O CRISTÃO E A FELICIDADE

                                                  Calmeiro Matias

 

 

 

 

 

 

 

 

a) A Felicidade como Tarefa

b) Deus quer a Felicidade de Todas as Pessoas

c) Atitudes Importantes Para Ser Feliz

d) Bem-aventuranças e felicidade

 

a) A Felicidade Como Tarefa

A felicidade resulta de um projecto de vida orientado no sentido da humanização da pessoa. O cristão encontra-se numa condição privilegiada para se empenhar na sua humanização. Com efeito, a Palavra de Deus amplia os horizontes da plenitude da vida e seus sentidos.

O Evangelho apresenta uma proposta no sentido de as pessoas construírem o seu projecto de vida em atitude de aliança com Deus.

O próprio Deus toma a iniciativa de facilitar o processo da humanização das pessoas e fortalecer a sua aliança com a Humanidade. Para isso Deus, que é comunidade de três pessoas, disponibiliza uma destas três pessoas, o Espírito Santo, para estar permanentemente connosco.

O cristão, graças ao dom da revelação, está numa posição privilegiada para caminhar de modo seguro no caminho da felicidade.

Em critérios meramente humanos, a base da felicidade parece estar no exterior, naquilo que nos acontece, no tipo de pessoas que encontramos, nos acasos do dia a dia.

Para a Fé Cristã a felicidade é algo que acontece no interior da pessoa. É sobretudo um dom que Deus concede às pessoas que se abrem à presença e acção do Espírito Santo no seu interior. A felicidade acontece no coração do homem fiel à Aliança de Deus. A Carta aos Gálatas diz que a felicidade é um dos frutos do Espírito Santo (Ga 5, 22).

Podemos enumerar alguns dos aspectos importantes da felicidade: paz interior, serenidade resultante da certeza de que Deus, pelo Espírito Santo, está permanentemente actuando no nosso íntimo. As relações fraternas e de solidariedade com os outros, são outro elemento importante na tarefa de construir a felicidade.

Não podemos esquecer que os dons de Deus nos são dados em forma de possibilidades, a fim de os podermos aceitar, realizando-os, ou rejeitá-los. Como sabemos, Deus é amor e o amor só pode propor-se, nunca impor-se.

A felicidade não é apenas uma simples ausência de sofrimentos, de dificuldades ou problemas. É uma experiência de plenitude que se vai solidificando progressivamente, mesmo que a partir do contexto exterior possam surgir contrariedades, obstáculos e oposições como Jesus sublinha nas bem-aventuranças (Mt 5, 1-12).

À luz da Fé cristã, a felicidade é uma possibilidade ao alcance de todos nós. Para isso é fundamental acolher a presença do Espírito Santo no nosso coração e viver numa linha de fidelidade aos seus apelos.

A felicidade acontece, não tanto aos que a desejam, quanto aos que a constroem em comunhão com Deus, acolhendo a sua Palavra e agindo de acordo com ela.

 

b) Deus Quer a Felicidade de Todas as pessoas

Se olharmos para os textos bíblicos nos quais Deus se mostra interessado na felicidade do ser humano, ficamos espantados ao ver a insistência amorosa de Deus sugerindo aos homens caminhos de felicidade. E é um facto indesmentível de que as pessoas que tomam a sério as propostas de Deus são seres profundamente felizes.

São Paulo faz a sua aparição nos escritos do Novo Testamento como teólogo judeu talentoso, perseguidor de cristãos e inimigo de Cristo (cf. 1 Cor 15, 7). Transformado por uma experiência espiritual profunda, põe de lado a sua teologia judaica, converte-se a Cristo e começa a pregar o Evangelho.

Este seu novo estilo de vida itinerante e profética traz-lhe muitos dissabores, perseguições, dias de fome e muitos perigos. No entanto, este homem ousa dizer que encontrou o caminho da felicidade e da alegria: “Sinto-me profundamente alegre em todas as minhas tribulações” (2 Cor 7, 4).

O profeta Isaías, num texto de rara beleza, declara que Deus o ungiu com o Espírito Santo para anunciar a força salvadora de Deus que vai restaurar o povo que, ao regressar do exílio da Babilónia, se sente pobre e sem forças: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque me consagrou. Enviou-me a levar a boa nova aos que sofrem, curar os desesperados, anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros.

O Senhor enviou-me a proclamar o ano da graça, o dia em que o nosso Deus fará justiça. O Senhor Deus enviou-me a consolar os tristes e coroar os aflitos de Sião (…), a fim de converterem o seu semblante triste em perfume de festa e o seu abatimento em cânticos de alegria” (Is 61, 1-3).

Deus não quer a tristeza e o sofrimento do Homem. Por isso, continua Isaías, a vontade de Deus para o seu povo é a alegria e a felicidade: “Rejubilo de alegria no senhor e o meu espírito exulta no meu Deus, pois me revestiu com as vestes da salvação e me envolveu num manto de triunfo” (Is 61, 10).

Ao desviar-se de Deus, o povo encontrou o seu próprio fracasso. De facto, é muito perigoso brincar com Deus. Não porque Deus se vingue. Deus é amor e apenas amor. É perigoso brincar com Deus, pois isso significa que a pessoa optou pelo caminho do malogro e do fracasso.

Com efeito, a vontade de Deus a nosso respeito coincide rigorosamente com o que é melhor para nós. Desviar-se da vontade de Deus é desviar-se do caminho da própria realização pessoal e de uma plenitude feliz.

Ao ver o Homem no caminho do malogro, Deus continua a convidá-lo a mudar de rumo e a garantir-lhe um acolhimento amoroso incondicional:

“Dar-lhes-ei fielmente a sua recompensa e farei com eles uma aliança eterna. A sua descendência será célebre entre as nações e a sua posteridade influente entre os povos. Todos os que os virem hão-de reconhecê-los como a linhagem abençoada pelo Senhor” (Is 61, 8-9).

Os que acolhem o Senhor podem estar certos de que Deus estará sempre com eles: “Aquele que me ama, diz Jesus, guarda as minhas palavras. Meu Pai o amará e nós viremos e faremos morada nele” (Jo 14, 23).

A felicidade é uma promessa e uma certeza para as pessoas que procuram acolher o amor de Deus, como diz a primeira Carta de São João:

“Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus. E realmente somo-lo! (…). Caríssimos, agora já somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser.

No entanto, sabemos que, quando Deus se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois vê-lo-emos tal como ele é” (1 Jo 3, 1-2). É difícil dizer de maneira mais bonita o plano de felicidade que Deus sonhou para nós!

 São Paulo olha para o projecto de amor sonhado por Deus e exulta de alegria sabendo que a sua promessa é segura, pois Deus é fiel e não permitirá que qualquer poder possa destruir ou prejudicar esta comunhão que nos liga a Cristo:

“Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome a nudez, o perigo a espada?

De acordo com o que está escrito: ‘Por causa de ti estamos expostos à morte todo o dia e fomos tratados como ovelhas destinadas ao matadouro ‘. Mas em tudo isto saímos mais do que vencedores, graças àquele que nos amou.

Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus Senhor Nosso” (Rm 8, 35-39).

 

 

c) Atitudes Importantes Para Ser feliz

Deus dá-nos o dom da felicidade em forma de possibilidades que podemos realizar ou não. As possibilidades que Deus nos dá de sermos felizes realizam-se através de uma série de atitudes que devemos assumir no dia a dia da nossa vida. Eis algumas dessas atitudes fundamentais:

Aceitar as outras pessoas como são, sem as julgar nem pretendermos mudá-las. É também muito importante aceitarmo-nos, apesar das nossas limitações.

Cultivar pensamentos construtivos e partilhar com os outros uma visão positiva da vida. É fundamental ser honesto consigo e com os outros.

É importante enfrentar as dificuldades, sabendo que, se vivemos unidos a Deus, nada nos pode acontecer que não possamos resolver de modo adequado. Isto só poderá acontecer se cultivarmos um espírito habitual de oração em termos de diálogo familiar com Deus.

Não devemos andar constantemente a comparar-nos com os outros. Não nos devemos preocupar demasiado com as situações, sobretudo com aquelas que não podemos resolver.

Não será nunca feliz quem não aprende a partilhar com os outros o seu tempo, os seus bens e as suas orações. É importante ter sentido de humor. Não nos devemos esquecer de cuidar de nós. Quem não gosta de si não conseguirá gostar dos outros.

Ajudemos os outros sempre que se nos ofereçam ocasiões de o fazer. Procuremos manter-nos o mais possível calmos, evitando situações de stress.

Sejamos moderados na comida e na bebida. Nas relações com os outros procuremos adoptar sempre uma atitude humilde e discreta. É muito importante aprender a escutar e compreender as mensagens que os outros nos querem transmitir.

Procuremos estar sempre actualizados nos assuntos que fazem parte do nosso trabalho ou missão. É importante cultivar a capacidade de partir de uma situação para outra. As mudanças trazem com frequência novas possibilidades de crescimento e realização pessoal.

Procuremos viver a vida com paixão. Mantenhamo-nos ocupados com coisas das quais gostamos verdadeiramente. Respeitemos os outros como gostaríamos de ser respeitados por eles.

Não escolhamos como objectivo da nossa vida o amontoar riquezas. As pessoas que passaram a vida a amontoar riquezas nunca chegaram a ser pessoas felizes. Procuremos usufruir dos bens que temos em favor da nossa realização pessoal e da fraternidade.

Cultivemos um grande sentido de partilha com os mais pobres. Se queremos realmente ser felizes, não pretendamos ter muitas coisas. Não as poderemos usufruir nem dominar completamente. Ter muitas coisas frequentemente torna as pessoas infelizes, preocupadas e ansiosas.

Procuremos ser gratos para com os outros, aceitando as oportunidades que eles nos oferecem. Procuremos compromissos sérios de realização pessoal, não simplesmente um emprego.

Elaboremos objectivos de vida e procure realizá-los, numa linha de fidelidade a nós mesmos. Não percamos de vista a meta que pretendemos alcançar. Dentro do possível evitemos endividar-nos.

Esforcemo-nos por gerir os nossos bens de modo a bastar-nos o mais possível, evitando ficar dependentes dos outros. Não corramos riscos incontrolados. Sobretudo não nos comprometamos nem queiramos investir em campos que desconhecemos e não controlamos.

 

d) Bem-aventuranças e Felicidade

As Bem-aventuranças não são um código moral bem delimitado para ser cumprido à letra. Jesus nunca foi um moralista. Pelo contrário, podemos dizer que as Bem-aventuranças são uma proposta para moldarmos o nosso coração segundo os critérios do Evangelho.

Estruturar o nosso interior segundo os horizontes das Bem-aventuranças é moldar o nosso coração segundo o coração de Cristo. Eis o padrão para o qual Jesus aponta:

“Bem-aventurados são os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados são os que choram, pois serão consolados. Bem-aventurados os mansos, pois herdarão a Terra. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus.

Bem-aventurados os obreiros da paz, pois serão chamados filhos de Deus. Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados sereis quando vos odiarem e perseguirem e disserem, com mentira, toda a sorte de males contra vós por minha causa. Alegrai-vos e exultai, pois grande será a vossa recompensa no Céu. Foi assim que perseguiram os profetas que viveram antes de vós” (Mt 5, 3-12).

As Bem-aventuranças têm mais a ver com um jeito de viver do que com actos a executar de maneira bem delimitada. Não são um código de normas a executar mas um ideal de vida a construir. Ao anunciar as Bem-aventuranças, Jesus não estava a apresentar um conjunto de preceitos morais, mas a apontar um padrão para a pessoa viver e se relacionar com Deus, os seres humanos e as coisas.

À medida em que as pessoas procuram modelar o coração e a mente segundo a proposta ideal das Bem-aventuranças tornam-se diferentes em relação ao modo de valorizar as coisas, de as possuir coisas e se relacionar com Deus e as pessoas humanas.

À luz das Bem-aventuranças a pessoa não pode ser feliz se não toma parte na difusão dos valores do Evangelho e se não procura transformar as estruturas e as relações sociais segundo estes mesmos critérios.

As Bem-aventuranças interpelam-nos a modificar o nosso coração, passando do egoísmo para o amor, da agressividade para a gentileza, da crueldade para a amabilidade e compreensão, da desumanidade para o serviço fraterno.

A proposta de Jesus vira os critérios do mundo de pernas para o ar. Jesus garante-nos que a nossa felicidade será tanto maior quanto mais moldarmos o coração e a vida segundo o padrão das Bem-aventuranças.

Os actos dos apóstolos dizem que os discípulos de Jesus, depois de sofrerem duras perseguições da parte dos judeus vinham para a rua felizes e exultantes de alegria. O mundo não consegue entender estes critérios de felicidade: “E os apóstolos partiram da presença do Sinédrio, isto é, o conselho dos chefes, exultando, por terem sido considerados dignos de sofrer humilhações por causa de Jesus Cristo” (Act 5, 41).

São Paulo, apesar das de perseguições e dificuldades sente-se interiormente feliz e escreve à comunidade de Filipos dizendo: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito: alegrai-vos” (Flp 4, 4).

À luz das Bem-aventuranças a pessoa pode ser pobre e sentir-se profundamente rica. Pode estar a ser perseguida pela sua fé ou pelas suas opções no sentido da paz, da partilha, da fraternidade e sentir-se muito feliz.

À luz das Bem-aventuradas a pessoa pode estar a sofrer por desejar ver certas situações alteradas e, no entanto, sentir-se intimamente feliz. Pode estar com fome e sede de justiça e não perder a confiança em Deus nem a paz interior.

As pessoas que vão configurando a mente com o padrão das Bem-aventuranças vão moldando um coração capaz de comungar com Deus e os irmãos.

Os seres humanos que foram configurando a sua vida segundo este padrão, saboreiam a alegria e a felicidade de ter dado o melhor de si. Sentem-se pessoas realizadas e, face à proximidade da morte, um novo horizonte de esperança se abre: a felicidade eterna.

Face à proximidade da morte, o cristão sabe que o melhor ainda está para vir, isto é, a plenitude da divinização que acontece mediante a assunção da pessoa na comunhão da Santíssima Trindade.