DAR-SE É
POSSUIR-SE
Calmeiro Matias

Nascemos para amar e ser dom. Ninguém se
pode realizar sozinho. Os outros são mediações fundamentais para a nossa
estruturação pessoal.
É verdade que ninguém nos pode substituir na tarefa da nossa realização
pessoal. Só nos podemos humanizar em relações com os demais. Os outros são para
nós mediações para Deus nos colocar na existência.
As pessoas são dons de Deus umas para as outras. Mas como
Deus não manipula os seres humanos, cada pessoa é apenas dom em possibilidade.
Isto quer dizer que pode concretizar ou não essas possibilidades. Deus não se
impõe ao Homem, a fim de este poder ser livre consciente e responsável.
Deus concede-nos os seus dons sempre em forma de
possibilidades, a fim de os podermos aceitar e fazer render como diz a parábola
dos talentos (cf. Mt 25, 14-30). Deus Propõe-nos os seus dons, não no-los
impõe, aliás não seriam dons, mas imposições.
Ao criar-nos, Deus dá-nos um leque de possibilidades.
Entre estas possibilidades dá-nos uma muito especial: a possibilidade de sermos
dom para os outros. Isto significa que dar-se aos outros é um dom de Deus para
os demais, mas também um dom de Deus para nós.
Só podemos atingir a maturidade do amor dando-nos aos
outros. A possibilidade de a pessoa se dar amorosamente aos outros é um dom
fundamental para a sua felicidade e salvação.
É mediante a dinâmica do dom que a pessoa atinge a sua
plena realização e felicidade. Com efeito, a plenitude da pessoa não está em
si, mas na reciprocidade da comunhão com as outras pessoas.
A possibilidade de sermos dom para os outros vem-nos de
Deus e coincide com a possibilidade de sermos pessoas mais realizadas. Com
efeito, as possibilidades que temos de ser dom para os outros podem realizar-se
ou não.
Mas podemos perguntar-nos agora: Em que medida somos
possibilitados para ser para ser dom para os outros? Estamos no coração do
mistério da reciprocidade amorosa: Somos capacitados para ser dom para os outros,
na medida em que os outros foram dom para nós. É a lei do amor: “ Ninguém é
capaz de amar antes de ter sido amado e o mal amado ama mal, mesmo dando o
melhor de si”.
Um exemplo pode ajudar-nos a compreender melhor este
mistério do amor: uma pessoa amada em densidade cinco está capacitada para amar
em densidade cinco, como diz o evangelho de São Mateus (Mt 25, 20-21).
O ser humano faz-se bom, fazendo o bem, isto é, agindo de
acordo com as interpelações do amor, tal como surgem na nossa consciência. A voz
que nos interpela no interior da nossa consciência é o Espírito Santo.
Agir de acordo com a própria consciência é, responder sim
aos valores que os outros me transmitiram e agir de acordo com a voz de Deus
que se faz ouvir na nossa consciência.
O Espírito Santo, no nosso íntimo, é um apelo que nos
convida a ser dom para os irmãos no concreto das diversas circunstâncias. Nunca
nos pede para darmos mais do que as possibilidades que temos de ser dom.
Mas a pessoa não é apenas fidelidade. Tem também a possibilidade
de se recusar a ser dom. Com efeito, o amor não se impõe. Neste caso, o ser
humano, em vez de se realizar como pessoa e facilitar a realização dos outros,
pode tornar-se uma força negativa no tecido social humano.
Esta negação pode chegar a ser sistemática e
incondicional, até ao ponto de se estruturar em estado de inferno ou estado de
solidão total. O estado de inferno é o estado de auto enroscamento total.
Quando aceito ser dom para os outros estou a ser fiel a
Deus que me chama a fazer render os meus talentos. Além disso, estou a ser fiel
aos que me amaram e, portanto, me possibilitaram para amar. E, finalmente,
estou-me a realizar como pessoa e a possibilitar a realização dos outros.
Como vemos, o amor dos outros não nos realiza, mas dá-nos
a possibilidade de nos realizarmos tornando-nos dom para as pessoas. Quando nos
encontramos com os outros temos, em princípio, a possibilidade de ser dom. Mas
isto não é uma fatalidade, pois o outro também nos pode impedir a realização da
possibilidade de sermos dom para ele.
Não podemos ignorar a realidade do pecado, o qual actua
como um conjunto de forças e atitudes bloqueadoras do amor. Sempre que os
nossos encontros com os outros são significativos, O Espírito Santo, na nossa consciência,
interpela-nos no sentido de sermos dom na medida em que pudermos.
Eis algumas atitudes importantes para sermos dom para os
outros:
a) A amizade: A amizade acontece quando as pessoas se
encontram e decidem ser dom umas para as outras. O mesmo podemos dizer, por
exemplo, de duas pessoas que decidem fazer uma história de amor matrimonial, ou
viver a fraternidade de uma família religiosa cujos laços são os do Espírito
Santo e não os da carne.
Os amigos são dons recebidos e dons oferecidos. Quando as
pessoas aceitam ser dom umas para as outras acontece a comunhão, dinâmica que
conduz à plenitude do amor. A amizade é um dos maiores remédios para combater a
doença da solidão. O amor dos amigos faz que gostemos mais de nós.
É preciso ser humilde para merecer ter amigos. As pessoas
que pretendem ser mais que os outros ou estar acima deles nunca chegarão a ter
verdadeiros amigos.
Os verdadeiros amigos querem o melhor para os seus
amigos, por isso são capazes de os elogiar, mas também de lhes dizer verdades
que não são agradáveis, a fim de os ajudar a crescer como pessoas. No entanto,
o verdadeiro amigo aceita os amigos assim como são e procurar facilitar a
realização e felicidade dos seus amigos.
b) Atenção aos outros: Vivemos num mundo cheio de
solidão. Dar atenção a uma pessoa é como dar de comer a uma criança que não se
pode alimentar por si. De facto, a pessoa não é capaz de sair sozinha da
solidão. Os outros são uma mediação indispensável para a cura da solidão.
Dando atenção à pessoa do outro, escutando-a,
compreendendo-a, aceitando-a como é sem fazer juízos de valor, estamos a
possibilitar a libertação da sua solidão e a possibilitar a sua alegria e
felicidade.
c) Amabilidade: é uma das formas mais simpáticas de viver
o amor. Um gesto amável ou uma palavra amiga ajuda o outro a sentir-se aceite e
válido. Mostrar simpatia por uma pessoa é aumentar as suas possibilidades de
integração e realização social.
Não podemos esquecer que começamos por ser através dos
outros. A pessoa não é capaz de gostar de si, antes de alguém ter gostado dela.
Como dissemos acima, construímo-nos em relações com os outros e encontramos a
nossa plenitude pessoal na comunhão com os demais.
d) Perdão: É um dom muito importante para que possam
acontecer relações humanizantes. O perdão beneficia a pessoa perdoada, mas
sobretudo a pessoa que perdoa. Com efeito, enquanto não perdoamos ao outro este
domina-nos, pois gravita no nosso íntimo sem sermos capazes de nos libertar
dele. É no momento em que lhe perdoamos que ele deixa de ser em nós uma
presença obsessiva.
O ressentimento e o ódio são sentimentos opressores da
pessoa que os tem. Esta pessoa só se libertará através de uma atitude interior
de perdão. Neste momento sentimo-nos livres e o outro desculpabilizado.
e) Compreensão: Compreender não é tentar anular as
diferenças entre as pessoas. Não podemos esquecer que cada pessoa é única,
original e irrepetível. Compreender é procurar entender o que o outro está
tentando dizer-nos ou fazer. E, apesar de ser diferente de nós, valorizar o bem
que ele está realizando.
Já lá vai o tempo em que os cristãos diziam que o bem
feito pelos pagãos não tina méritos para o céu. Uma pessoa que age movida pelo
amor, ainda que seja pagã, está a entrar na comunhão universal do Reino de
Deus. Compreender o outro é ajudá-lo a aceitar-se tal como é, condição para
conseguir ser melhor.
f) Aceitação: Todos somos sensíveis às atitudes dos
outros para connosco. Damo-nos muito bem conta de quando os demais nos estão a
dar a mão ou nos estão a marginalizar e rejeitar.
Uma criança é capacitada para fazer melhor quando se
sente valorizada naquilo que acabou de fazer. Damo-nos muito bem conta de
quando estamos a ser acolhidos, bem recebidos ou, pelo contrário, estamos a ser
indesejados. A pessoa só se possui plenamente na reciprocidade amorosa.
Neste mundo agitado em que vivemos, há pouco lugar para a
gratuidade da aceitação, pois as pessoas andam demasiado apressadas. Por isso o
processo da humanização está a ser profundamente bloqueado.
As pessoas são dons preciosos de Deus umas para as
outras. Amar as pessoas é acolhê-las como dons de Deus e procurar ser dom para
elas. Em virtude da dignidade da pessoa humana esta só pode ser dom de Deus
feito em forma de possibilidades. Por outras palavras, apesar de termos esta possibilidade,
podemos recusar-nos a ser dom, pois o amor não se impõe. De facto, ninguém é
capaz de nos obrigar a amar.