânica deste enxerto é o Espírito Santo, amor de Deus, derramado nos nossos corações, como diz a Escritura (Rm 5, 5).

Por ser o ponto de encontro e interacção do humano com o divino, Jesus Cristo é o Rei no Reino de Deus, pois este é de grandeza humano-divina.

O Reino de Deus é o encontro definitivo e indestrutível do Homem com Deus. Está em génese na história e culmina na assunção do Homem em Deus. O Reino de Deus constitui o horizonte máximo da Esperança Cristã.

Os cristãos sabem que a Igreja não se confunde com o Reino de Deus. A Igreja é sacramento, isto é, corporização ou explicitação Reino de Deus. Ao mesmo tempo é uma mediação privilegiada do Espírito Santo para facilitar a génese histórica do mesmo Reino.

Na Carta aos Efésios, O Apóstolo São Paulo sublinha este papel fundamental da Igreja dizendo:

“A mim, o menor de todos os santos, foi-me dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde todos os séculos em Deus, o Criador de todas as coisas.

E deste modo, por meio da Igreja, é agora dada a conhecer a multiforme sabedoria de Deus, de acordo com o desígnio eterno que ele planeou em Cristo Jesus nosso Senhor” (Ef 3, 8-11).

A Igreja é sacramento. A sua missão é para a história. No Reino de Deus já não há sacramentos, mas sim a realidade explicitada na história pelos sacramentos. O Reino de Deus, na sua plenitude, coincide com a humanidade divinizada em Cristo.

Candidatos ao Reino de Deus são todas as pessoas que tenham um coração capaz de comungar. Esta qualidade não resulta de rótulos ou títulos religiosos, mas de estar atento aos apelos do amor. Foi isto mesmo que Jesus disse aos especialistas de Deus do judaísmo do seu tempo:

“Jesus disse-lhes (aos sacerdotes e aos anciãos): Em verdade vos digo: os cobradores de impostos e as prostitutas vão preceder-vos no Reino de Deus. João (o Baptista) veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça e não acreditastes nele. Mas os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele” (Mt 21, 31-32).

O Reino de Deus é a comunhão Universal das pessoas humanas com as três pessoas divinas e quaisquer outras que existam, tenham existido ou venham a existir neste Universo quase Infinito.

 

 

c) O Messias Rei na Visão de São Paulo

São Paulo reconhece que Jesus é o Messias rei anunciado a David:

“Acerca do filho de Deus, nascido da descendência de David segundo a carne, constituído
Filho de Deus em todo o seu poder (Messias rei), através do Espírito Santo, pela ressurreição de entre os mortos, Jesus Cristo Senhor nosso” (Rm 1, 3-4).

Na perspectiva de São Paulo, Jesus subiu ao trono no Céu e agora temos de aguardar que ele venha de novo, a fim de instaurar o reino messiânico na Terra.

Como Jesus foi entronizado no momento da sua ressurreição, Quando regressar vai vir como rei investido de poder.

Vai vir para realizar o dia da ira de Yahvé, tal como foi anunciado pelos profetas.

De facto, os profetas coincidem em que este dia será aterrador.

Os homens olharão uns para os outros cheios de terror. Hão-de gemer como mulheres que estão para dar à luz. O Sol e a Lua deixarão de brilhar (Is 13, 4c-10).

Os habitantes da Terra serão destruídos e reduzidos a um pequeno número (Is 24, 6).

Deus conduzirá o Resto Fiel e com ele reinará em Jerusalém (Is 24, 23). Nesse dia, os justos falecidos ressuscitarão, a fim de tomarem parte no Reino glorioso de Deus (Is 26, 19).

Esse será o dia da vingança. Só o pequeno resto dos justos será salvo. (Is 35, 4). Deus habitará para sempre na Jerusalém restaurada.

A promessa messiânica feita a David será plenamente realizada (Is 55, 3-5).

É com este resto escolhido de todas as raças, línguas, povos e nações da terra que Jesus vai construir o Reino Messiânico na Terra.

São Paulo vê na conversão dos pagãos a realização da esperança de que um resto escolhido de todos os povos estará preparado para acolher Cristo quando este chegar.

Nos evangelhos também aparece esta ideia de que o Senhor vai vir de novo para fundar o Reino Messiânico:

“Estando eles a ouvir estas coisas, Jesus acrescentou uma parábola, por estar perto de Jerusalém e por eles pensarem que o Reino de Deus ia manifestar-se imediatamente.

Disse, pois: “Um homem nobre partiu para uma região longínqua, a fim de tomar posse de um reino e em seguida voltar.

Chamando dez dos seus servos, entregou-lhes dez minas, e disse-lhes: “fazei render a mina até que eu volte”.

Mas os seus concidadãos odiavam-no e enviaram uma embaixada atrás dele, a fim de lhe dizer que não queriam que ele fosse o seu rei.

Quando voltou, depois de tomar posse do reino, mandou chamar os servos a quem tinha entregue o dinheiro, para saber o que tinha ganho cada um deles” (Lc 19, 11-15).

Este texto é uma alusão clara ao Jesus que foi entronizado no céu e que voltará como rei preparado para fazer justiça.

Para São Paulo, a consumação de todas as realidades, dar-se-à aquando da Segunda vinda do Senhor.

O dia da segunda vinda é muitas vezes chamado como o dia do Senhor.

O dia do Senhor, diz Paulo, vai chegar muito em breve (1 Tes 5; 2 Tes 2).

A primeira carta aos Tessalonicenses é o documento do Novo Testamento que melhor testemunha a tensão escatológica da primeira geração (cf. 1, 3; 4, 13-18; 5, 1-11 4, 13-18; 5, 1-11; 5, 23-24). O conteúdo da nossa esperança é o futuro de Deus. Para os que vivem numa linha de fidelidade, o dia da vinda do Senhor é o momento da libertação.

Mas para os que vivem como inimigos de Cristo esse será o dia da ira, tal como foi anunciado pelos profetas (cf. Am 5, 18-20; Jl 2, 1;3, 14;Ez 30, 20-21; Mal 3, 19-23).

Profundo conhecedor dos textos proféticos, Paulo considera os cristãos como o resto fiel que escapará à ira final de Deus:

“Deus não nos reservou para a ira mas para, a salvação em nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tes 5, 9). O resto fiel é escolhido do meio da perversão do mundo, a fim de participar no Reino da glória de Deus (1 Tes 2, 12).

Os cristãos falecidos vão ressuscitar no dia da vinda do Senhor, a fim de participarem na festa da salvação (1 Tes 4, 15-17).

Deus é fiel. Por isso nos vai fortalecendo com a dinâmica do Espírito Santo, a fim de aparecermos irrepreensíveis no dia da vinda de Cristo (1 Cor 1, 8; 1 Tes 3, 13; 5, 23-24). Os obstinados estão a acumular razões de condenação para o dia da ira de Deus (Rm 5, 5-6).

Para os eleitos, o dia do Senhor é motivo de alegria e exultação. É o dia da salvação para os eleitos. Deus marcou-nos para esse dia com o selo do Espírito Santo (Ef 4, 30)

O dia do Senhor virá, como um ladrão, pela calada da noite (1 Tes 5, 2). Os eleitos não andam nas trevas de modo a ser surpreendidos no dia do Senhor (1 Tes 5, 4). O senhor está próximo (Flp 4, 5;Rm 13, 11).

Chegámos a estes tempos que são os últimos (1 Cor 10, 11). O Senhor virá com os anjos em todo o seu poder no dia da vingança (2 Tes 1, 5-10). Para os eleitos não há condenação, pois ninguém nos poderá separar do amor de Cristo (Rm 8, 35-39).