A SALVAÇÃO COMO PLENITUDE DA CRIAÇÃO
CALMEIRO MATIAS

A plenitude humana só
acontece na comunhão com Deus. Estamos talhados para Deus.
Na verdade, a plenitude
humana acontece através da incorporação das pessoas humanas na Comunhão da
Família divina.
É esta a razão pela qual
temos de nascer de novo pelo Espírito Santo, como diz o evangelho de São João
(Jo 3, 6).
A possibilidade de
nascermos de novo foi-nos possibilitada pelo mistério da Encarnação.
Eis o que o evangelho de
São João diz sobre isto:
“Mas a quantos o receberam
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram dos
laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas sim de
Deus.
E o Verbo encarnou e veio
habitar entre nós” (Jo 1, 12-14).
A grande tarefa dos seres
humanos é completar em si a obra criadora de Deus, realizando-se como pessoa e
procurando melhorar a marcha desta Humanidade em construção.
Emergir como pessoa
significa crescer em densidade espiritual e capacidade de relações e comunhão
O ser humano nasce
hominizado, isto é, com a constituição natural própria de um ser humano, mas
não humanizado, isto é, livre, consciente, responsável e capaz de comunhão
amorosa.
A humanização do ser
humano é uma tarefa que dura a vida inteira. Além disso ninguém a pode realizar
por nós.
A lei da humanização é:
Emergência pessoal
mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal.
Para nós, cristãos, a
Comunhão Universal é também chamada de Reino de Deus.
O projecto de Deus para a
Humanidade implica duas dimensões: a criação e a salvação.
A criação acontece como
processo histórico de humanização. A salvação acontece como divinização
mediante a assunção e introdução das pessoas humanas na comunhão familiar das
pessoas divinas.
O processo da humanização,
tal como o processo da divinização é iniciado através de um beijo de Deus.
A humanização é iniciada
com o beijo primordial de Deus Pai, no barro amassado, para utilizar a imagem
do Livro do Génesis.
Na verdade, a palavra
hebraica “Neshama” significa beijo e sopro.
Em consequência deste
beijo, o hálito dinâmico e gerador de vida espiritual (o Espírito de Deus),
passou de Deus para o Homem e este torna-se um ser espiritualmente animado.
A intervenção especial de
Deus na criação do Homem acontece, pois, através deste beijo (Gn 2, 7).
O segundo beijo é-nos dado
por Deus filho no momento da Encarnação.
Pelo mistério da
Encarnação, o divino enxertou-se no humano em Jesus de Nazaré.
Deus comunica-nos o dom do
Espírito Santo através destes dois beijos.
Através do segundo beijo,
os seres humanos passam a interagir de modo orgânico com o Espírito Santo através
de Jesus Cristo.
Segundo a imagem do
evangelho de São João, Jesus é a cepa da videira da qual nós somos os ramos.
Nós apenas podemos ser ramos vivos e fecundo se estivermos unidos à cepa (Jo
15, 4-5).
A seiva que alimenta esta
união orgânica é o Espírito Santo. Jesus comunica-nos esta seiva em forma de
uma Água Viva que faz emergir Arroios de Vida Eterna no nosso coração (Jo 7,
37-39; 4, 14).
Portanto, falar da seiva
da videira que vem da cepa para os ramos ou da Água Viva que vem de Cristo para
o nosso coração é a mesma coisa.
Em qualquer dos casos
estamos a falar do Espírito Santo. É este, acrescenta o evangelho de São João,
o sangue de Cristo ressuscitado a circular de Cristo para nós e a comunicar-nos
a Vida Eterna (Jo 6, 62-63).
O Espírito Santo é, pois,
o Sangue da Nova Aliança que vai ser derramado por todos para perdão dos
pecados (cf. Mt 26, 28).
É este o produto da
videira, acrescentam os evangelhos, que Jesus beberá com os discípulos no Reino
de Deus (Mt 26, 29 cf. Mc 14, 25; Lc 22, 17-18).
O beijo da encarnação leva
à plenitude a comunicação do Espírito Santo iniciada com o beijo primordial da
criação.
Eis a razão pela qual, São
Paulo diz que Cristo inaugura a plenitude dos tempos, isto é, a fase dos
acabamentos que é a dinâmica histórica da divinização:
“Mas quando chegou a
plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (…), a fim
de recebermos a adopção de filhos.
E porque somos filhos,
Deus enviou aos nossos corações o Espírito Santo de seu filho que, no nosso
íntimo clama: Abba, ó Pai” (Ga 4, 4-6).
São Paulo diz que o
Espírito Santo é quem nos introduz na Família de Deus (Rm 8, 14).
O Espírito Santo é uma
pessoa cujo jeito de ser é animar as relações de comunhão entre as pessoas e
criar laços de comunhão orgânica.
São Paulo diz que o
Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
É, pois, de modo orgânico,
que o Espírito Santo nos introduz na comunhão familiar da Santíssima Trindade.
Os dois beijos através dos
quais Deus nos comunica a força criadora e salvadora do Espírito Santo devem
ser entendidos como uma realidade dinâmica e progressiva.
Por outras palavras, a
acção humanizante, tal como a acção divinizante do Espírito Santo estão
presentes e activas no ser humano ao longo de toda a vida.
São Paulo vê a acção do
Espírito Santo em nós como uma presença adequada a cada pessoa.
Eis a razão pela qual ele
afirma que Deus concorre em tudo para o bem dos que o amam (Rm 8,28).
Graças a esta presença
dinâmica do Espírito Santo em nós, Deus torna-se realmente o Emanuel, isto é, o
Deus connosco.
Isto aconteceu de modo
pleno graças ao nascimento de Jesus Cristo, diz São Mateus:
“Eis que a Virgem
conceberá e dará à luz um filho a quem chamarão Emanuel, isto é, Deus connosco”
(Mt 1, 23).
Isto deve ser entendido
que o Espírito Santo está em nós, para nós e por nós e, portanto, ilumina-nos e
ajuda-nos no sentido de sabermos encontrar a melhor solução e orientação para
os acontecimentos do nosso dia a dia.
Pelo primeiro beijo, Deus
cria-nos à sua imagem e semelhança (Gn 1, 26-27). É a acção humanizante do
Espírito Santo.
Pelo segundo, Deus integra-nos na Família
Divina (Jo 1, 12-14). É a acção divinizante do mesmo Espírito.
O primeiro beijo ajuda-nos
no sentido de nos humanizarmos.
O segundo realiza em nós a
dinâmica da ressurreição, a qual culmina na assunção e incorporação na Família
Divina.
O evangelho de São João vê
no sacramento da Eucaristia a expressão desta acção divinizante do Espírito
Santo, alimentando a nossa união orgânica com Cristo e, através dele, com o
próprio Deus:
“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo quem me come viverá por mim”
(Jo 6, 56-57).
A Encarnação aconteceu
porque o Espírito Santo encontrou na interioridade pessoal humana de Jesus, uma
proporcionalidade adequada e suficiente para estabelecer uma interacção com a
segunda pessoa da Santíssima Trindade.
Deste modo, Jesus de
Nazaré, o Filho de Maria, faz um com a pessoa do Filho Eterno de Deus, tal como
o Pai e o Filho, em Deus, fazem um.
Eis as palavras de Jesus
no evangelho de São João: “Eu e o Pai somos Um” (Jo 10, 30).
Como vemos, Jesus Cristo é
a condição para o dinamismo salvador do Espírito Santo se difundir
organicamente pela Humanidade, incorporando-a na família da Santíssima
Trindade.
Deste modo o Filho
unigénito de Deus, pelo mistério da Encarnação tornou-se o primogénito de
muitos irmãos, como diz a Carta aos Romanos (Rm 8, 29).
Todos os que são movidos pelo
Espírito Santo, diz São Paulo, são filhos de Deus Pai e irmãos do Filho de Deus
(Rm 8, 14-16).
Não nos podemos esquecer
de que este sonho amoroso de Deus é para toda a Humanidade, não apenas para os
homens e mulheres que vieram depois de Cristo.
No momento da morte e
ressurreição de Jesus Cristo, a Humanidade que o precedeu e que já fazia uma
união orgânica de grandeza humana, passou a fazer uma união orgânica de
grandeza humano-divina.
São Paulo diz que o nosso
coração é templo do Espírito Santo:
“Não sabeis que sois
templo de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 16).
Na Segunda Carta aos
Coríntios, São Paulo volta a insistir neste ponto, dizendo:
“Nós é que somos o templo
do Deus vivo, como disse o próprio Deus: Habitarei e caminharei no meio deles,
serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6, 16).
É, pois, a partir do nosso
íntimo que se constitui essa união orgânica que nos insere na Família de Deus:
“Não sabeis que o vosso
corpo é templo do Espírito Santo que está em vós e que recebestes de Deus? “ (1
Cor 6t, 19).
A única força que pode
destruir em nós o templo de Deus é o egoísmo, a fonte de todas as formas de
pecado:
“Não sabeis que sois
templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o
templo de Deus, Deus o destruirá, pois o templo de Deus é santo e esse templo
sois vós” (1 Cor 3, 16-17).
O livro do Apocalipse
descreve esta comunhão do Homem com Deus de maneira muito bonita:
“E ouvi uma voz potente
que vinha do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens.
Ele habitará com os homens
e eles serão o seu povo. O próprio Deus estará com eles e será o seu Deus,
enxugando todas as lágrimas dos seus olhos e não haverá mais morte nem pranto
nem dor”. (Apc 21, 3-4).
Como
vemos, Jesus Cristo é a cúpula do plano de Deus iniciado com a Criação.
Nele
a humanidade foi plenificada ao ser assumida na Família da Santíssima Trindade.
O
pecado humano não alterou nem destruiu o plano de Deus, pois em Cristo, Deus
reconciliou consigo a Humanidade, diz São Paulo, não levando mais em conta o
pecado dos homens.
Eis
a razão pela qual Jesus Cristo é a Cabeça da Nova Criação (2 Cor 5, 17-18).
No
princípio, diz o evangelho de São, o Logos foi o protagonista da acção criadora
de Deus.
Na plenitude dos tempos, o mesmo Logos, ao
encarnar, insere o Homem na Família de Deus, conferindo plenitude à mesma
Criação (Jo 1, 12-14).
Com
o mistério da Encarnação, o plano da criação, da revelação e da salvação
atingem o nível da plenitude.
Se
o mundo é criação de Deus, então todas as coisas são boas, diz o livro do
Génesis (Gn 1, 25).
Mais
tarde, os fariseus com as suas distorções rabínicas tentaram dividir as coisas
entre puras e impuras, boas e más, benditas e malditas.
Jesus
opõe-se a este dualismo e reafirma a bondade de todas as coisas. Os alimentos,
diz ele, são todos puros.
O
que torna o homem impuro é a maldade que lhe sai do coração e não os alimentos
que possa ingerir (Mc 7, 14-20).
Por
ser constituída por pessoas, a Humanidade é a cúpula da Criação. A Divindade é
pessoas e a Humanidade também.
O
prólogo do evangelho de São João representa o cume da Cristologia do Novo
Testamento e o ponto mais alto da fé na obra criadora de Deus realizada Por
Cristo.
Eis
a razão pela qual São João inicia o prólogo com as mesmas palavras com que o
Génesis inicia o relato da criação: “ No princípio” (Jo 1,1; cf. Gn 1, 1).
Se
a consumação de todas as coisas acontece em Cristo ressuscitado, então a nossa
meta não é o vazio da morte, mas a plenitude da vida na Comunhão Familiar da
Santíssima Trindade.