CONSTRUIR-SE
COMO IMAGEM DE DEUS
Calmeiro Matias

Segundo a visão bíblica, o homem é imagem de Deus enquanto ser em relações.
O Deus da Aliança é alguém que comunica e dialoga. Por isso imprimiu o jeito
das relações no homem. Como seres sexuados, as pessoas humanas estão talhadas
para as relações. A imagem de Deus, diz a Bíblia, é varão e mulher em relação
(Gn 1, 26-27).
O homem é imagem de Deus na medida em que é uma pessoa aberta ao diálogo e
à comunhão: “Quando Deus criou o ser humano, fê-lo à sua imagem e semelhança.
Criou-os homem e mulher e abençoou-os. Chamou-lhes ser humano no dia em que os
criou (Gn 5, 1-2).
Ao dizer que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, a Bíblia está a
afirmar a condição totalmente original do homem no conjunto das criaturas. A
humanidade constitui-se como pessoas em relação e, como tal, é proporcional à
própria divindade. Por outras palavras, a Divindade é pessoas e a Humanidade
também.
Podemos dizer que o ser humano é imagem de Deus por possuir uma dignidade
pessoal. A pessoa vai-se realizando como interioridade espiritual livre,
consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de reciprocidade
amorosa.
Interiormente é animado pelo Sopro Divino que o vai modelando à imagem e
semelhança de Deus. Isto não significa que o Espírito Santo nos substitui na
tarefa da nossa humanização. Significa, pelo contrário, que o ser humano não é
capaz de se humanizar sem uma intervenção especial de Deus. Esta intervenção
acontece no interior da consciência como apelo, iluminação e interpelação no
sentido de agir no concreto das circunstâncias de acordo com as exigências do
amor.
Como imagem de Deus o homem é colocado à frente da Criação. Deus dá-lhe
soberania sobre as outras criaturas. Dar nome aos animais significa que ter
soberania sobre os mesmos (cf. Gn 2, 20). O Homem está acima dos animais e
domina sobre eles (Gn 1, 26-30). De facto, o Senhor deu ao homem domínio sobre
os animais e criou-o à sua imagem (Sir 17, 2-3).
A imagem de Deus não é uma marca estática, mas uma realidade em construção.
É como pessoa que o ser humano é imagem de Deus. O Espírito Santo está com ele,
mas nunca o substitui. Interpela-o no sentido de o convidar a fazer opções que
o realizem e configurem com o próprio ser de Deus.
À medida em que se vai realizando, as impressões digitais de Deus vão-se
tornando mais explícitas: pessoa talhada para as relações e que encontra a sua
plenitude na comunhão amorosa. O ser humano deve agir de acordo com os apelos
de Deus na sua consciência. Não deve cair na arbitrariedade e no capricho sob
pena de caminhar para a morte. É este o fruto proibido do conhecimento do bem e
do mal (Gn 2, 17).
Para o Novo Testamento a questão da imagem de Deus é um
processo histórico: “E nós com o rosto descoberto, reflectimos a glória do
Senhor que nos vai transfigurando através de manifestações de glória na sua
própria imagem pelo Espírito do Senhor” (2 Cor 3, 18).
A imagem de Deus é obra do Espírito Santo. Nós somos
convidados a colaborar com o mesmo Espírito, pois ele não nos modela sem nós
termos parte nisso. A imagem de Deus acontece ao nível do homem interior que é
pessoal-espiritual. Apesar de o homem exterior ou individual envelhecer, o
interior vai-se renovando progressivamente pela acção do Espírito Santo: “Por
isso não desfalecemos. E mesmo se em nós o homem exterior vai caminhando para a
ruína, o interior renova-se dia após dia” (2 Cor 4, 16).
O homem exterior ou individual nasce da carne. O interior
tem de nascer pelo Espírito (Jo 3, 3-6). A paternidade humana e a divina não
são concorrentes, pois não se passam ao mesmo nível. A paternidade humana
passa-se ao nível bio-psíquico, cultural e genealógico. É este o nível da
carne. A paternidade divina passa-se ao nível espiritual: O que nas da carne é
carne, o que nasce do Espírito é espírito” (Jo 3, 6).
Como imagem de Deus, a pessoa humana está chamada a fazer
parte da família divina: “De facto todos os que se deixam conduzir pelo
Espírito de Deus são filhos de Deus. Não recebestes um espírito de escravidão
para cairdes no temor. Pelo contrário, recebestes um Espírito que faz de vós
filhos adoptivos. É este Espírito que vos faz clamar ‘Abba’, papá.
É este Espírito que testemunha no nosso interior que
realmente somos filhos de Deus. Ora se somos filhos somos também herdeiros:
herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14-16).
Deus criou o homem tendo como protótipo o próprio Jesus
Cristo: “Porque aqueles que de antemão Deus conheceu também os predestinou para
serem uma imagem idêntica à do seu Filho, de tal modo que ele é o primogénito
de muitos irmãos” (Rm 8, 29). Pela encarnação foi-nos dado o poder de nos
tornarmos filhos de Deus (Jo 1, 12-14).
A imagem de Deus adquire a sua perfeição não de modo
isolado, mas numa comunhão orgânica cujo coração é Jesus Cristo. Quem está em
Cristo é uma nova criação (2 Cor 5, 17). Jesus tornou-se imagem perfeita de
Deus pela sua fidelidade a Deus. Adão, criado à imagem de Deus, reivindicou ser
igual a Deus. Jesus, imagem perfeita de Deus, não reivindicou ser igual a Deus.
Pelo contrário, assumiu de modo fiel a sua condição de servo sofredor. Por isso
foi exaltado, ao contrário de Adão que foi humilhado (Flp 2, 6-1 0).
O homem interior ou espiritual é realmente o homem novo que não cessa de se
renovar constantemente à imagem do seu Criador (Col 3, 10).
Nenhum ser humano, isolado, é perfeita imagem de Deus. A
imagem de Deus é dinâmica e orgânica. Cristo é a imagem perfeita de Deus e nós
também na medida em que estamos unidos a ele. Ele é o primogénito dos mortos,
pois todos ressuscitam nele e ninguém sem ele, adquire a plenitude da vida
ressuscitada (Col 1, 18). Ele é o primogénito de muitos irmãos (Rm 8, 29).
Unidos organicamente a Cristo, nós revestimo-nos do Homem
Novo (2 Cor 3, 18). Tornamo-nos a Nova Criação (2 C0r 5, 17). Nesta união
orgânica encontramos a nossa plenitude (Col 3, 8-9).
O ser humano atinge a condição perfeita de imagem de Deus
ao ser incorporado e assumido na Família Divina como filho em relação a Deus
Pai e irmão em relação a Deus Filho. É o Espírito Santo que, com o seu jeito
maternal realiza esta incorporação do Homem na Família de Deus (Rm 8, 14-16; Ga
4, 4-7). A nossa união orgânica à Santíssima Trindade consiste em que o Pai
está no Filho e vice-versa. O Filho está em nós e nós nele. O Espírito Santo é
o vínculo orgânico desta comunhão perfeita (cf. Jo 17, 21-23).
O ser humano é imagem perfeita de Deus na medida em que é
uma pessoa comunitariamente integrada. O fundamento da dignidade humana está no
facto de ser pessoa e, portanto, imagem de Deus.
A imagem de Deus tem a ver com a realização do homem como
pessoa em comunhão. A dinâmica da humanização é o processo de edificação da imagem
de Deus. A lei da humanização é: emergência pessoal mediante relações de amor e
convergência para a Comunhão Universal.
No processo da humanização actuam o homem em relação com
os outros e o Espírito de Deus no interior da consciência na medida em que esta
se vai formando. A presença do Espírito no interior da consciência humana é a
intervenção especial de Deus na criação do homem. Esta acção do Espírito não
está condicionada aos cristãos, mas a todos os homens na medida em que são
conscientes, livres e responsáveis.