EIS COMO
CRISTO VENCEU A MORTE
CALMEIRO MATIAS

a) Cristo como Grandeza Humana e Divina
b) A Ressurreição Como Vitória Sobre a Morte
a) Cristo Como Grandeza Humana e Divina
É fundamental distinguir em Cristo o Filho Eterno de Deus, uma das três
pessoas da Santíssima Trindade e Jesus de Nazaré, homem em tudo igual a nós,
excepto no pecado.
O Filho Eterno, ou o Logos como lhe Chama São João é, desde toda a
eternidade, Deus com o Pai e o Espírito Santo. Os cristãos sabem pela revelação
que Deus é uma comunhão orgânica de três pessoas.
A Humanidade também é uma comunhão orgânica de pessoas. O Homem foi criado
à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27).
A Divindade é uma união orgânica de três pessoas. Do mesmo modo a
Humanidade é uma comunhão orgânica constituída por biliões de pessoas.
A diferença está em que as pessoas divinas emergem permanentemente como
plenitude e perfeição pessoal infinita, enquanto os seres humanos vão emergindo
gradual e progressivamente como pessoas em construção.
A Bíblia diz que o Filho de Deus, em relação à criação, é não apenas o
primeiro, mas o princípio. O primeiro podia significar apenas que não havia
nada antes dele.
Mas se dissermos que o filho de Deus é o princípio queremos dizer que tudo
começou a existir por ele (Jo 1, 1-3). Por outras palavras, o filho Eterno de
Deus é o dinamismo criador que esteve presente ao momento em que se iniciou a
génese da criação.
É importante não confundir o Filho Eterno de Deus com o Jesus de Nazaré.
Apesar de fazerem uma união orgânica, não se fundem nem confundem.
O Filho é Eterno e é Deus com o Pai e o Espírito Santo. Jesus de Nazaré é
um homem, de raça judaica e filho de Maria.
O mistério de Cristo implica o enxerto do divino no humano, bem como a
interacção directa entre a interioridade espiritual humana de Jesus e o filho
Eterno de Deus.
Por outro lado, a dinâmica da Encarnação implica a união orgânica de Jesus
na comunhão da Família Divina.
Jesus de Nazaré e o filho Eterno de Deus fazem um, não por se fundirem ou
confundirem, mas por constituírem uma união orgânica da pessoa divina do Filho
Eterno de Deus e da pessoa humana de Jesus.
Enquanto Filho Eterno de Deus, Cristo é o princípio, isto é, impulsionador
primordial da génese criadora do Universo.
Enquanto homem, Cristo faz parte da Humanidade e estamos a viver no
terceiro milénio da sua existência.
Enquanto Logos Eterno, Cristo é o Filho unigénito, isto é, o único filho
gerado por Deus.
Enquanto homem, orgânica e dinamicamente unido à segunda pessoa da
Santíssima Trindade, Jesus Cristo é o filho primogénito de muitos irmãos, como
lhe chama São Paulo (Rm 8, 29).
Cristo é o ponto de encontro da Humanidade com a Divindade. Pela parte da
Divindade dá-se o enxerto do Divino no Humano, a fim deste ser divinizado.
Pela parte da Humanidade dá-se a fidelidade incondicional de Jesus à missão
que Deus lhe confiou, ao ponto de dar a vida por esta causa.
A realidade de Cristo é profundamente dinâmica, geradora de uma interacção
permanente de tipo criador e salvador entre a Divindade e a Humanidade.
Pelo pólo Divino do Cristo somo divinizados. Pelo seu pólo Humano somos
reconciliados com Deus, pois a sua fidelidade incondicional superou a
infidelidade do pecado humano.
b) A Ressurreição Como Vitória Sobre a Morte
A Carta aos Hebreus, fazendo alusão à oração de Jesus no jardim das
Oliveiras, diz que Cristo fez orações àquele que o podia libertar da morte e
foi atendido, devido à sua piedade (Heb 5, 7).
Segundo este texto, Deus libertou Jesus da morte ressuscitando-o. Esta
libertação deve ser entendida como algo simultâneo ao próprio acto de morrer.
Por outras palavras, Jesus não esteve um só momento sob o domínio da morte.
A vitória de Cristo sobre a morte aconteceu pela acção do Espírito Santo de
modo simultâneo com o próprio suceder da morte.
A primeira Carta de Pedro diz que Jesus não podia permanecer sob o domínio
da morte, pois nele estava o Espírito Santo, a dinâmica da ressurreição. Jesus
é a própria ressurreição como diz o Evangelho de João:
“ Jesus disse a marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim,
mesmo que tenha morrido viverá” (Jo 11, 25).
Como o grupo apostólico só fez a experiência do ressuscitado ao terceiro
dia, o autor desta carta diz que Jesus nesse tempo não esteve sob o domínio da
morte.
Nesse tempo intermédio entre a ressurreição e as aparições, Jesus esteve
profundamente dinâmico, como diz a Escritura. Foi à morada dos mortos levar o
Evangelho e ressuscitar os que estavam sob o domínio da morte (1 Pd 3, 18-19).
Esta dinâmica ressuscitante é obra Espírito e acontece, graças à união
orgânica que existe entre nós e Jesus. O mistério da Eucaristia exprime de modo
admirável esta interacção ressuscitante e salvadora.
Jesus, no evangelho de João, lê esta dinâmica ressuscitante de Cristo na
Humanidade na óptima da união orgânica e vital que existe entre Cristo e Deus
Pai:
“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.
Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come
viverá por mim” (Jo 6, 56-57).
Como já dissemos, a ressurreição de Jesus foi um acontecimento progressivo
a acontecer em simultâneo com o acto de morrer. O mesmo acontece com a
Humanidade depois da ressurreição de Cristo.
À medida em que, no alto da cruz, Jesus ia morrendo, a ressurreição ia
acontecendo, pela acção recriadora e glorificante do Espírito Santo. Quando
Jesus acabou de morrer estava totalmente ressuscitado.
Enquanto a morte ia destruindo que no homem é destruído pela morte, o
Espírito Santo, com seu jeito maternal de amar, ia recriando e incorporando na
comunhão divina o que tinha densidade para ser assumido e glorificado na
Família da Santíssima Trindade.
Não existe, portanto, distância temporal entre morte e ressurreição em
Jesus Cristo. À medida em que ia morrendo, o Espírito Santo ia realizando a
vitória sobre a morte.
Por seu lado, a ressurreição de Cristo inicia a plenitude dos tempos, isto
é, a fase dos acabamentos do projecto humano.
Por outras palavras, no momento da morte e ressurreição de Cristo,
inicia-se a ressurreição da Humanidade.
Os que tinham vivido antes de Cristo entram com ele na plenitude da vida
eterna, como Jesus garantiu ao Bom Ladrão: “Em verdade te digo, hoje mesmo estarás
comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).
Mateus exprime esta mesma verdade dizendo que, no momento em que Jesus
morre, os túmulos começam a abrir-se e os justos a ressuscitar (Mt 27, 52-53).
O evangelho de São João,
referindo-se a este momento, chama-lhe a “A HORA DE JESUS” ou “AMINHA HORA”.
Esta hora, na perspectiva do quarto evangelho, é o momento da glorificação de
Jesus Cristo (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14, 2-4).
A Hora é o momento de Cristo subir para onde estava antes, referindo-se à
presença eterna do filho de Deus junto do Pai (Jo 6, 62). É o momento da
difusão do Espírito Santo (Jo 16, 7-8; 7, 37-39).
Em relação à morte cruel sofrida por Jesus, temos de dizer com toda a
clareza que, aquilo que agradou a Deus não foi essa morte bárbara e cruel, mas
a fidelidade total de Jesus que, apesar de ver que os inimigos o iam matar, não
se desdisse.
Jesus foi incondicionalmente fiel à vontade do Pai como ele mesmo declarou
muitas vezes:
“O meu alimento é realizar a vontade daquele que me enviou e realizar a sua
obra” (Jo 4, 34).
E ainda: “O mundo há-de saber que amo o pai e faço como o pai me ordenou”
(Jo 14, 31).
A vontade de Deus Pai, diz São Paulo, consiste em que todos os homens se
salvem e cheguem ao conhecimento da verdade (1 Tim 2, 4).
Jesus, no evangelho de João diz que não procurava a sua vontade, mas a
vontade daquele que o enviou (Jo 5, 30).
A partir do acontecimento da morte-ressurreição de Jesus, a dinâmica
ressuscitante do Espírito Santo está plenamente activa na génese humana.
A ressurreição implica assunção e incorporação da pessoa humana na Família
de Deus. Esta acção está em processo, graças à presença dinâmica do Espírito
Santo no coração das pessoas.
A ressurreição é algo que só acontece após a morte e ressurreição de Jesus
e pressupõe, naturalmente, o mistério da Encarnação ou seja, o enxerto do
divino no humano, a fim deste ser divinizado.
Ressuscitar é entrar na vida eterna
após o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Ressuscitamos porque temos uma dimensão espiritual. A ressurreição não
significa restauração biológica ou recuperação do que no homem é mortal.
Mas implica a recuperação da identidade histórica da pessoa na Comunhão com
as outras pessoas, humanas, divinas ou outras que possam existir.
A nossa identidade histórica é o jeito de amar que fomos adquirindo ao
longo da história mediante as nossas decisões, opções, escolhas e atitudes de
amor para com os outros.
No acto de morrer, o Espírito Santo restaura, assume e glorifica a
identidade da pessoa humana na plenitude da comunhão universal da Família de
Deus.
A salvação, portanto, é integração das pessoas na comunhão da Santíssima
Trindade. Eis o que diz São Paulo na Carta aos Gálatas: “Mas quando chegou a
plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido
sob o domínio da Lei, a fim de recebermos a adopção de filhos. E, porque sois
filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que clama
“ABBA”, Papá. Deste modo já não és escravo mas filho e, se és filho, és
herdeiro pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7).
Na carta aos Romanos, São Paulo insiste de modo ainda mais explícito que a
salvação acontece pela acção do Espírito Santo em nós: “Todos os que são
movidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8, 14).
Como dissemos acima, a divinização da humanidade só podia acontecer pelo
mistério da Encarnação, isto é, pelo enxerto do divino no Humano. Mas este
enxerto só atingiu as coordenadas da universalidade pelo acontecimento da morte
e ressurreição de Jesus Cristo.