ESPÍRITO SANTO E VIDA ETERNA
CALMEIRO MATIAS
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A Boa Nova do Evangelho é
a Salvação de Deus realizada em Cristo.
Jesus disse à Samaritana
que o dom da Salvação acontece no interior da pessoa, graças à força da Água
Viva que ele nos proporciona.
Eis as palavras de Jesus
segundo o evangelho de São João:
“Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e
quem é aquele que te está a pedir água, tu é que lhe pedirias e ele dar-te-ia
uma Água Viva” (Jo 4, 10).
Por detrás desta imagem da
Água Viva está um texto do profeta Jeremias, o qual acusa o povo judeu de ser
infiel, pois voltou as costas a Deus que é a fonte da Água Viva.
A Água viva é o Espírito
Santo, acrescenta o evangelho de São João (Jo 7, 39).
A Carta aos Romanos diz
que todos os que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos e herdeiros
de Deus:
“Todos os que se deixam guiar
pelo Espírito Santo são filhos de Deus.
Vós não recebestes um
espírito de escravidão para andardes com medo, mas sim um Espírito de adopção
graças ao qual clamamos “Abba”, papá.
É o próprio Espírito que
dá testemunho no nosso íntimo de que somos filhos de Deus.
Se somos filhos, somos
igualmente herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8,
14-17).
Fazendo uma associação com
a água do baptismo, São Paulo também compara o Espírito Santo com a Água Viva
que alimenta a nossa união orgânica com Cristo:
“Todos nós fomos
baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, tanto judeus como
gregos, escravos ou livres.
Todos bebemos de um mesmo
Espírito” (1 Cor 12, 13).
Pelo baptismo, os crentes
são incorporados de modo pleno na comunidade e passam a formar uma união
sacramental com Cristo, tornando-se membros do seu Corpo.
O corpo é mediação de
encontro. Somos Corpo de Cristo ressuscitado porque formamos uma comunidade
assente na fraternidade.
Como membros do Corpo de
Cristo, os crentes tornam-se mediação de encontro de Cristo com o mundo.
Por outras palavras, o
mundo não tem outro modo de se encontrar de modo explícito com Cristo a não ser
pela mediação da Igreja.
Referindo-se à Eucaristia,
o evangelho de São João diz que a carne e o sangue de Jesus ressuscitado é, no
nosso íntimo, o alimento da vida eterna.
Depois explicita melhor
esta verdade afirmando que a carne e o sangue de Cristo que alimenta a Vida
Nova dos crentes é o Espírito Santo que nos é dado pela ressurreição de Jesus
Cristo (Jo 6, 62-63).
A propósito da Água Viva,
Jesus diz à Samaritana que a Água Viva não é como a água do poço de Jacob,
símbolo da Antiga Aliança.
A Água do poço precisa de
um balde (a multiplicidade de normas associadas à circuncisão).
Além disso, não mata a
sede de modo definitivo, acrescenta Jesus, isto é, não é alimento da Vida
Eterna:
“Todo aquele que bebe
desta água voltará a ter sede. Mas aquele que beber da Água que eu lhe der,
nunca mais terá sede, pois esta Água converter-se-á no seu íntimo, numa fonte
de Vida Eterna” (Jo 4, 13-14).
O tema da Água Viva é
repetido por São João no capítulo sétimo onde afirma:
“No último dia, o mais solene da festa, Jesus,
de pé, bradou:
“Se alguém tem sede venha
a mim. Quem crê em mim que sacie a sua sede!
Como diz a Escritura,
hão-de correr do seu coração rios de Água Viva.
Jesus disse isto
referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que acreditassem nele.
Com efeito, o Espírito
ainda não tinha vindo, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7,
37-39).
No relato das Bodas de
Caná, a água dos ritos da Antiga Aliança é transformada por Jesus em vinho de
qualidade superior (Jo 2, 6-10).
O vinho de qualidade
superior significa a Nova Aliança, a qual assenta no Espírito Santo.
Neste texto, o Espírito
Santo é associado ao vinho bom, fazendo uma associação clara com a Eucaristia.
O vinho da Eucaristia,
juntamente com o pão forma o sinal sacramental do Espírito Santo, o Sangue da
Nova e Eterna Aliança.
O Espírito é que dá vida,
a carne não presta para nada (Jo 6, 62-63).
São Paulo diz que os
evangelizadores são ministros da Nova Aliança, a qual está assente no Espírito
Santo que é o alimento e a força da Vida Nova:
“Cristo é quem nos capacita para sermos
ministros de uma Nova Aliança, não da letra, mas do Espírito.
Com efeito, a letra mata,
mas o Espírito dá vida” (2 Cor 3, 6).
Os que bebem a Água Viva
tornam-se templos do Espírito Santo, a fonte geradora de vida eterna no nosso
coração:
“Não sabeis que sois
templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Cor 2, 16).
Esta Nova Aliança assente
no Espírito Santo e não na letra da Lei foi profetizada como significando a
plenitude dos tempos:
“Dias virão em que
firmarei uma Nova Aliança com a casa de Israel e a casa de Judá (…).
Esta será a Aliança que
estabelecerei depois destes dias com a casa de Israel, oráculo do Senhor:
Imprimirei a minha lei no
seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração.
Eu serei o seu Deus e eles
serão o meu povo (…).
Perdoarei a todos as suas
faltas e não mais me lembrarei dos seus pecados” (Jer 31, 31-34).
A Nova aliança tem como
sede o coração humano que, para a Bíblia, significa o centro mais nobre da
interioridade espiritual humana.
O coração é o núcleo a
partir do qual emergem as decisões na linha do amor e da comunhão.
É no coração que acontece
a Salvação da Nova Aliança, pois o coração é o ponto de encontro do ser humano
com Deus mediante o Espírito Santo.
Eis como o profeta
Ezequiel descreve a dinâmica da Nova Aliança no coração do Homem:
“Dar-vos-ei um coração
novo e introduzirei em vós um Espírito Novo:
Arrancarei do vosso peito
o coração de pedra e vos darei um coração de carne.
Porei o meu Espírito no
vosso íntimo, fazendo que sejais fiéis às minhas leis e preceitos” (Ez 36,
26-27).
A Carta aos Efésios faz um
apelo aos crentes, dizendo-lhe para não se embriagarem com vinho.
Em vez disso, continua a
Carta procurem encher-se, do Espírito Santo (Ef 5, 18).
Com efeito, acrescenta a
primeira Carta aos Coríntios, o Espírito Santo é a bebida da Nova Aliança (1
Cor 12,13).
Agora podemos compreender
melhor as seguintes afirmações de Jesus no evangelho de João:
“Se alguém tem sede venha
a mim e beba” (Jo 7, 37).
E ainda:
“Aquele que beber da Água
que eu lhe der nunca mais terá sede” (Jo 4, 14).
O profeta Isaías, fala do
Espírito Santo como sendo uma água que mata a sede e faz desabrochar a vida em
abundância:
“Vou derramar água sobre o
que tem sede e fazer correr rios sobre a terra árida.
Vou derramar o meu
Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes.
Estes crescerão como
plantas junto das fontes e como salgueiros junto das águas correntes” (Is 44,
3-4).
São Paulo, vendo esta
acção do Espírito a actuar diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado
nos nossos corações (Rm 5, 5).
Os Actos dos Apóstolos
vêem no acontecimento do Pentecostes o cumprimento da profecia do profeta Joel.
Face ao entusiasmo dos
apóstolos, os judeus acusam-nos dizendo que estão bêbedos.
Os Apóstolos respondem
dizendo que a sua exultação é a realização do oráculo do profeta Joel.
Eis as suas palavras:
“Não, estes homens não
estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia.
Mas tudo isto é a
realização do que disse o profeta Joel” (Act 2, 15-16).
O profeta Joel via a
chegada do Messias como a plenitude dos tempos em que o Espírito Santo seria
difundido sobre toda a Humanidade:
“Depois disto, derramarei
o meu Espírito sobre toda a Humanidade.
Os vossos filhos e as
vossas filhas profetizarão e os vossos anciãos terão visões.
Também derramarei o meu
Espírito sobre os vossos servos e servas naqueles dias” (Jl 3, 1-2).
O Novo Testamento o
Espírito Santo como o grande dom de Cristo ressuscitado.
Nós estamos organicamente
unidos a Cristo na medida em que vivemos animados pela força do Espírito Santo:
“Vós não estais sob o
domínio da carne (lei judaica), mas sob o domínio do Espírito, pressupondo que
o Espírito de Deus está em vós.
De facto, os que não
possuem o Espírito de Cristo não lhe pertencem (…).
E se o Espírito daquele
que ressuscitou Jesus de entre os mortos está em vós, ele que ressuscitou Jesus
também dará vida aos vossos corpos mortais, através do Espírito que habita em
vós” (Rm 8, 9-11).
Como Água Viva, o Espírito
Santo fecunda o nosso coração, capacitando-nos para dar frutos de vida eterna:
“Eis os frutos do Espírito
Santo: Amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade,
mansidão, auto-domínio” (Ga 5, 22-23).
São Paulo faz apelo aos
Gálatas a acolherem o Espírito Santo no seu coração e a viverem de acordo com
este princípio de vida fecunda:
“Se vivemos no Espírito,
sigamos também o Espírito” (Ga 5, 25).
A vida eterna brota da
dinâmica do Espírito Santo em nós, diz São Paulo na Carta aos Gálatas:
“Quem semear na carne, da
carne colherá a corrupção.
Mas quem semear no
Espírito do Espírito Santo colherá a vida eterna” (Ga 6, 9).
Como nascente da Água
Viva, Deus é a Fonte da Salvação.
O profeta Isaías encarou
os tempos messiânicos como a idade de oiro pois Deus é a Fonte da Água Viva:
“Este é o Deus da minha Salvação. Estou
confiante e nada temo.
Para ele a minha força e o
meu canto. Ele é a minha Salvação.
Cheios de alegria tirareis água das fontes da Salvação (Is 12, 2-3).
O Espírito Santo é o animador
desta Vida Eterna a actuar na história e a conduzir-nos para a plenitude do
Reino de Deus.