FUNDAMENTO E CONTEÚDOS DA FÉ CRISTÃ

                                       CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

a)Aspectos Básicos da Fé

b)A Fé é o fundamento da Esperança e da Caridade

 

a) Aspectos Básicos da Fé

A Fé Cristã tem como fundamento os dados da Palavra de Deus.

Podemos dizer que os horizontes da Fé cristã são os mesmos da Palavra de Deus.

Por isso dizemos que a Fé é um dom de Deus e não resultado de uma simples reflexão ou sistematização humana.

A Fé, a Esperança e a caridade, isto é, o amor ao jeito de Cristo, são designadas como virtudes teologais precisamente por terem como fundamento a revelação de Deus.

Também se diz que são virtudes infusas, isto é, infundidas por Deus e não adquiridas.

Esta designação distingue as virtudes teologais das virtudes morais que são resultado do treino e do esforço humano.

Eis algumas das componentes fundamentais que constituem o edifício da nossa Fé:

* Em primeiro lugar, nós, cristãos, acreditamos em um só Deus.

* Acreditamos que Deus é uma comunhão familiar de três pessoas.

*Acreditamos que Deus é o Criador de todo o Universo.

*Acreditamos que, pelo mistério da Encarnação, o divino se enxertou no humano, a fim deste ser divinizado.

*Acreditamos que em Jesus de Nazaré se exprimiu em grandeza humana o Filho Eterno de Deus.

*Acreditamos que, em Cristo, o humano e o divino fazem uma união orgânica e dinâmica.

*Acreditamos que, nesta união humano-divina, o Filho Eterno de Deus e Jesus de Nazaré, o filho de Maria, fazem um, mas sem se confundirem nem fundirem.

*Acreditamos que a pessoa divina do Espírito Santo é o princípio animador da comunhão orgânica constituída pelas pessoas do Pai e do Filho.

*Acreditamos igualmente que a pessoa do Espírito Santo é o princípio animador da comunhão orgânica constituída pelo Filho Eterno de Deus e Jesus de Nazaré.

*Acreditamos no papel central do Espírito Santo no acontecimento de Cristo. Explicitamos esta verdade quando afirmamos que o Filho de Deus encarnou pelo Espírito Santo.

*Acreditamos que Deus decidiu revelar-se, escolhendo, para isso, um povo para ser o medianeiro da revelação para toda a Humanidade.

*Acreditamos que até Jesus Cristo, o medianeiro da Revelação foi o Israel Bíblico e que, após o acontecimento de Cristo, o povo de Deus são as Igrejas cristãs.

*Acreditamos que o Novo Povo de Deus, ao contrário do Antigo, não é constituído por uma raça, uma língua, uma nação ou uma nacionalidade.

*Acreditamos que, para poder anunciar a Palavra de Deus de modo pleno, o Novo Povo de Deus edifica-se no interior de todas as raças, línguas, povos e nações da Terra.

*Acreditamos que, deste modo, o Novo Povo de Deus é sacramento da Universalidade do Plano Salvador de Deus

*Acreditamos que Deus é Amor omnipotente, mas que apenas pode o que apenas pode o amor.

*Acreditamos que, por ser amor, Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria decisão.

*Acreditamos que, ao criar o Homem, Deus interveio de modo especial através da comunicação do hálito da vida, como dizem as Escrituras (Gn 2, 7).

*Acreditamos que o Homem é um ser em construção, tanto no seu aspecto físico, como psíquico, social e espiritual.

*Acreditamos que a pessoa humana não se esgota na dimensão biológica e que, portanto, ao morrer a nossa interioridade pessoal-espiritual é assumida e incorporada na Família de Deus.

*Acreditamos que o coração da Boa Nova não é a imortalidade, conceito que os pagãos já possuíam ainda antes de Jesus Cristo.

*Acreditamos que a humanização do Homem é uma tarefa ética que, em síntese, implica dizer sim aos apelos do amor e dizer não ao que se opõe ao amor.

*Acreditamos que o anúncio do Evangelho é um serviço fundamental para o bem da Humanidade.

*Acreditamos que a disposição de viver e agir como discípulo de Jesus Cristo é a melhor opção para o cristão se realizar e ser feliz.

Não são muitas as pessoas que fazem de Deus uma questão primeira.

As catequeses antigas levavam as pessoas a pensar Deus como um ser que apenas nos exige práticas religiosas bem fundamentadas em cultos com ritos bem executados.

Por isso as pessoas limitavam a sua relação com Deus ao mínimo exigido.

Depois de terem feito o que estava mandado, sentiam que Deus, agora, já não tinha nada que reivindicar.

Estas pessoas nunca chegavam a viver uma relação séria e profunda com Deus. Por isso a sua fé fica uma simples fé religiosa e não uma fé teologal.

È um dom muito especial e sinal de maturidade cristã entender que o Espírito Santo, que é a ternura maternal de Deus, habita no coração da pessoa humana.

Na medida em que tomemos consciência desta verdade podemos fazer maravilhas, desde que acolhamos essa presença divina e nos disponhamos a colaborar com o seu dinamismo recriador que nos conduz por caminhos de plenitude.

 

 

 

b) A Fé é o Fundamento da Esperança e da Caridade

A esperança é uma dimensão fundamental dos seres humanos em construção na história.

Pela esperança a pessoa antecipa um resultado positivo ou uma expectativa que se apresenta como promissora de um futuro bom.

É pela porta da esperança que a pessoa entra positivamente na dimensão do futuro.

A esperança teologal não é mais que a esperança humana optimizada pela Palavra de Deus,

A qual lhe confere os horizontes da revelação de Deus.

O crente que se alimenta das Escrituras começa pouco a pouco a olhar os acontecimentos à luz do plano amoroso de Deus para todos os homens.

A esperança cristã não é um desejo vago e informe do coração humano.

Pelo contrário, deriva da Fé teologal.

Isto significa que a Esperança cristã assenta no conhecimento do Deus que se revela nas Escrituras, e na certeza de que ele é um Deus fiel que realiza sempre o que promete.

Por outras palavras, o conteúdo da esperança surge para os crentes como algo de que eles têm a certeza de que vai acontecer, pois Deus é fiel e verdadeiro.

A esperança teologal ultrapassa os muros estreitos da vida terrena abrindo-nos o horizonte da participação na Família de Deus como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus Filho.

O suporte da esperança cristã, como vimos, é a Fé teologal. Esta confere-nos luz para compreendermos o plano de Deus.

A Esperança dá-nos a segurança de que se vai realizar o horizonte vislumbrado pela fé.

Existe ainda a caridade, ou seja, o amor ao jeito de Deus.

Falando da vida teologal, São Paulo diz que, no tempo presente, Existem a Fé, a Esperança e a Caridade.

Mas a maior, acrescenta o Apóstolo, é a caridade, pois é a única que permanece eternamente.

A nossa identidade definitiva coincide com o nosso jeito de amar e comungar com os outros.

A Esperança, a Fé e a caridade, no tempo presente, caminham juntas.

A Esperança cristã confere aos seres humanos uma coragem e alegria renovadas.

Confere uma maior facilidade no sentido de encontrar soluções para os problemas.

Isto deve-se ao facto de o crente olhar os acontecimentos à luz do projecto salvador de Deus.

Graças à Esperança cristã,

Os sofrimentos e a própria morte são vistos dentro de uma perspectiva com sentido.

Tenho a certeza, diz São Paulo, de que os sofrimentos do tempo presente nada são em comparação com a alegria e felicidade que o futuro nos aguarda em Deus (Rm 8, 18).

Movidos pela Esperança,

Os cristãos conseguem viver muito mais em união com a vontade de Deus,

A grande fonte de paz e bem-estar.

A Carta aos Efésios diz que os cristãos de Éfeso, 

Antes de se terem convertido ao Evangelho de Cristo,

Viviam sem esperança e sem Deus no mundo (Ef 2,12).

O Apóstolo queria dizer que os que não têm esperança não saboreiam os acontecimentos e a vida como fazendo parte de um projecto de amor e salvação.

Pela fé,

Os cristãos sabem que o Espírito Santo está no seu íntimo e podem contar com esta presença que facilita de modo admirável a solução dos problemas da vida.

No nosso íntimo,

O Espírito dá-nos a sabedoria e a luz para encontrarmos as respostas certas para as dificuldades do dia a dia.

Esta certeza alimenta a esperança do cristão,

Pois esta sabe ter no sem íntimo a garantia do sucesso.

A certeza de que Deus está interessado e empenhado com as nossas coisas,

Capacita o crente para sentir-se seguro e capaz de enfrentar com serenidade as tarefas e dificuldades da vida.

O Espírito Santo,

Diz São Paulo,

É o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Os que se deixam mover pelo Espírito de Deus,

Acrescenta o Apóstolo,

São membros da Família de Deus,

Filhos e herdeiros em relação a Deus Pai e irmãos e co-herdeiros em relação a Deus Filho (Rm 8, 14-17).

A Fé ajuda-nos a ver a presença amorosa de Deus na nossa vida,

Alimentado e dando conteúdo à nossa esperança.

A esperança garante-nos que o amor salvador de Deus nos está a conduzir para uma meta sem condicionamentos:

“Foi assim que Deus nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo,

 A fim de sermos santos e irrepreensíveis no amor,

Caminhando na sua presença.

Predestinou-nos para sermos adoptados como seus filhos,

Por meio de Jesus Cristo,

De acordo com o beneplácito da sua vontade” (Ef 1, 4-5).

A Esperança é um estímulo privilegiado para o crente crescer na vida cristã.

A Carta aos Romanos aconselha os crentes a viverem alegres na Esperança,

Pacientes nos sofrimentos e fiéis na oração (Rm 12, 12).

Como vimos,

O alimento da Esperança Cristã é a Palavra de Deus.

Por isso São Paulo,

Referindo-se às Escrituras,

Disse: “Tudo o que foi escrito no passado,

Foi escrito para alimentar a nossa esperança” (Rm 15, 4).

O cristão é uma pessoa que tem um jeito teologal de viver.

É isto que o distingue dos outros seres humanos.

A vida cristã tem densidade teologal,

Isto é,

Orienta-se pelo sentido da Palavra e com a força do Espírito Santo.

Esta vida teologal exprime-se através das virtudes teologais de Fé, Esperança e Caridade.

Quanto mais o cristão cresce na vida teologal, mais Cristo se torna o centro da sua vida.

São Paulo diz que,

Para o cristão adulto na fé,

Tudo começa a estar em referência a Cristo,

Tanto tratando-se de viver como de morrer: “Para mim, viver é Cristo e morrer é um lucro” (Flp 1, 21).

A Esperança dá-nos a certeza de que não estamos abandonados por Deus.

Eis o que o Senhor diz através do profeta Jeremias:

“Conheço muito bem os planos que fiz para vós,

Diz o Senhor.

Fiz planos para prosperardes e não para serdes aniquilados;

Planos para terdes esperança num futuro bom.

Então chamareis por mim,

Far-me-eis a vossa oração e eu escutar-vos-ei” (Jer 29, 11-12).

A esperança cristã é certeza, pois assenta na Palavra de Deus e na sua fidelidade inabalável.

Esta certeza,

No entanto,

Apoia-se na Fé,

Não na evidência.

Mesmo nos momentos das dificuldades,

A esperança dá-nos a certeza de que não estamos sós,

Pois Deus é fiel.

Podemos viver seguros,

Conscientes de que Deus não nos abandona:

“Basta-te a minha graça,

Pois o meu poder libertador é perfeito quando se trata de ajudar a fraqueza” (2 Cor 12, 9).

Segundo o Evangelho de São João,

Jesus,

Na última Ceia,

Robustece a esperança dos Apóstolos,

A fim destes poderem suportar a dura prova da perda de Jesus:

“Agora estais abatidos, mas ver-vos-ei de novo e haveis de vos alegrar e já ninguém poderá tirar-vos a vossa alegria” (Jo 16, 22).

A Carta aos Colossenses indica uma norma sábia para o amadurecimento da Esperança:

“Colocai a vossa mente nas coisas do alto e não nas terrenas” (Col 3, 2).

Quanto mais a nossa mente e o nosso coração se deixam possuir pela Palavra de Deus,

Mais o Espírito Santo nos transforma e configura com Jesus Cristo.

Ele é a Cabeça da Humanidade restaurada e reconciliada com Deus (2 Cor 5, 17-18).

O Salmo 126 exprime de modo muito bonito a força da Esperança na vida dos crentes,

Quando diz:

“Os que semeiam com lágrimas vão ceifar com cânticos de alegria.

Os que saem chorando,

Ao levar a semente para a sementeira,

Voltarão com canções de alegria trazendo molhos de espigas consigo” (Sal 126, 5-6).

A Esperança deve ser cultivada e alimentada com a oração e a meditação da Palavra de Deus.

Quando os cristãos procedem assim,

Tornam-se arautos de Esperança,

Anunciando uma esperança libertadora,

Como diz a primeira carta de Pedro:

“Acolhei Cristo nos vossos corações,

A fim de estardes preparados para responder aos que vos procuram sobre as razões da vossa Esperança” (1 Ped 3, 15).

Os horizontes da nossa Esperança são os da Fé,

Não os da evidência.

A Esperança assegura-nos de que havemos de nos encontrar face a face com o nosso Deus.

Nessa altura conhecê-lo-emos directamente, tal como somos conhecidos por ele.

É este o argumento com que a primeira Carta de São João tenta robustecer a esperança dos cristãos do seu tempo (1 Jo 3, 2).

A esperança dá-nos a garantia de que,

Apesar dos sofrimentos e dificuldades da vida presente,

Deus tem para nós uma plenitude onde a nossa alegria não terá limites nem condicionamentos.

O único limite será a nossa capacidade de saborear essa alegria e felicidade:

“Bem aventurados os que agora choram, pois haveis de rir” (Lc 6, 21).

Fomos criados para a felicidade.

Esta,

No entanto,

Só pode acontecer em contexto de comunhão amorosa e ausência de constrangimentos físicos ou psíquicos.

A Esperança capacita-nos para sintonizarmos com o Espírito Santo que habita em nós capacitando-nos,

Deste modo,

Para realizações que de outro modo eram impossíveis:

Tudo é possível aos que estão em comunhão com Deus (Flp 4, 13).

A Palavra e o Espírito Santo actuam em perfeita harmonia no nosso coração.

A Palavra para nos revelar o significado do plano de Deus.

O Espírito Santo para realizar o que a Palavra significa e explicita.

São estes os dois princípios que alimentam e fortalecem a nossa vida teologal,

Fazendo de nós uma força transformadora no mundo.

A Carta aos Hebreus diz que Abraão é um modelo de Esperança.

Apesar de a evidência sugerir o contrário,

Abraão confiou em Deus abrindo o seu coração à esperança.

Como resultado, obteve aquilo que esperava.

“E assim, depois de ter esperado com paciência, Abraão recebeu o conteúdo da promessa” (Heb 6, 15).

A Esperança cristã, tal como a Fé, é cristocêntrica.

O conteúdo da promessa que nos foi feita é participar com Cristo Ressuscitado na festa da família de Deus.

Nessa festa dançaremos o ritmo do amor com o jeito com que tivermos treinado agora no processo da nossa realização histórica.

A Esperança cristã, portanto, fornece-nos umas lentes que nos ajudam a ver o futuro com os olhos do próprio Deus.

Como vemos, a Fé e a Esperança cristãs potenciam enormemente os horizontes da inteligência humana.

São um dom do Espírito Santo que iluminam e fazem nascer em nós o sentido e, por vezes até o desejo da a plenitude que Deus nos está prometida.

A Esperança cristã ultrapassa os muros apertados e estreitos da vida que morre.

A Fé optimiza os olhos do coração, capacitando-nos para vermos, não os bens da terra, como também os do Céu.

Mas isto não significa que a Fé e a Esperança nos distraiam dos compromissos históricos.

Pelo contrário, comprometem-nos e enviam-nos para o mundo com critérios diferentes dos do mundo.

Por isso, como diz o evangelho de São Mateus, os cristãos são sal, luz e fermento no meio do mundo (cf. Mt 5, 13-16).

Graças à Fé e à Esperança, os sofrimentos e a própria morte não são vistos como tragédias sem sentido (Rm 8, 18).

É normal que a Esperança, num cristão jovem, surja como interpelação a construir um projecto de vida onde o amor e a solidariedade apareçam como valores fundamentais.

À medida em que a vida se vai gastando comprometida com este sentido, começa a abrir-se um horizonte muito mais vasto e que tem mais ou menos este sentido: “Mas o melhor ainda está para vir!”.

Que segurança e que felicidade este novo horizonte confere aos cristãos idosos!

Depois de uma vida que se deu, amadurecidos e exteriormente gastos pelos anos, estes cristãos, alimentados por uma esperança robusta, compreendem de modo muito claro a passagem da segunda Carta aos Coríntios que diz:

“Por isso não desfalecemos.

E mesmo se em nós o homem exterior vai caminhando para a ruína,

O homem interior renova-se todos os dias.

Com efeito, a nossa momentânea e leve tribulação proporciona-nos um peso eterno de glória além de toda e qualquer medida.

Não olhamos para as coisas visíveis,

Pois estas são passageiras.

Pelo contrário,

Olhamos para as realidades invisíveis que são as eternas” (2 Cor 4, 16-18).

Fundada na Palavra de Deus,

A esperança dá-nos a certeza de que não estamos a caminhar para o fracasso ou para o vazio do nada.