INTERPRETAÇÕES DE CRISTO NOS EVANGELHOS

                   CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

a) Jesus no Evangelho de Marcos

b) Jesus no Evangelho de Mateus

c) Jesus no Evangelho de Lucas

d) Jesus no Evangelho de João

 

a) Jesus no Evangelho de Marcos

Ao ler os textos dos evangelhos nos quais aparece Jesus a falar de si as pessoas menos preparadas podem ficar com a ideia de que esses textos correspondem à compreensão que Jesus tinha da sua pessoa e missão.

No entanto, se lermos mais atentamente esses textos verificamos que os referidos textos não reflectem a consciência que Jesus tinha de si, mas a consciência e compreensão dos evangelistas acerca de Jesus.

Por vezes encontramos nesses textos um Jesus que se entendia como um homem ungido com o Espírito Santo, cuja missão englobava o perdão do pecado e a edificação da família de Deus.

Outras vezes Jesus aparece-nos como o Filho Eterno de Deus igual ao Pai.

É importante procurarmos encontrar pontos onde os textos coincidem, pois é na coincidência dos texto que podemos encontrar, ainda que indirectamente o pensamento e a ideia que Jesus tinha da sua pessoa e missão.

Os evangelhos coincidem no ponto de que Jesus veio da parte do Pai para anunciar o evangelho:

“Vamos para as aldeias vinhas, pois também tenho de pregar ali o evangelho” (Mc 1, 38).

O perdão do pecado é outro aspecto em que os quatro evangelhos coincidem:

“Ao ver a fé deles, Jesus disse: “Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2, 5).

E um pouco mais á frente:

“Que é mais fácil dizer: “Os teus pecados estão perdoados” ou dizer: “Levanta-te, toma a tua enxerga e vai. Para que saibais que o Filho do homem tem na Terra poder para perdoar os pecados, levanta-te e vai” disse Jesus ao paralítico” (Mc 2, 9-10).

Outro aspecto em que os evangelhos coincidem é o conflito entre Jesus e os fariseus, os doutores da Lei e os sacerdotes por causa da liberdade de Jesus face à Lei dita de Moisés:

“O Filho do Homem é Senhor até do Sábado” (Mc 2, 28).

Os quatro evangelhos não só proclamam a ressurreição de Jesus como afirmam que Jesus teve consciência de que ia morrer violentamente, bem como a certeza de que Deus o ia ressuscitar:

“Então Jesus começou a dizer-lhes que o Filho do Homem tem de sofrer muitas coisas e ser rejeitado pelos anciãos e pelos doutores da Lei. Deve ser morto e, ao terceiro dia, ressuscitará” (Mc 8, 31).

Depois acrescenta:

“Se alguém se envergonhar de mim ou das minhas palavras no meio desta geração adúltera e pecadora também dele o Filho do Homem se envergonhará quando vier na glória do seu Pai juntamente com os seus anjos” (Mc 8, 38).

Os homens verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do Céu com grande poder e glória. Então enviará os anjos à sua frente para juntar todos os homens de um extremo ao outro da terra (Mc 13, 26-27; cf. Dan 7, 13).

Mc 13, 32: O Pai é maior que o Filho: Quanto àquela hora nem os anjos, nem o Filho a conhecem, mas apenas o Pai.

Jesus declara ao Sumo-sacerdote que é o Messias, o filho do Homem que se sentará à direita do Deus Altíssimo (Mc 14, 62; cf. Dan 7, 13).

Mc 15, 2: Jesus declara a Pilatos que é o rei dos judeus.

No evangelho de João, Jesus diz que o seu reino não é deste mundo (Jo, 18, 36).

A razão desta diferença está no facto de que Marcos acredita numa segunda vinda de Jesus para edificar o reino messiânico sobre a Terra e João não.

No evangelho de Marcos, Jesus é entendido como o Messias, o Servo de Yahvé.

Ele é aquele que vai regressar com o poder e a glória de Deus para julgar o mundo.

É o filho de Deus, o Senhor do Sábado, aquele que perdoa os pecados.

É o Filho do Homem porque, ao ressuscitar, foi entronizado no Céu, sentando-se à Direita de Deus.

Agora aguarda o momento oportuno para vir de novo como rei sentado sobre o seu trono.

Nesse dia realizará o julgamento universal, pois é o filho do Homem investido de poder e majestade messiânica.

 

 

 

b) Jesus no Evangelho de Mateus

Além dos aspectos comuns com Marcos, Mateus acrescenta ainda outros:

Mateus escreve o seu evangelho a pensar nos judeus. Por isso tenta suavizar as tensões de Jesus com os fariseus e os doutores da Lei, por causa de não ser subserviente face à letra da lei.

Jesus não veio abolir mas cumprir plenamente a Lei de Moisés (Mt 5, 17).

Para entrar no Céu não basta invocar Jesus como Senhor, isto é, Messias entronizado e participante da glória do Pai (Mt 7, 21-23).

No dia do juízo muitos dirão a Jesus que, em seu nome, profetizaram, fizeram milagres e expulsaram demónios. Mas Jesus lhes responderá: “Não vos conheço”.

Jesus veio revelar aos homens o rosto e o plano salvador do pai:

Ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o filho o quiser revelar (Mt 11,27)

O filho tem a missão de revelar o Pai aos homens.

Jesus é o medianeiro da salvação e da comunhão com Deus. Os ritos e as ideias religiosas dos judeus não são qualquer garantia de salvação:

“Eu vos digo que aqui está quem é maior que o Templo” (Mt 12, 6). Jesus é maior que Salomão (Mt 12, 42).

“Foi-me dada toda a autoridade no Céu e na Terra” (Mt 28, 6).

No evangelho de Mateus Jesus declara ter poder para corrigir e alterar as normas, os preceitos e as leis do Antigo Testamento.

Procedendo deste modo Jesus cumpre fielmente a Lei e os Profetas.

 

c) Jesus no Evangelho de Lucas

Além dos aspectos comuns a Marcos e Mateus, Lucas apresenta também alguns matizes novos sobre Jesus.

Isto significa que Lucas também tem uma maneira própria de ver a pessoa e a missão de Jesus de Nazaré.

Jesus, no evangelho de Lucas, aparece como o pregador e o executor da misericórdia de Deus:

O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido (Lc 19, 10).

Jesus de Lucas é o portador do Espírito Santo, o qual preenche o coração das pessoas e comunica-lhes a alegria:

Jesus vai para o Pai, a fim de enviar o Espírito Santo (Lc 24, 49).

Mesmo após a ressurreição, Jesus continua sempre a interagir com os discípulos através do Espírito Santo.

 

d) Jesus no Evangelho de João

O evangelho de João não ignora que Jesus é também um homem em tudo igual a nós menos no pecado.

Mas Jesus Cristo, no evangelho de João, aparece sobretudo como o Filho Eterno do Pai e que é Deus igual a Deus Pai.

Ninguém foi ao Céu, excepto aquele que veio do Céu (Jo 3, 13).

O Filho de Deus Pai veio ao mundo para trazer a vida eterna aos homens (Jo 7, 37-39).

O Filho do Homem comunica a Vida aos que acreditam:

Todo o que acredita no Filho do Homem tem a Vida Eterna (Jo 3, 15).

Jesus declara-se o profeta anunciado (Jo 4, 26).

Ele é o coração e a plenitude das Escrituras: “

“Investigais diligentemente as escrituras pensando que, por elas, encontrais a vida eterna. E eis que as Escrituras testemunham de mim” (Jo 5, 39).

Os judeus tentaram apedrejar Jesus, pois estava-se a fazer igual a Deus. Mas Jesus diz que apenas que o Filho faz apenas o que vê fazer ao Pai (Jo 5, 18-19).

Jo 5, 21: Assim como o Pai ressuscita os mortos, o Filho também dá a vida àqueles que ele entende (Jo 5, 21).

Os chefes dos judeus não obtêm a vida porque se recusam aceitar Jesus:

“Vós recusais-vos a vir a mim, a fim de obterdes a Vida Eterna (Jo 5, 40).

Jesus não dá a vida como quem realiza um acto mágico. Ele é vida, comunicando a sua própria força vital.

É fazendo um todo orgânico connosco que Jesus dá a vida:

“O Pão de Deus é o que desceu do Céu e dá a vida ao mundo” (Jo 6,33).

Também o Filho recebe a vida do Pai porque faz uma união orgânica dom Ele:

“Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 57).

O Filho não iniciou a sua relação com o Pai ao nascer no tempo. Ele é o Filho que vive do Pai e com o pai deste toda a eternidade:

“Ninguém jamais viu o Pai excepto aquele que veio de Deus. Só este viu o pai” (Jo 6, 46).

Por isso, mediante a ressurreição, o filho vai para onde estava antes:

“E se virdes o filho do Homem subir para onde estava antes?” (Jo 6, 62).

E ainda:

“Vós sois cá de baixo. Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, mas eu não sou deste mundo” (Jo 8, 23).

Jesus Cristo, no evangelho de João, não nega a sua condição de homem. Mas sublinha constantemente a sua realidade divina e preexistente:

“Eu disse-vos o que vi junto do Pai” (Jo 8, 38)

A unidade de Cristo com o Pai é de tipo orgânico.

Neste tipo de união a vida circula:

Eu e o Pai somos um. De novo os judeus pegaram em pedras para o matarem (Jo 10, 30-31).

Só no evangelho de João os discípulos reconhecem a divindade de Jesus Cristo. Tomé, depois de ver o Senhor ressuscitado exclama:

“Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28).

Jesus respondeu-lhes: “Antes de Abraão ter nascido EU SOU” (Jo 8, 58).

Neste texto, João afirma a divindade de Cristo com os mesmos termos com que Yahvé afirmou a sua divindade face a Moisés (cf. Ex 3, 14).

Não estranha que, face a uma afirmação destas, os judeus pegassem em pedras para o matarem à pedrada.

Com efeito, o Livro do Levítico mandava apedrejar os blasfemos (Lev 24, 16).

O Filho vive a vida do Pai porque está em total comunhão com ele:

“Aquele que me enviou está comigo, pois ele não me deixou só porque eu faço sempre o que lhe agrada” (Jo 8, 29.

O Jesus do quarto evangelho ressuscita pelo seu próprio poder. Entrega livremente a sua vida e de novo a retoma, mas agora na condição de vida ressuscitada (Jo 10, 17-18).

João tinha consciência plena de estar a afirmar a divindade de Cristo. Esta é, segundo o quarto evangelho, a principal razão pela qual os judeus tentam matar Jesus:

“Não te apedrejamos pelos milagres, mas porque sendo tu um homem te fazes Deus (Jo 10, 33).

Na perspectiva de João, Jesus é a expressão humana do jeito de ser e amar do Pai.

Por outras palavras, em Jesus de Nazaré, Deus exprime-se em grandeza humana:

“Quem me vê, vê o Pai, como podeis ainda dizer: “Mostra-nos o Pai” (Jo 14, 9-10).

E ainda:

“Vim do Pai para o mundo e agora deixo o mundo e volto para o Pai” (Jo 16, 28).

Na oração que Jesus fez após a Última Ceia, Jesus diz:

“E agora, Pai, glorifica-me na tua presença com a glória que tive contigo antes do mundo existir” (Jo 17, 5).

E acrescenta:

“Pai, Tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu” (Jo 17, 10).

Apesar de proclamar de modo tão claro e solene a divindade de Cristo, João não ignora que Jesus de Nazaré é um homem em tudo igual a nós excepto no pecado.

A humanidade de Jesus não é anulada apesar de estar organicamente unida ao Filho Eterno de Deus.

Se o Filho eterno é igual ao Pai, Jesus de Nazaré, homem como nós, é menor que o Pai:

“Se me amásseis haverieis de vos alegrar, pois eu vou para o Pai e o Pai é maior do que eu” (Jo 14, 28).

Pelo facto de Jesus ser homem como nós, a Humanidade está salva.

Com efeito, é por ele que somos divinizados em virtude de formarmos uma união orgânica com ele.

É pelo facto de estarmos organicamente unidos ao homem Jesus que Deus Pai seu Pai e nosso Deus:

“Ide ter com os meus irmãos e dizei-lhes que vou para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus” (Jo 20, 17).

A nossa vida é fecunda precisamente porque estamos unidos a Cristo. Ele é a videira e nós os ramos.:

Sem Jesus nada podemos fazer. Ele é a cepa da videira a partir da qual brota a seiva que vivifica os ramos que somos nós (Jo 15, 1-8).

No nosso íntimo, o Espírito Santo é uma água viva que sacia a nossa sede profunda de amar e comungar em plenitude (Jo 4, 14).

O princípio animador da união de Jesus connosco é o mesmo que anima a união de Jesus com o Pai, isto é, o Espírito Santo:

“No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem venha a mim. Quem crê em mim que sacie a sua sede!

Como diz a Escritura, hão-de brotar do seu coração rios de água viva”.

Jesus disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que acreditassem nele.

Com efeito, o Espírito ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-79).

O Espírito Santo é a carne e o sangue, isto é, o princípio vital de Cristo ressuscitado.

É com este princípio vital que Cristo nos alimenta e nos conduz à plenitude da ressurreição:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia.

Com efeito, a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira bebida.

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.

Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também aquele que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57).

Estamos perante a afirmação mais clara do que é a comunhão orgânica de Cristo com o Pai e de nós com Cristo.

É também uma maneira muito bonita de João dizer que o Espírito Santo é o princípio animador desta comunhão:

“Isto escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes?

O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63).

Jo 1, 12-14: O Espírito é o poder que nos é dado, a fim de nos tornarmos filhos de Deus.

Este poder não provém da carne, nem do sangue, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. Foi-nos dado mediante a Encarnação.

Além de alimentar a nossa união com Cristo e, através dele, com a Santíssima Trindade, o Espírito Santo vem ainda conduzir-nos à plenitude da Verdade:

“Quando vier o Consolador que eu enviarei de junto do Pai, o Espírito da Verdade que procede do Pai ele dará testemunho de mim” (Jo 15, 26).

O Espírito conduz-nos à plenitude da Verdade, isto é, à plena posse da revelação:

“Pai, a tua Palavra é a Verdade” (Jo 17, 17).

O Espírito Santo é o grande dom que nos vem de Cristo ressuscitado:

“Digo-vos a verdade: é de vossa conveniência que eu vá. Se eu não for, o Consolador não virá” (Jo 16, 7).