A SALVAÇÃO É A VIDA PLENA EM CRISTO

                                         CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

a) A Salvação Como Dom

b) Vários Aspectos da Salvação

1- O Homem é Salvo de quê?

2- O Homem é Salvo Para Quê?

3- De Que Modo o Homem é Salvo?

 

 

a) A Salvação Como Dom

O plano criador que Deus sonhou para o Homem incluía a sua divinização como plenitude.

A divinização acontece mediante a incorporação das pessoas humanas na comunhão familiar com as pessoas divinas.

Em virtude do pecado, o Homem entrou no caminho do malogro face a esta plenitude.

Com efeito, o pecado é a recusa do ser humano a comungar com Deus e com os outros seres humanos mediante o amor.

Após o pecado, a salvação implica também uma redenção, isto é, uma restauração do Homem.

Adão colocou a Humanidade no caminho do malogro e do fracasso.

Jesus Cristo, o Novo Adão, reconduziu a Humanidade para a possibilidade de realizar de novo o plano salvador de Deus.

Agora, a salvação implica, portanto, a reconciliação do Homem com Deus, condição essencial para acontecer a sua incorporação na Família divina:

O arrependimento e o perdão do pecado, diz o evangelho de Lucas, deve ser pregado em todo o mundo, a começar por Jerusalém (Lc 19, 10).

A salvação é a posse da Vida Eterna, a qual consiste na comunhão com Deus através de Cristo:

“Disse-lhes Jesus: “Em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue não tereis a vida em vós (…).

Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo o que me come viverá por mim” (Jo 6, 53-57).

Como vemos, a nossa incorporação na Família de Deus passa pela nossa comunhão orgânica e vital com Cristo.

Graças à fidelidade incondicional de Cristo, a Humanidade, colocada por Adão no caminho do malogro, encontra-se de novo no caminho do sucesso:

“A vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas que o ressuscite no último dia” (Jo 6, 39).

No coração amoroso de Deus cabem todos os homens. O seu plano amoroso é universal.

Mas a salvação implica fidelidade à vontade de Deus. Não porque Deus seja arbitrário em relação a nós, mas porque a vontade de Deus coincide exactamente com o que é melhor para nós:

“Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos Céus” (Mt 7, 21).

A Salvação é, portanto, a plenitude da Criação e, em princípio, destina-se a toda a Humanidade:

“Vou preparar-vos uma morada e de novo voltarei e vos levarei comigo” (Jo 14, 3).

É importante afirmar com toda a clareza que, todas as pessoas que se salvam, é em Cristo que se salvam.

Mas isto não quer dizer que a salvação seja apenas para os cristãos:

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém pode ir ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6).

Os que entram na dinâmica do amor, sejam cristãos ou não, fazem parte da videira cuja cepa é Cristo.

Quem ama está em comunhão com Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4, 16).

A maneira concreta de ser ramo da videira em comunhão com a cepa é amar. As pessoas que actuam assim têm em si o poder que as torna filhas de Deus:

Aos que receberam o Filho de Deus foi-lhes dado o poder de se tornarem filhos de Deus. Foi esta a razão pela qual o Verbo encarnou e habitou entre nós (Jo 1, 12-14).

A salvação como divinização e incorporação na Família de Deus não é uma conquista do ser humano, mas uma dádiva de Deus (Ef 2, 8).

No entanto, Deus diviniza a pessoa humana na medida em que esta se humanizou. Ora, a humanização é uma tarefa que só a própria pessoa pode realizar.

A lei da humanização é: Emergência pessoal-espiritual mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal do Reino de Deus.

A divindade é pessoas, a Humanidade também. Na medida em que a pessoa humana emerge mediante o amor, é assumida e incorporada na comunhão da Santíssima Trindade.

Mas esta incorporação é sempr4e feita através de Cristo:

“Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo o que me come viverá por mim” (Jo 6, 57).

Por outras palavras, as obras estão em função da realização pessoal-espiritual do ser humano. Esta realização confere à pessoa a capacidade de comungar com as outras pessoas humanas e as divinas.

Por outras palavras, Deus salva o Homem de graça. Nenhum ser humano tem méritos para ser divino. No entanto, o Homem oferece a Deus a matéria-prima que vai ser salva: a sua humanização.

 

 

b) Vários Aspectos da Salvação

1- O Homem é Salvo de Quê?

A salvação, como vimos, implica uma plenitude de vida que se atinge pela divinização.

Isto quer dizer que o Homem é salvo, em primeiro lugar, da sua incapacidade de atingir, por si, a divinização.

Por outro lado, sabemos que a divinização humana aconteceu pelo mistério da Encarnação: o divino enxertou-se no humano para que este fosse divinizado.

A consideração deste aspecto é muito importante, pois demonstra que a Encarnação do Filho de Deus era fundamental para que a Humanidade pudesse atingir a plenitude da divinização.

Por outras palavras, mesmo que o Homem não tivesse pecado, a Encarnação fazia parte do projecto de Deus.

Mesmo que o pecado não tivesse acontecido, a Encarnação teria de acontecer para acontecer a divinização da Humanidade e acontecer a plenitude da revelação de Deus.

Como sabemos, a revelação de Deus atingiu a plenitude, isto é, a fase dos acabamentos em Jesus Cristo.

Uma vez que a Humanidade entrou no caminho do malogro e do fracasso através do pecado, a encarnação tornou-se também redenção, isto é, recriação da Humanidade.

Pela Encarnação, a Humanidade pecadora foi reconciliada com Deus, tornando-se uma Nova Criação:

“Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo.

Tudo isto vem de Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2 Cor v5, 17-19).

Portanto, fomos salvos em primeiro lugar da nossa própria incapacidade de atingir a plenitude da divinização.

Depois fomos salvos do fracasso humano em que nos introduzimos pelo pecado.

Neste aspecto, a salvação ganhou contornos de redenção, a qual implica não apenas a realização da plenitude sonhada por Deus, como ainda a restauração operada na Humanidade, a fim disto poder acontecer.

No primeiro aspecto, a salvação é a manifestação do amor gratuito de Deus.

No segundo é a expressão da grande misericórdia de Deus e do seu amor incondicional.

Mesmo que o Homem falhe, Deus continua a amá-lo incondicionalmente.

 

 2- O Homem é Salvo Para Quê?

No plano de Deus, a Salvação tem como meta a incorporação da Família Divina.

As três pessoas divinas com os muitos biliões de pessoas humanas e outras que possam neste Universo quase infinito formam a Comunhão Universal do Reino de Deus.

Nesta comunhão cada pessoa é um ponto de encontro e uma possibilidade de comunhão amorosa para as outras pessoas.

Por estar em coordenadas de universalidade e em estado de plenitude, as aspirações das pessoas têm realização imediata.

Por outras palavras, no Reino de Deus, as aspirações de encontro, diálogo e comunhão de uma pessoa tornam-se imediatamente realidade.

Não devemos esquecer que, no Reino de Deus, a pessoa está assumida e incorporada na comunhão universal dos santos cujo coração é a comunhão da Santíssima Trindade.

Na plenitude da vida a pessoa está realmente presente a tudo e a todos. Não por se deslocar a velocidades superiores à da luz, mas porque os desejos do seu coração têm emergência e realização simultâneas.

Tudo isto acontece dentro da organicidade e dinamismo da comunhão universal.

Uma pessoa que se tenha excluído da comunhão universal não se encontra nem encontra ninguém, pois está fora das coordenadas da comunhão universal.

Demos um exemplo: imaginemos a comunhão universal do Reino de Deus constituída por biliões e biliões de pessoas.

Uma pessoa que deseje entrar em interacção dialogante e amorosa com outra pessoa não precisa de andar a procurá-la no meio de uma multidão incontável.

Como vimos acima, as aspirações da pessoa tornam-se realidade na medida em que emergem no seu coração.

Enquanto está em realização na História, o ser humano habita as coordenadas do espaço e do tempo. Deus, pelo contrário, não habita a espacio-temporalidade. Deus é e está nas coordenadas do Amor omnipresente.

Deus está presente ao Universo mediante uma relação de criação amorosa.

Com sabemos, no início do Universo estava o amor, pois Deus é amor.

O amor é um impulso de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão: O nosso Deus é uma comunhão amorosa de três pessoas.

E o Universo surge a partir do diálogo e comunhão amorosa da Trindade Divina.

Não como um prolongamento necessário, mas como a realização de um projecto que brotou do diálogo amoroso das pessoas divinas.

E Deus imprimiu as suas impressões digitais no tecido da criação.

Eis a razão pela qual a Humanidade, por ser constituída por pessoas, atinge a sua plenitude na comunhão com a Divindade.

Mediante a morte, o ser humano liberta-se das coordenadas biológicas, psíquicas, rácicas, linguísticas e espacio-temporais.

À luz da Fé, a morte surge realmente como o parto final através do qual a pessoa humana atinge a sua plenitude, isto é, a comunhão universal nas coordenadas de Deus.

Pela incorporação na comunhão familiar da Santíssima Trindade, o ser humano é divinizado.

A divinização, portanto, não acontece como coisa individual, mas como resultado da assunção da pessoa na Comunhão Universal.

A incorporação na comunhão divina assenta sobre dois pilares fundamentais: a Encarnação da Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a ressurreição de Jesus Cristo.

Pela encarnação, o divino enxerta-se no humano em Jesus Cristo.

Como resultado deste enxerto, todos os seres humanos ficam com a possibilidade de se tornarem membros da família divina:

“Mas, a quantos o receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

E o Verbo encarnou e habitou entre nós” (Jo 1, 12-14).

Pela ressurreição de Cristo, a Humanidade é divinizada pelo Espírito Santo:

“No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede!

Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água viva”.

Jesus disse isto referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que cressem nele.

Com efeito, o Espírito Santo ainda não tinha vindo em virtude de Jesus não ter sido ainda glorificado” (Jo 7, 37-39).

O Espírito actuava no mundo desde a criação do homem. Foi a comunicação primordial do Espírito Santo que fez do Homem um ser vivente, diz o livro do Génesis (Gn 2, 7).

Mas o Senhor ressuscitado comunica o Espírito de maneira divinizante, isto é, de forma intrínseca, de tal modo que o Espírito Santo faz de nós um todo orgânico com Cristo.

Jesus é a cepa da videira, diz o evangelho de João, e nós somos os ramos que recebem a seiva vital dessa cepa (Jo 15, 1-8).

São Paulo diz esta mesma verdade mas com outro exemplo: nós somos os membros de um corpo cuja cabeça é Jesus Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27).

E isto acontece pelo Espírito Santo:

“De facto, fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo tanto os escravos como os homens livres, todos bebem de um só Espírito” (1 Cor 12, 13).

O Espírito Santo, diz Paulo, é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

Como ternura maternal de Deus e princípio animador de relações, o Espírito Santo confere dinamismo amoroso à nossa relação familiar com Deus.

Graças a esta acção dinâmica do Espírito Santo, somos acolhidos por Deus Pai como filhos e por Deus Filho como irmãos.

Eis o que diz São Paulo a este propósito:

“De facto, todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filho de Deus.

Vós não recebestes um espírito que vos escravize. Pelo contrário, recebestes o Espírito Santo que faz de vós filhos adoptivos.

É por este Espírito que clamamos “Abba”, ó pai.

O próprio Espírito Santo dá testemunho no mais íntimo do nosso espírito de que somos realmente filhos de Deus.

Ora, se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14.17).

Só um amor infinito e incondicional era capaz de sonhar um projecto com esta ternura e beleza em favor da Humanidade!

 

3- De que Modo o Homem é Salvo?

Os seres humanos são salvos por fazerem uma união orgânica com Cristo.

Como homem, Jesus de Nazaré é a Cabeça da Nova Humanidade.

Fazia uma unidade orgânica com o Filho Eterno de Deus.

Esta união orgânica era alimentada pelo Espírito Santo.

Jesus ressuscitou como Cabeça da Nova Humanidade e não apenas por ser mais um homem.

Ao ressuscitar Jesus Cristo foi incorporado na comunhão da Santíssima Trindade e, com ele toda a Humanidade da qual ele é a Cabeça.

Não há salvação para qualquer ser humano a não em Jesus Cristo.

Graças ao acontecimento de Cristo, a Humanidade e a Divindade ficaram definitivamente unidas.

Como sabemos, as pessoas humanas não são ilhas. As pessoas divinas também não. A Humanidade, tal como a Divindade, forma uma comunhão orgânica.

Segundo esta maneira de entender as coisas, o bem e o mal que as pessoas fazem não as afecta apenas a elas, mas a toda a união orgânica que forma a Humanidade.

Eis como o profeta Isaías faz a leitura desse acontecimento chocante que é o sofrimento dos justos no exílio de Babilónia (Is 52, 13-53, 12).

Até este período o povo bíblico pensava que os justos não podiam sofrer, pois Deus é justo e não vai fazer sofrer o inocente.

Neste período pensava-se que Deus era o autor do sofrimento. Provocava-o para castigar os pecados das pessoas.

Segundo esta perspectiva, como o justo não é pecador, não deve sofrer. No caso das crianças que sofrem, pensava-se que os pais eram pecadores.

Ainda no Novo Testamento encontramos vestígios desta mentalidade:

“Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: Rabi, quem pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?

Jesus respondeu: nem pecou ele nem os seus pais. Isto aconteceu para se manifestarem nele as obras de Deus (Jo 9, 1-3).

O acontecimento do exílio levou os pensadores do povo de Deus a buscar uma nova explicação para a questão do sofrimento, pois não há dúvida de que há justos que sofrem.

A saída encontrada pelo segundo Isaías é que o justo, por fazer um todo orgânico com o povo pecador, sofre com ele as perseguições e violências.

Segundo a reformulação do Segundo Isaías, o sofrimento do justo vai reverter em favor do povo pecador.

Como Deus não suporta o sofrimento do justo, Deus vai tomar partido em seu favor, libertando-o do exílio e, com ele vão ser também libertos os pecadores.

Graças ao facto de o povo fazer uma união orgânica, facilmente se passa do justo sofredor para o povo e do povo para o justo sofredor.

Como efeito, os pecadores fazem parte do povo e os justos também. Por esta razão o sofrimento do justo vai ser redentor para os pecadores:

“O meu servo terá êxito,

Pois será engrandecido e exaltado.

Muitos povos ficaram espantados diante dele, ao verem o seu rosto desfigurado e o seu aspecto disforme.

Do mesmo modo,

Muitos povos e reis vão ficar espantados ao verem as coisas maravilhosas e inauditas que vão acontecer (a libertação da Babilónia) (…).

O servo cresceu diante do Senhor sem figura e sem beleza,

Como um rebento ou uma raiz em terra árida (o exílio).

Vimo-lo sem aspecto atraente,

Desprezado e abandonado pelos homens,

Como homem das dores,

Habituado ao sofrimento,

Desprezado e desconsiderado,

Diante do qual se tapa o rosto.

Na verdade ele tomou sobre si as nossas doenças e carregou as nossas dores.

Nós o reputávamos como um leproso ferido por Deus e humilhado.

Mas foi ferido por causa dos nossos pecados,

Esmagado por causa das nossas iniquidades.

O castigo caiu sobre ele,

Pois fomos curados nas suas chagas (Deus tomou partido em favor dele).

Andávamos desgarrados como ovelhas perdidas,

Cada qual seguindo o seu caminho.

Mas o Senhor carregou sobre ele os nossos crimes (perdoando-nos por causa dele).

Foi maltratado.

Humilhou-se e não abriu a boca,

Tal como o cordeiro que é lavado ao matadouro ou a ovelha emudecida nas mãos do tosquiador.

Sem defesa nem justiça,

Levaram-no à força.

Quem é que se preocupou com o seu destino?

Foi ferido por causa dos pecados do meu povo e suprimido da terra dos vivos.

Deram-lhe sepultura entre os ímpios (pagãos caldeus) e uma tumba entre malfeitores,

Apesar de não ter cometido qualquer crime nem praticado qualquer fraude.

Aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento (levando-o para o exílio),

Mas a sua vida tornou-se um sacrifício de reparação.

Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias.

O desígnio do Senhor (a libertação do exílio) realizar-se-à por meio dele (…).

O Justo justificará a muitos,

Pois carregou com os seus crimes.

Por esta razão terá uma multidão como herança (o povo resgatado do exílio).

Receberá muita gente como despojos,

Pois entregou a sua vida à morte,

Foi contado entre os pecadores, pois tomou sobre si os pecados de muitos,

Sofrendo pelos culpados” (Is 52, 13-53,12).

Perante a dificuldade de justificar os sofrimentos e a morte de Jesus, os discípulos recorreram a estes textos magníficos, dizendo que Jesus é o Servo sofredor.

Fomos salvos pelo sofrimento de um homem justo, Jesus Cristo, o Messias.

“Carregou sobre si os nossos pecados sobre o madeiro da Cruz, a fim de que nós, estando mortos para o pecado, possamos viver na justiça. Fomos curados nas suas feridas” (1 Pd 2, 24).

Um morreu por todos e, nele todos morreram para o pecado (2 Cor 5, 14).

Deus tomou partido por Jesus, ressuscitando-o e glorificando-o. Como a Humanidade forma um todo orgânico e Jesus é homem, todos fomos assumidos e glorificados nele e com ele.

São Paulo descreve de maneira muito bonita esta união orgânica dizendo que não importa a raça, a língua, o estatuto social, o povo a que pertence ou a condição sexual da pessoa.

 Todos têm a mesma dignidade em Jesus Cristo, sublinha o Apóstolo:

“Já não há diferença entre judeu ou grego, escravo ou livre. Já não há diferença entre homem ou mulher, pois todos formamos um em Jesus Cristo” (Ga 3, 28).

Jesus Cristo é a base da nossa união orgânica à divindade:

“Nesse dia compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).

Na sua oração após a ceia pascal, Jesus recorda esta verdade enquanto ora a Deus Pai:

“Eu neles, tu em mim, Pai, a fim de eles serem perfeitos na unidade. Deste modo o mundo conhecerá que me enviaste e os amaste a eles, tal como me amaste a mim” (Jo 17, 23).

O Espírito Santo é o amor maternal de Deus. Com seu jeito maternal de amar conduz-nos ao Pai que nos acolhe como filhos e ao Filho que nos acolhe como irmãos:

“Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão para andardes no temor.

Pelo contrário, recebestes um Espírito de adopção graças ao qual chamais “Abba”, ó Pai (…).

Ora, se somos filhos somos também herdeiros. Somos herdeiros de Deus pai e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com ele sofremos, para também com ele sermos glorificados (Rm 8, 14-17).

A nossa salvação tem o selo da pertença à Família Divina:

“Àqueles que Deus conheceu antecipadamente, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho, de tal modo que este é o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8, 29).

A comunidade cristã é o sacramento desta unidade orgânica universal já enxertada e assumida em Deus. São Paulo insiste em que os membros da comunidade formam o corpo de Cristo:

“Comemos de um só pão para formarmos um só corpo” (1 Cor 10, 17).

E ainda: “Vós sois membros do Corpo de Cristo. E cada um de vós é uma parte deste corpo” (1 Cor 12, 27).

Sabemos como o corpo é mediação de encontro e comunicação. A comunidade, como Corpo de Cristo, é mediação de encontro e comunicação do mundo com Cristo ressuscitado.

Nesta mesma linha se situa o seguinte texto da Carta aos Efésios:

“Portanto, cada um deite fora a hipocrisia e fale a fale a verdade ao seu irmão, pois somos membros de um só corpo” (Ef 4, 25).

A raiz desta união orgânica universal é Jesus ressuscitado. O Espírito é o seu princípio vital que anima e dinamiza todo o organismo.

O Espírito Santo é o princípio de organicidade e dinamismo que anima todo o corpo. É a seiva que circula do tronco da videira para os ramos, tornando-os fecundos (Jo 15, 1-8).

Inseridos na comunhão orgânica universal, assumidos na família Divina e Animados pelo Espírito Santo, princípio vital desta comunhão, a nossa vida passa a dar frutos de excelente qualidade.

Graças a esta união Cristo e à fecundidade do Espírito Santo vamos deixando os frutos da carne, isto é, as acções do homem velho e passamos gradualmente a dar os frutos da Nova Humanidade enxertada em Cristo:

“A carne deseja o que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é contrário à carne. Se sois conduzidos pelo Espírito não estais sob o domínio da carne, pois as obras da carne são patentes: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos, invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas parecidas.

Sobre estas coisas vos previno como já o fiz antes: Os que praticam estas coisas não herdarão o Reino de Deus.

Por seu lado, os frutos do Espírito São: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, autonomíssimo. Contra estas coisas não há lei. Os que são de crucificaram a carne.

Se vivemos pelo Espírito, sigamos o Espírito. Não nos tornemos vaidosos, provocando-nos e tendo inveja uns dos outros” (Ga 5, 17-26).

Como acabamos de ver, o primeiro fruto do Espírito Santo é o amor e os restantes frutos são modos de concretizar o amor.

O amor não é sentimentos. É mais que uma mera experiência. É o sinal seguro da presença de Deus no ser humano.

O amor é a manifestação da glória de Deus em nós. De facto, a glória de Deus é a manifestação do seu amor pela Humanidade.

Quando uma pessoa decide amar está a dizer sim à voz do Espírito Santo que se faz ouvir na sua consciência.

O amor é a expressão máxima da fecundidade da vida, pois é o primeiro e o principal fruto do Espírito Santo.

Através do amor dos outros por nós o Espírito Santo capacita-nos para amar. Por outro lado, através desta mesma capacidade o Espírito interpela-nos, convida-nos e chama-nos a amar os outros.

É este o modo de o Espírito Santo animar a comunhão orgânica humano-divina da qual Jesus Cristo é a raiz.

Podíamos ainda pormo-nos uma questão: A quem se destina a salvação de Deus?

O Plano Salvador de Deus é universal. A Salvação é um dom para toda a Humanidade.

Mas é um dom e não uma imposição. Para ser dom, o ser humano tem de ter a possibilidade de o aceitar ou não.

Como sabemos, o amor propõe-se, não se impõe. A maneira concreta de a pessoa humana aceitar o dom da Salvação é entrar na dinâmica do amor.

A Primeira Carta de São João diz que Deus é amor e a pessoa que ama nasceu de Deus:

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus.

Todo aquele que ama nasceu de Deus e chega o conhecimento de Deus.

Aquele que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8).

Eis a veste nupcial para entrar no banquete do Reino de Deus. É este o modo concreto de aceitar o dom da Salvação, seja cristão ou não.