O
MESSIAS PROFETA
CALMEIRO MATIAS

Com a morte de
Salomão, o Reino de David dividiu-se em dois: ao sul, o reino de Judá, ligado à
casa de David.
Ao norte o reino
de Israel, constituído pelas dez tribos separatistas.
Eis como o livro
dos reis descreve o conflito que levou à divisão do Reino:
“Todo o Israel (as
dez tribos separatistas) viu então que o rei não queria ouvi-los e replicaram:
“Que temos nós a ver com a casa de David? Nós temos herança com o filho de
Jessé!
Governa a tua casa
David!” E Israel foi para as suas tendas.
Mas o rei Roboão
continuou a reinar sobre os filhos de Israel que pertenciam à tribo de Judá” (1
Rs 12, 16-17).
O rei do reino do
Norte não era da casa de David. Eis a razão pela qual não estava ligado à
promessa messiânica.
Os escribas do
reino do norte redigem um livro, assinando-o com o nome de Moisés, a fim de lhe
dar credibilidade.
O livro é um
resumo da Lei mosaica já existente. No livro do Deuteronómio, a esperança
messiânica não é associada à casa de David, pois os reis do norte não eram
descendentes de David.
O futuro Messias
será um profeta à maneira de Moisés.
Temos assim um
messianismo associado à casa de David, outro associado à teologia sacerdotal
dos levitas e, finalmente, outro associado à missão profética de Moisés.
O rei, para a
teologia ligada à esperança davídica (2 Sam 7, 12-16), é o medianeiro entre
Deus e o povo.
Com o
desaparecimento da monarquia, a teologia sacerdotal começa a acentuar cada vez
mais a vinda de um Messias sacerdote.
O Sumo-sacerdote,
agora passa a ser, não o rei, mas um sacerdote eleito pelos demais sacerdotes.
Este
Sumo-sacerdote é o medianeiro entre Deus e o Povo. Realiza tarefas políticas,
pois não existe rei.
Os textos
proféticos começam a falar de dois Messias: um da casa de David e outro da
linhagem sacerdotal (Zac 3, 8; 6, 11-12; Jer 33, 17-22).
Com a divisão do
reino de David, o medianeiro entre Deus e o povo, para o reino do norte é o
profeta.
O Deuteronómio
anuncia o futuro Messias como tratando-se de um profeta:
Disse Moisés: “As
gentes das terras que vos vou dar acreditam em agoireiros e adivinhos, mas a
ti, o Senhor Deus não o permite.
O Senhor teu Deus
suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu. Deves
escutá-lo.
No Monte Horeb
dissestes: “Não queremos mais ouvir o Senhor no meio de relâmpagos e trovões,
nem voltar a ver o fogo enorme, a fim de não morrermos.”
O Senhor disse-me
então: Está certo o que eles dizem. Suscitar-lhes-ei um profeta como tu, dentre
os seus irmãos.
Porei as minhas
palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que eu lhes ordenar.
Os que não derem
crédito às palavras que esse profeta vai pronunciar em meu nome, eu próprio lhe
pedirei contas” (Dt 18, 14-19).
A tradição cristã
atribuiu a Cristo esta tríplice missão messiânica, dizendo que Jesus Cristo é
rei, sacerdote e profeta.
Se quisermos ser
fieis ao pensamento bíblico teremos de dizer que é uma maneira de dizer que
Jesus possui a plenitude da função de medianeiro.
São Paulo diz que
o Senhor ressuscitado é o único medianeiro entre Deus e o Homem (1 Tim 2, 5).
Jesus, nos
evangelhos, designa-se a si próprio como um profeta com uma sorte idêntica à
dos outros profetas:
“Hoje, amanhã e
depois devo seguir o meu caminho, pois não pode acontecer que um profeta morra
fora de Jerusalém” (Lc 13, 33).
Jesus declara que
nenhum profeta é honrado na sua terra. As pessoas da sua terra diziam:
“Não é ele o filho
do carpinteiro? Não se chama a sua mãe Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e
Judas?
E as suas irmãs
não vivem todas entre nós? De onde lhe vem, pois, tudo isto?
Estavam, pois,
escandalizados por causa de Jesus. Mas Jesus disse-lhes: “Um profeta só é
desprezado na sua pátria e em sua casa.
E não fez ali
muitos milagres por causa da falta de fé daquela gente” (Mt 13, 55-58).
As palavras do
evangelho de Marcos são praticamente as mesmas que as do evangelho de Mateus de
Mateus (cf. Mc 6, 4).
O evangelho de
João e o de Lucas limitam-se a dizer que, certo dia, Jesus afirmou que um
profeta não é bem recebido na sua terra (Jo 4, 43; Lc 4, 24).
O facto destas
afirmações de Jesus estarem nos quatro evangelhos significa que têm um grande
peso histórico.
Jesus, portanto,
dá-se a si mesmo o título de profeta. As multidões também o aclamam como
profeta:
“A multidão dizia:
“Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galileia” (Mt 21, 11).
Os chefes dos
judeus procuravam matar Jesus, mas tinha receio, pois a multidão considerava-o
um profeta:
“Os
sumo-sacerdotes e os fariseus, ao ouvirem as suas parábolas, compreenderam que
eram eles os visados.
Embora procurassem
um meio de prender Jesus tinham receio, pois o povo considerava Jesus um
profeta” (Mt 21, 45-46).
Os discípulos de
Emaús, após a morte do Senhor falam dele como de um grande profeta:
“E um deles,
chamado Cléofas, respondeu: “Tu és o único forasteiro a ignorar o que lá se
passou nestes dias?” Ele perguntou-lhes: “Que foi”. Responderam-lhe: “O que se
refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e
de todo o povo” (Lc 24, 18-19).
A Samaritana falando
com Jesus chama-lhe profeta. Jesus não rejeitou este título (Jo 4, 19).
Mais à frente, o
próprio Jesus diz á Samaritana que é o Messias (Jo 4, 26).
Como vemos, os
evangelhos não vêem dificuldade em chamar profeta a Jesus Cristo, apesar que
saberem antecipadamente que ele é o Messias.
No evangelho de
João, ao ver as obras de Jesus, o povo interroga-se sobre se ele não será o
Messias Profeta à maneira de Moisés, tal como foi anunciado por Moisés (Dt 18,
15; 18-19). Depois da multiplicação dos pães, o povo diz que Jesus é realmente
o profeta anunciado:
“Aquela gente, ao
ver o milagre que Jesus fizera dizia: “Este é realmente o profeta que devia vir
ao mundo”. Por isso Jesus, sabendo que viria buscá-lo para o fazerem rei,
retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (Jo 6, 14-15).
Também aqui se vê
claramente a associação do Messias profeta com o Messias rei sem que isso
trouxesse qualquer problema.
Ao falar de Jesus
como sacerdote, o Novo Testamento nunca associa o sacerdócio de Jesus ao
sacerdócio cultual dos levitas:
“Mas Cristo veio
como Sumo-sacerdote dos bens futuros, através de uma tenda maior e mais
perfeita, a qual não foi feita por mãos humanas, isto é, não pertence ao mundo
criado.
Entrou uma só vez
no Santuário, não com o sangue de carneiros ou de vitelos (como os sacerdotes
levitas), mas com o seu próprio sangue, obtendo assim uma redenção eterna” (Heb
9, 11-12).
São João diz que
depois de Jesus prometer o Espírito Santo como fonte de Vida Eterna, alguns dos
ouvintes diziam que Jesus era o profeta, outros diziam que ele era o Messias:
“Entre a multidão
de pessoas que escutaram o ensinamento de Jesus dizia-se: “Ele é realmente o
profeta”. Outros diziam: “É o Messias” (Jo 7, 40-41).
É curioso notar
como João acentua que as pessoas diziam que Jesus era o profeta, não um
profeta. Esta maneira de falar referia-se, naturalmente, ao Messias profeta
anunciado no Deuteronómio.
Por outras
palavras, dizer que Jesus é o profeta é o mesmo que dizer que ele é o Messias.
Segundo o
evangelho de Lucas, Jesus reconhece que a unção profética anunciada por Isaías
se referia á sua pessoa:
“Jesus veio a
Nazaré onde se tinha criado. Segundo o seu costume entrou em dia de sábado na
sinagoga e levantou-se para ler.
Entregaram-lhe o
livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está
escrito:
“O Espírito do
Senhor está sobre mim,
Porque me ungiu
para anunciar a Boa Nova aos pobres.
Enviou-me a
proclamar a libertação aos cativos e,
Aos cegos,
O recobrar da
vista.
Enviou-me para mandar
em liberdade os oprimidos e a proclamar um ano de graça da parte do Senhor”.
Depois enrolou o
livro, entregou-o ao responsável e sentou-se.
Todos os que
estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele.
Começou,
Então a
dizer-lhes:
“Cumpriu-se hoje
esta passagem da Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4, 16-21).
Os evangelhos vêem
Jesus como o Servo sofredor que foi maltratado e humilhado.
O Servo é justo e,
por isso, não merecia aquelas humilhações.
Por ser solidário
com os pecadores, o seu sofrimento e a sua morte violenta acabou por trazer
vida para os seus pecadores que mereciam, esses sim, ser humilhados e
castigados.
Jesus não é um
profeta, mas o profeta, diz o evangelho de João. Isto significa que Jesus
realiza a sua missão messiânica como rei, sacerdote e profeta.