O
MESSIAS NOS PROFETAS
CALMEIRO MATIAS

A primeira
profecia messiânica foi pronunciada pelo profeta Natã cerca de mil anos antes
de Cristo.
O rei acabava de
conquistar a cidade de Jerusalém e estava a planear construir aí um templo para
Yahvé.
O profeta Natã
dirige-se ao rei dizendo-lhe que não é essa a vontade Deus.
Quando David
morrer, acrescenta o profeta, Deus vai suscitar-lhe um filho, o qual irá
construir um templo para Deus.
Graças a este
facto, Deus será um pai para esse descendente de David, graças ao qual a casa
real de David permanecerá para sempre (2 Sam 7, 12-16).
Esta profecia
marcou toda a tradição messiânica, ao ponto de o evangelho de Lucas a colocar
na boca do anjo que anuncia a Maria o nascimento de Jesus:
“Ele será grande e
chamar-se-à filho do Altíssimo. Vai herdar o trono de seu pai David. Reinará
eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim” (Lc 1, 32-33).
O rei David pensou
que a profecia se referia ao seu filho Salomão. Eis a razão pela qual ele
começou a preparar o seu filho para esta tarefa grandiosa.
Logo que subiu ao
trono, Salomão construiu o templo de Jerusalém, convencido de estar a realizar
a profecia de Natã.
No dia da inauguração
do templo, o rei declara que, ao construir o templo, estava a realizar a
vontade de Deus, tal como ela foi anunciada a David seu Pai:
“Depois, Salomão
colocou-se diante do altar do Senhor, perante toda a assembleia de Israel;
levantou as mãos para o céu e disse:
Senhor, Deus de
Israel, não há Deus semelhante a ti, nem no mais alto dos Céus, nem cá em baixo
na Terra.
Tu guardas a tua
misericordiosa Aliança para com os teus servos que caminham na tua presença de
todo o coração.
Tu cumpriste
sempre as tuas promessas para com o teu servo David, meu pai.
Tudo o que a tua
boca anunciou, a tua mão o realizou, como hoje podemos ver.
Agora, Senhor,
Deus de Israel, realiza a promessa que fizeste ao teu servo David, meu Pai,
quando lhe disseste:
“Nunca mais deixará
de sentar-se, diante de mim, no trono de Israel, alguém da tua estirpe, desde
que os teus filhos tenham o cuidado de ter uma conduta correcta, caminhando na
minha presença, como tu fizeste (…).
Que o teu olhar
esteja atento dia e noite sobre este lugar do qual disseste: “Aqui estará o meu
nome. Ouve, pois, a oração que, neste lugar, te faz o teu servo” (1 Rs 8,
22-29).
Claro que a
profecia de Natã não entrava em tantos pormenores, mas foi esta a interpretação
que a casa de David da referida profecia de Natã.
Devido a esta
profecia, os filhos de David, a partir do dia em que sobem ao trono, passam a
ser designados filhos de Deus:
“Fui eu quem
consagrei o meu rei sobre o meu monte santo de Sião!
Vou anunciar o
decreto do Senhor. Ele disse-me: “Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei” (Sal 2,
6-7).
Fazendo referência
à profecia de Natã, o Salmo 89 diz:
“Fiz uma Aliança
com o meu eleito, jurei a David, meu servo:
Estabelecerei a
tua descendência para sempre e o teu trono há-de manter-se eternamente” (Sal
89, 4-5).
E mais à frente o
mesmo salmo acrescenta:
“Encontrei David,
meu servo, e ungi-o com o óleo santo.
A minha mão estará
sempre com ele e o meu braço há-de torná-lo forte (…).
Ele me invocará,
dizendo: Tu és meu Pai, és o meu Deus e o rochedo da minha salvação!
Eu farei dele o
meu primogénito, o maior entre os reis da terra (…).
Estabelecerei para
sempre a sua descendência e o seu trono terá a duração dos Céus” (Sal 89,
21-30).
Perante textos
como estes não é difícil ver onde Lucas foi buscar o seu texto da anunciação,
pondo na boca do anjo uma mensagem que é, de facto, uma síntese a esperança
messiânica do Antigo Testamento:
“Disse-lhe o anjo:
“Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus.
Hás-de conceber no
teu seio e dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.
Ele será grande e
vai chamar-se filho do Altíssimo.
O Senhor Deus vai
dar-lhe o trono de seu pai David, reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o
seu reinado não terá fim” (Lc 1, 30-33).
Os profetas vão
ampliar e fortalecer a esperança messiânica, ao ponto de os tempos messiânicos
surgirem como a plenitude dos tempos.
O profeta Isaías
falando dos tempos gloriosos que virão e da figura salvadora do Messias,
proclama o nascimento do Messias como o sinal visível da bondade e da presença
de Deus no meio do povo:
“Um menino nasceu
para nós, um filho nos foi dado.
Sobre os seus
ombros recairá o ceptro do poder. Será chamado Conselheiro Maravilhoso, Deus
Altíssimo, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9, 6).
Face à
incredulidade do rei Acaz, Deus vai dar-lhe um sinal, pois a jovem está grávida
e dará à luz um filho, o qual será chamado Emanuel, isto é, Deus connosco (Is
7, 14).
Moisés foi enviado
por Deus, a fim de conduzir o povo pelo deserto e, deste modo, poder atingir a
terra prometida.
Do mesmo modo Deus
vai enviar um líder que, no deserto, vai preparar e conduzir o povo ao Messias
prometido:
“Uma voz clama no
deserto: “Preparai os caminhos do Senhor. No deserto endireitai os caminhos
para o Senhor nosso Deus” (Is 40, 3).
Naturalmente que
este texto foi escrito para elevar os ânimos do povo escravizado em Babilónia.
O profeta tenta
dizer aos exilados de Babilónia que, tal como Deus conduziu os escravos do
Egipto pelo deserto até atingirem a plena liberdade na terra prometida, assim
vai acontecer agora.
Mas os escritores
do Novo Testamento, preocupados com a realização das Escrituras em Cristo,
aplicam este texto a João Baptista.
Segundo Lucas,
João realiza o papel do líder que, no deserto, conduz o povo de Deus para a
vinda do Messias:
“João começou a
percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência para
remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías:
Uma voz clama no deserto: “preparai os caminhos do Senhor, e endireitai as suas
veredas.
Toda a ravina será
preenchida, todo o monte e colina serão abatidos;
Os caminhos
tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos.
E toda a criatura
verá a salvação de Deus” (Lc 3,3-5).
Isaías compara o
Messias a um renovo ou rebento saído de uma planta chamada Jessé, o Pai de
David. Sobre ele repousará o Espírito de Deus que o capacitará para criar uma
Nova Humanidade:
“Brotará um
rebento do tronco de Jessé, e um renovo brotará das suas raízes.
Sobre ele
repousará o Espírito do Senhor:
Espírito de
sabedoria,
Espírito de
entendimento,
Espírito de
Conselho,
Espírito de
Fortaleza,
Espírito de
Ciência e de Temor do Senhor.
Não julgará pelas
aparências nem proferirá sentenças somente pelo que ouviu dizer.
Pelo contrário,
Julgará os pobres
com justiça e os humildes da terra com equidade (…).
Então o lobo
habitará com o cordeiro,
E o leopardo
deitar-se-à ao lado do cabrito.
O novilho e o leão
comerão juntos,
E um menino os
conduzirá (…).
A criancinha
brincará na toca da víbora e o menino recém desmamado meterá a mão na toca da
serpente.
Não haverá dano
nem destruição em todo o meu santo monte,
Pois a terra está
cheia do conhecimento do Senhor” (Is 11, 1-9).
É difícil dizer de
maneira mais bonita o sonho da Nova Humanidade.
O profeta Jeremias
dirá que a Humanidade restaurada pela acção salvadora do Messias é obra do
Espírito Santo, o qual será o selo de uma Nova Aliança, a qual será
indestrutível:
“Dias virão em que
firmarei uma Nova Aliança com a Casa de Israel e a casa de Judá, oráculo do
Senhor.
Não será como a
aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para os fazer
sair da terra do Egipto, aliança que eles não cumpriram, apesar de eu ser o seu
Deus, oráculo do Senhor.
Esta será a
aliança que eu estabelecerei, depois desses dias, com a casa de Israel, oráculo
do Senhor:
Imprimirei as
minhas leis no seu íntimo e gravá-las-ei no seu coração. Serei o seu Deus e
eles serão o meu povo (…).
Todos me
conhecerão desde o maior ao mais pequeno,
Pois a todos
perdoarei os seus pecados e não mais me lembrarei das suas iniquidades, oráculo
do Senhor” (Jer 31, 31-34).