O EXERCÍCIO
DA BONDADE
CALMEIRO MATIAS

a) Realização Pessoal e Bondade
b) Maturidade Humana e Bondade
c) Bondade e Capacidade de Perdoar
d) Bondade e Comunhão Universal
a) Realização Pessoal e Bondade
A bondade é uma capacidade adquirida
pela pessoa, a qual confere uma força humanizante às relações.
A maldade, pelo contrário,
desumaniza as relações entre as pessoas, criando focos de agressividade e
violência.
A bondade exprime-se como capacidade
de amar, alegrando-se com o bem que acontece às pessoas.
É também uma disposição de se dar
para ajudar os outros a ser felizes.
Esta capacidade não é um fruto que
brote de modo natural e espontâneo.
O ser humano não é capaz de ser bom
antes de alguém ter sido bom para ele.
A pessoa muito marcada pela maldade
dos outros torna-se azeda e agressiva. Normalmente está sempre numa atitude de
defesa.
Por outras palavras, a bondade
precisa de uma calda de amor para emergir e se fortalecer.
Na verdade, o amor é uma dinâmica de
bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.
Um dos principais frutos da
humanização da pessoa humana é a bondade.
Quando dizemos que determinada
pessoa é muito humana, no fundo estamos a dizer que é uma pessoa muito boa.
Humanização, realização pessoal e
bondade são aspectos interrelacionados e acontecem como processo histórico.
Somos seres em construção histórica.
Eis a razão pela qual um ser humano, para se dizer, tem de contar uma história.
Quando nos queremos comunicar em
profundidade sentimos necessidade de contar a nossa história.
Por estar em realização histórica, a
pessoa humana estrutura-se de modo gradual e progressivo.
A força que estrutura e faz avançar
a realização pessoal é o amor. Só o amor possibilita uma boa estruturação
pessoal.
É esta a razão pela qual o mal amado
emerge como pessoa complicada, mal estruturada e condicionada nas suas
possibilidades de realização.
Nascemos com um leque de talentos que são a condição básica da
nossa realização pessoal.
Ninguém é herói por ter recebido muitos talentos. Também não
somos culpados se o feixe das capacidades que recebemos é limitado.
A heroicidade, portanto, está na fidelidade aos talentos que
recebemos. A bondade cresce na medida em que o ser humano se realiza numa linha
de fidelidade aos talentos que recebeu.
Com a emergência do Homem a vida deu o salto para o espiritual,
o qual é interior, definitivo e eterno.
Com o aparecimento da vida pessoal-espiritual surgiu na marcha
da evolução a capacidade de amar.
Como vemos, a vida espiritual e eterna emerge no interior do
provisório e do mortal.
O nosso ser pessoal-espiritual brota gradual e progressivamente
dentro do nosso ser exterior como o pintainho dentro do ovo.
Por outras palavras, no interior do nosso ser individual emerge
o nosso ser pessoal-espiritual.
Com o aparecimento da vida pessoal-espiritual sobre a terra
surge a vida que vence o vazio da morte.
Com a vida pessoal a Criação torna-se proporcional ao Criador.
Na verdade, a divindade é pessoas em relações e a humanidade
também.
Eis a razão pela qual, com o aparecimento da Humanidade surge a
possibilidade da Encarnação, isto é, da interacção orgânica e dinâmica entre as
pessoas divinas e as humanas.
É verdade que as pessoas humanas não iguais às pessoas humanas,
mas são proporcionais.
Por outras palavras, é possível acontecer interacção e comunhão
orgânica entre a Humanidade e Divindade.
Deus talhou a humanidade para a bondade, condição para acontecer
comunhão com a Divindade.
Ao amar os outros, o ser humano emerge como pessoa e possibilita
a realização pessoal dos demais.
Como vemos, os seres humanos que gastam a vida pelas causas do
amor merecem uma estátua, isto é, um reconhecimento por parte da Humanidade.
São pessoas cheias de mérito, pois foram capazes de se
estruturar como pessoas e ajudarem os outros neste parto difícil da emergência
pessoal-espiritual.
Como sabemos, ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado.
Podemos dizer com toda a verdade que a pessoa, ao amar os
outros, está a ser fiel ao amor com que foi amada.
A lei do amor é esta:
O amor dos outros capacita-nos para amar. Os seres humanos mal
amados ficam a amar mal, isto é, com bloqueios, condicionamentos e tropeções.
Neste caso, a pessoa é vítima, não culpada.
O Amor dos outros faz-nos sentir aceites, valorizados e tomados
a sério.
Quando sentimos que os outros nos valorizam gostamos de
partilhar o que fazemos e sentimo-nos capazes de ir mais longe.
O amor dos outros optimiza as nossas capacidades para assumirmos
papéis e tarefas no interior da vida familiar e na sociedade.
E Deus, sem nos substituir, torna-se presente! De facto, no
coração do amor humano acontece sempre o Espírito Santo, a ternura maternal de
Deus que nos introduz no próprio diálogo amoroso da Santíssima Trindade (Ga 4,
4-7; Rm 8, 14-17).
O amor e a comunhão humana, portanto, são optimizados e ponto de
encontro com o amor e a comunhão com Deus.
Emergir como pessoa é adquirir a matéria-prima que Deus acolhe e
assume na própria comunhão divina. É esta a dinâmica da divinização.
Na verdade, a plenitude da Comunhão Humana acontece mediante a
incorporação na Comunhão Divina.
A interioridade pessoal emerge em cada ser humano de modo único
e irrepetível, enriquecendo deste modo o património humano com uma novidade.
Isto quer dizer que uma pessoa nunca está a mais, pois ninguém é
a cópia de alguém na dinâmica da comunhão universal.
Além disso, sempre que nos recusamos a amar uma pessoa estamos a
impedi-la de desabrochar numa novidade que nunca mais poderá acontecer.
O pecado é sempre uma oposição ao amor. Procedendo deste modo, a
pessoa está a bloquear a sua humanização e a humanização dos outros.
A vocação fundamental de cada ser humano consiste em responder
às propostas que o amor nos faz no concreto do nosso dia a dia.
Como vemos, pecamos contra a Humanidade sempre livre e
responsavelmente bloqueamos a sua emergência em nós e naqueles que se cruzam na
nossa vida.
A nossa consciência é o altifalante através do qual o Espírito
Santo nos convida a amar os irmãos no concreto dos acontecimentos do dia a dia.
Por outras palavras, o amor é o único caminho para provocarmos o
nascimento da Humanidade em nós e nos que se cruzam connosco na vida.
Amar é sempre decidir pelo nosso bem e pelo bem do outro.
O amor depende da decisão de cada pessoa, pois ele é uma
dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.
Quando elegemos o outro como nosso próximo, o amor acontece e
realiza-se através de opções, escolhas, decisões com o jeito do bem-querer.
Amar implica também acolher os gestos de fraternidade dos
outros.
O amor é a opção certa para edificarmos em nós e nos outros o
projecto da Comunhão Orgânica Universal.
A alegria é o primeiro fruto da fidelidade às propostas do amor.
Emerge no coração dos que se abrem aos outros como fruto do Espírito Santo
que está em nós e connosco, mas nunca em nosso lugar (Ga 5, 22)
A alegria não emerge nunca no coração das pessoas que se fecham ao amor.
O ser humano que vai dando o melhor de si no sentido do amor, sente-se
contente de ser quem é.
No coração das pessoas que procuram exercer a bondade não tem lugar essa
tristeza que aperta o coração quando o bem acontece aos outros.
A inveja é tanto mais forte quanto mais a vida de uma pessoa foi marcada
pelas recusas de amor dos outros.
A alegria é, pois, o fruto da presença do Espírito Santo no coração da
pessoa que procura ser fiel aos talentos que recebeu de Deus através dos outros.
As pessoas que se humanizaram mediante a vivência do amor são peritas na
arte de imprimir o sentido e o sabor da festa no tecido das relações humanas.
b) Maturidade Humana e Bondade
Ao criar-nos, Deus imprimiu em nós as Suas impressões digitais. Por isso
estamos talhados para a relação e a comunhão amorosa.
Podemos dizer com verdade que Deus entende de ternura, pois o Espírito
Santo ama com amor maternal e é a ternura de Deus difundida nos nossos
corações.
Isto quer dizer que a pessoa humana por ter sido criada à imagem de deus
não pode reprimir a ternura, esse impulso de doação ao outro.
Uma pessoa que reprime a afectividade nunca pode ser uma pessoa
afectivamente equilibrada.
O mesmo acontece com a pessoa que não consegue ser dona da sua
afectividade.
Uma pessoa afectivamente equilibrada é uma pessoa serena e feliz.
A ternura dos outros para connosco leva-nos a gostar de nós e, portanto, a
sermos capazes de gostar dos demais.
As pessoas que cresceram sem ternura são pessoas carentes.
As crianças que não recebem a ternura suficiente têm muito pior
aproveitamento escolar do que as crianças afectivamente equilibradas.
As pessoas afectivamente carentes projectam essa carência nas suas relações
com as outras pessoas, sendo muitas vezes causa de perturbações e conflitos.
A nossa afectividade é um manancial de possibilidades criativas no campo
das relações, das artes, das letras, de compromissos sociais, da fé, e
sobretudo no campo amor.
Uma relação afectiva equilibrada leva consigo opções de vida que implicam o
amor e a libertação dos outros.
Por outras palavras, a nossa afectividade atingirá a sua maturidade na
medida em que nos conduza no sentido do dom aos outros.
Em qualquer das vocações, o
equilíbrio afectivo é fundamental.
Sem uma vida afectiva equilibrada, a pessoa não consegue ser fecunda e
feliz.
A realização pessoal será tanto mais feliz quanto mais assentar em pilares
somáticos e psíquicos fortes e sadios.
Nesta tarefa do amadurecimento é importante que a pessoa assuma o seu
passado sem se deixar afundar por ele.
Só deste modo será capaz de realizar as mudanças necessárias à maturidade.
Podemos dizer que a maturidade de uma pessoa é tanto maior quanto mais se
sinta à vontade para lidar com a realidade e os acontecimentos.
Jesus convida-nos a pôr as nossas dificuldades nas mãos de Deus, não para
sermos substituídos, mas para que o Espírito Santo dinamize as nossas forças e
capacidades.
Eis o que diz o evangelho de São Mateus:
“Não andeis preocupados, dizendo: “que iremos comer, beber ou vestir?”
(...).
Procurai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas
coisas vos serão acrescentadas.
Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará
consigo mesmo. A cada dia basta a sua dificuldade” (Mt 6, 31-34).
À medida em que vai amadurecendo, a pessoa é capaz de aceitar as coisas que
não pode mudar e tem a sensatez e a coragem de mudar as que podem e devem ser
mudadas.
À medida em que uma pessoa amadurece mais capaz se torna de se amar a si e
aos outros.
Na medida em que tenha crescido em maturidade, a pessoa sabe distinguir
entre o que é central e inviolável e o que é periférico e pode ser adiado.
Como tem os valores bem alicerçados, tem um sentido sólido para a vida.
Sabe decidir e optar face às alternativas que a vida lhe apresenta. Também
sabe que estas alternativas têm o seu preço, como diz o evangelho de São João:
“No mundo tereis tribulações, mas tende coragem, pois eu venci o mundo” (Jo
16, 33).
Ser realista é um excelente sinal de maturidade. A pessoa madura sabe que
há experiências que nunca poderá fazer, pois estão acima das suas
possibilidade.
Também sabe que há coisas que alguns poderão possuir e ela nunca poderá
obter.
Mas por ser realista, a pessoa madura aceita este facto e integra-o no
sentido da sua própria vida.
Também sabe que há coisas que fez e nunca mais poderá fazer, pois nunca
mais voltará a jovem nem poderá voltar a reviver muitas das experiências
agradáveis que viveu, mas que não mais poderá repetir.
A pessoa amadurecida sabe que a sua integridade está constantemente
ameaçada devido a seduções e tentações.
Esta integridade apenas pode ser conservada mediante atitudes de firmeza.
Vale a pena recordar aqui as palavras de São Paulo:
“Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças.
Mas com a tentação ele vos dará os meios de sair dela e a força para a
suportar” (1 Cor 10, 13).
À medida em que vai amadurecendo, a pessoa dá-se conta de que aconteceram
coisas significativas na sua vida como, por exemplo, realização de missões
importantes fidelidade a certos compromissos.
É capaz de se lembrar do bem que fez e das pessoas que marcou de modo
positivo e da maneira como foi capaz de aproveitar o seu tempo.
Na medida em que o seu crescimento foi equilibrado, a pessoa lembra-se que
foi ultrapassando a imaturidade da criança, sem perder a alegria que
experimentou na sua infância.
Foi capaz de integrar com serenidade na sua história as emoções da infância
tais como a capacidade de se admirar e o prazer de brincar, bem como o
idealismo e a paixão própria da adolescência.
Estas experiências integradas numa personalidade amadurecida manifestam-se
agora em atitudes de simplicidade e estabilidade.
Tudo isto é vivido como fonte de sabedoria, grande sensibilidade e
compreensão dos outros.
À medida que uma pessoa vai atingindo a maturidade, torna-se capaz de
desdramatizar experiências negativas, aprendendo a tirar conclusões e a viver
com as experiências que foram entretecendo a sua história.
O manancial de experiências que a vida proporciona capacita a pessoa para
elaborar objectivos realistas, condição indispensável para atingir as metas e
objectivos que se propõe.
No campo das relações humanas a pessoa amadurecida é uma fonte de paz,
alegria e comunhão fraterna.
Por outras palavras, à medida em que amadurece a pessoa torna-se uma
nascente de bondade que vai marcando positivamente o contexto em que vive.
A pessoa que atingiu uma boa maturidade não deixa ficar mais pobres ou
machucadas as pessoas que se cruzam com ela na vida.
A pessoa amadurecida sabe aceitar-se assim como é, apesar das suas
limitações e defeitos.
Esta tolerância para consigo torna-a capaz de aceitar as outras pessoas tal
como são.
Por outras palavras, a pessoa amadurecida é sensível aos problemas dos
outros e procura aliviar o sofrimento das pessoas que vivem ao seu lado.
O ser humano amadurecido é uma pessoa que valoriza os momentos de silêncio,
pois não é como a pessoa imatura que precisa sempre de gente à sua volta.
Além disso, a pessoa madura é autónoma em relação às modas ambientais, não
se deixando ludibriar pelos meios de comunicação ou pela publicidade
manipuladora.
Gosta de agir por si própria, seguindo os valores que, na sua consciência, sente
serem o caminho que ajuda o ser humano a humanizar-se.
Aprecia as coisas simples e naturais. Ama a natureza
frequentemente entrar em contacto com ela.
Gosta de voar, no sentido de não descuidar o seu processo de
crescimento. Sente-se em comunhão profunda com o bom que existe em toda
Humanidade.
Eis a razão pela qual a pessoa que cultiva a bondade e o bem não
é sectária. Pelo contrário, procura moldar um coração aberto à universalidade.
Por esta razão a pessoa amadurecida atinge uma grande profundidade nas suas
relações com os outros.
Partindo do facto de que as pessoas, apesar de serem diferentes, são todas
iguais em dignidade.
Por isso valoriza os seres humanos com os quais se encontra e convive.
Gosta de rir com os outros, mas nunca se ri dos outros.
É criativa e, tal como valoriza os outros, gosta igualmente de si.
Tem consciência de que o objectivo máximo da vida é fazer render o melhor
das suas possibilidades em favor do bem comum.
Vive em paz consigo e os demais. Realiza de modo pleno o ensinamento da
primeira carta de São João que diz:
“Se o nosso coração não nos acusa,
temos confiança diante de Deus e tudo o que lhe pedirmos receberemos dele, pois
guardamos os seus mandamentos e fazemos o que lhe é agradável” (1 Jo 3, 21-22).
Costuma analisar a sua vida pessoal, a fim de descobrir as motivações que a
levam a agir.
É decidida e corajosa. Depois de tentar as razões certas para agir de modo
acertado, avança sem qualquer sem medo.
Como o ser humano relaciona-se e age com os filtros da sua experiência
pessoal, a pessoa madura procura saber quais os filtros que utiliza nas
relações com os outros e na interpretação dos factos.
c) Bondade e Capacidade de Perdoar
Enquanto uma pessoa sente raiva ou ódio por alguém não consegue viver uma
verdadeira paz interior.
Na verdade, o coração da pessoa dominada pelo ódio não consegue estar
tranquilo e gera negativismo.
Do mesmo modo a sua mente fica obscurecida e está constantemente a girar à
volta deste problema.
Esta situação bloqueia a interacção amorosa com Deus e os irmãos.
É esta a razão pela qual o perdão é tão importante para comungarmos
profundamente com Deus e os irmãos.
Podemos dizer que o primeiro beneficiado pelo acto de perdoar é a pessoa
que decide perdoar.
Nesse momento começa a emergir no seu coração um manancial de paz e
serenidade.
Enquanto sente ódio ou raiva pela pessoa da mente e do coração da pessoa é
uma nascente de agressividade.
Nesta situação as emoções negativas flúem e são contagiosas, isto é, as
anteriores afectam as seguintes, levando-nos a ter comportamento perfeitamente
desproporcionados.
Quando um ser humano toma consciência de estar a ser dominado pela
agressividade deve pôr-se as seguintes questões:
*Estou irritado contra uma pessoa das minhas relações ou esta agressividade
está orientada contra mim?
*Sinto raiva ou ódio contra alguém?
As nuvens de ódio que escurecem o nosso coração só podem ser diluídas
através de um propósito de perdoar.
Este propósito pode começar por pedir a Deus pelos que nos magoaram.
Uma maneira muito importante para a caminhada do perdão e da reconciliação
é começarmos por procurar o perdão daqueles a quem fizemos mal.
Imaginemos as pessoas a quem magoámos e sintamos com é bom receber o seu
perdão.
Procuremos também perdoarmo-nos os males que nos fizemos a nós mesmos como
atitudes erradas ou comportamentos prejudiciais para a nossa realização.
Este exercício facilita a realização do passo seguinte que sermos nós a
perdoar às pessoas que nos magoaram.
À medida em que conseguirmos avançar neste processo de restauração do
tecido relacional começamos a renascer pelo Espírito Santo, como diz o
evangelho de São João.
d) Bondade e Comunhão Universal
Para nos sentirmos felizes precisamos de nos sentir verdadeiramente aceites
e amados assim como somos.
Precisamos dos outros para nos sentirmos plenamente nós.
Por outras palavras a plenitude da pessoa não está em si, mas na comunhão
com os outros.
Reduzida a si, a pessoa está em estado de perdição. O estado de inferno não
é mais que a ausência de comunhão com os outros.
A pessoa emerge e estrutura-se em contexto relacional de amor.
Os seres humanos começam por ser um leque de possibilidades recebidas dos
outros.
Na verdade, as pessoas não são ilhas, excepto as que opt6aram pelo estado
de perdição, fechando o coração dinâmica da salvação, isto é, à reciprocidade
do amor e da comunhão orgânica.
Por terem cortado as portas às relações de amor com os outros não
participam na plenitude da Comunhão Universal em Cristo.
Humanizar, portanto, é emergir e robustecer-se como pessoa, ao mesmo tempo
que converge para a comunhão universal.
A experiência das relações e da vida partilhada é fundamental para a pessoa
se sentir equilibrada e feliz.
Por outras palavras a fraternidade e o amor são a calda própria para o
crescimento e amadurecimento da pessoa humana.
Eis alguns aspectos importantes para melhorarmos a nossa capacidade e
aptidão de nos realizarmos em relações fraternos.
*Tentar compreender o outro na sua realidade mais profunda.
*Trinar-se na arte de facilitar a realização dos outros, aceitando as suas
diferenças, pois não nos conseguimos realizar de modo satisfatório se os outros
rejeitam ou impedem a emergência da nossa originalidade e unicidade pessoal.
*Saber que o importante é aceitar o outro por ser o que é e não tanto por
fazer o que eu quero que ele faça.
*Aprender a confiar realmente nos outros e a merecer a sua confiança.
*Estar atento ao que os outros fazem e valorizar as suas realizações.
*Estar atento às crises de crescimento das pessoas com quem vivemos de
tentar ajudar a ultrapassar essas crises. Como sabemos, não há crescimento sem
crises.
*Nas conversas e n convívio preferir as palavras que exprimam esperança,
rejeitando as conversas pessimistas e negativas.
* Tentar não dar guarida no nosso coração aos sentimentos negativos como
ressentimentos, planos de vingança.
*Que o nosso lema seja comunicar numa linha de verdade e autenticidade.
*Cultivar o sentido de pertença em relação à família e aos grupos dos quais
fazemos parte.
*Tentar conhecer as qualidades dos outros e as próprias e compreender que o
bem que os outros fazem não deixa de o ser só porque não foi feito por nós.
*Tentar compreender e aceitar a história das pessoas com as quais
convivemos, a fim de sermos capazes de os aceitar e compreender.
*Pensar que os outros são um dom de Deus para mim, pois são mediações
fundamentais para a minha realização.
*É importante tomar consciência de que será com os outros que eu farei
parte da Família de Deus, a qual não assenta nos laços do sangue mas sim nos
laços do Espírito Santo.
*Nos grupos de convívio ou de vivência da Fé é importante mostrar-se aberto
a novas formas de caminhar em grupo desde que haja objectivos claros e
elaborados por todos.
* Tomar consciência de que ninguém é bom em tudo. Por isso há uma grande
diversidade de talentos e carismas, dons e ministérios na comunidade.
*A maneira mais profunda de amar é facilitar a emergência única e original
dos demais, deixando que sejam iguais a si mesmos.
Conviver com pessoas que procuram viver de modo consciente e amoroso as
relações com os demais é ter a sorte de encontrar pessoas livres, conscientes e
responsáveis.
Estas pessoas entendem que o fundamental é eleger o outro como alvo de
bem-querer.
Entendem muito bem que o amor é o caminho do amadurecimento e felicidade
humana.
Ao mesmo tempo compreendem que o amor não se confunde com paixão, emoção ou
sentimentalismo.
Estas pessoas vivem o amor como a arte de eleger o outro como alvo de
bem-querer, aceitá-lo e valorizá-lo, apesar de ser diferente de mim ou do que
eu gostaria que fosse.
Sonham com a comunhão universal, pois sabem que o amor é uma dinâmica de
bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.
Os seres humanos que têm a sorte de encontrar pessoas com as
características mencionadas sentem-se estimados e valorizados naquilo que
fazem.
Por outras palavras, com pessoas que põem o amor e a fraternidade em
primeiro plano não marginalizam nem favorecem o aparecimento de pessoas
desenquadradas ou marginalizadas.
Os seres humanos que têm a sorte de viver com pessoas treinadas no amor e
na comunhão fraterna, aprendem a olhar os outros nos olhos.
No olhar das pessoas que amam e no seu modo de sorrir há transparência, bem
como sabor a verdade e lealdade.
Quando encontramos pessoas assim percebemos que, realmente, é disto que
todos temos fome. Na verdade, o ser humano está talhado para a comunhão
universal.
O gesto mais espontâneo destas pessoas é estender a mão e dizer bom dia ou
boa noite.
Apesar de possuírem um elevado nível de maturidade, têm consciência plena
de serem pessoas em construção.
Eis a razão pela qual estas pessoas não estagnam na sua caminhada de
realização pessoal mediante relações de amor, a fim de atingirem uma maior
plenitude na comunhão universal.
Estas pessoas têm tendência a sentir-se família dos que se cruzam consigo
na vida, apesar de não serem família segundo os laços do sangue.
A sua Fé bem fundamentada ensina-lhes que a Família de Deus não assenta nos
laços do sangue, mas sim na acção dinamizadora do Espírito Santo.
De facto, São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos
nossos corações (Rm 5, 5).
É a ternura maternal de Deus que nos insere na Família Divina como filhos
em relação a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus Filho.
A consciência familiar que têm em relação aos outros assenta nessa verdade
fundamental que é o facto de a Humanidade fazer um todo orgânico e dinâmica
cujo coração é Jesus Cristo.
O evangelho de São João diz esta verdade de modo muito bonito quando afirma
que Jesus Cristo é a cepa da videira e nós os ramos (Jo 15, 1-7).
A seiva que vem da cepa para os ramos, tornando-os fecundos, é o Espírito
Santo.
Junto das pessoas que sabem construir a comunhão fraterna os outros
sentem-se livres para pensar e dizerem o que pensam.