O HOMEM COMO OBRA-PRIMA DE DEUS

                                                                              Calmeiro Matias

 

 

 

 

 

 

O Homem não nasce acabado. Deus não nos criou feitos. Somos um projecto em realização histórica. O Homem perfeito está no futuro, não no passado.

Por outras palavras, o Homem não se define pelo seu aparecimento (evolução a partir da vida animal), mas pela plenitude que o aguarda: pessoas assumidas e incorporadas na comunhão com as três pessoas divinas da Santíssima Trindade.

O paraíso, como morada do homem acabado e perfeito, nunca existiu nos primórdios da Humanidade. O Paraíso foi inaugurado pelo acontecimento da morte e ressurreição de Jesus Cristo: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).

Podemos dizer que Deus não criou o Homem, mas sim que o começou a criar, está criando e continuará a criá-lo até ele estar acabado. Além disso, Deus não nos cria sem nós podermos tomar parte na nossa própria criação. A Humanidade é colaboradora de Deus na sua própria Criação.

Os dons de Deus são concedidos ao Homem em forma de possíveis ou talentos, a fim de este os poder aceitar ou não. De outro modo não seriam dons mas imposições. Deus é amor e o amor nunca se impõe.

 Somos concriadores com Deus, não só em relação às obras da Natureza, mas igualmente em relação à nossa própria criação.

Dizer que somos concriadores significa que não somos criadores em termos absolutos. Criamos sempre a partir de possíveis que nos são dados pela natureza, por Deus ou pelas pessoas humanas.

Mas, por outro lado, ser concriador significa ser realmente criador, pois temos a possibilidade de fazer acontecer o que antes não era, embora a partir de possíveis que nos são dados.

Em relação à participação na nossa própria criação, temos de reconhecer que começamos por ser o que os outros fizeram de nós. De facto, não escolhemos a raça, a língua, a cultura ou a família a que queríamos pertencer. Tudo isto nos foi dado sem podermos escolher.

O que recebemos dos outros constitui o leque de possíveis de que dispomos para nos realizarmos como pessoas. Por isso o homem não deve definir-se por referência ao animal, como fez Aristóteles ao defini-lo como animal racional.

A Bíblia diz que o homem deve ser definido por referência a Deus que é a fonte e a plenitude da vida humana: “Deus disse: ‘Façamos o Homem à nossa imagem, à nossa semelhança, a fim de dominar sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os repteis que rastejam pela terra. Deus criou o Homem à sua imagem, criou-o à imagem de Deus; Ele os criou homem e mulher” (Gn 1, 26-27).

Deus realiza uma intervenção especial no momento da criação do Homem. Isto não aconteceu em relação à criação dos animais: “Então o Senhor Deus formou o Homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida. E o Homem transformou-se num ser vivo” (Gn 2, 7).

 Este sopro da vida significa um gesto especial de ternura por parte de Deus. O texto hebraico sugere que Deus, ao criar o Homem, lhe deu um beijo. Em consequência deste beijo, o hálito de Deus passou para o interior do Homem, fazendo deste um ser animado pelo sopro da vida divina.

Nesta perspectiva, a intervenção especial de Deus consiste num beijo através do qual Deus comunica ao Homem o dom do Espírito Santo que, no interior do seu coração, o vai inspirando, convidando e interpelando, no sentido de poder optar, decidir, escolher e orientar-se na linha da humanização.

A humanização é tarefa do Homem da qual ninguém o pode dispensar ou substituir. Mas não podemos realizar esta tarefa sozinhos. Para nos humanizarmos precisamos dos outros e da acção pedagógica do Espírito Santo na nossa consciência.

Podemos dizer com toda a verdade que, quando uma pessoa faz o bem está a ser fiel às possibilidades que recebeu dos outros e à voz do Espírito Santo que, no interior da sua consciência, a vai interpelando, convidando e chamando a agir na linha do amor. Isto é verdade mesmo para as pessoas que não saiba que existe o Espírito santo.

Humanizar-se é construir-se como pessoa, crescendo em densidade espiritual e capacidade de comunhão amorosa. É condição para a pessoa poder comungar mais com Deus e com os outros.

A lei da humanização é: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal.

Por emergência pessoal devemos entender o crescimento em densidade espiritual e capacidade de interacção amorosa. A convergência para a comunhão universal significa a incorporação da pessoa humana na comunhão com as pessoas divinas, as humanas e todas as outras que possam existir na comunhão do Reino de Deus.

A Humanidade é como um rosto com duas faces: a face masculina e a face feminina. O facto de no relato bíblico aparecer primeiro o homem e depois a mulher deve-se a um condicionamento cultural.

De facto, a sociedade judaica antiga era profundamente machista, pois era uma sociedade patriarcal. Eis a razão pela                                                                              qual não podia aparecer a mulher como cabeça da humanidade.

Mesmo assim a Bíblia faz notar que o processo histórico da humanização só pôde começar depois de o varão e a mulher estarem criados.

A dinâmica da humanização é relacional e inter-sexual. Por outras palavras, todas as relações humanas são sexuadas, o que não quer dizer sexuais.

Perante os animais, o Homem reconhece a sua condição de pessoa. A pessoa é um ser estruturado para a transcendência. Deus transcende o Homem e este transcende a natureza e os animais. De facto, Ninguém chama pessoa ao seu cão ou ao seu cavalo.

A pessoa é um ser capaz de se distanciar da natureza e dos animais, reflectindo e descobrindo o sentido e a funcionalidade destas realidades. O livro do Génesis exprime esta verdade dizendo que Deu fez passar os animais diante do Homem, a fim deste lhes dar um nome (Gn 2, 19-20). Dar o nome significa dominar uma realidade atribuindo-lhe uma função e um sentido.

O génesis diz que Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança. Criou-os varão e mulher. A pessoa humana está estruturalmente talha para o face a face.

Perante os animais sentimo-nos pessoas que transcendem as suas capacidades. A condição sexual não tem significado especial. Perante as outras pessoas, pelo contrário, a nossa condição sexual é elemento fundamental para uma relação equilibrada.

Os seres humanos relacionam-se sempre de modo sexuado, isto é, assumem uma identidade sexual, identificando-se como varão ou mulher perante os outros e vice-versa. O livro do Génesis simboliza esta realidade de modo muito bonito ao descrever o grito jubiloso de Adão ao deparar-se com Eva (Gn 2, 23).

De tal modo esta dimensão é estrutural que, segundo a Bíblia, o homem deixará pai e mãe para se unir à sua esposa (Gn 2, 24).

O amor dos filhos para com os pais é um amor de gratidão pelo dom da vida e do amor recebido. O amor para com a esposa é amor de reciprocidade criadora que implica doação gratuita e comunicação da vida. Aqui, o amor humano é mediação do próprio amor criador de Deus. Por isso se sobrepõe ao próprio amor dos pais (Gn 2, 24).

O Homem é uma obra-prima de Deus Trata-se de uma obra-prima dinâmica. Nada está acabado. Nada está determinado. Embora haja muitos condicionamentos, o essencial está nas possibilidades ou talentos.

O ser humano é uma obra-prima que tem no centro o livre arbítrio, isto é, a possibilidade de escolher e decidir, condição para se poder tornar livre.

O Homem não é a origem de si mesmo. Surgimos como seres chamados, isto é, com vocação a construir-mo-nos como pessoas.

A nossa atitude fundamental perante a vida e os dons que recebemos deve ser a gratidão, a qual se exprime em fidelidade à realização dos possíveis que recebemos de Deus através de uma multiplicidade de mediações.

O Homem começa por ser um leque de possíveis, fim de se poder realizar tal como deseja ser dentro das possibilidades recebidas.

Devemos assumir o processo da nossa realização pessoal de maneira realista, isto é, aceitando o leque dos possíveis que nos dão a possibilidade de construirmos a pessoa humana que levamos dentro como projecto em construção.

O Homem não é uma fatalidade, mas um processo de auto transcendência constante. Vem do animal por evolução, mas a sua vocação é construir-se à imagem e semelhança de Deus, tornando-se causa de si mesmo a partir do que recebe de Deus através dos outros.

Mas o homem tem a possibilidade de se recusar a ser, destruindo os seus possíveis de realização. Este modo de agir é o pecado. O pecado é a recusa da pessoa a ser mais humana através do amor. Apenas há pecado quando há possíveis para realizar e a pessoa recusa realizá-los.

Pecar é deixar-se seduzir pelo não ser. Com efeito, ser é ser pessoa e a pessoa é alguém que se realiza.

O Homem é uma obra-prima em construção. À medida em que se realiza torna-se imagem de Deus. Quanto maior for a sua fidelidade, maior será também a sua capacidade de comungar com Deus e os outros.