A VIDA ETERNA EMERGE NA HISTÓRIA
CALMEIRO MATIAS

Deus não é uma realidade histórica, mas faz história com
a Humanidade.
Por serem pessoas, os seres humanos têm uma dimensão espiritual
e, portanto, aberta à transcendência.
Na sua ternura infinita e difusiva, Deus quis que a
Humanidade tivesse parte, em comunhão com a Divindade, na festa da vida eterna.
O Novo Testamento usa expressões muito sugestivas para
falar desta dádiva gratuita:
“Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, a
fim de o teu Filho poder manifestar a tua glória.
Pai Santo, tu deste ao teu Filho poder sobre toda a
Humanidade, a fim de ele dar a vida eterna àqueles que lhe entregaste.
A Vida Eterna consiste em conhecer-te, Pai Santo, como
único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo a quem enviaste” (Jo 17 1-3).
Como sabemos ninguém pode conhecer Deus a não ser pelo
Espírito Santo.
Eis
a razão pela qual a vida eterna é o grande dom dos últimos tempos que Deus nos
oferece em Cristo:
“O
salário do pecado é a morte, mas a vida eterna é o dom gratuito que vem de Deus
por Cristo, Senhor nosso” (Rm 6, 23).
Na Carta a Tito São Paulo
diz que Deus o chamou a ser apóstolo para ajudar a fé dos eleitos.
Ele
é o mensageiro da Palavra, a fim de que os escolhidos por Deus cresçam no
conhecimento da Vida Eterna, a qual foi prometida desde os tempos antigos pelo
Deus verdadeiro. Eis as palavras do Apóstolo:
“Paulo,
servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, em ordem à fé dos eleitos de Deus e
ao conhecimento da verdade, que conduz ao amor.
Assim
é fortalecida a esperança na vida eterna, prometida desde os tempos antigos
pelo Deus que não mente.
Este
mistério foi manifestado no devido tempo pela pregação da qual fui incumbido
por mandato de Deus, nosso Salvador” (Tit 1, 1-3).
Mais
à frente a mesma carta acrescenta que a vida eterna é um dom totalmente
gratuito.
É
uma dádiva que Deus nos proporciona mediante a acção do Espírito Santo:
“Mas
quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para
connosco, fomos salvos.
Esta
salvação não é devida às obras de justiça que tivéssemos praticado, mas sim à
sua misericórdia.
Ele
concedeu-nos a graça de um novo nascimento e renovação mediante o Espírito
Santo, que foi difundido abundantemente sobre nós por Jesus Cristo nosso
Salvador.
Deste
modo, uma vez justificados pela sua graça, vamo-nos tornando herdeiros da vida
eterna que já vivemos na esperança” (Tit 3, 4-7).
A
vida eterna é a Festa da Família de Divina, onde o Espírito Santo, que é a
ternura maternal de Deus, age como princípio que anima as relações de comunhão
entre Deus e o Homem.
O
livro do Apocalipse descreve de um modo muito bonito esta comunhão familiar de
Deus com a Humanidade.
O
elemento que mais realçado neste relato é a plenitude da Vida Eterna graças à
presença amorosa de Deus no coração dos homens:
“Vi
então um Novo Céu e uma Nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira terra
tinham desaparecido e o mar já não existia.
E
vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já
preparada, qual noiva adornada para o seu esposo.
E
ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia:
“Esta
é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com os seres humanos e estes
serão o seu povo.
Deus
estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos olhos dos
seres humanos.
Não
haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas
passaram”.
O
que estava sentado no trono disse: “Eu renovo todas as coisas!”
E
acrescentou: “Escreve, porque estas palavras são dignas de fé, pois são
verdadeiras”.
Eu
sou o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim! Ao que tiver sede eu lhe darei a
beber gratuitamente da nascente da Água da Vida.
O
que vencer receberá estas coisas como herança. Eu serei o seu Deus e ele será o
meu filho!” (Apc 21, 1-7).
Como
podemos ver, a Vida Eterna é uma realidade relacional.
Não
é algo que alguém possa possuir de modo isolado.
Por
isso é que o Espírito Santo, princípio animador de relações e vínculo de
comunhão orgânica, é o elo da comunhão que constitui a vida eterna.
A
vida eterna emerge no coração de cada pessoa à medida em que esta se vai
realizando na vida presente.
De
facto, Deus assume e diviniza a pessoa humana na medida em que esta se
humaniza, isto é, na medida em que esta emerge como interioridade espiritual
capaz de interacção amorosa.
O
evangelho de João diz que a Encarnação é o princípio da vida eterna:
“Mas
aos que o receberam, aos que crêem nele, o Verbo deu-lhes o poder de se
tornarem filhos de Deus.
Estes
não nasceram dos laços do sangue, nem de um impulso da carne nem da vontade do
homem, mas sim de Deus.
E
o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, essa glória
que ele possui como Filho unigénito do Pai, cheio de Graça e Verdade” (Jo 1,
12-14).
A
vida eterna implica, portanto, a incorporação na Família de Deus que tem como
resultado a divinização da pessoa humana.
Por
outras palavras, a matéria-prima a ser divinizada é o resultado da humanização
de cada pessoa.
A
lei da humanização é um processo histórico que assenta sobre dois pólos: o
pessoal e o social.
A
nível pessoal a humanização acontece como emergência espiritual mediante
relações de amor.
Esta
emergência só atinge a sua plenitude, na convergência da comunhão universal do
Reino de Deus.
A
nível social a humanização acontece como realidade étnica e cultural.
Na
plenitude do Reino de Deus, esta emergência liberta-se, finalmente, das diferenças
rácicas, linguísticas, culturais e converge para a edificação da fraternidade
universal.
A
vida eterna é um dom que inclui a divinização, isto é, uma interacção familiar
das pessoas divinas com as pessoas humanas.
Mas
esta divinização acontece na medida em que a pessoa se humaniza.
Quanto
mais uma pessoa se torna livre, consciente, responsável e capaz de comunhão
amorosa, mais interage com as pessoas humanas e as divinas.
Isto
significa, portanto, que a vida eterna é algo que já está em marcha na História.
Viver a Vida Eterna, diz a Primeira Carta de
São João, é criar laços de amor com os irmãos, o único caminho para atingir a
comunhão com Deus:
“Nós
sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos. Quem não
ama permanece na morte.
Todo
o que tem ódio ao seu irmão é um homicida e vós bem sabeis que nenhum homicida
tem dentro de si a vida eterna” (1 Jo 3, 14-15).
Depois
acrescenta que a vida eterna é realmente um dom que Deus nos concede e não algo
que nós possamos ter isoladamente.
Ninguém
pode possuir a vida eterna sem o dom que nos vem de Deus através de Jesus
ressuscitado, isto é, o Espírito Santo, a Água viva que faz jorrar uma fonte de
Vida Eterna no nosso coração (Jo 4, 14; 7, 37-39).
“Deus
deu-nos a vida eterna, e esta vida está no seu Filho. Quem tem o Filho tem a
vida, quem não tem o filho não tem a vida” (1 Jo 5, 11-12).
Por
ser relacional, a vida eterna define-se pela qualidade das nossas relações de
comunhão amorosa.
Não
é uma coisa que seja dada a todos na mesma quantidade.
A
nossa plenitude no Reino depende da nossa realização na história.
No
Reino de Deus dançaremos o ritmo do amor com o jeito que tivermos treinado
agora na História.
Portanto,
a vida eterna, tal como a morte eterna, dependem das opções da pessoa em
relação ao amor.
Isto
quer dizer que a Vida Eterna, cuja plenitude acontece na Comunhão Universal da
Família de Deus, está já a emergir na História.
A
Encarnação é um acontecimento histórico. Acontece como interacção gradual e
progressiva entre a pessoa humana de Jesus de Nazaré e a pessoa divina do Filho
eterno de Deus.
Com
o seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo é o princípio animador e o
vínculo desta união orgânica humano-divina.
Por
outras palavras, graças ao acontecimento histórico de Jesus Cristo, a pessoa
vai sendo divinizada na medida em que se humaniza.
É
a isto que a espiritualidade cristã chama de graça de Deus.
Jesus
propõe-nos um jeito novo de viver, o qual nos possibilita uma interacção nova
com o Espírito Santo, condição para atingirmos o conhecimento de Deus.
Na
verdade, o conhecimento de Deus não uma aprendizagem teórica para repetir como
se de uma tabuada se tratasse.
Pelo
contrário, o conhecimento de Deus é uma experiência resultante de uma dinâmica
relacional a acontecer no nosso íntimo, como diz o evangelho de São João:
“Pai, esta é a vida eterna: que te conheçam
como único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tu enviaste” (Jo 17, 3).
Conhecer,
na Bíblia, significa interagir de modo amoroso e fecundo.
Quando
o marido conhece a sua esposa, diz a Bíblia, surge uma vida nova.
Do
mesmo modo, o conhecimento de Deus implica uma comunhão orgânica, a qual gera
uma vida nova, isto é, a Vida Eterna.
“Tudo
me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém
conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,
27).
É
neste conhecimento mútuo que o Pai se constitui na sua paternidade, gerando o
Filho através de um movimento de doação incondicional.
É
ainda neste conhecimento mútuo que o Filho assume uma atitude amorosa de tipo
filial, deixando-se ser pelo Pai que o ama e se entrega a ele de modo
incondicional.
Este
conhecimento do Pai e do Filho é animado pela pessoa do Espírito Santo, ternura
maternal de Deus e princípio animador de relações de comunhão.
É
neste mesmo Espírito Santo que nós entramos no mistério do conhecimento do Pai
e o Filho, passando a ser membros da própria Família da Santíssima Trindade.
Conhecer
Deus é, portanto, interagir de modo amoroso e fecundo com o mesmo Deus através
do Espírito Santo.
Eis
o modo bonito como o evangelho de São Lucas descreve este conhecimento do Filho
pelo impulso amoroso do Espírito Santo:
“Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de
alegria sob a acção do Espírito Santo e disse:
“Bendigo-te
ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e
aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos.
Sim,
Pai, porque foi esta a tua vontade e o teu agrado” (Lc 10, 21).
Como
vemos, o conhecimento de Deus não é uma questão teórica, mas uma experiência
relacional, como diz a Primeira Carta de São João:
“Caríssimos,
amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus.
Todo
aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.
O
que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus á amor” (1 Jo 4, 7).
O
amor é a única forma de conhecerem Deus aqueles que não tiveram acesso à
Palavra de Deus.
Por
outras palavras, os que não ouviram falar de Cristo, o conhecimento de Deus
assenta apenas no seu amor aos irmãos, pois a Deus não o podem amar uma vez que
não o viram nem receberam a Palavra:
“A
Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós
e o seu amor chega à perfeição em nós” (1 Jo 4, 12).
E
mais à frente, esta carta explica a razão deste conhecimento de Deus:
“Deus
é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16).
O
caminho para o conhecimento de Deus, portanto, não é nunca uma mera teoria.
Isto
torna-se mais claro ainda se tivermos presente que Deus, por ser Amor, se torna
presente no coração do amor humano.
Agora
podemos compreender melhor a passagem do evangelho de São João onde Jesus diz a
Tomé:
“Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém
pode ir ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6).
Depois
responde a Filipe dizendo-lhe:
“Há
tanto tempo que estou convosco e não me ficastes a conhecer, Filipe?
Quem
me vê, vê o Pai. Como é que ainda me dizes mostra-nos o pai” (Jo 14, 8-9).
Como
vemos, a verdade e o conhecimento de Deus, na Bíblia, não são uma mera teoria.
O
Espírito Santo é o guia deste conhecimento de Deus, não por nos comunicar
muitos conceitos, mas por nos conduzir para um jeito de amar semelhante ao de
Cristo:
“Fui-vos
dizendo estas coisas enquanto estava convosco.
Mas
o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos
ensinará tudo, recordando-vos tudo o que eu vos disse” (Jo 14, 25-26).
O
Espírito Santo tem a tarefa de completar a missão de Jesus, conduzindo os
discípulos para a Verdade plena, isto é, para um jeito de viver idêntico ao de
Cristo:
“Tenho
ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender por agora.
Quando
ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a verdade completa” (Jo
16, 12-13).
Não
há conhecimento de Deus que não passe pelo amor. Felizmente há muitas pessoas
que gastam a sua vida a fazer bem aos outros, apesar de não conhecerem o
mistério de Jesus Cristo.
O
evangelho de São Mateus diz que, no dia do juízo, Jesus reconhece o amor aos
irmãos como sendo amor a si mesmo:
“Então
os justos vão responder a Jesus: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te
demos de comer, ou com sede e te demos de beber?
Quando
te vimos peregrino e te recolhemos ou nu e te vestimos?
Quando
te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?
Então
o rei responder-lhes-á: “Em verdade em verdade vos digo: sempre que fizestes
isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25,
37-40).
O
pensamento bíblico desconhece um conhecimento teórico de Deus.
No
interior do amor humano acontece sempre a acção do Espírito Santo que plenifica
e assume esse amor na comunhão do amor humano-divina do Reino de Deus.
Vimos
que o alicerce da Vida Eterna é o conhecimento de Deus. Além disso, vimos que o
conhecimento é uma experiência interactiva que leva a pessoa a agir face ao
amor.
Face
a isto temos de concluir que a vida eterna é algo que já está a emergir no
nosso coração.
A
salvação, portanto, é um dom realizado em Cristo e que está a acontecer todos
os dias no nosso íntimo pela acção do Espírito Santo.