CREIO NA SITUAÇÃO DE PURGATÓRIO
CALMEIRO MATIAS

A questão do purgatório faz parte dos conteúdos da fé cristã.
É verdade que a linguagem tradicional não serve para dizer esta verdade antropológica
aos homens de hoje.
Mas não podemos considerar esta verdade como uma questão pouco importante.
Ao reflectirmos sobre a situação de purgatório, devemos ter presente,
Em primeiro lugar,
Que não existe um purgatório,
Isto é,
Um lugar de tormentos criado por Deus,
A fim de colocar aí as pessoas e fazê-las sofrer.
Em segundo lugar,
É importante termos presente que os seres humanos que,
Mediante o acontecimento da morte,
Se libertaram das coordenadas do espaço e tempo,
Já não medem as situações em termos de temporalidade.
Por isso,
Estes seres humanos,
Não contam o tempo que lhes falta para sair da situação de purgatório.
É uma distorção pensar a situação de purgatório em termos de prisão
temporária numa cadeia.
Aí,
Sim,
Os presos contam os dias, as horas e os minutos que faltam para abandonar a
prisão.
As pessoas que estão em situação de purgatório não estão fora da Comunhão
Universal da Família de Deus.
Pelo contrário,
Já saboreiam a felicidade da festa do Reino,
Embora ainda não estejam a saboreá-la em plenitude.
Além disso desejam ardentemente encontrar-se de modo pleno a festa do Céu.
Mas não é possível devido aos ritmos negativos,
Que em consequência do seu pecado,
Ficaram a marcar de negativamente na história outras pessoas ou a bloquear
o crescimento do bem.
Os seres humanos,
Enquanto estão na História,
Medem a situação de purgatório em termos temporários,
Pois este tem a ver com a assunção,
Gradual e progressiva,
Na plenitude de comunhão universal.
Uma reflexão feita à luz da Fé cristã sobre a dimensão definitiva da Vida,
Não pode deixar de colocar a questão do purgatório,
Pois esta faz parte do património da Fé.
Sabemos que,
Pelo acontecimento da morte,
A pessoa passa da face exterior do real para a face interior,
Cujo coração é a comunhão da Santíssima Trindade.
É verdade que pelo acontecimento da morte,
A pessoa supera totalmente as condições do seu ser exterior que se situa em
coordenadas de ordem biológica e psíquica,
Rácica e cultural,
Inguística e espacio-temporal.
No entanto,
O aspecto temporário é importante para entendermos a verdade da chamada
situação de purgatório.
Seria uma distorção grave imaginar a situação de purgatório como se de um
inferno temporário se tratasse.
A situação de purgatório e o estado de inferno são realidade de natureza e
essência totalmente distintas.
A pessoa que se encontra em estado de inferno está estruturada deste modo
por opção própria.
É o resultado de uma recusa sistemática e incondicional aos apelos do amor.
A isto chama-se o pecado mortal.
O estado de purgatório,
Pelo contrário,
Tem a ver com as consequências sócio-históricas das nossas recusas
circunstanciais, não sistemáticas e incondicionais, face aos apelos do amor.
A isto chama-se pecado venial.
Para compreendermos a situação de purgatório,
É importante termos presentes os dois tipos de consequências do pecado:
Ontológicas e sócio-históricas.
As consequências ontológicas têm a ver com a emergência espiritual da
pessoa e a sua incorporação na comunhão universal.
É a questão da humanização que está em causa.
A lei da humanização acontece como emergência pessoal mediante relações de
amor e convergência para a comunhão universal.
O pecado é uma força negativa que bloqueia a dinâmica da humanização.
Além das consequências ontológicas,
Tem também consequências sócio-históricas que são os ritmos negativos que
afectam terceiros e a própria marcha da história.
O agir humano,
Se for marcado por recusas ao amor,
Bloqueia o processo do crescimento em densidade espiritual e capacidade de
interacção amorosa.
O pecado cria um “rasgão” na estrutura do ser da pessoa.
Este rasgão consiste na não identidade entre os possíveis ou talentos
recebidos e os realizados.
Como sabemos,
Uma pessoa não é igual aos possíveis ou talentos que tem,
Mas aos que realiza.
Por outras palavras, a pessoa não vale pelos talentos que tem,
Mas pelos que realiza.
Se os tem e não os realiza existe uma não identidade entre o possibilitado
e o realizado.
A isto chamaríamos as consequências ontológicas do pecado.
As consequências sócio-históricas são os bloqueios que vamos inscrevendo no
tecido social através das pessoas que marcamos com as nossas recusas de amor.
Está aqui presente a dinâmica possibilitante do amor e os ritmos negativos
ou bloqueadores das recusas de amor.
Como sabemos,
Ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado.
Por outro lado,
O mal amado ama mal,
Isto é,
Com bloqueios e perturbações.
É uma vítima das recusas de amor dos outros.
Com efeito,
O amor dos outros capacita-nos para amar.
Mas também é verdade que as suas recusas de amor bloqueiam em nós as nossas
possibilidades de amar e comungar com os outros.
Ninguém se pode realizar sozinho.
Como sabemos,
A pessoa humana só pode humaniza-se mediante relações.
Os outros podem possibilitar ou condicionar a nossa realização,
Mas não nos podem substituir,
Tal como nós podemos possibilitar ou condicionar a realização dos outros,
Mas não os podemos substituir.
É nesta interacção relacional que se estruturam as consequências
sócio-históricas do agir humano.
É a dinâmica do bem e do mal a difundir-se de uns para os outros,
No tecido social humano.
A situação de purgatório tem a ver com as consequências sócio-históricas
das recusas de amor de uma pessoa:
Enquanto existirem no tecido sócio-histórico consequências negativas do
agir de uma pessoa,
Esta não saboreia em plenitude a sua incorporação na comunhão Universal da
Família de Deus.
Mas não se deve deduzir daqui que a pessoa está fora da sala da festa.
No momento da sua morte,
O ser humano é imediatamente assumido na comunhão Universal.
Por outras palavras,
Entra na sala da festa da Vida Eterna.
Fica presente a tudo e a todos,
Mesmo aos que ainda estão na História.
Por isso saboreia a dinâmica positiva que resulta das suas opções de amor
enquanto viveu na história.
Naturalmente que isto é factor de contentamento e reforço dos elos que a
ligam à comunhão orgânica universal.
Mas também saboreia o amargo dos ritmos negativos que resultam do seu
pecado,
Isto é,
Das suas recusas de amor.
Este sabor amargo bloqueia os vínculos que a ligam à comunhão universal.
É esta precisamente a raiz da situação de purgatório:
Enquanto na história existirem ritmos negativos que são consequências
directas das recusas de amor de uma pessoa,
Esta pessoa,
Como está presente à realidade humana universal,
Não consegue saborear a felicidade da comunhão universal a cem por cento.
Por outro lado,
É evidente que a pessoa já não pode fazer nada por si.
De facto,
Já saiu da história onde estão activos estes ritmos negativos que lhe
causam o referido sabor amargo.
Isto significa que somos nós,
Os que estamos activos na história,
Que podemos fazer algo por eles.
É aqui que radica o mistério a que damos o nome de “Comunhão dos Santos”.
Esta tarefa também não está nas mãos de Deus.
Sabemos que Deus está connosco,
Mas não está em nosso lugar.
Por isso também não pode fazer mais do que,
Em nome dos que já partiram,
Convidar-nos a progredir na dinâmica do amor,
Fazendo o bem e anulando ritmos negativos no tecido sócio-histórico da
Humanidade.
Orar em comunhão com os que já partiram significa dispor-se a escutar os
apelos de Deus no sentido de fazermos o bem.
É este o modo de anular os ritmos negativos que os outros deixaram na
história devido ás suas recusas de amor.
A Tradição afirmou sempre que,
No dia em que a história humana terminar,
Termina a situação de purgatório.
Como já não há História,
Já não há ritmos negativos de tipo sócio-histórico.
Como já afirmei,
No momento da sua morte,
Os eleitos são introduzidos na sala da festa,
Isto é,
Na plenitude da comunhão universal.
O acontecimento da morte não nos separa da Humanidade,
Pois esta faz um todo orgânico,
Interactivo e dinâmico.
Com efeito,
Existe apenas uma Humanidade,
A qual é constituída tanto pelos que vivem na história,
Como pelos que já saíram dela.
Além disso,
Pela morte,
A pessoa torna-se presente a toda a realidade humana.
Interage tanto com os que estão nas coordenadas da plenitude,
Como com os que ainda estão na história.
É em relação a estes que a pessoa pode ou não sentir-se em plenitude.
Por outras palavras, enquanto na história houver bloqueios e ritmos
negativos que são consequências directas das suas recusas de amor,
A pessoa não se encontra de modo pleno na comunhão universal.
Eis a razão pela qual a situação de purgatório é temporária.
Podemos comparar o estado de purgatório a uma pessoa tímida que está numa
festa de casamento com uma grande multidão.
Esta pessoa conhece apenas a noiva da qual é amiga.
Encontra-se na sala da festa…
Ninguém a trata mal,
Mas não se sente na plenitude da reciprocidade e comunhão desta festa.
Há bloqueios de tipo relacional,
Que a impedem de se sentir plenamente integrada a saborear a festa das
núpcias.
Estes bloqueios que derivam dos ritmos negativos das nossas recusas de
amor,
Condicionam os outros,
Mesmo depois da nossa morte.
Não esqueçamos que o mal amado fica a amar ao longo da vida.
Enquanto as nossas impressões digitais negativas não se apagarem no tecido
sócio-histórico,
Não estamos saboreando de modo pleno a comunhão universal do Reino de Deus.
A situação de purgatório ilumina a verdade do projecto humano,
Ajudando-nos a compreender a profundidade e o alcance universal das nossas
opções pelo bem:
Quando amamos,
Estamos a dizer sim ao amor dos outros para connosco.
Com efeito,
Ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado.
Além disso
Estamos a humanizarmo-nos,
Isto é,
A crescer em densidade pessoal e capacidade de interacção relacional
amorosa com os outros.
Estamos a dizer sim ao Espírito Santo que,
Ainda antes de fazermos o bem,
Nos interpela,
Chama,
Convida e ilumina no íntimo do nosso coração para o fazermos.
Finalmente,
Estamos a possibilitar a plena incorporação na comunhão universal daqueles
que nos precederam na história.
Santa Teresinha dizia isto de modo muito simples mas sugestivo: uma alma
que se eleva levanta o mundo!