O BEM E O MAL NA HISTÓRIA HUMANA
CALMEIRO
MATIAS

Deus Santo,
obrigado pelo facto de sermos pessoas. O animal
não é nem pode chegar a ser pessoa.
Aristóteles definiu o Homem como um animal racional.
Mas nós temos de dizer que esta definição não é adequada.
Na verdade, não basta acrescentar um adjectivo ao termo animal
para dizer a totalidade e a verdade do
Homem.
Com efeito, a diferença que existe entre o Homem e o animal não
é apenas de grau.
Aceitamos que o Homem surge na marcha da vida por via
evolutiva, a partir do animal.
Mas o ser humano só se torna pessoa através de um salto
qualitativo.
A evolução chegou à hominização, isto é, à estrutura
natural de Homem, condição para se dar o salto qualitativo
para a humanização.
A hominização assenta sobre uma complexidade única no conjunto
dos seres vivos.
Mas a evolução não consegue realizar a humanização, cuja lei é:
“Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para
a comunhão humana universal”.
A humanização só pode acontecer em contexto de relações
com a qualidade e a densidade do amor.
O animal ficou dominado pela ditadura dos instintos. Não
tem possibilidade de equacionar as respostas aos estímulos
básicos como a fome ou a sexualidade.
O ser humano, pelo contrário, é capaz de estar cheio de fome, ter um manjar
excelente diante de si e entrar em greve de fome.
O ser humano precisa de sentidos para viver. Sem sentidos de
vida,
a pessoa entra em crise e pode chegar ao suicídio.
A pessoa humana sabe que é um ser em construção e,
portanto,
tem necessidade de fazer projectos para se realizar e ser feliz.
O animal gosta de brincar, sobretudo enquanto é jovem.
Mas não é capaz de celebrar a vida nem sonhar com um
futuro diferente.
O animal nunca se faz perguntas. A pessoa humana, pelo contrário,
sente uma fome enorme de criar sentidos para
viver.
O ser humano tem consciência da própria morte e, apesar disso,
não entra em greve perante a vida.
O animal não tem consciência da sua morte e, por isso, não se
sente
estimulado a criar sentidos para a vida.
A pessoa humana é capaz de chegar à conclusão de que o
amor é a grande razão que vale para viver e também
para
morrer.
De facto, ninguém diz que uma pessoa que morreu para
salvar a vida de outra se suicidou.
Pelo contrário, entendemos muito bem que essa pessoa
levou o amor até à sua densidade máxima.
O ser humano é capaz de se elevar acima da satisfação imediata
das necessidades, tornando-se criador.
Como ser criador, a pessoa humana é capaz de fazer surgir
o novo, dando origem às ciências, às técnicas, às artes ou
a atitudes
e gestos maravilhosos de amor.
Por não estar dominado pelo mundo dos instintos, o ser humano
tem o livre arbítrio, capacidade psíquica que lhe
permite optar pelo bem ou pelo mal.
O livre arbítrio não é a liberdade, mas a possibilidade
de a pessoa se tornar livre.
A liberdade é a capacidade de a pessoa se relacionar em
dinâmica de amor com os outros e interagir de
modo criador
com as coisas e os acontecimentos.
O ser humano não ficou enredado no círculo das respostas
instintivas aos diversos estímulos.
Por isso transcende o nível da simples satisfação das
necessidades biológicas, dando o magnífico salto de
qualidade para o nível de um ser criador de
cultura.
Mas os seres humanos também são capazes de potenciar enormemente
as possibilidades de fazer acontecer a morte e a destruição.
Somos capazes de fazer guerras monstruosas e
criar máquinas diabólicas para matar.
Somos capazes de oprimir e explorar os outros para
amontoar riquezas tantas vezes desnecessárias.
Somos capazes de raptar e matar crianças, conceber
instrumentos monstruosos de tortura e destruir a
natureza
movido por interesses mesquinhos.
Mas também somos capazes de criar música, poesia e antecipar
um futuro cheio de gestos de ternura e amor.
É capaz de inventar máquinas brutais para fazer guerras
criminosas.
É capaz de pilhar e destruir pessoas inocentes. Mas é
também capaz de idealizar e criar planos de
solidariedade
e fraternidade que ultrapassam os meros laços do sangue.
É um ser faminto de verdade. A verdade é a compreensão e
enunciação adequada
da realidade de Deus, do Homem, da História e do Universo.
Espírito Santo,
tu que habitas em nós e nos inspiras atitudes e actos
humanizantes, ajuda a Humanidade
a gerar homens livres, a fim de criarmos um mundo humano e
evitarmos
uma destruição universal.
Ámen!