JESUS
DE NAZARÉ COMO PESSOA HUMANA
CALMEIRO MATIAS

a) Jesus Como Homem Perfeito
b) A Dinâmica da
Encarnação
a) Jesus Como Homem
Perfeito
Cristo
é o Filho de Deus,
Mas
é também o Filho do Homem,
O descendente
de David.
Nele
realizam-se de modo perfeito a natureza divina e a natureza humana.
Como
sabemos,
A
natureza divina concretiza-se em pessoas.
A
natureza humana também.
É
neste facto que assenta a possibilidade da Encarnação.
Seria
uma distorção do mistério de Cristo pensar que a Encarnação quer dizer que a
segunda pessoa da Santíssima Trindade,
O
Filho eterno de Deus,
Se
tornou uma realidade de grandeza biológica.
Se
assim fosse,
Podia
encarnar em qualquer animal.
Neste
caso,
Mais
que de encarnação,
Deveríamos
falar de possessão.
Não
devemos pensar que o Verbo de Deus,
A
segunda pessoa da Santíssima Trindade,
Se
meteu dentro do homem Jesus,
Substituindo,
Deste
modo,
A
pessoa humana de Jesus.
Se
assim fosse,
Teríamos
de dizer que Deus,
Ao
unir-se organicamente ao Homem,
O
mutila no essencial do seu ser: a dignidade pessoal.
A
verdade é precisamente o contrário: A divindade,
Ao
unir-se à Humanidade,
Optimiza-a.
Todos
sabemos como a pessoa na comunhão,
Não
é anulada mas optimizada.
O
marido,
Ao
formar uma comunhão amorosa com a esposa,
Não
a anula.
Pelo
contrário,
Optimiza-a.
Se
Jesus de Nazaré não fosse pessoa humana não teria sido um homem perfeito.
Com
efeito,
Não
existe homem perfeito que não seja uma pessoa humana.
Impedir
um ser humano de se humanizar,
Isto
é,
Não
permitir que este se realize como pessoa humana é a pior mutilação que se pode
fazer a esse ser humano.
Também
nós,
Ao
sermos assumidos na comunhão familiar da Santíssima Trindade,
Não
somo anulados na nossa identidade pessoal-espiritual.
Pelo
contrário,
Esta
é assumida,
Optimizada
e dinamizada pelo Espírito Santo (Rm 8, 14-17; Ga 4, 4-7).
A
encarnação não pode acontecer num animal precisamente pelo facto de os animais
não serem pessoas.
De
facto,
Não
existe proporcionalidade entre o animal e Deus,
Pois
os animais não são pessoas.
A
encarnação pôde acontecer na Humanidade devido ao facto de haver
proporcionalidade entre os seres humanos e Deus: a condição pessoal.
A
Encarnação,
Portanto,
Não
é uma possessão.
Deus
nunca substitui o Homem.
O
mistério da Encarnação é em tudo semelhante ao mistério da Trindade.
Como
sabemos,
Deus
é uma comunhão de três pessoas formando,
Não
uma pessoa,
Como
por vezes se ouve dizer,
Mas
uma comunhão de amor familiar.
No
evangelho de São João,
Cristo
diz que ele e o Pai fazem um (Jo 10, 30).
Trata-se
de uma unidade orgânica,
Isto
é,
Interactiva
e dinâmica,
Animada
pelo princípio relacional amoroso que é a pessoa do Espírito Santo.
O
Pai e o Filho são duas pessoas.
Fazem
um não por se fundirem ou confundirem.
A
unidade do Pai e do Filho fazendo um só Deus não significa que o Pai é
substituído ou mutilado pelo Filho.
È
deste jeito a unidade humano-divina de Cristo:
Trata-se
de uma interacção directa entre a interioridade pessoal divina da Segunda
pessoa da Santíssima Trindade e a interioridade pessoal humana de Jesus de
Nazaré.
A
antiguidade cristã recusava-se a chamar Jesus de pessoa humana, pois este termo
estava ligado ao mundo do teatro.
Com
efeito,
O
termo “persona”,
No
mundo greco-romano,
Não
tinha o mesmo significado que tem para nós.
Para
nós,
O
termo pessoa significa um ser com uma identidade espiritual livre,
Consciente,
Responsável,
Única,
Original,
Irrepetível
e capaz de comunhão amorosa.
No
mundo greco-romano o termo “Persona” significava a máscara usada pelos actores
de teatro.
A
máscara era apenas uma aparência.
Não
tinha identidade própria.
Era
uma ficção para indicar uma outra realidade.
Foi
esta a razão pela qual o termo não foi aplicado a Jesus,
Pois
aplicar este termo a Jesus,
Significaria
dizer que Jesus era aparência de homem sem interioridade espiritual humana e,
Portanto,
Sem
uma identidade humana própria.
Jesus
Cristo não é uma casca de homem manipulada pelo Filho eterno de Deus.
Pelo
contrário, é um homem em tudo igual a nós,
Excepto
no pecado.
Por
isso a tradição cristã utilizou o termo duas naturezas em vês de duas pessoas.
Mas
nós sabemos que tanto a natureza humana como a divina ou se concretizam em
pessoas ou não são realizações perfeitas da natureza.
Por
outras palavras,
A
natureza humana,
Tal
como a divina,
Não
são realidades abstractas,
Mas
concretizam-se em pessoas.
A
Divindade é uma emergência permanente de três pessoas de perfeição infinita em
perfeita convergência de comunhão amorosa.
Por
seu lado,
A
natureza humana é princípio de acção e estruturação das pessoas nas quais se
concretiza.
Não
existe natureza humana perfeitamente realizada se esta não está concretizada
numa pessoa.
Doutro
modo não conseguimos encontrar resposta para a seguinte pergunta:
Se
Jesus tinha alma humana,
Se
tinha uma Vontade humana,
Se
tinha Consciência e liberdade humana,
O
que é que lhe faltava para ser uma pessoa humana?
Pelo
contrário,
A
possibilidade da encarnação radica precisamente no facto de Jesus ser uma
pessoa humana.
A
encarnação não significa possessão, mas interacção mediante a acção do Espírito
Santo.
A
pessoa divina do Logos e a pessoa humana de Jesus de Nazaré,
Organicamente
unidas e dinamizadas pelo Espírito Santo,
Fazem
um só e o mesmo Cristo.
Do
mesmo modo a pessoa do Pai e a pessoa do Filho,
Organicamente
unidas e dinamizadas pelo Espírito Santo,
Fazem
um só e o mesmo Deus.
Do
mesmo modo,
Diz
o evangelho de São João,
Nós
fazemos um com Cristo.
Além
disso,
Também
nós fazemos uma unidade orgânica de tipo familiar com a Santíssima Trindade (Jo
17, 21-23).
Pela
encarnação a Divindade enxertou-se na Humanidade,
A
fim desta ser organicamente assumida e incorporada em Deus.
A
união humano-divina que resulta da Encarnação é semelhante à união que existe
entre os ramos e a cepa da videira (Jo 15, 1-8).
No
seio da Santíssima Trindade,
Cristo
é o Filho Unigénito de Deus gerado desde toda a eternidade (Jo 1, 1-3).
Mas
pelo mistério da encarnação tornou-se o primogénito de muitos irmãos (Rm 8,
29).
Segundo
a genealogia do evangelho de São Lucas,
Adão
é Filho de Deus por estar organicamente unido a Cristo.
Mateus
inicia a sua genealogia começando em Abraão e terminando em Jesus.
Com
este modo de proceder,
Mateus
pretende demonstrar que Jesus é o portador da salvação e das bênçãos prometidas
a Abraão (Gn 12, 3).
São
Lucas,
Pelo
contrário,
Começa
a genealogia em Jesus e terminando em Adão, ao qual chama filho de Deus (Lc 3,
38).
Deste
modo o evangelista sublinha que Adão é filho de Deus por estar organicamente
unido a Cristo.
Por
outras palavras,
Cristo
não é filho de Deus por estar unido a Adão,
Mas
é Adão que é filho de Deus por estar organicamente unido a Cristo.
Esta
verdade é extensiva a toda a Humanidade, pois Adão é a cabeça da Humanidade não
salva.
Além
de Filho de Deus gerado desde toda a eternidade,
Cristo
é também o filho de David segundo a carne,
Diz
São Paulo.
Por
outras palavras,
Ele
é plenamente homem com uma genealogia concreta.
Foi
este homem,
Continua
Paulo,
Que
pela sua ressurreição se tornou o Filho de Deus em todo o seu poder de rei
salvador (Rm 1, 3-5).
Por
ser do lado da Divindade ele é o alfa,
Isto
é,
O
criador do universo.
Como
Homem é também o Ómega,
Ou
seja,
A
cúpula da Criação e a Cabeça da Nova Humanidade assumida e divinizada na
comunhão da Santíssima Trindade (Apc 1, 17; 2, 8; 22, 13).
Jesus
Cristo,
Diz
o evangelho de São João,
É
a ressurreição e a vida.
Não
devemos pensar que esta afirmação se refere à vida biológica que acaba no
cemitério.
Ao
afirmar que Jesus é a Vida eterna,
O
evangelho de São João refere-se à vida espiritual,
A
qual atinge a sua plenitude na medida em que é assumida e plenificada na
Comunhão divina.
Por
outras palavras,
Por
fazermos uma comunhão orgânica com Jesus Cristo,
Somos
assumidos e incorporados com ele na Família Divina:
Filhos
em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus filho!
b)
A Dinâmica da Encarnação
“E se virdes o filho do Homem subir
para onde estava antes?” (Jo 6, 62).
Com o evangelho de São João o
título cristológico de Filho do Homem adquire uma profundidade inultrapassável:
o Filho do Homem é o Filho de Deus preexistente.
É eterno como o Pai e é Deus com
ele e o Espírito Santo. Visto a esta nova luz, o Filho do Homem torna-se o
Filho de Deus encarnado:
“O Verbo era Luz verdadeira que,
ao vir ao mundo, ilumina todos os homens.
Ele estava no mundo e o mundo
veio à existência por ele.
Mas o mundo não o reconheceu.
Veio ao que era seu e os seus
não o receberam.
Mas aos que o receberam, a todos
os que nele crêem deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram dos laços do
sangue, nem do impulso da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.
E o Verbo encarnou e habitou no
meio de nós.
Nós contemplámos a sua glória,
glória que possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de Graça e da Verdade” (Jo
1, 9-14).
À luz do Filho do Homem
preexistente temos de afirmar a dupla face de Cristo: a face humana e a face
divina.
Em Cristo concretiza-se o
mistério da comunhão do Humano com o Divino. O Humano não diminui o Divino e
este não mutila o Humano.
Tanto a natureza humana como a
divina realizam-se de modo perfeito em Cristo.
A natureza divina concretiza-se
em pessoas e a humana também. Jesus de Nazaré é um homem perfeito. É uma
concretização perfeita da natureza humana.
Quando dizemos que foi concebido
pelo Espírito Santo não estamos a afirmar que o Espírito Santo infundiu uma
semente divina em Maria, substituindo o cromossoma Y no Homem Jesus. Se assim
fosse Jesus seria composto por uma metade humana e outra metade divina. Não é
esta a visão da tradição da Fé.
Jesus é plenamente homem e faz
parte da Humanidade.
Por outro lado, o Filho de Deus
é plenamente divino e faz parte da Divindade. Por isso é preexistente e eterno.
Não podemos mutilar a humanidade
de Jesus para afirmar a divindade.
O Humano, em Cristo, é completo
e perfeito. Na linguagem tradicional dizia-se que tem corpo, alma e vontade
humana.
Hoje teremos de dizer que Jesus
não é apenas um indivíduo humano, mas também uma pessoa humana, pois tem
dimensão espiritual humana.
Como sabemos a dimensão
espiritual humana, normalmente chamada alma, corresponde à interioridade
pessoal e espiritual.
Não há sujeitos divinos que não
sejam pessoas, como não há sujeitos humanos que o não sejam.
A possibilidade da Encarnação
radica precisamente no facto de Jesus ser pessoa humana. De outro modo não
havia proporcionalidade.
O Filho de Deus não podia encarnar
num animal. Se isto fosse possível, a Encarnação seria biologisação.
Neste caso teríamos de falar de
possessão e não de Encarnação. Na possessão, há um ser estranho que entra
dentro de uma pessoa substituindo-a.
Não é esta a noção que a Fé tem
do mistério da Encarnação, o qual acontece como unidade interactiva de duas
realidades proporcionais (natureza humana, natureza divina) formando um todo
harmonioso.
Não é necessário sacrificar a
pessoalidade humana para defender a unidade humano-divina de Cristo.
Esta unidade acontece no
Espírito Santo. Do mesmo modo, não é preciso sacrificar a pessoalidade divina
do Pai ou a do Filho para defender a unidade dos dois, os quais formam um só
Deus com o Espírito Santo.
Deus é apenas um, apesar das
pessoas do Pai e do Filho serem distintas, inconfundíveis e formarem uma
unidade orgânica no Espírito Santo.
Assim também acontece com a
pessoa humana de Jesus e a divina do Logos. Por outras palavras, a unidade em
Deus, tal como a unidade em Cristo, não significam unicidade pessoal.
Trata-se de uma unidade
orgânica, isto é, relacional e interactiva cujo ponto de encontro é a pessoa do
Espírito Santo, princípio animador de relações.
No caso de Deus, essa unidade
orgânica é só divina. No caso de Cristo é humano-divina.
A grandeza divina de Cristo é
constituída pela pessoa divina do Logos. Do mesmo modo, a sua grandeza humana é
constituída pela pessoa de Jesus de Nazaré. Com efeito, Cristo não é uma pessoa
divina encerrada dentro da casca de um homem.
A fé diz que Jesus é um homem em
tudo igual a nós excepto no pecado. Ora, ser pessoa humana não é pecado.
A teologia tradicional, sempre
afirmou a unidade divina, apesar de nunca a ter reduzido a uma unicidade
pessoal.
Com Cristo, em virtude da
ambiguidade do termo pessoa, a antiguidade não se conseguiu equacionar a
unidade de Cristo sem cair na unicidade pessoal.
O conceito actual de pessoa já
não é obstáculo para entendermos esta unidade humano-divina de Cristo.
Falar da unidade humano-divina
em termos de unicidade pessoal é mutilar a Sua humanidade. Neste caso, Cristo
não é homem perfeito, pois um homem perfeito é uma pessoa humana.
Não vale argumentar que a
afirmação da unicidade pessoal ainda dignifica mais o ser de Cristo, pois no
lugar da pessoa humana está a pessoa divina do Logos. Sabemos que não é este o
sentir da Fé. Com efeito, há um dogma a afirmar a dimensão espiritual humana de
Jesus (alma, na linguagem tradicional). E outro a afirmar que Jesus tinha uma
vontade humana. Com isto pretendia-se sublinhar a autonomia da humanidade face
à divindade no ser de Cristo.
Ao encontrar-se com o humano, o
divino não o esvazia nem o mutila. Pelo contrário, optimiza-o e plenifica-o em
todas as suas dimensões.
Se anularmos a pessoalidade
humana de Jesus, a Encarnação fica reduzida a biologisação.
Teríamos, então, a visão
deformada de um Logos a formar uma casca de homem para se meter dentro dela.
Neste caso, a humanidade de Jesus estaria totalmente substituída pelo Logos.
Nesta perspectiva, Jesus não é
humanamente autónomo. Mas não é esta a perspectiva da Fé, pois a tradição
afirma que Jesus tinha uma vontade humana.
Temos de afirmar a integridade e
autonomia da humanidade de Cristo se não quisermos cair numa visão deformada do
projecto salvador de Deus.
Com efeito, os seres humanos ao
serem assumidos na Comunhão Trinitária, não são anulados ou mutilado na sua
realidade humana.
Pelo contrário, são optimizados
na sua condição de pessoas e incorporados na comunhão orgânica da Santíssima
Trindade.
O Pai e o Filho fazem Um, diz o
evangelho de João (Jo 10, 30). A unidade divina não se faz sacrificando a
pessoalidade de qualquer das pessoas divinas.
Pelo contrário, o Pai e o Filho
encontram a Sua plenitude pessoal na reciprocidade e interacção amorosa que é
animada pela pessoa do Espírito Santo.
Podemos afirmar a mesma coisa a propósito da
unidade, interacção e reciprocidade que a pessoa divina do Logos e a pessoa
humana de Jesus realizam no Espírito Santo.