HORIZONTES BÍBLICOS DA ORAÇÃO
CRISTÃ
CALMEIRO MATIAS

a)
Oração Cristã e Bíblia
b)
Jesus, Modelo de Oração
c)
Orar no Espírito Santo
a) Oração Cristã e
Bíblia
A oração não faz
mudar Deus de opinião, mas transforma o coração da pessoa humana, capacitando-a
para sintonizar com Deus e receber os seus dons.
Na verdade, a
oração cristã não é uma forma mágica de manipular Deus.
Enquanto oramos,
estamos a abrir o coração à Palavra de Deus e à acção restauradora e
santificadora do Espírito Santo.
Quando abrimos o
coração à dinâmica do Espírito Santo, este vai-nos configurando interiormente
com Cristo ressuscitado.
A oração é uma
maneira privilegiada de o crente entrar na intimidade da Santíssima Trindade
pela mediação de Cristo ressuscitado que nos confere o dom da interacção
intrínseca com o Espírito Santo.
É este o modo de o
Espírito Santo actuar em Cristo, pondo em interacção directa a interioridade
espiritual do Homem Jesus com a interioridade espiritual do Filho eterno de
Deus.
Ao predispor o
nosso coração a acolher os dons de Deus, a oração dinamiza as nossas forças
espirituais capacitando-nos para acolher dons fundamentais para a felicidade
humana, tais como libertação interior, paz, alegria.
Além disso pode
operar em nós uma optimização física ou psíquica, a qual pode resultar em curas
tanto de nível somático como psíquico.
A oração também
nos capacita para sermos capazes de integrar e desdramatizar problemas e
dificuldades que não tenhamos conseguido resolver.
Ao estimular a
confiança em Deus, a oração liberta-nos do medo, como diz o salmo vinte e sete:
“O Senhor é a
minha luz e a minha salvação, que hei-de eu temer?
O Senhor
protege-me dos perigos, por que razão hei-de tremer?”
(Sal 27,1).
Mediante a oração,
a pessoa reforça a certeza de que Deus é fiel e verdadeiro e que jamais nos
abandona.
Por isso podemos
fortalecer a certeza de que nada nos pode separar de Deus, como diz São Paulo:
“Se Deus está por
nós, quem poderá estar contra nós? Se Deus não poupou o seu próprio Filho, mas
o entregou por nós, como não nos dará todos os bens juntamente com ele?” (Rm 8,
31-32).
Quando somos
vítimas da injustiça, da mentira ou da deslealdade, a raiva e a ira
invadem-nos.
Mas estas reacções
são forjadoras de perturbações emocionais, e por esta razão não são a melhor
forma de solucionarmos os nossos problemas.
A oração dá-nos a
sabedoria e a força necessária para agirmos à maneira de Cristo, fazendo o que
diz a Carta aos Efésios:
“ Nos momentos de
ira não pequeis. Não deixeis que o sol se ponha sobre essa ira e não deis ao
mal uma base para vos dominar” (Ef 2, 4).
O salmo quatro vai
nesta mesma linha, quando afirma:
“Não pequeis,
deixando que a ira vos domine. Permanecei em silêncio e deixai que a noite seja
o vosso conselheiro” (Sal 4, 4).
É fundamental que
a oração cristã esteja alicerçada na Fé e tenha os horizontes da Palavra de
Deus.
Se os horizontes
da nossa oração forem os da Palavra de Deus, o nosso diálogo com Deus não
ficará enredado nas coisas deste mundo, mas irá adquirindo o sabor da vida
eterna:
“Digo-vos em
verdade que todo aquele que ouve a minha Palavra e acredita naquele que me
enviou tem a vida eterna. Na verdade, passou da morte para a vida” (Jo 5, 24).
A oração é a fonte
da fortaleza, pois põe-nos em sintonia com a força do Espírito Santo que nos
habita, optimizando deste modo as nossas forças espirituais e, deste modo,
capacitando-nos para vencermos a fragilidade humana.
É neste sentido
que Cristo nos ensinou no Pai-Nosso a pedirmos a Deus que não nos deixe cair na
tentação.
A tentação é uma
sugestão subtil que tenta fazer-nos crer que é mentira o que é verdade e que é
verdade o que é mentira.
A oração é um
espaço privilegiado para o Espírito Santo nos dar a lucidez e a clareza capazes
de desmascarar os embustes da tentação.
Na oração
aprendemos a compreender que não podemos sentir-nos seguros e infalíveis apenas
com os nossos raciocínios. Precisamos da luz da Palavra de Deus e da força do
Espírito Santo.
Por outras
palavras, para vencer as mentiras insinuadas pela tentação precisamos de ser
optimizados com os critérios da Palavra de Deus e pela força do Espírito Santo:
“Permanecei
atentos e orai, a fim de não cairdes em tentação.
Na verdade o
espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26, 41).
São Paulo
assegura-nos de que a fidelidade de Deus não permitirá que sejamos destruídos
pela tentação.
Se estivermos
unidos ao Senhor, ele é fiel, de modo que nenhum mal nos poderá vencer:
“Não vos
surpreendeu qualquer tentação que tenha ultrapassado a medida humana.
Deus é fiel e não
permitirá que sejais tentados acima das vossas forças.
Com a tentação
Deus vos dará os meios de sairdes dela e a força para a suportar” (1 Cor 10,
13-14).
O evangelho de
Mateus utiliza uma imagem muito bonita para nos dizer que Jesus não nos
sobrecarrega com fardos que não possamos levar:
“Jesus disse:
“Vinde a mim todos vós que andais sobrecarregados e eu vos aliviarei.
Tomai o meu jugo
sobre vós e aprendei de mim, pois eu sou manso e humilde de coração. Deste modo
encontrareis paz e serenidade de espírito” (Mt 11, 28-29).
Ao comunicar-nos o
dom do Espírito Santo, Jesus capacita-nos para realizar sem grandes sofrimentos
coisas que antes eram impossíveis.
Jesus declara que
este seu cuidado connosco corresponde exactamente ao jeito de Deus Pai nos
amar:
“Eu não procuro a
minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).
Ou ainda:
“O meu alimento é
fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4,34).
O jeito de actuar
de Jesus correspondia totalmente à vontade do Pai.
Segundo o
evangelho de João, quando Filipe pede a Jesus para lhe mostrar o Pai, o Senhor
respondeu-lhe:
“Há tanto tempo
que estou convosco, e ainda não me conheceis, Filipe? Quem me vê, vê o Pai!”
(Jo 14, 9).
O profeta Isaías
já tinha anunciado a ternura paternal de Deus afirmando:
“Eu sou o Senhor,
vosso Deus, que vos pega pela mão e vos diz:
“Não tenhais medo
porque eu estou convosco” (Is 41. 13).
E acrescenta:
“Não temais. Eu
estou convosco. Não desfaleçais, pois eu sou o vosso Deus. Eu vou
fortalecer-vos e ajudar-vos.
Vou segurar-vos
com a minha mão direita” (Is 41, 10).
É fundamental que,
na oração, adoptemos uma atitude de plena confiança em Deus. Devemos tomar Deus
a sério, tendo a certeza de que ele não nos defrauda.
A Palavra de Deus
não é uma ideologia para nos distrair da vida e das dificuldades.
O Espírito Santo
não é uma auto-sugestão para termos a sensação de que somos fortes.
Deus é fiel e
verdadeiro. Felizes dos que aprendem a confiar em Deus como um filho confia num
pai ou um amigo confia num amigo fiel e verdadeiro.
O Salmo 46 começa
com um apelo à confiança, convidando os crentes a tomar Deus a sério, pois o
nosso Deus realiza sempre o que promete:
“O Senhor Deus é o
nosso refúgio e a nossa fortaleza. Está sempre presente nos nossos momentos de
dificuldade.
Eis a razão pela
qual não temos medo, embora a terra vacile e as montanhas tombem para o mar”
(Sal 46, 1-2).
E o salmo quarenta
e dois começa testemunhando como uma pessoa que sofre
pode despertar sentimentos de confiança na oração.
Esta atitude é
fundamental, pois no fundo estamos a deixar que o Espírito Santo realize
maravilhas em nós e através de nós.
“Por que razão
hei-de desfalecer e perder a coragem? Por que motivo hei-de estar triste?
Eis que ponho a
minha confiança em Deus! Vou louvar o meu Senhor de novo, o meu salvador e meu
Deus.
Neste momento
estou desencorajado, mas vou recordar-me da sua bondade e das maravilhas que
fez em nosso favor” (Sal 42, 5-6).
A Carta aos
Filipenses é um grito de vitória fabuloso. Se aceitarmos fazer caminhada com
Deus nada será impossível para nós, pois temos connosco a força de Deus:
“Tudo posso com a
ajuda de Cristo, o qual me concede todas as forças de que eu possa necessitar”
(Flp 4, 13).
Cristo ressuscitado,
diz a Carta ta aos Hebreus, é o nosso Sumo-sacerdote, o medianeiro que nos
obtém de Deus todos os dons de que temos necessidade.
O grande dom que
ele nos obtém é, naturalmente o Espírito Santo que faz maravilhas em nós e
através de nós para os outros.
A nós basta-nos
acolher o grande dom que nos vem de Deus através do nosso Sumo-sacerdote,
acolhendo o Espírito que ele nos dá e deixando que ele realize maravilhas em
nós e através de nós:
“O nosso
Sumo-Sacerdote compreende as nossas fraquezas, pois foi sujeito às mesmas
tentações que nós, apesar de não ter pecado.
Aproximemo-nos,
portanto, do trono da graça de Deus. Aí encontraremos misericórdia e a graça
que nos ajudará sempre que nós o precisemos” (Heb 4, 15-16).
A nossa confiança
em Deus apoia-se nos horizontes da nossa Fé.
O evangelho de São
Mateus diz que a Fé participa da omnipotência divina, pois põe-nos em sintonia
com Deus. Jesus disse aos discípulos:
“Em verdade vos
digo: “Se tiverdes Fé, mesmo que esta seja pequena como um grão de mostarda,
podeis dizer a esta montanha: “Afasta-te daqui” a montanha mover-se-à. Nada é
impossível a quem tem fé” (Mt 17, 20).
Na medida em que a
nossa oração seja feita segundo o Espírito Santo, o nosso coração vai-se
transformando e tornando-se cada vez mais parecido com o coração de Jesus
Cristo.
Todos sabemos como
a questão do perdão é difícil para nós. No entanto é uma questão central no
Evangelho.
Esta atitude só se
tornará fácil se for o Espírito Santo a capacitar o nosso coração para o
perdão.
Por outras palavras,
a capacidade de perdoar sempre é o resultado da transformação que o Espírito
Santo opera em nós de modo particular nos momentos das celebrações da Fé, da
meditação da Palavra de Deus e da oração.
Ao terminar a
oração do Pai-Nosso, o evangelho de Mateus acrescente:
“Se perdoardes aos
homens as suas ofensas também o vosso Pai do Céu vos perdoará as suas.
Mas se não
perdoardes aos homens também o vosso Pai do Céu vos não perdoará” (Mt 6,
14-15).
Como vimos,
durante a oração, o crente abre o coração à acção do Espírito Santo, criando
condições para acontecer a graça de Deus.
A graça é a
dinâmica da vida de Deus a circular em nós. É a seiva que vem da Videira que é
Cristo, vivificando e tornando fecundos os ramos que somos nós:
“Permanecei em mim
que eu permaneço em vós.
Tal como o ramo
não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também
acontecerá convosco se não permanecerdes em mim.
Eu sou a videira e
vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim
nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).
É esta a dinâmica
da graça a modelar o nosso coração de acordo com o coração de Cristo.
A Carta aos
Efésios proclama a gratuidade do amor salvador de Deus de modo muito bonito,
dizendo que a salvação não se compra pelos méritos de qualquer moralismo
farisaico e estéril:
“Foi pela graça
que fostes salvos, mediante a Fé.
Isto não se deve
aos vossos méritos, pois trata-se de um dom gratuito de Deus.
Não é fruto das
obras, a fim de que ninguém se possa gabar ou envaidecer” (Ef 2, 8-9).
O Espírito Santo é
o grande guia para a vivência do amor.
Como sabemos, Deus
é amor (1 Jo 4, 16). E o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos
corações (Rm 5,5).
A oração é um
espaço privilegiado para compreendermos as propostas do amor.
O pecado
sistemático é o caminho da perdição, pois implica a rejeição do amor salvador
de Deus e a recusa a amar e comungar com os irmãos.
Como sabemos,
ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado.
O amor dos outros
capacita-nos para amar. Recusar a amar segundo as possibilidades que o amor dos
outros inscreveu em nós é rejeitar o amor de Deus e o amor daqueles que nos
amaram.
Esta recusa de
amor implica a impossibilidade de a pessoa se realizar mediante o amor a Deus e
aos irmãos.
São Paulo, na
Carta aos Romanos, diz que o salário do pecado é a morte. Ao mesmo tempo
recorda-nos que a salvação é um dom totalmente gratuito:
“Com efeito, o
salário do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna em Cristo” (Rm
6, 5).
É devido ao facto
de formarmos um todo orgânico com Cristo que estamos salvos.
Estamos salvos
porque somos ramos unidos à cepa da qual recebemos a seiva da vida eterna (Jo
8, 4).
Cristo e a
Humanidade formam um só corpo. Ele é a cabeça e nós somos os membros deste
corpo (1 Cor 10, 17; 12, 27).
Nos momentos de
oração, nós predispomo-nos a deixar que o Espírito Santo nos trabalhe
interiormente e nos configure com Cristo ressuscitado.
Os membros do
corpo de Cristo são alimentados pela carne e o sangue de Cristo, o alimento que
leva a Vida Eterna a todos os membros.
Este sangue
portador da Vida é o Espírito Santo. Ele é, como diz o evangelho de São João, a
carne e o sangue de Cristo ressuscitado (Jo 6, 62-63).
São Paulo diz que
todos os que são movidos pelo Espírito Santo são filhos e herdeiros de Deus Pai
e irmãos e co-herdeiros com Deus Filho (Rm 8,14-16).
A Primeira Carta
aos Tessalonicenses convida-nos a alegrar-nos e a orar incessantemente, pois é
esta a vontade de Deus a nosso respeito (1 Tes 5, 16).
Deus deu-nos o
máximo que nos podia dar, isto é, o seu próprio Filho, a fim de que fossemos
membros da Família de Deus:
“Deus amou de tal
modo o mundo que lhe deu o seu único Filho, a fim de que todos os que acreditam
nele não pereçam mas tenham a vida eterna” (Jo 3, 16).
Graças à estrutura
orgânica da Encanação, o Filho de Deus exprimiu-se em grandeza humana na
história, a fim de nós sermos constituídos filhos de Deus, como diz o evangelho
de São João:
“Mas a quantos o
receberam,
Aos que crêem
nele,
Deu-lhes o poder
de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram
dos laços do sangue,
Nem de um impulso
da carne,
Nem da vontade de
um homem,
Mas sim de Deus.
E o Verbo encarnou
e veio habitar connosco.
Nós contemplámos a
sua glória,
Glória que ele
possui como
Filho unigénito do
Pai,
Cheio de graça e
de verdade” (Jo 1, 12-14).
Mediante o
mistério da Encarnação, Deus mostrou-nos o seu amor incondicional.
A Salvação é obra
de amor e mediante o amor que Deus acolhe o dom da salvação de Deus.
A Primeira Carta
de São João exprime de maneira muito bonita esta reciprocidade humano-divina da
salvação mediante o amor:
“Caríssimos,
amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus, e todo aquele que ama nasceu
de Deus e chega ao conhecimento de Deus.
Aquele que não ama
não chegou a conhecer a Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8).
O amor de Deus é a
dinâmica da nossa salvação. Por isso São Paulo diz que o Espírito Santo é o
amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Do mesmo modo, o
nosso amor é a lente certa para podermos compreender a Deus. Quem não ama não
pode conhecer a Deus, pois Deus é amor.
O profeta Isaías
diz que Deus deseja ardentemente ser generoso para connosco, dando-nos as suas
graças.
O Senhor surge, a
fim de mostrar compaixão para connosco, mostrando deste modo a sua justiça.
Felizes dos que
confiam e esperam pelo Senhor” (Is 30, onito18).
O salmo vinte e
três proclama de modo muito bonito a generosidade de
Deus ao conceder-nos os dons de que temos necessidade:
“O Senhor é meu
Pastor, nada me pode faltar” (Sal 23, 1).
O Evangelho de São
Mateus diz que nada faltará àqueles que vivem para Deus e põe o seu Reino em
primeiro lugar (Mt 6, 33).
A Carta aos
Hebreus acentua que as promessas de Deus são para nós.
Basta que perseveremos,
fazendo a vontade de Deus” (Heb 10, 36).
A Carta aos
Filipenses aconselha aos crentes uma total confiança na presença de Deus na
nossa vida.
É verdade que Deus
não nos substitui, mas se lhe permitirmos agir em nós e connosco, a nossa vida
é optimizada com uma nova dinâmica:
“Não vivais
dominados por preocupações. Pelo contrário, orai sem cessar.
Falai a Deus das
vossas necessidades e dificuldades e agradecei-lhe as coisas boas que ele vos
concede.
Se procederdes
assim experimentareis a maravilhosa paz de Deus, a qual é muito mais
maravilhosa do que nós podemos entender.
Esta paz de Deus
guardará os vossos corações e as vossas mentes, a fim de viverdes em Cristo
Jesus” (Flp 4, 6-7).
A oração é
fundamental na vida do cristão. Não para mudar o querer de Deus a nossa
respeito, mas para permitirmos a Deus agir em nós de acordo com o que é melhor
para nós.
Além disso, a
oração capacita-nos para integrar na nossa história acontecimentos ou
experiências dolorosas cuja alteração se revela impossível.
É neste sentido
que a oração, tal como dizem os evangelhos, é sempre eficaz.
É neste sentido
que devemos entender textos que, para afirmar que a oração é sempre eficaz,
parece estarem a proclamar a oração como uma prática mágica:
“Pedi e ser-vos-à
dado. Procurai e encontrareis. Batei e abrir-se-vos-à.
De facto, todo o
que pede recebe, Todo o que procura encontra. E àquele que bater
abrir-se-lhe-à” (Mt 7, 7-8).
Não esqueçamos que
a única mediação indispensável para chegarmos ao encontro, ao diálogo e à
comunhão com Deus é Jesus Cristo.
O Senhor
ressuscitado dá-nos a possibilidade de interagirmos de modo intrínseco com o
Espírito Santo e, deste modo, sermos introduzidos na comunhão da Santíssima
Trindade.
De facto, o
Espírito Santo é o princípio animador de relações humano-divinas. É a ternura
maternal de Deus difundida nos nossos corações.
O evangelho de
João afirma esta verdade dizendo que Cristo é a mediação indispensável para a
nossa comunhão com o Pai:
“Jesus respondeu:
“eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim”
(Jo 14, 6).
Amimados com a
força do Espírito Santo, e inseridos na comunhão com a Santíssima Trindade,
podemos dizer com toda a verdade que tudo podemos graças à presença de Deus em
nós, como diz São Paulo:
“De tudo sou capaz
naquele que me dá força” (Flp 4,13).
A confiança em
Deus conduz-nos pouco a pouco para uma certeza fundamental: nada nos pode
acontecer que nós, em união com o Espírito Santo, não possamos resolver da
melhor maneira.
É isto que a
primeira Carta de Pedro nos quer dizer quando afirma:
“Colocai as vossas
preocupações e cuidados em Deus, pois ele cuida de vós e está atento a tudo o
que vos acontece” (1 Pd 5, 7).
Sem água a vida
das plantas e dos animais definha e morre.
De modo semelhante,
sem uma oração animada pela presença do Espírito Santo e sem a luz da Palavra
de Deus a vida teologal de Fé, Esperança e Caridade definha e morre no coração
do cristão.
b) Jesus Modelo de
Oração
Nos momentos mais
significativos da sua vida, Jesus orava. São Lucas diz que, após o seu
baptismo, entrou em oração. Como resposta à sua oração, os Céus abriram-se e o
Espírito Santo desceu sobre Ele em forma de pomba. No mesmo instante ouviu-se a
voz de Deus Pai vinda do Céu dizendo: “Tu és o meu Filho muito amado no qual
ponho o meu enlevo” (Lc 3, 21-22).
No momento de
escolher os doze Apóstolos, Jesus retirou-se para uma montanha e passou a noite
em oração (Lc 6, 12-13).
Lucas diz que
Jesus, antes de fazer a pergunta aos discípulos sobre o significado da sua
pessoa para eles, esteve em oração (Lc9, 18). No evangelho de Lucas, Jesus é
sobretudo o grande mestre de oração e da exultação no Espírito Santo.
No momento da sua
transfiguração, Jesus estava em oração, diz Lucas (Lc 9, 28-29). No Jardim das
Oliveiras, passou o tempo em oração e pediu aos discípulos para orarem, a fim
de não entrarem em tentação (cf. Lc 22, 39-42). Na cruz, orou pelos seus
inimigos (Lc 23, 34).
Jesus é-nos
apresentado pelos evangelhos, especialmente por Lucas, como um homem que orava nos
momentos críticos. Lucas pretendia dizer-nos o que devemos fazer nos momentos
difíceis.
Como vimos, a
oração não é uma maneira mágica de modificar Deus. Pelo contrário, quem se
modifica na oração é o homem.
Mediante a oração
a pessoa vai ouvindo os apelos do Espírito Santo que nos convida a agir de
acordo com a vontade de Deus, a qual é muito melhor para nós do que a nossa
própria vontade.
De facto, Deus
ama-nos incondicionalmente. Sabe muito melhor o que é bom para nós do que nós
mesmos. Por esta razão a vontade de Deus coincide com a nossa: querer o melhor
para nós.
De facto temos
razões para confiar plenamente em Deus:
Por um lado, Deus
conhece perfeitamente o que é melhor para nós.
Por outro lado, o seu conhecimento do melhor
para nós e a sua vontade de no-lo conceder coincidem. Jesus orava por si e
orava igualmente pelos discípulos e pela humanidade: “ Eu rezei por ti, Pedro,
a fim de que a tua fé não vacile (Lc 22, 32).
No Evangelho de
João aparece uma oração de Jesus em favor dos discípulos. Nesta oração
vislumbra-se claramente a Igreja já implantada. João queria significar a oração
de Jesus não apenas pelos Apóstolos, mas também por todos os que viriam a
formar o Novo Povo de Deus (cf. Jo 17, 9-16).
Noutra passagem, a
oração de Jesus pela totalidade dos cristãos, aparece de modo muito mais
explícito: “Não peço apenas por eles (os discípulos), mas também por todos
aqueles que irão acreditar em mi pela sua mensagem” (Jo 17, 20).
Jesus orou pelos
seus inimigos, mesmo por aqueles que o estavam cravando na cruz: “Pai,
perdoa-lhes, pois eles não sabem o que estão fazendo” (Lc 23, 34).
Uma vez sentado à
direita do Pai, diz a Carta aos Hebreus, Jesus continua a interceder por nós
(Heb 7, 25). É nesta intercessão de Jesus junto do Pai que assenta a eficácia
total da oração feita em Jesus.
Estamos
organicamente unidos a Cristo Ressuscitado pelo vínculo do Espírito Santo. Orar
no Espírito, portanto, é orar em união com Jesus Cristo. Deste modo
participamos da plenitude da eficácia da oração de Cristo.
Nos momentos de
grande importância para a sua missão messiânica, Jesus orava sempre. Orou antes
de ensinar as multidões (Mc 1, 35).
Certo dia em que
Jesus estava orando, os discípulos aproximaram-se e pediram-lhe para que os
ensinasse a orar ao seu jeito. Nesse momento, Jesus ensinou-lhes o “Pai-nosso”,
não como uma fórmula para ser simplesmente repetida, mas como critério para o
que deve ser a oração como diálogo com Deus sobre o que mais interessa ao Homem
e a Deus.
A prova de que os
apóstolos não entenderam o ensinamento do “Pai-nosso” como comunicação de uma
fórmula a repetir literalmente, está no facto de o “Pai-nosso” de Lucas não
coincidir com o de Mateus (cf. Lc11, 1; Mt 6, 9-13).
Certo dia em que a
Palavra de Jesus foi muito bem aceite pelos ouvintes, o Senhor exultou de
alegria no Espírito Santo e louvou a Deus Pai por esse facto (Mt 11, 25-26).
Outro dia em que
estava impondo as mãos sobre a cabeça das crianças, Jesus orou por elas (Mt 19,
13).
Muitas vezes,
depois de despedir as multidões, Jesus retirava-se para um lugar isolado e,
sozinho, falava com o Pai (Mt 14, 23).
O procedimento de
Jesus contrasta com o de tantos pregadores que pretendem pôr a eficácia da sua
pregação na erudição ou na simpatia.
Segundo o Novo
Testamento, a eficácia da Palavra é obra do Espírito Santo.
Por outro lado,
Palavra realiza as maravilhas do Espírito Santo no coração daqueles que acolhem
(Act 10, 44-46).
c) Orar No
Espírito Santo
Do ponto de vista
da espiritualidade cristã, orar é encontrar-se com Deus por meio do Espírito
Santo. Este encontro dá-se na interioridade espiritual da pessoa. Deus nunca
vem de fora, pois é a interioridade máxima de toda a realidade.
A oração cristã
acontece no Espírito Santo. Por isso não se confunde com as rezas dos pagãos
(Mt 6, 7-8). O Espírito Santo conhece o mistério de Deus, pois é o centro
orgânico deste mistério. Por isso só Ele nos pode conduzir de modo adequado e
perfeito ao diálogo e comunhão com Deus.
O Espírito Santo
fazia exultar Jesus de contentamento e punha-o em diálogo e comunhão com o Pai
(Lc 10, 21). São Paulo faz uma associação muito bonita, para nos dizer que o
Espírito Santo é o único guia seguro para fazermos a caminhada para a comunhão
com Deus.
Eis o raciocínio
do Apóstolo: Só o Espírito humano sabe o que vai no interior de uma pessoa. Do
mesmo modo ninguém sabe o que se passa no interior de Deus a não ser o Espírito
Santo.
Ora nós não fomos
ungidos com o espírito do mundo. Pelo contrário, recebemos o Espírito Santo, a fim
de conhecermos o projecto salvador de Deus (1 Cor 2, 10-12).
O Espírito Santo,
no nosso íntimo, faz-nos sintonizar com Deus saboreando a Sua Palavra, a fim de
compreendermos as maravilhas do seu plano em favor dos homens. Por isso sabemos
que todos os homens têm acesso a Deus Pai no Espírito Santo, sejam judeus ou
pagãos (Ef 2, 18).
Os cristãos
prestam culto a Deus pelo Espírito de Deus (Flp 3, 3). É este o culto em
Espírito e verdade que agrada a Deus (Jo 4, 21-23).
Quando entramos em
oração, o Espírito Santo vem em ajuda da nossa fraqueza. Como nem sabemos o que
pedir a Deus, o Espírito Santo vem em nossa ajuda, intercedendo por nós com
gemidos indescritíveis (Rm 8, 26-27).
Os cristãos devem
armar-se da espada do Espírito Santo que é a Palavra de Deus e orar apenas em
conformidade com o Espírito Santo (Ef 6, 17.18).
O nosso diálogo
com o Pai e o Filho só pode ser adequado se acontecer no Espírito Santo. O
jeito de ser do Espírito Santo é ser pessoa para os outros. Constantemente
tenta pôr-nos em comunhão com os outros. Nunca nos retém para si.
Ao dar-nos o
Espírito Santo, Cristo deu-nos a possibilidade de dialogarmos de modo correcto
e adequado a Deus. Só Deus pode falar correctamente a Deus.
Orar no Espírito
Santo é entrar no próprio diálogo do Pai com o Filho, o qual acontece no
Espírito Santo. O Espírito Santo faz que a nossa oração seja verdadeiramente um
diálogo humano-divino e não apenas um conjunto de rezas com pretensão de
efeitos mágicos.
A vida de oração,
para crescer de modo equilibrado, deve caminhar sobre duas pernas: oração
comunitária e oração pessoal. Na medida em que seja oração no Espírito Santo, a
oração comunitária é um espaço privilegiado para o crescimento na fé, esperança
e caridade.
A Palavra de Deus
é um ingrediente fundamental para acontecer oração. A palavra humana,
partilhada pelos membros da comunidade é uma mediação da Palavra de Deus.
A oração
comunitária não é um conjunto de rezas gregárias. Pelo contrário, pressupõe a
participação pessoal dos membros da comunidade. Neste contexto de partilha, a
intervenção de cada pessoa é mediação de encontro com Deus para as outras.
A oração no
Espírito é sempre eficaz. Não no sentido de modificar Deus, mas no sentido de
nos introduzir numa comunhão mais profunda com Deus e nos capacitar para
integrarmos na nossa história os acontecimentos que não podemos modificar.