O LUGAR
CENTRAL DAS RELAÇÕES HUMANAS
CALMEIRO MATIAS

a) Relações Humanas e Estruturação Pessoal
b) Sexualidade e Relações Humanas
c) Deus e o Homem Como Mistério de Relações
1- As Pessoas Revelam-se através das Relações
2- Relações e Plenitude Humana
d) O Lugar do Amor nas Relações Humanas
a)Relações Humanas e Estruturação Pessoal
Quando ouvirmos uma pessoa dizer que não se interessa se as pessoas gostam
ou não dela, podemos ter a certeza de que essa pessoa ou está psiquicamente
doente ou está a mentir.
Uma expressão deste tipo pressupõe sempre um sofrimento de fundo.
O sentimento de não ser procurado, de não fazer falta produz frustração,
envelhecimento e doença.
Quando uma pessoa nota que ninguém a procura, vai sendo cada vez mais
dominada pela solidão. A sua vida psíquica fica profundamente abalada.
A Bíblia é perita em amor e humanização do Homem. Esta sabedoria aparece
sintetizada de modo brilhante no mandamento do amor:
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não existe outro mandamento maior
que este” (Mc.12,28-31; Mt.22,34-39; Lc.10,25-27).
Noutra passagem podemos ler:
“O amor vem de Deus e todo o que ama nasceu de Deus. O que não ama não
conheceu a Deus, pois Deus é Amor” (1Jo.4,7-8).
Na sua essência, o facto de os outros gostarem de nós, é a resposta ao
facto de nós gostarmos deles. Ajudemos as pessoas a realizar-se e ser felizes e
elas amar-nos-ão por este facto.
Facilitemos a realização dos outros tanto quanto pudermos, a fim de a
alegria e felicidade começarem a germinar em nós, pois os amigos começam a
surgir espontaneamente.
Não esqueçamos que criar simpatia é uma arte que depende da sabedoria que
utilizamos nas nossas relações. Eis alguns aspectos importantes:
Não é bom termos a pretensão de
saber tudo. A humildade e a naturalidade cativam: “Felizes os mansos, porque
possuirão a Terra (…). Felizes os construtores da paz, porque serão chamados
filhos de Deus” (Mt.5,5-9).
Tenhamos o cuidado de mostrar interesse por coisas que são muito
importantes pelos que se aproximam de nós. Nunca deixemos de felicitar o outro
pelas suas realizações mesmo que sejam pequenas, bem como mostrar pena pelas
suas dores e tristezas.
Fazendo assim estamos a entrar em comunhão com o irmão e com o Espírito
Santo que nos habita aos dois.
Pelo contrário, quando uma pessoa sente ódio por alguém não consegue ter
paz interior. Isto é sobretudo verdade quando estamos em conflito aberto.
A nossa inteligência fica obscurecida e o nosso coração gera negativismo. Esta
situação bloqueia a circulação do dinamismo amoroso e criador de Deus em nós.
Nestas circunstâncias não conseguimos caminhar calmamente nem cultivar uma
verdadeira serenidade.
Quando odiamos ou detestamos alguém somos nós os mais prejudicados. Com
efeito, o ódio fecha o nosso coração, bloqueando a nossa comunhão com a força
amorosa do Espírito Santo que habita em nós.
Eis a razão pela qual é importante orar pelos inimigos, tal como Jesus nos
ensinou:
“Digo-vos a vós que me escutais: amai os vossos inimigos e fazei bem aos
que vos odeiam. Abençoai os que vos amaldiçoam, rezai pelos que vos caluniam”
(Lc 6, 27-28).
À medida em que a pessoa reza pelos inimigos começa a sentir-se liberta do
remoinho que a faz girar à volta dos sentimentos negativos que só a desgastam,
perturbam a sua paz e bloqueiam as suas capacidades criadoras.
As nuvens de ódio que escurecem o nosso coração só podem ser diluídas
mediante um propósito firme de perdoar.
b) Sexualidade e Relações Humanas
A constituição morfológica e fisiológica do nosso corpo talha-nos para uma
interacção sexual. E o mesmo acontece com a nossa vida psíquica.
Os seres humanos, tal como os animais, estão sexualmente marcados até ao
nível genético.
A sexualidade é um instinto vital que nos marca a nível dos genes, das
células, dos órgãos, do psiquismo e mesmo ao nível espiritual.
Por outras palavras, somos seres sexualmente estruturados, tanto a nível
biológico como psíquico e espiritual.
A marca da nossa condição de seres marcados pelo matiz masculino ou
feminino permanecerá até na comunhão universal do Reino de Deus.
Por outras palavras, a nossa identidade espiritual é constituída pelo nosso
jeito de amar, seja masculino ou feminino.
A nossa identidade definitiva no Reino de Deus é constituída pelo jeito de
amar com o qual nos fomos estruturando pessoalmente.
No Reino de Deus dançaremos eternamente o ritmo do amor com o jeito que
tivermos treinado aqui na terra.
Enquanto vivemos na terra, todas as nossas relações são sexuadas, o que não
quer dizer sexuais ou genitais.
No Reino de Deus o nosso modo de amar e nos relacionarmos, supera a
dimensão sexual, a qual é de tipo individual, isto é, biológico e psíquico, os
quais acabam no cemitério.
No entanto, permaneceremos para sempre como seres que amam de modo
masculino ou feminino.
Como vimos, só nos podemos realizar em relações, pois estamos talhados para
o face a face amoroso.
Ninguém vê directamente o seu próprio rosto. Apenas vemos de modo directo o
rosto dos outros. Devido à presença envolvente da sexualidade, as nossas
relações são todas sexuadas.
Não devemos confundir este termo com relações sexuais ou genitais. Dizer
que as nossas relações são sexuadas significa que é como seres sexuados que nos
relacionamos com os outros.
A sexualidade confere às nossas relações o carácter da diferença. Isto a
todos os níveis: relações sociais, profissionais, desportivas, culturais,
relações entre pais e filhos e outras.
Reagimos de modo diferente consoante nos relacionemos com pessoas da nossa
condição sexual ou de condição sexual diferente.
É importante termos consciência deste facto, a fim de vivermos as nossas
relações de modo consciente e sem tabus ou sentimentos de culpa.
Foi Deus que nos quis assim. Devemos aceitar esse facto e orientar a nossa
afectividade no sentido do amor e da comunhão fraterna.
De facto, a nível humano, a sexualidade atinge a sua perfeição no amor. Relações
sexuais sem amor reduzem o outro a mero objecto de prazer. Procriar sem amor é
pecado.
c) Deus e o homem Como Mistério de Relações
1- As pessoas Revelam-se Através das Relações
Quando comunicamos significativamente com outras pessoas, estamos a
estruturar-nos como pessoas.
Pouco a pouco, e sem nós darmos por isso, as relações vão criando uma
reciprocidade entre nós e os outros.
O modo como vemos o outro começa a ser também o modo como ele nos vê a nós.
Por outras palavras, do mesmo modo como o outro nos trata nós começamos
pouco a pouco a tratá-lo também.
As pessoas, tanto as humanas como as divinas ou quaisquer outras que possam
existir estão talhados para a reciprocidade.
Isto que dizer que as pessoas se conhecem e possuem na medida em que
interagem com as outras.
Na relação com as outras pessoas encontramos a nossa pessoa e as outras, na
relação connosco, encontram-se e possuem-se.
Mas a dinâmica das relações humanas vai ainda mais longe.
Na verdade, nós não só nos encontramos nas relações com os outros, senão
que também nos estruturamos psiquicamente.
Além disso é ainda através das relações que a nossa realidade espiritual
emerge e se robustece.
Por outras palavras, as relações humanas são, de facto, a dinâmica que faz
emergir e crescer a pessoa na sua identidade fundamental.
Por estar talhada para a reciprocidade e a comunhão, a pessoa não consegue
emergir, encontrar-se e possuir-se senão através da pessoa dos outros.
É este o mistério do Homem, a emergir e a encontrar a sua plenitude através
da dinâmica das relações.
Na verdade, o Homem é realmente um ser criado á imagem e semelhança de
Deus.
Assim, a primeira pessoa da Santíssima Trindade é Pai, não por ter
procriado, mas porque em dinâmica de relações estabelece uma relação paternal
com a segunda pessoa da Santíssima Trindade.
Do mesmo modo, a segunda pessoa é filho, não por ter sido dado à luz, mas
porque acolhe em relações o amor dopai e estabelece uma relação filial como
resposta.
Isto quer dizer que é nas relações que a pessoa encontra e possui a sua
identidade.
Mas as relações só têm este poder de fazer emergir e configurar a
identidade pessoal se tiverem a densidade do amor.
A densidade do amor de uma pessoa revela-se nas suas relações com os
outros.
Como sabemos, as pessoas não são evidentes na sua realidade mais profunda,
mas revelam-se através das relações.
Quando as relações humanas são fundamentadas no egoísmo, as pessoas
encontram-se como seres separados, e competitivos, enroscando-se cada qual para
seu lado.
A pessoa que se decide de modo incondicional pela vivência de relações
fundamentadas no egoísmo estrutura-se de modo gradual, progressivo e
irreversível em estado de inferno.
De facto, o inferno é o estado de uma pessoa que decidiu opor-se
sistematicamente às relações de amor.
Na situação de inferno a pessoa não tem ninguém que lhe diga:
“Gosto de ti. Sem ti eu era mais pobre. Dá-me a tua mão e vamos fazer uma
festa”.
Nas relações de amor, pelo contrário, temos duas pessoas que procuram olhar
para além da sua condição de ser único, original e irrepetível para descobrir a
unidade orgânica e dinâmica que constitui a base dos seu ser.
Na verdade, cada pessoa é uma concretização da única Humanidade que existe.
A Humanidade não existe em abstracto. Não cai das nuvens.
Pelo contrário, a única Humanidade que existe emerge no concreto de cada
pessoa de modo único, original, irrepetível e capaz de reciprocidade amorosa.
Devido a esta capacidade de amar e comungar, a pessoa, na medida em que
emerge, converge para a comunhão Universal.
É este o mistério da pessoa que apenas se pode encontrar e possuir na
comunhão com os outros.
Temos medo de nos perder na dinâmica da comunhão orgânica.
Pensamos que, deste modo perdemos a nossa grandeza e glória, acabando por
nos enroscarmos na nossa pequenez de ser isolado.
Este isolamento impede-nos de nos possuirmos e encontrarmos na nossa
riqueza mais profunda.
Nada mais errado, pois a pessoa só é verdadeiramente grande na comunhão.
Por outras palavras, a plenitude da pessoa não está em si, mas na
reciprocidade da comunhão.
Se nos pomos a olhar só para nós perdemos o horizonte da nossa verdadeira
grandeza, a qual só pode saborear-se na comunhão.
É assim a nossa realidade como também a realidade de Deus.
A comunhão optimiza a nossa realidade pessoal. Por outras palavras, a
comunhão não anula a identidade pessoal, mas optimiza-a e potencia-a.
2- Relações e Plenitude Humana
Aquilo que uma pessoa é atinge a sua plenitude ao realizar aquilo para que
ela é.
Como sabemos, a pessoa está talhada para o amor. Deus é amor e a pessoa
realiza-se na medida em que se constrói à imagem e semelhança de Deus.
Deus é Amor infinitamente perfeito e a pessoas humanas são seres em
processo de amorização.
Por outras palavras, tornamo-nos imagens perfeitas de Deus na medida em que
vamos morrendo ao egoísmo e vamos emergindo em dinâmica de amor.
O amor é uma orientação dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa
e como meta a comunhão.
Na plenitude da Comunhão do Reino de Deus, as pessoas humanas relacionam-se
em amor na medida em que viveram relações de amor enquanto estavam em construção
sobre a terra.
Na medida em que a pessoa se dá em dinâmica de amor está a construir a sua
identidade pessoal, a qual é definitiva e eterna.
Por outras palavras, na festa do Reino de Deus todos dançam o ritmo do
amor, mas cada qual com o jeito que tenha treinado agora na terra.
Não há amor sem relações. Quando dizemos que Deus é amor estamos a dizer
que Deus é relações de amor e comunhão com uma densidade infinitamente
perfeita.
O amor é a qualidade máxima das relações interpessoais e comunitárias.
É o amor que confere qualidade humanizante às relações humanas.
Por outras palavras, as relações fundamentadas no egoísmo são relações
desumanizantes.
Deus não nos criou feitos ou acabados. Criou-nos
em processo de humanização.
O Espírito Santo é a ternura maternal de
Deus que, no nosso íntimo, nos inspira e interpela no sentido de nos
humanizarmos, a fim de sermos divinizados.
É este o sopro divino que, no princípio,
Deus insuflou nas nossas narinas como diz a Bíblia (Gn 2, 7).
É esta a intervenção especial de Deus na
nossa criação.
Foi o Espírito Santo que iniciou na
Histórica da Humanidade o impulso da amorização.
O Livro do Génesis diz isto com a imagem do
sopro primordial de Deus no barro amassado.
São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor
de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Com seu jeito maternal de amar, o Espírito
Santo ilumina-nos e convida-nos a decidir e agir segundo os apelos do amor.
O amor engloba dois movimentos distintos e
complementares: Dom e acolhimento.
Mediante o dom de si, a pessoa existe para
o outro (princípio ágape). No acolhimento, a pessoa existe através do outro
(princípio Eucarístico).
É este o jeito de Deus Pai e Deus Filho se
relacionarem.
É esta a dinâmica do amor na plenitude do
dom e do acolhimento.
Mediante a atitude de doação, a pessoa
encanta-se com a outra pelo facto de ela ser diferente.
Valoriza essa diferença e entra em comunhão
com ela.
Na atitude de acolhimento agradecido, a
pessoa dispõe-se atingir a plenitude através do outro.
Como vemos, na reciprocidade amorosa as
diferenças não são anuladas.
Pelo contrário, são optimizadas e
plenamente valorizadas.
A verdadeira comunhão é sempre uma comunhão
de diferenças.
Se assim não fosse não podíamos falar de
comunhão, mas antes de fusão.
Mediante a atitude de doação, a pessoa age
de modo a proporcionar a plenitude do outro, dando-se.
Mediante a atitude de acolhimento e
gratidão, a pessoa encontra a sua felicidade em acolher o dom da outra,
aceitando viver por ela na medida em que se sente aceite tal como é.
d) O Lugar do Amor nas Relações Humanas
A realização pessoal é resultado de
um processo histórico. Para nos dizermos temos de contar uma história.
Quando nos queremos comunicar em
profundidade sentimos uma necessidade enorme de contar a nossa história.
Como seres em realização histórica
vamo-nos estruturando de modo gradual e progressivo.
A dinâmica que robustece e faz
avançar a estruturação pessoal é o amor.
Na verdade, o amor é uma dinâmica de
bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.
O bem amado vai emergindo como
pessoa bem estruturada e dotada de um leque de possibilidades para amar e
ajudar os outros a serem felizes.
O mal amado, pelo contrário, emerge
como pessoa complicada, mal estruturada e condicionada nas suas possibilidades
de realização pessoal.
A lei do amor é esta:
1-Ninguém é capaz de amar antes de
ter sido amado.
2-O bem amado fica capacitado para
se realizar de modo feliz e facilitar a realização dos outros.
3-O mal amado, pelo contrário, ama
mal, isto é, fica mal estruturado e bloqueado para viver a dinâmica do amor.
Como vemos, só o amor possibilita
uma boa estruturação pessoal.
Ninguém é herói por ter recebido muitos talentos, como ninguém é
culpado por ter um feixe de talentos limitado.
A heroicidade está na fidelidade aos talentos que recebemos.
No cume da marcha evolutiva a vida deu o salto para o nível
pessoal.
A vida pessoal é sempre vida espiritual. Os
níveis biológico e psíquico formam a dimensão individual da pessoa
humana.
Para entendermos melhor esta diferença podemos dizer que os
animais são indivíduos, mas não são pessoas.
Ao dar o salto para o nível pessoal, a vida tornou-se
proporcional a Deus.
Com efeito, a Divindade é pessoas e a Humanidade também.
Graças ao aparecimento do Homem já pode acontecer intercâmbio e
comunhão entre Criador e Criação.
Por outras palavras, com o aparecimento do Homem a vida deu o
salto para o espiritual, o qual é definitivo, eterno, imortal e interior.
Nasceu a capacidade de amar. A vida espiritual emerge no
interior do provisório. O nosso ser interior é pessoal-espiritual.
Emerge e estrutura-se de modo gradual e progressivo dentro do eu
exterior como o pintainho dentro do ovo.
Por outras palavras, o imortal brota no interior do mortal.
Com a emergência de seres pessoais no Universo surge a força da
vida que vence o vazio da morte.
Com efeito, a emergência pessoal significa a vida a vencer a
morte.
É a Criação a tornar-se proporcional ao Criador. As pessoas
constituem-se como seres livres, conscientes, responsáveis, únicos, Originais,
irrepetíveis e capazes de comunhão amorosa.
Deus é uma comunhão de três pessoas. Isto significa que Deus é
um mistério de relações.
O Homem foi criado à imagem de deus. Por isso também ele só pode
realizar-se em relações.
Pelo mistério da Encarnação enxertou-se na humanidade, entrando
de modo intrínseco na dinâmica das relações humanas.
Graças a entre enxerto da Divindade na Humanidade, as pessoas
humanas foram assumidas e incorporadas no mistério das relações familiares de
Deus:
Filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho.
Esta interacção relacional humano-divina é alimentada pelo
Espírito Santo que é a ternura maternal de Deus.
O Espírito Santo, com seu jeito maternal de amar, vai-nos
configurando interiormente com Cristo e introduzindo na comunhão familiar da
Santíssima Trindade (cf. Rm 8, 14- 17; Ga 4, 4-7).
As relações de amor são a temperatura que faz desabrochar no
coração dos seres humanos a vida pessoal-espiritual.
Só os seres humanos que amam merecem uma estátua, pois souberam
estruturar-se e possibilitaram, com o seu amor, a realização de muitas outras
pessoas.
A pessoa que ama está a ser fiel ao amor com que foi amada.
Com efeito, segundo a lei do amor, ninguém é capaz de amar antes
de ter sido amado.
O mal amado estrutura-se mal e, por esta razão, fica bloqueado
nas suas possibilidades de amar. É vítima, não culpado.
Todos compreendemos a importância que teve para nós o amor com
que os outros nos amaram.
Quando sentimos o amor dos outros cresce em nós a segurança e a
confiança perante a vida.
Sentimo-nos valorizados, aceites e tomados a sério. Isto
capacita-nos e interpela-nos no sentido de amarmos os outros.
Quando sentimos que os outros nos valorizam gostamos de partilhar
o que fazemos e ficamos capacitados para ir mais longe.
O amor dos outros optimiza as nossas capacidades para assumirmos
papéis e tarefas na sociedade ou no interior da vida familiar.
No coração do amor humano surge o Espírito de Deus, ponto de encontro
e interacção com as pessoas do Pai e do Filho.
Como vemos, a comunhão humana é optimizada e assumida em Deus.
A interioridade pessoal emerge em cada ser humano como novidade
total em relação aos outros. Isto quer dizer que as relações baseadas no amor
são factor permanente de novidade pessoal.
Sempre que nos recusamos a amar uma pessoa estamos a impedir a
humanidade de desabrochar numa novidade que nunca mais poderá acontecer.
Em cada homem está presente a Humanidade faminta de ser. Mas
isto só acontece se nos empenharmos na nossa realização pessoal, facilitando a
emergência dos outros.
O pecado é a recusa a relacionar-se amorosamente com os outros
e, por isso, bloquear a própria realização e a realização dos outros.
Como vemos, podemos impedir a Humanidade de nascer em nós e nos
outros.
Do mesmo modo, podemos facilitar a emergência da Humanidade em
nós e nos outros mediante o amor.
Por outras palavras, o sucesso da humanização da Humanidade é
uma questão de relações de amor.
Eis a razão pela qual Jesus Cristo disse que o seu mandamento é
o amor:
“É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu
vos amei” (Jo 15,12).
Somos chamados, portanto, a responder às propostas que o amor
nos faz em cada dia.
Pecamos contra a Humanidade quando bloqueamos a sua emergência
em nós e naqueles que se cruzam na nossa vida.
A nossa consciência é o altifalante através do qual o Espírito
Santo nos convida a amar os irmãos no concreto dos acontecimentos do dia a dia.
Amar é decidir-se pelo bem do outro. O amor depende de nós.
Quando elegemos o outro como nosso próximo, o amor acontece e
realiza-se através de opções, escolhas, decisões e compromissos com o jeito do
bem-querer.
Implica igualmente acolher os gestos de fraternidade dos outros.
Amar é também deixar-se amar!
Na medida em que somos fiéis ao amor emerge no nosso coração a alegria.
A alegria nunca brota espontaneamente no coração dos que se fecham ao amor
dos outros.
Como sentimento, a alegrias é contentamento e exultação.
À medida em que a pessoa se vê envolvida numa dinâmica de relações de amor,
a alegria torna-se também gratidão.
Como vemos, o amor dos outros é para nós mediação de realização e
felicidade.
A pessoa que se sente em realização sente-se alegre e feliz por ser quem é.
A alegria atinge a sua plena identificação com o amor na medida em que uma
pessoa é capaz de se sentir contente com o bem que acontece aos outros.
As pessoas maturas e humanizadas são peritas na arte de imprimir a alegria
e o sabor da festa no tecido das relações humanas.