O HOMEM NO DIÁLOGO DA TRINDADE DIVINA
CALMEIRO MATIAS

A
Bíblia ensina-nos que Deus não é uma força misteriosa sem coração.
Pelo
contrário, pela Fé sabemos que Deus é relações de perfeita reciprocidade
amorosa e familiar:
Deus
Pai encontra-se e possui-se de modo infinitamente perfeito, dando-se como amor
paternal e dom incondicional ao seu Filho:
“Quero ser totalmente para ti!
Do
mesmo modo, Deus Filho possui-se e encontra-se de modo pleno, dando-se com
pleno amor filial e doação incondicional a Deus Pai:
“Sei que me amas incondicionalmente. Tenho a
certeza de que queres o melhor para mim. Sei que és incapaz de me manipular.
Eis
a razão pela qual quero fazer sempre a tua vontade e deixar-me ser através de
ti.”
Jesus
de Nazaré e o Filho Eterno de Deus fazem uma união orgânica e dinâmica,
alimentada pelo Espírito Santo.
Enquanto
viveu na História, Jesus era a expressão humana perfeita deste amor
incondicional de Deus Filho para com Deus Pai.
Segundo
os evangelhos,
Jesus
exprimiu muitas vezes este desejo de se identificar totalmente com a vontade de
Deus:
“O
meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo
4, 34).
“Não
procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).
“O
pai não me deixa sozinho, pois eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8, 29).
“O
mundo vai saber que eu amo o Pai e faço tudo como ele me ordenou” (Jo 14, 31).
De
tal modo a vontade do Filho estava em sintonia com a vontade de Deus Pai que
Jesus, no evangelho de São João diz o seguinte:
“Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).
Jesus
procurava incansavelmente a salvação das pessoas, pois era esta a vontade do
Pai:
“Não
é da vontade do vosso Pai que está nos Céus, que um destes pequeninos se perca”
(Mt 18, 14).
A
terceira pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito santo, ocupa um lugar central
neste diálogo familiar e na comunhão da Trindade Divina.
Como
amor maternal de Deus, o Espírito Santo é princípio animador de relações e
vínculo maternal de comunhão orgânica.
O
Espírito Santo é o coração da convergência familiar da Santíssima Trindade.
Isto
quer dizer que o Espírito Santo se encontra e possui de modo pleno coração do
diálogo e da reciprocidade amorosa de Deus Pai com Deus Filho.
Inspira
a novidade permanente do dom incondicional de Deus Pai e a resposta amorosa de
Deus Filho.
A
mesma ternura maternal do Espírito Santo sugere a Deus Pai que acolha
amorosamente o seu Filho Unigénito, mas também a nós como filhos seus (Rm 8,
14-17).
O
plano criador e salvador de Deus, portanto, faz parte do próprio diálogo
amoroso da Santíssima Trindade.
O
Espírito Santo é também o vínculo maternal na união orgânica que acontece na
Encarnação, mediante a qual o divino se enxerta no humano.
A
partir da ressurreição de Cristo, nós ficamos a ser dinamizados de modo
intrínseco pelo Espírito Santo.
Graças
a esta interacção nova, a Vida Divina passou a circular nos nossos corações.
Como
Jesus disse à Samaritana, o Espírito Santo é a Água Viva que faz jorrar em nós
rios de Vida Eterna.
Deste
modo o Espírito Santo é o sangue da Nova e Eterna Aliança, isto é, o portador
da Vida de Deus para o Homem Novo recriado e reconciliado com Deus em Cristo (2
Cor 5, 17-19).
É
como a seiva da laranjeira robusta que se comunica ao ramo frágil e doente do
limoeiro que nela foi enxertado.
Graças
à seiva que circula da laranjeira para o limoeiro, este volta a ficar robusto e
a dar limões de excelente qualidade.
Assim
também, os frutos de vida que vamos produzindo, são resultado da seiva divina a
circular nas “veias” interiores do nosso ser espiritual.
O
Homem tem, pois, um lugar no diálogo amoroso da Santíssima Trindade cujo
coração é o Espírito Santo.
Nesta
mesma perspectiva já podemos compreender o lugar central do Espírito Santo no
acontecimento da Encarnação e o poder que, por este mistério, nos é concedido,
ao ponto de nos tornarmos filhos de Deus:
Com
seu jeito maternal de amar, ele nos conduz a Deus Pai que nos acolhe como
filhos.
Com
este mesmo jeito maternal de amar, ele alimenta a união orgânica que nos liga a
Jesus Cristo.
Mediante
a comunicação intrínseca com o Espírito Santo, nós formamos união orgânica com
Deus.
Pela
Encarnação, diz o evangelho de São João, Foi-nos dado o poder de nos tornarmos
filhos de Deus (Jo 1, 12-14).
Pela
ressurreição de Jesus, acrescenta São João, nós fazemos uma união orgânica com
Deus, formando a Família Divina (Jo 17, 21-23).
O
Espírito Santo é, realmente, o amor de Deus derramado nos nossos corações, como
diz São Paulo (Rm 5, 5).
Isto
significa que Deus não esteve à espera de que fossemos bons para nos amar.
Pelo
contrário, ama-nos de modo incondicional e configura-nos com o próprio Filho de
Deus, diz São Paulo:
“Porque
àqueles que Deus conheceu antecipadamente, também os predestinou para serem uma
imagem idêntica à do seu Filho, de tal modo que ele é o primogénito de muitos irmãos”
(Rm 8, 29).
Graças
à nossa interacção intrínseca com o Espírito Santo, nós somos introduzidos no
próprio diálogo da Santíssima Trindade em forma de oração:
“Deste
modo, o Espírito Santo vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos pedir
e dialogar de modo adequado.
Mas
o Espírito Santo intercede por nós com gemidos inefáveis.
E
o Pai que examina os corações conhece as intenções do Espírito Santo, pois é de
acordo com o sentir de Deus que o Espírito Santo intercede por nós” (Rm 8,
26-27).
O
Espírito Santo é o coração da convergência familiar da Santíssima Trindade e o
impulso gerador de fraternidade entre nós.
É
por ele que entramos no diálogo da Santíssima Trindade, como filhos em relação
a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus Filho.
Eis
a razão pela qual quando oramos no Espírito Santo estamos a dialogar com Deus
em termos de comunicação familiar.
Na
verdade, a nossa comunicação com Deus só é adequada quando acontece no Espírito
Santo.
É
no Espírito Santo que Deus Pai comunica connosco e nos revela o seu jeito de
ser Pai:
Pai
justo e amoroso.
Pai
misericordioso e paciente.
Pai
amável e solícito.
Pai
acolhedor e sempre disposto a perdoar.
Pai
fiel aos valores da Verdade, da Justiça e do Amor.
Pai
responsável, protector; atento e amigo.
O
Espírito Santo é a ternura maternal de Deus:
Com
o seu jeito maternal de amar, é em nós uma presença maternal compreensiva,
pronta a servir; dedicada, generosa e gratuita.
Com
um jeito maternal está sempre atento e disposto a aperfeiçoar os elos de comunhão
com Deus Pai.
Faz-nos
exultar como filhos agradecidos, como aconteceu com Jesus.
Eis
o que diz o evangelho de São Lucas:
“Nesse
mesmo instante,
Jesus
exultou de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse:
“Bendigo-te,
ó Pai,
Senhor
do Céu e da Terra.
Tu
escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, mas revelaste-as aos simples
e pequeninos.
Sim,
Pai, porque foi este o teu agrado” (Lc 10, 21).
Ele
é consolador que nos dá ânimo e consagra para a missão de anunciarmos a Boa Nova
da Salvação
É
o vínculo maternal que nos liga de modo orgânico a Cristo fazendo de nós
membros do corpo cuja cabeça é Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27).
É
pelo Espírito Santo que nascemos de novo para a Família Divina (Jo 3, 3-6).
Ele
é a semente da vida divina em nós (1 Jo 3, 9).
É
o grande dom do Pai do Céu (Lc 11, 13),
Ele
é o Consolador que inspira nos momentos de grande aflição (Mt 10, 20).
É
Ele que nos capacita e dá força para testemunharmos Cristo ressuscitado (Act 4,
31).
É
o mestre que explica o sentido da Palavra de Deus no íntimo do nosso coração.
É
ele que nos faz compreender o plano salvador de Deus (Ef 3, 3-5).
Faz
cair dos olhos da nossa mente as sombras que nos impedem de ver com clareza a
verdade de Deus e do Homem.
Estas
sombras são para a mente o que as cataratas são para os olhos,
Obstáculos
que nos impedem de ver o essencial. Depois de estas escamas caírem dos
Como
fez
O
Espírito Santo faz cair nos nossos olhos essas escamas que obscurecem a visão,
Fazendo-nos
ver com clareza o plano de Deus,
Condição
essencial para sermos mensageiros do Evangelho (Act 9, 18).
É
no Espírito Santo que o Filho se comunica connosco e nos revela o seu jeito
especial de ser irmão:
Irmão
generoso e solidário.
Irmão
que age como autêntico companheiro fiel e sempre disposto a partilhar.
Nas
dificuldades, nunca hesita em ser para nós apoio e ajuda solícita.
É
um irmão leal e verdadeiro.
Irmão
sempre disposto a partilhar connosco o melhor de si.
Nunca
faz alarde da ajuda que nos presta e das coisas boas que partilha connosco.
Irmão
sincero e fiel.
Esta
comunhão familiar na qual fomos integrados por Cristo é dinamizada pelo
Espírito Santo, o sangue de Deus a circular no nosso coração.
Como
Comunhão Familiar, a Santíssima Trindade amou-nos ainda antes de nos criar.
Desde
todas a eternidade, as pessoas divinas dialogaram sobre nós e sonharam um plano
de amor para nós!