O CORAÇÃO DE JESUS E O CORAÇÃO
DE DEUS
CALMEIRO
MATIAS

a)Deus tem Coração
b)O Amor
Incondicional de Jesus Cristo
c)O Coração de
Jesus e a Aliança de Deus
a)Deus Tem Coração
O Deus bíblico tem
coração. Na linguagem bíblica, o coração é o centro espiritual mais nobre de
uma pessoa.
O coração de uma
pessoa é o ponto de encontro e comunhão com as pessoas humanas e as divinas.
É no íntimo do seu
coração que a pessoa decide fazer o bem.
À luz da Fé
Cristã, Deus é uma comunidade de três pessoas. Deus é relações interpessoais de
amor.
As pessoas divinas
relacionam-se entre si em densidade de amor infinito.
A Bíblia parte do
princípio de que Deus tem coração.
Se o coração é o
núcleo mais nobre da interioridade espiritual de uma pessoa, podemos dizer com
verdade que, as pessoas humanas, criadas à imagem das pessoas divinas, têm
coração.
O coração, segundo
as Escrituras, é o núcleo das decisões e opções.
Neste sentido, as
pessoas humanas têm coração, mas os cães e os gatos não.
Como sabemos, a
Divindade é Pessoas e a Humanidade também.
O encontro das
pessoas humanas com as divinas acontece no mais íntimo do coração humano.
A palavra entre as
pessoas humanas é emitida pela boca e recebida pelo ouvido.
A comunicação da
Palavra de Deus acontece directamente de coração a coração pela acção do
Espírito Santo.
Por outras
palavras, é pela acção do espírito Santo que o nosso coração fica em sintonia
com o coração de Deus Pai e com o coração de Deus Filho.
Por ser amor, Deus
é novidade constante. O amor nunca se repete. O modo de Deus ser é ser novidade
permanente.
Deus disse a
Mioses: “Eu sou aquele que sou”. Com esta expressão, Deus queria dizer que está
a ser novidade permanente:
“Vai e diz aos
filhos de Israel: “O EU SOU, manda-me a vós” (Ex 3, 14)
Deus nunca se
repete. Está sempre a ser de novo. Deus é amor e o amor é criador.
Por isso Deus é
criador desde toda a eternidade. Por outras palavras, Deus não começou a ser
criador a partir do momento em que iniciou a criação do Universo.
Deus é criador
desde toda a eternidade, pois o amor é uma fonte permanente de novidade
criadora.
Deus é novidade a
emergir permanentemente. Não é uma génese com princípio meio e fim.
Emerge
constantemente como perfeição infinita tanto nas três pessoas divinas como na
reciprocidade de comunhão familiar.
Esta emergência
não teve princípio, nem meio, nem fim. Deus é sempiterno.
O amor é a única
realidade que existe desde toda a eternidade e continuará a existir eternamente.
Cada uma das
pessoas da Santíssima Trindade realiza a natureza divina enquanto emergência
única, original, irrepetível, livre, consciente, responsável e amorosa.
O singular, em
Deus, é a comunhão amorosa. O plural são as pessoas
que formam esta comunhão.
Quando falamos de
Deus no singular estamos falar de uma comunhão trinitária.
Como vemos, a
unidade de Deus não significa unicidade pessoal.
Por ser novidade
permanente, Deus é sempre surpreendente, tanto a nível das relações entre as pessoas
divinas como no jeito de se comunicar ao Homem.
Deus não é um ser
estático, sem início e sem fim. Pelo contrário, é permanentemente o início e o
fim, o Alfa e Ómega. É origem e fim de si mesmo e todas as coisas por ele
criadas.
A divindade é
Amor. Na pessoa do Pai, Deus é dom total para o Filho: quero ser inteiramente
para ti (vertente agápica do amor).
Na pessoa do
Filho, Deus é aceitação alegre e agradecida do dom do Pai: quero ser totalmente
por ti, pois sei que queres o melhor para mim (vertente eucarística do amor)
O Espírito Santo é
a ternura maternal de Deus e o ponto de encontro e difusão desta reciprocidade
amorosa.
O Coração de Deus
é reciprocidade amorosa. É ponto de encontro do amor paternal do pai com o amor
filial do Filho no Espírito Santo.
b) O Amor
Incondicional do Coração de Jesus
Para o mundo
bíblico coração (Leb) significa a interioridade pessoal enquanto centro de
decisões e opções morais. É do coração, isto é, da interioridade pessoal que
brota o bem e o mal.
O livre arbítrio
ou possibilidade de optar pelo bem ou o mal talvez seja o conceito que mais se
aproxima da noção bíblica de coração.
Como homem em
construção, Jesus tinha livre arbítrio. Para amar tinha de decidir pelo amor.
Podia Ter dito não às propostas do Amor, mas não o fez. O Seu coração foi
plenamente fiel ao Espírito Santo.
Quando, no
concreto das situações, a pessoa se sente interpelada no sentido de dizer sim
ao amor, isso resulta de um apelo do Espírito Santo no íntimo da consciência.
Isto significa que, dizer sim ou não às propostas do Amor, é dizer sim ou não
às interpelações do Espírito Santo. O Amor propõe-se, não se impõe. E Deus é
amor.
A qualidade de um
coração, portanto, mede-se pela qualidade das decisões, escolhas, opções e
compromissos da pessoa. São realmente estes os frutos pelos quais podemos
conhecer a árvore.
Não é difícil
aceitar que Cristo foi uma árvore que deu frutos magníficos. Ao seu jeito de se
dar todos nós somos devedores.
No Seu coração o
Espírito Santo encontrou uma fidelidade plena e incondicional. Soube amar até
ao limite das suas possibilidades. Foi fiel até ao fim.
O coração de Jesus
Cristo foi a mediação perfeita para Deus exprimir em grandeza humana o Seu Amor
pela Humanidade. Por isso o Espírito Santo encontrou perfeita sintonia entre a
Palavra divina que pronunciava no coração de Jesus e a explicitação humana que
Ele fazia dessa Palavra em gestos de solidariedade e amor.
O coração de Jesus
Cristo foi totalmente fiel. Não se desdisse, apesar de se aperceber que o seu
jeito de amar o ia conduzir a uma morte cruel e ignominiosa.
Graças ao modo com
concretizou a Sua entrega aos outros realizou os mais fecundos dos dons: a
Salvação da Humanidade. A Sua fidelidade agradou a Deus Pai, pois foi condição
de salvação para todos nós.
A libertação dos
oprimidos, a cura dos doentes e a salvação de todas as pessoas foi a grande
paixão que dominou o Seu coração puro e generoso.
Agia com a coragem
dos profetas e santos animados pela força do Espírito Santo. A autenticidade do
Seu coração dava-lhe coragem para enfrentar os poderosos do seu tempo, aqueles
que viriam a decretar a Sua morte.
Mas Deus tomou
partido, ressuscitando-o. Graças às opções, decisões e atitudes que tomou,
Jesus estruturou-se como uma pessoa humana totalmente virada para o bem e a
comunhão.
O Seu coração
levou-o a dar a vida por Amor. Por isso venceu a morte. A grande aspiração
deste coração foi a fidelidade a Deus e a Salvação da Humanidade.
Graças à
fidelidade do Seu coração, Jesus foi o medianeiro da Nova e Eterna Aliança. No
Seu coração se encontraram face a face o melhor de Deus e o melhor do Homem.
O Coração de Jesus
foi o rebento fiel de David do qual brotou a salvação, isto é, o dom do
Espírito Santo, manancial de vida eterna. Neste coração aconteceu o que agrada
a Deus, isto, é o culto em Espírito e verdade (Jo 4, 23). Por isso, ao vir ao
mundo, aboliu todos os cultos e sacrifícios baseados em ritos feitos pelos
homens ou em sacrifícios de animais. A fidelidade deste coração foi o culto que
agradou totalmente a Deus (Heb 10, 5-12).
No Jardim das
Oliveiras, o coração de Jesus fez a experiência do mal terrível que é o pecado.
Não por ter sido pecador, mas por ser vítima da maldade destruidora do pecado.
Finalmente
realizou a Sua aspiração mais profunda: fazer que os homens fossem membros da
Família Divina.
No interior do
coração de Jesus brotou um sim permanente à voz do Espírito que dizia no Seu
íntimo a Palavra do Pai.
A força amorosa de
Jesus marcou a marcha de Humanidade com a dinâmica do Espírito Santo.
Este dom está
permanentemente vivo e activo no coração dos que se apaixonam pela mesma causa
pela qual se apaixonou o coração de Jesus.
c) O Coração de Jesus e a
Aliança de Deus
O Deus bíblico
relaciona-se com o Homem através de relações de aliança.
Logo no princípio
da criação, Deus fez uma aliança com Adão, tornando-o chefe e cabeça da criação
(Gn 1, 28-30; 2, 15-20).
Mas Adão foi
infiel e rompeu com a aliança proposta por Deus, diz o Livro do Génesis.
Numa atitude de
orgulho e desrespeito pela vontade de Deus, quis ser igual a Deus.
A atitude de Adão
implica um pecado grave, isto é, a separação de Deus (Gn 3, 1-13).
Como consequência
deste pecado introduziu a Humanidade no caminho do malogro e do fracasso.
Para ter sucesso,
o Homem precisa de estar em sintonia com a vontade de Deus.
Este aspecto é
fundamental, pois a vontade de Deus em relação ao Homem não é nunca arbitrária
ou caprichosa, mas coincide com o que é melhor para o Homem.
Adão pecou e o mal
começou a espalhar-se por toda a Humanidade. É muito perigoso ser infiel a
Deus.
Não porque Deus se
vingue, mas porque a infidelidade do Homem à vontade de Deus significa que este
entrou no caminho do malogro e da tragédia.
Mas o coração de
Deus continua sempre a tentar a restauração da aliança. Quanto mais a Humanidade
se torna infiel, mais se afunda no abismo do malogro e do fracasso.
É este o sentido
do dilúvio: a Humanidade começou a afogar-se, isto é, a afundar-se cada vez
mais no fosso do malogro.
Mas Deus tem
coração. Por isso impediu que a Humanidade perecesse no fosso do seu pecado.
Deus, em vez de
fazer que a Humanidade se afundasse, veio, pelo contrário, em seu socorro.
A iniciativa
divina de fazer uma aliança com Noé é uma parábola magnífica para dizer que
Deus deitou a mão ao Homem prestes a afundar-se no dilúvio da destruição
humana.
Deus restaura a
comunicação com o Homem sempre em forma de Aliança.
O coração é
criador de reciprocidade. Deus não é paternalista. Por isso ama em jeito de
aliança:
“Contigo vou
estabelecer a minha aliança. Entrarás na Arca com a tua mulher, os teus filhos
e as mulheres dos teus filhos” (Gn 6, 18).
A aliança de Deus
com Noé tinha a finalidade de salvar a Humanidade e os seres vivos que Deus
tinha dado aos homens.
O arco-íris passa
a ser o sinal da aliança restaurada com Noé, a fim de os homens se lembrarem da
aliança de Deus:
“Deus disse: este
é o sinal da aliança que coloco entre mim e vós com todos os seres vivos que
estão convosco.
Colocarei o meu
arco nas nuvens. Ele será um sinal da minha aliança com toda a terra” (Gn 9,
12-13).
A aliança de Deus
com Noé tem um carácter universal. É feita em favor de todos os seres vivos:
“Quando o
arco-íris estiver nas nuvens eu, ao vê-lo, lembrar-me-ei da minha aliança eterna,
aliança com todos os seres vivos que vivem sobre a terra” (Gn 9, 16).
Os descendentes de
Noé, tal como acontecera com os descendentes de Adão, começam a romper com a
aliança de Deus.
E o Homem repete a
velha história da infidelidade.
Surge de novo a
tentação de ser igual a Deus. A ideia de construir uma torre que chegue ao Céu
é precisamente a tentação de tornar-se divino por suas forças.
É, no fundo, a
tentação de ser igual a Deus! Na verdade estamos talhados para o Céu.
O nosso coração
está talhado para atingir a sua plenitude na divinização. Mas isso é um dom de
Deus, não uma conquista do Homem.
A nossa
divinização só pode acontecer mediante o enxerto do divino no humano. A
divinização do Homem, portanto, é um dom gratuito, não uma conquista do Homem.
Aliás era este o
projecto de Deus! De tal modo este plano divino era essencial que nem o pecado
do Homem conseguiu impedi-lo.
É isto a
encarnação. O homem peca quando rejeita a sua condição de criatura e pretende
colocar-se no lugar do Criador. É a tentação de querer ser igual a Deus (Gn 11,
1-8).
E o homem começa a
caminhar em direcção ao fracasso. Deus vai intervir de novo, escolhendo um
homem fiel, a fim de salvar a Humanidade.
Encontrou Abraão e
faz-lhe a proposta de uma aliança que possa beneficiar todas as famílias da
Terra (Gn 12,3).
No coração de Deus
cabem todos. Deus ama de modo difusivo, não exclusivo.
Quando escolhe
alguém para uma missão, pensa logo na maneira de fazer que esse amor se difunda
e possa beneficiar a Humanidade.
Ao amar uma
pessoa, Deus não a separa da comunhão universal. Pelo contrário, o amor de Deus
chega a nós através de mediações e, ao amar-nos, capacita-nos para sermos
mediação do seu amor para os outros.
Deus é amor. O seu
coração está sempre disposto a amar a todos.
Foi com esta
dinâmica de amor difusivo que Deus prometeu a Abraão uma terra, a fim de formar
um povo com os seus descendentes.
Mas Deus logo
sonhou em que esta aliança de amor seja uma mediação para amar todos os povos
da Terra. (Gn 15, 8).
Com Abraão, a
aliança atinge o nível da revelação. Deus revela o seu projecto em favor da
Humanidade:
“Na tua
descendência será abençoadas todas as famílias da Terra” (Gn 12, 3).
Eis o que Deus
propõe a Abraão: “Vou fazer uma aliança entre mim e ti. Multiplicarei a tua
descendência sem medida” (Gn 17, 2);
“Serás pai de
muitas nações” (Gn 17, 4).
“Vou estabelecer
para sempre a minha aliança entre mim e ti. Será uma aliança eterna.
Serei o teu Deus e
o Deus dos teus descendentes” (Gn 17, 7).
E, ao longo dos
tempos, Deus foi dando provas da sua fidelidade:
“Eu ouvi os
gemidos dos filhos de Israel que os egípcios escravizaram e lembrei-me da minha
aliança” (Ex 6, 5).
Após a saída do
Egipto, Deus de novo renova a sua aliança como o povo de Abraão, agora liberto
da escravidão:
“Se observardes a
minha aliança sereis minha propriedade especial entre todos os povos” (Ex 19,
5).
Deus renovou a sua
aliança com o povo de Israel através de Moisés, entregando-lhe os dez
mandamentos escritos em duas tábuas de pedra.
Ao construir o
santuário, as tábuas dos mandamentos do Senhor ficaram guardadas dentro de uma
arca chamada a Arca da Aliança:
“Dentro da arca
coloca o documento da aliança que te dei” (Ex 25, 16).
Deus entregou por
escrito o documento da aliança, a fim de permanecer como testemunho:
“Deus disse ainda
a Moisés: escreve estes mandamentos, pois é de acordo com eles que eu faço a
aliança contigo e com Israel” (Ex 34, 27).
O livro do
Deuteronómio insiste em que o povo deve ser fiel, pois Deus realiza o que
promete.
A fidelidade do
povo manifesta-se no cumprimento dos Mandamentos escritos nas tábuas de pedra:
“Deus
comunicou-vos a sua aliança, a fim de que cumprísseis as dez palavras que Ele
escreveu em duas tábuas de pedra” (Dt 4, 13).
O Senhor é um Deus
fiel e verdadeiro, por isso também o povo deve ser fiel:
“Reconhece que
Yahvé, teu Deus, é o único Deus, o Deus fiel que mantém a aliança e o seu amor
por mil gerações em favor dos que o amam e observam os seus mandamentos” (Dt 7,
2).
Os mandamentos das
tábuas, a terra prometida e uma descendência numerosa constituem os elementos
básicos da aliança de Deus com o Povo do Antigo Testamento:
“Inclina-te,
Senhor, do Céu que é a tua morada santa e abençoa Israel, teu povo e a terra
que nos deste
Realiza o que
juraste aos nossos antepassados quando lhes prometeste uma terra onde corre
leite e mel” (Dt 26, 15).
Com a instituição
da monarquia, surge a promessa messiânica, a qual assume a configuração de uma
aliança de Deus com David:
“A minha casa está
firme junto de Deus, disse David, pois a sua aliança para comigo é para sempre.
Esta aliança está
assente em alicerces sólidos” (2 Sam 23, 5).
A aliança a que se
refere o texto anterior é a profecia que Deus dirigiu a David através do
profeta Natã.
Segundo esta
profecia, Deus suscitaria um filho a David graças ao qual a monarquia davídica
duraria para sempre:
“Quando chegares
ao fim de teus dias e te fores juntar aos teus antepassados, eu suscitarei,
depois de ti, um filho teu. Eu serei para ele um pai e ele será para mim um
filho.
Se cometer algum
erro corrigi-lo-ei com vara de homens (invasões de outros povos).
Mas não lhe
retirarei a minha graça como fiz a Saul, a quem expulsei da minha presença. A
tua casa e o teu reino serão firmes para sempre” (2 Sam 7, 12-16).
Devido à profecia
de Natã os filhos de David, ao subirem ao trono, passam a chamar-se filhos de
Deus:
“Vou anunciar o
decreto do Senhor. Ele disse-me: Tu és meu filho, hoje mesmo te gerei” (Sal 2,
7).
Esta profecia está
associada à construção de um templo:
“David disse ao profeta Natã:
“Como podes
observar, eu estou a morar numa casa de cedro, ao passo que a Arca da Aliança
de Deus está debaixo de uma tenda” (1 Cron 17, 1).
David tinha
planeado construir um templo para introduzir lá a Arca da Aliança.
Mas o profeta Natã
fez saber ao rei que os planos de Deus são outros:
Não será David mas
um filho seu quem construirá o templo do Senhor (2 Sam 7, 14-16).
Graças ao filho de
David, Deus vai abençoar para sempre a realeza ligada à casa de David:
“Fiz uma aliança
com o meu eleito, jurei a David, meu servo: estabelecerei a tua descendência
para sempre e o teu trono há-de manter-se eternamente” (Sal 89, 4-5).
“Encontrei a
David, meu servo, e ungi-o com óleo santo. A minha mão estará sempre com ele e
o meu braço há-de torná-lo forte” (Sal 89, 21-22).
“Ele me invocará,
dizendo: Tu és meu pai, és o meu Deus e o rochedo da salvação. Eu farei dele o
primogénito, o maior entre os reis da terra.
Hei-de
assegurar-lhe para sempre o meu favor, e a minha aliança com ele há-de
manter-se firme.
Estabelecerei para
sempre a sua descendência e o seu trono terá a duração dos céus” (Sal 89,
27-30).
“Jurei uma vez
pela minha santidade. De modo algum enganarei David! A sua descendência
permanecerá para sempre e o seu trono será como o sol, na minha presença,
estará firme para sempre como a lua, testemunho fiel no firmamento” (Sal 89,
36-38).
Em virtude das
infidelidades de Israel à aliança, os profetas têm uma consciência clara do
resultado que advém desta infidelidade:
“Esta terra está
profanada sob os pés dos seus moradores. Transgrediram as leis, violaram os
mandamentos e romperam a minha aliança eterna” (Is 24, 5).
Apesar da
infidelidade do povo, Deus será sempre fiel ao seu amor: “Mesmo que os montes
se retirem e as colinas vacilem, o meu amor nunca se afastará de ti.
A minha aliança de
paz não vacilará, diz o Senhor que se compadece de ti” (Is 54, 10).
Deus está sempre
disposto a recomeçar a sua aliança.
Mas para
reedificar a aliança, é preciso que haja fidelidade das duas partes.
O amor propõe-se,
mas nunca se impõe:
“Dai-me ouvidos.
Vinde a mim. Escutai-me e vivereis. Farei convosco uma aliança definitiva.
Serei fiel à minha amizade com David” (Is 55, 3).
Deus começa a
anunciar, através dos profetas, uma nova aliança. O Espírito de Deus é a
garantia de permanência da Nova Aliança.
Mesmo as vidas que
permaneciam mais estéreis se tornarão fecundas: “Isto diz o Senhor aos eunucos
que observam os meus sábados, que escolhem o que me agrada e ficam firmes na
minha aliança: dar-lhes-ei no meu templo e dentro das minhas muralhas, um
monumento e um nome mais valioso que os filhos e as filhas” (Is 56, 4-5).
Na economia da
Nova Aliança, os estrangeiros terão lugar em Jerusalém e entrarão, cheios de
alegria, na casa de oração, o templo de Deus, tornando-se os seus sacrifícios
agradáveis a Deus (cf. Is 56, 6-7)
A Nova Aliança
será viva em harmonia com Deus, pois a Palavra do Senhor brota abundantemente
da boca das pessoas: “Esta é a minha aliança com eles, diz o Senhor: o meu
espírito está sobre ti, e as palavras que coloquei em ti, jamais se afastarão
da tua boca e da boca dos teus filhos, desde agora e para sempre” (Is 60,
19-22).
Quando o Senhor
estabelecer a Nova Aliança, Jerusalém será totalmente renovada. Já não será
iluminada pelo sol durante o dia nem pela lua durante a noite, pois Deus será a
sua luz eterna” (Is 60, 19-22).
A Nova Aliança já
não será estabelecida sobre as tábuas da Lei, as quais desapareceram quando os
caldeus invadiram Jerusalém.
O profeta
Jeremias, contemporâneo deste facto, diz claramente que a nova aliança não
assenta num coração de pedra mas num coração de carne. Não na letra, mas no
grande dom do Espírito.
A Arca da Aliança
guardava o coração de pedra. Mas a nova aliança vai assentar num coração novo,
não de pedra mas de carne. A Arca da Aliança não faz parte da dinâmica da Nova
Aliança: “Quando crescerdes e vos multiplicardes no país, oráculo do Senhor, já
ninguém mais falará na Arca da Aliança do Senhor. Ninguém mais se lembrará
dela, nem sentirão a sua falta, nem voltarão a fazer outra” (Jer 3, 16).
Os caldeus
roubaram do templo a Arca da Aliança. O profeta Jeremias desdramatiza o
problema dizendo que isso não é uma questão fundamental.
Deus tem em mente
um plano para realizar uma Nova Aliança: “Dias virão em que farei uma Nova
Aliança com Israel e Judá. Não será como a aliança que fiz com seus pais quando
os tomei pela mão e os tirei da terra do Egipto. Eles quebraram essa aliança,
apesar de eu ser o seu Deus.
A Nova Aliança é
assinada no coração das pessoas e não numa pedra: “A aliança que vou fazer com
Israel, oráculo do Senhor, será assim: colocarei as minhas leis no seu peito,
gravá-las-ei no seu coração. Eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus” (Jer
31, 31-33).
E ainda: “Farei
com eles uma aliança eterna. Nunca deixarei de lhes fazer bem. Colocarei no seu
coração o meu temor, a fim de que não se afastem de mim” (Jer 32, 40).
O Novo Testamento
reconhece que, em Jesus Cristo, se realizou a Nova Aliança. Pela parte da
Divindade assinou a Segunda pessoa da Santíssima Trindade. Pela parte da
Humanidade assinou um homem total e incondicionalmente fiel a Deus: Jesus de
Nazaré. O Espírito Santo é a garantia de autenticidade da Nova Aliança.
O Jesus histórico
tinha consciência de ser o medianeiro da Nova Aliança: “Isto é o meu sangue, o
sangue da Aliança que é derramado em favor de muitos, para remissão dos
pecados” (Mt 26, 28).
O pai de João
Baptista, Zacarias, reconhece que, em Jesus, Deus realizou a misericórdia e a
promessa dos pais: “Deus realizou a misericórdia que teve com os nossos pais,
recordando a sua santa aliança” (Lc 1, 72).
A Nova Aliança
leva consigo o grande dom do perdão total do pecado: “Essa será a aliança com
eles quando eu perdoar os seus pecados” (Rm 11, 27).
“Foi Deus que nos
tornou capazes de sermos ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do
Espírito, pois a letra mata e o Espírito é que dá vida” (2 Cor 3, 6). “Jesus
tornou-se a garantia de uma aliança melhor” (Heb 7, 22).
“Recebeu um
sacerdócio superior, pois é mediador de uma aliança melhor. Se a primeira
aliança não fosse deficiente não havia lugar para uma Nova Aliança” (Heb 8,
6-7).
“Jesus é o
mediador de uma Aliança Nova. Ao morrer livrou-nos das faltas cometidas durante
a primeira aliança, a fim de os eleitos receberem a herança definitiva que lhes
foi prometida” (Heb 9, 15).
A dinâmica da Nova
Aliança É o Espírito Santo, fonte de fecundidade. A antiga aliança não permitia
aos eunucos, mesmo sendo filhos de Aarão, oferecer os sacrifícios do altar (Lv
21, 20-21).
O profeta Isaías,
prevendo a dinâmica da Nova Aliança declara que a fecundidade da Nova Aliança é
fruto do Espírito Santo. A fecundidade do Espírito é mais rica que a mera
fecundidade biológica: “Que o eunuco não diga: não passo de uma árvore seca”
(Is 56, 3).
Os Actos dos
Apóstolos declaram que o primeiro pagão a ser baptizado, foi um eunuco etíope
(cf. Act 8, 36). É o primeiro pagão a confessar a fé em Cristo (cf. Act 8, 37).
A Nova Aliança
origina um Nova Humanidade reconciliada com Deus: “Se alguém está em Cristo é
uma Nova Criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo.
Tudo isto vem de
Deus que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério
da reconciliação” (2 Cor 5, 17-18).
Os que fazem parte
da Nova Aliança são movidos pelo Espírito Santo. Por isso são membros da
Família de Deus:
Somos filhos e
herdeiros em relação e Deus Pai; irmãos e co-herdeiros em relação a Deus Filho
(Rm 8, 14- 16).
A Nova Aliança é o
tempo de plenitude. O projecto de Deus está na fase dos acabamentos.
A vida de Deus já
circula no coração das pessoas humanas. Na nossa profundidade pessoal e
espiritual já estamos divinizados.
Isto deve-se ao
facto de, pela encarnação, o divino se ter enxertado no humano. É esta a vida
nova, coração da Nova e Eterna Aliança.
Jesus Cristo é a
concretização deste projecto amoroso de Deus.
No coração de
Jesus encontra-se a fidelidade incondicional de Deus com a fidelidade
incondicional do Homem. Eis o alicerce inabalável da nova e Eterna Aliança!
Por ser plenamente
fiel, o coração de Jesus está em perfeita sintonia com a vontade do Pai:
“O meu alimento é
fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34).
E ainda:
“Eu não procuro a
minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30);
“O mundo saberá
que amo o Pai e faço como o Pai me ordenou” (Jo 14, 31).
“Desci do Céu, não
para fazer a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou.
E a vontade
daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas
que os ressuscite no último dia.
Sim, esta é a
vontade de meu Pai: quem vê o filho e acredita nele tem a vida eterna e eu o
ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 38-40).
Estes textos
demonstram o grande amor do coração de Jesus por Deus e pela salvação humana.
Foi esta a grande
paixão do coração de Jesus. Esta paixão foi a razão da sua vida e da sua morte.
E Deus
ressuscitou-o, pois não podia permanecer na morte quem gastou a sua vida amando
a Deus e a Humanidade.