A SALVAÇÃO É A VIDA PLENA EM
CRISTO
CALMEIRO MATIAS

a) A Salvação Como
Dom
b) Vários Aspectos
da Salvação
1- O Homem é Salvo
de quê?
2- O Homem é Salvo
Para Quê?
3- De Que Modo o
Homem é Salvo?
a) A Salvação Como
Dom
O plano criador
que Deus sonhou para o Homem incluía a sua divinização como plenitude.
A divinização
acontece mediante a incorporação das pessoas humanas na comunhão familiar com
as pessoas divinas.
Em virtude do
pecado, o Homem entrou no caminho do malogro face a esta plenitude.
Com efeito, o
pecado é a recusa do ser humano a comungar com Deus e com os outros seres
humanos mediante o amor.
Após o pecado, a
salvação implica também uma redenção, isto é, uma restauração do Homem.
Adão colocou a
Humanidade no caminho do malogro e do fracasso.
Jesus Cristo, o
Novo Adão, reconduziu a Humanidade para a possibilidade de realizar de novo o
plano salvador de Deus.
Agora, a salvação
implica, portanto, a reconciliação do Homem com Deus, condição essencial para
acontecer a sua incorporação na Família divina:
O arrependimento e
o perdão do pecado, diz o evangelho de Lucas, deve ser pregado em todo o mundo,
a começar por Jerusalém (Lc 19, 10).
A salvação é a
posse da Vida Eterna, a qual consiste na comunhão com Deus através de Cristo:
“Disse-lhes Jesus:
“Em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes
o seu sangue não tereis a vida em vós (…).
Assim como o Pai
que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo o
que me come viverá por mim” (Jo 6, 53-57).
Como vemos, a
nossa incorporação na Família de Deus passa pela nossa comunhão orgânica e
vital com Cristo.
Graças à
fidelidade incondicional de Cristo, a Humanidade, colocada por Adão no caminho
do malogro, encontra-se de novo no caminho do sucesso:
“A vontade daquele
que me enviou é esta: que eu não perca nenhum daqueles que ele me deu, mas que
o ressuscite no último dia” (Jo 6, 39).
No coração amoroso
de Deus cabem todos os homens. O seu plano amoroso é universal.
Mas a salvação
implica fidelidade à vontade de Deus. Não porque Deus seja arbitrário em
relação a nós, mas porque a vontade de Deus coincide exactamente com o que é
melhor para nós:
“Nem todo o que me
diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade
de meu Pai que está nos Céus” (Mt 7, 21).
A Salvação é,
portanto, a plenitude da Criação e, em princípio, destina-se a toda a
Humanidade:
“Vou preparar-vos
uma morada e de novo voltarei e vos levarei comigo” (Jo 14, 3).
É importante
afirmar com toda a clareza que, todas as pessoas que se salvam, é em Cristo que se salvam.
Mas isto não quer
dizer que a salvação seja apenas para os cristãos:
“Eu sou o caminho,
a verdade e a vida. Ninguém pode ir ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6).
Os que entram na
dinâmica do amor, sejam cristãos ou não, fazem parte
da videira cuja cepa é Cristo.
Quem ama está em
comunhão com Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4, 16).
A maneira concreta
de ser ramo da videira em comunhão com a cepa é amar. As pessoas que actuam
assim têm em si o poder que as torna filhas de Deus:
Aos que receberam
o Filho de Deus foi-lhes dado o poder de se tornarem filhos de Deus. Foi esta a
razão pela qual o Verbo encarnou e habitou entre nós (Jo 1, 12-14).
A salvação como
divinização e incorporação na Família de Deus não é uma conquista do ser
humano, mas uma dádiva de Deus (Ef 2, 8).
No entanto, Deus
diviniza a pessoa humana na medida em que esta se humanizou. Ora, a humanização
é uma tarefa que só a própria pessoa pode realizar.
A lei da
humanização é: Emergência pessoal-espiritual mediante relações de amor e
convergência para a comunhão universal do Reino de Deus.
A divindade é
pessoas, a Humanidade também. Na medida em que a pessoa humana emerge mediante
o amor, é assumida e incorporada na comunhão da Santíssima Trindade.
Mas esta
incorporação é sempr4e feita através de Cristo:
“Assim como o Pai
que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo o que me come viverá por
mim” (Jo 6, 57).
Por outras palavras,
as obras estão em função da realização pessoal-espiritual do ser humano. Esta
realização confere à pessoa a capacidade de comungar com as outras pessoas
humanas e as divinas.
Por outras
palavras, Deus salva o Homem de graça. Nenhum ser humano tem méritos para ser
divino. No entanto, o Homem oferece a Deus a matéria-prima que vai ser salva: a
sua humanização.
b) Vários Aspectos
da Salvação
1- O Homem é Salvo
de Quê?
A salvação, como
vimos, implica uma plenitude de vida que se atinge pela divinização.
Isto quer dizer
que o Homem é salvo, em primeiro lugar, da sua incapacidade de atingir, por si,
a divinização.
Por outro lado,
sabemos que a divinização humana aconteceu pelo mistério da Encarnação: o
divino enxertou-se no humano para que este fosse divinizado.
A consideração
deste aspecto é muito importante, pois demonstra que a Encarnação do Filho de
Deus era fundamental para que a Humanidade pudesse atingir a plenitude da
divinização.
Por outras
palavras, mesmo que o Homem não tivesse pecado, a Encarnação fazia parte do
projecto de Deus.
Mesmo que o pecado
não tivesse acontecido, a Encarnação teria de acontecer para acontecer a
divinização da Humanidade e acontecer a plenitude da revelação de Deus.
Como sabemos, a
revelação de Deus atingiu a plenitude, isto é, a fase dos acabamentos em Jesus
Cristo.
Uma vez que a
Humanidade entrou no caminho do malogro e do fracasso através do pecado, a
encarnação tornou-se também redenção, isto é, recriação da Humanidade.
Pela Encarnação, a
Humanidade pecadora foi reconciliada com Deus, tornando-se uma Nova Criação:
“Se alguém está em
Cristo é uma Nova Criação. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo.
Tudo isto vem de
Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, não levando mais em conta os
pecados dos homens” (2 Cor v5, 17-19).
Portanto, fomos
salvos em primeiro lugar da nossa própria incapacidade de atingir a plenitude
da divinização.
Depois fomos
salvos do fracasso humano em que nos introduzimos pelo pecado.
Neste aspecto, a
salvação ganhou contornos de redenção, a qual implica não apenas a realização
da plenitude sonhada por Deus, como ainda a restauração operada na Humanidade,
a fim disto poder acontecer.
No primeiro
aspecto, a salvação é a manifestação do amor gratuito de Deus.
No segundo é a
expressão da grande misericórdia de Deus e do seu amor incondicional.
Mesmo que o Homem
falhe, Deus continua a amá-lo incondicionalmente.
2- O Homem é Salvo Para Quê?
No plano de Deus,
a Salvação tem como meta a incorporação da Família Divina.
As três pessoas
divinas com os muitos biliões de pessoas humanas e outras que possam neste
Universo quase infinito formam a Comunhão Universal do Reino de Deus.
Nesta comunhão
cada pessoa é um ponto de encontro e uma possibilidade de comunhão amorosa para
as outras pessoas.
Por estar em
coordenadas de universalidade e em estado de plenitude, as aspirações das
pessoas têm realização imediata.
Por outras
palavras, no Reino de Deus, as aspirações de encontro, diálogo e comunhão de
uma pessoa tornam-se imediatamente realidade.
Não devemos
esquecer que, no Reino de Deus, a pessoa está assumida e incorporada na comunhão
universal dos santos cujo coração é a comunhão da Santíssima Trindade.
Na plenitude da
vida a pessoa está realmente presente a tudo e a todos. Não por se deslocar a
velocidades superiores à da luz, mas porque os desejos do seu coração têm
emergência e realização simultâneas.
Tudo isto acontece
dentro da organicidade e dinamismo da comunhão universal.
Uma pessoa que se
tenha excluído da comunhão universal não se encontra nem encontra ninguém, pois
está fora das coordenadas da comunhão universal.
Demos um exemplo:
imaginemos a comunhão universal do Reino de Deus constituída por biliões e
biliões de pessoas.
Uma pessoa que
deseje entrar em interacção dialogante e amorosa com outra pessoa não precisa
de andar a procurá-la no meio de uma multidão incontável.
Como vimos acima,
as aspirações da pessoa tornam-se realidade na medida em que emergem no seu
coração.
Enquanto está em
realização na História, o ser humano habita as coordenadas do espaço e do
tempo. Deus, pelo contrário, não habita a espacio-temporalidade. Deus é e está
nas coordenadas do Amor omnipresente.
Deus está presente
ao Universo mediante uma relação de criação amorosa.
Com sabemos, no
início do Universo estava o amor, pois Deus é amor.
O amor é um
impulso de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão: O
nosso Deus é uma comunhão amorosa de três pessoas.
E o Universo surge
a partir do diálogo e comunhão amorosa da Trindade Divina.
Não como um
prolongamento necessário, mas como a realização de um projecto que brotou do
diálogo amoroso das pessoas divinas.
E Deus imprimiu as
suas impressões digitais no tecido da criação.
Eis a razão pela
qual a Humanidade, por ser constituída por pessoas, atinge a sua plenitude na
comunhão com a Divindade.
Mediante a morte,
o ser humano liberta-se das coordenadas biológicas, psíquicas, rácicas,
linguísticas e espacio-temporais.
À luz da Fé, a
morte surge realmente como o parto final através do qual a pessoa humana atinge
a sua plenitude, isto é, a comunhão universal nas coordenadas de Deus.
Pela incorporação
na comunhão familiar da Santíssima Trindade, o ser humano é divinizado.
A divinização,
portanto, não acontece como coisa individual, mas como resultado da assunção da
pessoa na Comunhão Universal.
A incorporação na
comunhão divina assenta sobre dois pilares fundamentais: a Encarnação da
Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e a ressurreição de Jesus Cristo.
Pela encarnação, o
divino enxerta-se no humano em Jesus Cristo.
Como resultado
deste enxerto, todos os seres humanos ficam com a possibilidade de se tornarem
membros da família divina:
“Mas, a quantos o
receberam, aos que nele crêem, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram
dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas
sim de Deus.
E o Verbo encarnou
e habitou entre nós” (Jo 1, 12-14).
Pela ressurreição
de Cristo, a Humanidade é divinizada pelo Espírito Santo:
“No último dia, o
mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede venha a mim; e
quem crê em mim que sacie a sua sede!
Como diz a
Escritura, hão-de correr do seu coração rios de Água viva”.
Jesus disse isto
referindo-se ao Espírito Santo que iam receber os que cressem nele.
Com efeito, o
Espírito Santo ainda não tinha vindo em virtude de Jesus não ter sido ainda
glorificado” (Jo 7, 37-39).
O Espírito actuava
no mundo desde a criação do homem. Foi a comunicação primordial do Espírito
Santo que fez do Homem um ser vivente, diz o livro do Génesis (Gn 2, 7).
Mas o Senhor
ressuscitado comunica o Espírito de maneira divinizante, isto é, de forma
intrínseca, de tal modo que o Espírito Santo faz de nós um todo orgânico com
Cristo.
Jesus é a cepa da
videira, diz o evangelho de João, e nós somos os ramos que recebem a seiva
vital dessa cepa (Jo 15, 1-8).
São Paulo diz esta
mesma verdade mas com outro exemplo: nós somos os membros de um corpo cuja
cabeça é Jesus Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27).
E isto acontece
pelo Espírito Santo:
“De facto, fomos
baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo tanto os escravos
como os homens livres, todos bebem de um só Espírito” (1 Cor 12, 13).
O Espírito Santo,
diz Paulo, é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Como ternura
maternal de Deus e princípio animador de relações, o Espírito Santo confere
dinamismo amoroso à nossa relação familiar com Deus.
Graças a esta
acção dinâmica do Espírito Santo, somos acolhidos por Deus Pai como filhos e
por Deus Filho como irmãos.
Eis o que diz São
Paulo a este propósito:
“De facto, todos
os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filho de Deus.
Vós não recebestes
um espírito que vos escravize. Pelo contrário, recebestes o Espírito Santo que
faz de vós filhos adoptivos.
É por este
Espírito que clamamos “Abba”, ó pai.
O próprio Espírito
Santo dá testemunho no mais íntimo do nosso espírito de que somos realmente
filhos de Deus.
Ora, se somos
filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros
com Cristo” (Rm 8, 14.17).
Só um amor
infinito e incondicional era capaz de sonhar um projecto com esta ternura e
beleza em favor da Humanidade!
3- De que Modo o
Homem é Salvo?
Os seres humanos
são salvos por fazerem uma união orgânica com Cristo.
Como homem, Jesus
de Nazaré é a Cabeça da Nova Humanidade.
Fazia uma unidade
orgânica com o Filho Eterno de Deus.
Esta união
orgânica era alimentada pelo Espírito Santo.
Jesus ressuscitou
como Cabeça da Nova Humanidade e não apenas por ser mais um homem.
Ao ressuscitar
Jesus Cristo foi incorporado na comunhão da Santíssima Trindade e, com ele toda
a Humanidade da qual ele é a Cabeça.
Não há salvação
para qualquer ser humano a não em Jesus Cristo.
Graças ao
acontecimento de Cristo, a Humanidade e a Divindade ficaram definitivamente
unidas.
Como sabemos, as
pessoas humanas não são ilhas. As pessoas divinas também não. A Humanidade, tal
como a Divindade, forma uma comunhão orgânica.
Segundo esta
maneira de entender as coisas, o bem e o mal que as pessoas fazem não as afecta
apenas a elas, mas a toda a união orgânica que forma a Humanidade.
Eis como o profeta
Isaías faz a leitura desse acontecimento chocante que é o sofrimento dos justos
no exílio de Babilónia (Is 52, 13-53, 12).
Até este período o
povo bíblico pensava que os justos não podiam sofrer, pois Deus é justo e não
vai fazer sofrer o inocente.
Neste período
pensava-se que Deus era o autor do sofrimento. Provocava-o para castigar os
pecados das pessoas.
Segundo esta
perspectiva, como o justo não é pecador, não deve sofrer. No caso das crianças
que sofrem, pensava-se que os pais eram pecadores.
Ainda no Novo
Testamento encontramos vestígios desta mentalidade:
“Ao passar, Jesus
viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: Rabi,
quem pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou
os seus pais?
Jesus respondeu:
nem pecou ele nem os seus pais. Isto aconteceu para se manifestarem nele as
obras de Deus (Jo 9, 1-3).
O acontecimento do
exílio levou os pensadores do povo de Deus a buscar uma nova explicação para a
questão do sofrimento, pois não há dúvida de que há justos que sofrem.
A saída encontrada
pelo segundo Isaías é que o justo, por fazer um todo orgânico com o povo
pecador, sofre com ele as perseguições e violências.
Segundo a
reformulação do Segundo Isaías, o sofrimento do justo vai reverter em favor do
povo pecador.
Como Deus não
suporta o sofrimento do justo, Deus vai tomar partido em seu favor,
libertando-o do exílio e, com ele vão ser também libertos os pecadores.
Graças ao facto de
o povo fazer uma união orgânica, facilmente se passa do justo sofredor para o
povo e do povo para o justo sofredor.
Como efeito, os
pecadores fazem parte do povo e os justos também. Por esta razão o sofrimento
do justo vai ser redentor para os pecadores:
“O meu servo terá
êxito,
Pois será engrandecido
e exaltado.
Muitos povos
ficaram espantados diante dele, ao verem o seu rosto desfigurado e o seu
aspecto disforme.
Do mesmo modo,
Muitos povos e
reis vão ficar espantados ao verem as coisas maravilhosas e inauditas que vão
acontecer (a libertação da Babilónia) (…).
O servo cresceu
diante do Senhor sem figura e sem beleza,
Como um rebento ou
uma raiz em terra árida (o exílio).
Vimo-lo sem
aspecto atraente,
Desprezado e
abandonado pelos homens,
Como homem das
dores,
Habituado ao
sofrimento,
Desprezado e
desconsiderado,
Diante do qual se
tapa o rosto.
Na verdade ele
tomou sobre si as nossas doenças e carregou as nossas dores.
Nós o reputávamos
como um leproso ferido por Deus e humilhado.
Mas foi ferido por
causa dos nossos pecados,
Esmagado por causa
das nossas iniquidades.
O castigo caiu
sobre ele,
Pois fomos curados
nas suas chagas (Deus tomou partido em favor dele).
Andávamos
desgarrados como ovelhas perdidas,
Cada qual seguindo
o seu caminho.
Mas o Senhor
carregou sobre ele os nossos crimes (perdoando-nos por causa dele).
Foi maltratado.
Humilhou-se e não
abriu a boca,
Tal como o
cordeiro que é lavado ao matadouro ou a ovelha emudecida nas mãos do
tosquiador.
Sem defesa nem
justiça,
Levaram-no à
força.
Quem é que se
preocupou com o seu destino?
Foi ferido por
causa dos pecados do meu povo e suprimido da terra dos vivos.
Deram-lhe
sepultura entre os ímpios (pagãos caldeus) e uma tumba entre malfeitores,
Apesar de não ter
cometido qualquer crime nem praticado qualquer fraude.
Aprouve ao Senhor
esmagá-lo com sofrimento (levando-o para o exílio),
Mas a sua vida
tornou-se um sacrifício de reparação.
Terá uma
posteridade duradoura e viverá longos dias.
O desígnio do
Senhor (a libertação do exílio) realizar-se-à por meio dele (…).
O Justo
justificará a muitos,
Pois carregou com
os seus crimes.
Por esta razão
terá uma multidão como herança (o povo resgatado do exílio).
Receberá muita
gente como despojos,
Pois entregou a
sua vida à morte,
Foi contado entre
os pecadores, pois tomou sobre si os pecados de muitos,
Sofrendo pelos
culpados” (Is 52, 13-53,12).
Perante a
dificuldade de justificar os sofrimentos e a morte de Jesus, os discípulos
recorreram a estes textos magníficos, dizendo que Jesus é o Servo sofredor.
Fomos salvos pelo
sofrimento de um homem justo, Jesus Cristo, o Messias.
“Carregou sobre si
os nossos pecados sobre o madeiro da Cruz, a fim de que nós, estando mortos
para o pecado, possamos viver na justiça. Fomos curados nas suas feridas” (1 Pd
2, 24).
Um morreu por
todos e, nele todos morreram para o pecado (2 Cor 5, 14).
Deus tomou partido
por Jesus, ressuscitando-o e glorificando-o. Como a Humanidade forma um todo
orgânico e Jesus é homem, todos fomos assumidos e glorificados nele e com ele.
São Paulo descreve
de maneira muito bonita esta união orgânica dizendo que não importa a raça, a
língua, o estatuto social, o povo a que pertence ou a condição sexual da
pessoa.
Todos têm a mesma dignidade em Jesus Cristo,
sublinha o Apóstolo:
“Já não há
diferença entre judeu ou grego, escravo ou livre. Já não há diferença entre
homem ou mulher, pois todos formamos um em Jesus Cristo” (Ga 3, 28).
Jesus Cristo é a
base da nossa união orgânica à divindade:
“Nesse dia
compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).
Na sua oração após
a ceia pascal, Jesus recorda esta verdade enquanto ora a Deus Pai:
“Eu neles, tu em
mim, Pai, a fim de eles serem perfeitos na unidade. Deste modo o mundo
conhecerá que me enviaste e os amaste a eles, tal como me amaste a mim” (Jo 17,
23).
O Espírito Santo é
o amor maternal de Deus. Com seu jeito maternal de amar conduz-nos ao Pai que
nos acolhe como filhos e ao Filho que nos acolhe como irmãos:
“Todos os que se deixam
guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de
escravidão para andardes no temor.
Pelo contrário,
recebestes um Espírito de adopção graças ao qual chamais “Abba”, ó Pai (…).
Ora, se somos
filhos somos também herdeiros. Somos herdeiros de Deus pai e co-herdeiros com
Cristo, pressupondo que com ele sofremos, para também com ele sermos
glorificados (Rm 8, 14-17).
A nossa salvação
tem o selo da pertença à Família Divina:
“Àqueles que Deus
conheceu antecipadamente, também os predestinou para serem uma imagem idêntica
à do seu Filho, de tal modo que este é o primogénito de muitos irmãos” (Rm 8,
29).
A comunidade
cristã é o sacramento desta unidade orgânica universal já enxertada e assumida
em Deus. São Paulo insiste em que os membros da comunidade formam o corpo de
Cristo:
“Comemos de um só
pão para formarmos um só corpo” (1 Cor 10, 17).
E ainda: “Vós sois
membros do Corpo de Cristo. E cada um de vós é uma parte deste corpo” (1 Cor
12, 27).
Sabemos como o
corpo é mediação de encontro e comunicação. A comunidade, como Corpo de Cristo,
é mediação de encontro e comunicação do mundo com Cristo ressuscitado.
Nesta mesma linha
se situa o seguinte texto da Carta aos Efésios:
“Portanto, cada um
deite fora a hipocrisia e fale a fale a verdade ao seu irmão, pois somos
membros de um só corpo” (Ef 4, 25).
A raiz desta união
orgânica universal é Jesus ressuscitado. O Espírito é o seu princípio vital que
anima e dinamiza todo o organismo.
O Espírito Santo é
o princípio de organicidade e dinamismo que anima todo o corpo. É a seiva que
circula do tronco da videira para os ramos, tornando-os fecundos (Jo 15, 1-8).
Inseridos na
comunhão orgânica universal, assumidos na família Divina e Animados pelo
Espírito Santo, princípio vital desta comunhão, a nossa vida passa a dar frutos
de excelente qualidade.
Graças a esta
união Cristo e à fecundidade do Espírito Santo vamos deixando os frutos da
carne, isto é, as acções do homem velho e passamos gradualmente a dar os frutos
da Nova Humanidade enxertada em Cristo:
“A carne deseja o
que é contrário ao Espírito e o Espírito o que é contrário à carne. Se sois
conduzidos pelo Espírito não estais sob o domínio da carne, pois as obras da
carne são patentes: fornicação, impureza, devassidão, idolatria, feitiçaria,
inimizades, contendas, ciúmes, fúrias, ambições, discórdias, partidarismos,
invejas, bebedeiras, orgias e outras coisas parecidas.
Sobre estas coisas
vos previno como já o fiz antes: Os que praticam estas coisas não herdarão o
Reino de Deus.
Por seu lado, os
frutos do Espírito São: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, autonomíssimo. Contra estas coisas não há lei. Os que são
de crucificaram a carne.
Se vivemos pelo
Espírito, sigamos o Espírito. Não nos tornemos vaidosos, provocando-nos e tendo
inveja uns dos outros” (Ga 5, 17-26).
Como acabamos de
ver, o primeiro fruto do Espírito Santo é o amor e os restantes frutos são
modos de concretizar o amor.
O amor não é
sentimentos. É mais que uma mera experiência. É o sinal seguro da presença de
Deus no ser humano.
O amor é a
manifestação da glória de Deus em nós. De facto, a glória de Deus é a
manifestação do seu amor pela Humanidade.
Quando uma pessoa
decide amar está a dizer sim à voz do Espírito Santo que se faz ouvir na sua
consciência.
O amor é a
expressão máxima da fecundidade da vida, pois é o primeiro e o principal fruto
do Espírito Santo.
Através do amor
dos outros por nós o Espírito Santo capacita-nos para amar. Por outro lado,
através desta mesma capacidade o Espírito interpela-nos, convida-nos e
chama-nos a amar os outros.
É este o modo de o
Espírito Santo animar a comunhão orgânica humano-divina da qual Jesus Cristo é
a raiz.
Podíamos ainda
pormo-nos uma questão: A quem se destina a salvação de Deus?
O Plano Salvador
de Deus é universal. A Salvação é um dom para toda a Humanidade.
Mas é um dom e não
uma imposição. Para ser dom, o ser humano tem de ter a possibilidade de o
aceitar ou não.
Como sabemos, o
amor propõe-se, não se impõe. A maneira concreta de a pessoa humana aceitar o
dom da Salvação é entrar na dinâmica do amor.
A Primeira Carta
de São João diz que Deus é amor e a pessoa que ama nasceu de Deus:
“Caríssimos,
amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus.
Todo aquele que
ama nasceu de Deus e chega o conhecimento de Deus.
Aquele que não ama
não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8).
Eis a veste
nupcial para entrar no banquete do Reino de Deus. É este o modo concreto de
aceitar o dom da Salvação, seja cristão ou não.