A SABEDORIA E O SENTIDO DA VIDA

                                CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

a) A Sabedoria Modela o Coração

b) A Sabedoria Inspira Razões Válidas Para Viver

c) A Sabedoria e a Arte de Amar

 

 

a) A Sabedoria Modela o Coração

Não são muitas as pessoas que cultivam a sabedoria.

Uma das razões pelas quais a Sabedoria não cresce muito no mundo, é que as pessoas falam muito, mas não gostam de pensar e meditar.

Outra razão para haver tão poucas pessoas a cultivar a sabedoria, é que o sábio não tolera a injustiça e só cultiva relações assentes na verdade e na fraternidade.

A sabedoria confere às pessoas a capacidade de saborear as coisas com o sabor da verdade que existe nelas.

A Sabedoria é criativa e transformadora.

As pessoas que cultivam a Sabedoria não caiem no activismo vazio, mas empenham-se seriamente na construção de uma Humanidade melhor.

Por isso fazem o bem, conscientes de que o melhor prémio do bem que fazem é a alegria de o terem feito.

A sabedoria é o cinzel que modela os grandes mestres. Um mestre é uma pessoa que, pelo seu jeito de falar e agir, inspira os outros, ajudando-os a ser criativos e a crescer como pessoas livres, conscientes e responsáveis.

Quando a Sabedoria atinge o nível teologal, capacita a pessoa para ver as coisas com os horizontes da revelação divina e agir com os critérios do próprio Deus.

A Sabedoria ensina aos mestres que a arte de liderar consiste em dar critérios e inspirar modos de agir às pessoas sem as dominar ou manipular.

A lei fundamental da pessoa que se conduz pela sabedoria é esta:

O que não é justo não deve ser feito e o que não é verdadeiro não deve ser dito.

Um mestre competente não faz colecção de respostas feitas, pois sabe que a vida não cabe em moldes antecipadamente preparados.

Quando uma pessoa pensa estar em posse da totalidade das respostas, a vida encarrega-se de apresentar questões novas e diferentes. Com efeito, a vida é fonte de novidade.

A pessoa que cultiva a Sabedoria encontra sempre a resposta certa para a diversidade das questões e perguntas inesperadas.

 

b) A Sabedoria Inspira Razões Válidas Para viver

Eis alguns ensinamentos importantes da Sabedoria:

A propósito do perdão diz:

“Perdoar é libertar um prisioneiro. Esse prisioneiro eras tu enquanto não perdoaste.

No que se refere à dignidade do trabalho, a Sabedoria diz:

“Não há trabalhos desprezíveis. Não é o trabalho que confere dignidade ao ser humano, mas este que confere dignidade ao trabalho.”

A propósito do ódio a sabedoria diz o seguinte:

“Lembra-te de que as pessoas que te odeiam só te poderão vencer se passares a odiá-las também.”

No que se refere ao sucesso, a sabedoria diz:

“O sucesso não é a garantia da felicidade, mas a felicidade é a garantia do sucesso.”

Depois acrescenta:

Um dos pilares mais importantes da felicidade é amar o que fazemos e procurar fazer coisas de que gostamos.

Se isto não for possível, procura amar aquilo que fazes, caso contrário tornar-te-ás um subserviente com consciência de escravo.

A sabedoria rejeita os homens faz-tudo que impedem as outras pessoas de desabrochar. Ao mesmo tempo empobrecem a comunidade, pois ninguém é bom em todas as coisas.

Eis o que a Sabedoria diz a este respeito:

“Terá sucesso a pessoa que procura fazer aquilo para que tem qualidades e deixa o resto para os outros.

Devemos fazer as coisas porque estas são boas e não porque são a garantia do sucesso.”

Aos que têm pressa em ver o resultado do seu trabalho, a Sabedoria diz o seguinte:

“Não avalies os teus dias pelo que colheste, mas pelo que semeaste.”

Sobre o valor da partilha diz:

“Sempre que partilhamos os nossos sentimentos, as nossas riquezas e os nossos saberes tornamo-nos benfeitores da Humanidade e o nosso coração cresce na capacidade de comungar na vida eterna.”

Sobre os que andam sempre a falar das suas preocupações, tristezas e sofrimentos, a Sabedoria diz:

“Deves sentir liberdade para partilhar as tuas dores e tristezas com os amigos.

Mas sê sensato. Não andes sempre a repetir os teus sofrimentos e desilusões, pois isso cansa qualquer pessoa.”

A respeito dos desabafos com os amigos, a Sabedoria aconselha:

“Deves compreender que os amigos não são os responsáveis pela solução dos teus problemas e dificuldades. Podem e devem ajudar. Mas se forem bons amigos nunca te substituirão”.

No que se refere ao cultivo das amizades, a Sabedoria diz:

“Não esperes que uma pessoa seja muito tua amiga se não fores muito amiga dela.”

Depois acrescenta:

“Quando os amigos partilham sentimentos e experiências pessoais, a confiança fortalece-se.”

A propósito da lealdade entre os amigos, a Sabedoria diz o seguinte:

“Os verdadeiros amigos são capazes de dizer “NÃO” e continuar amigos. São capazes de ver os defeitos uns dos outros e, apesar disso, aceitarem-se.

Quando as pessoas se unem por laços fortes de amizade, a comunicação é leal. A compreensão, a aceitação mútua e a liberdade de expressão é grande.

Mas nunca esqueças que a amizade começa a deteriorar-se quando acaba o respeito mútuo.

Os bons amigos sabem e gostam de brincar, mas nunca vão além daquilo que o senso comum aconselha.”

A respeito da importância das relações humanas e da comunicação, a Sabedoria ensina:

“É mais importante comunicar do que ter bons meios de comunicação.

O aperfeiçoamento dos meios de comunicação fez aumentar a solidão no mundo.

Isto quer dizer que a evolução dos meios de comunicação não melhorou a comunicação nem provocou um salto de qualidade nas relações entre as pessoas.”

 

c) A Sabedoria e a Arte de Amar

Como sabemos, amar não é uma questão de intenções. Implica decisões, escolhas e atitudes.

A opção amorosa pressupõe a decisão de agir em benefício de alguém.

Amar implica a eleição do outro como alvo de bem-querer.

Pressupõe pedir perdão quando magoamos e perdoar quando somos magoados.

Amar é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

Implica estar presente nas horas difíceis, sobretudo quando o outro é incompreendido e humilhado.

O amor tende sempre para a convergência e a reciprocidade.

Assenta na cooperação fraterna e não na competição desleal que pretende suplantar o outro a qualquer preço.

Amar é ajudar o outro a gostar de si, valorizando as suas realizações e empenhamentos, mesmo quando não correspondem aos nossos interesses.

Amar é ajudar o outro a superar a solidão e a suportar os fardos com que a vida, tantas vezes, nos carrega.

É também facilitar o amadurecimento do outro, dando-lhe oportunidades para que se realize com pessoa livre, consciente e responsável.

A pessoa que ama não substitui o outro, mas deixa desabrochar o melhor das suas possibilidades.

Mais que dar coisas, amar implica doação pessoal, mesmo sem receber muito em troca.

A nível do amor é impossível dar sem receber algo.

Amar é ajudar o outro a descobrir sentidos para viver a vida de modo empenhado e feliz. É também saber calar quando se está magoado.

É sinal de grande sabedoria e muita maturidade amorosa ser capaz de esperar pelo o dia seguinte, para dizer o que quero dizer quando estou magoado.

Amar é acreditar na rectidão de intenção do outro, enquanto não se provar o contrário.

É também não ter a pretensão de ser a única pessoa com opiniões válidas.

Amar é tentar caminhar para a convergência, confrontando as minhas opiniões com a do outro.

Amar é também estar atento para escolher como tema de conversa e passatempo assuntos do que interessem ao outro.

É Também estar atento e saber calar-se quando percebe que a conversa está a cansar os demais.

Amar é procurar ver as qualidades do outro, evitando girar obsessivamente em volta dos seus defeitos.

Amar é partilhar o que tenho e, sobretudo, o que sou.

A disponibilidade para acolher e escutar é mais importante do que dar presentes para nos libertarmos da presença do outro.

Amar é treinar-se no sentido de aceitar as diferenças, pois o outro nunca pode ser igual a mim.

Pretender fazer do outro uma cópia de mim é uma maneira de o mutilar.

A pessoa pretende que o outro seja uma cópia de si está a amar-se a si e não ao outro.

Amar é ajudar o outro a descobrir as suas qualidades pessoais e permitir que ele desenvolva a sua originalidade pessoal.

É importante termos presente que ama mais quem dá o primeiro passo no sentido da reconciliação.

Foi assim que Deus agiu para connosco em Jesus Cristo.

Dar ao outro uma nova oportunidade é a expressão da verdadeira gratuidade amorosa.

Amar é alegrar-se com o sucesso do outro mesmo que isso signifique mais autonomia para a sua pessoa.

Amar é não exigir demasiada disponibilidade do outro para comigo, sobretudo quando se trata de falar de coisas de que ele não domina ou não gosta.

É também ser pontual sempre que possível, a fim de outro sentir que não nos esquecemos da sua pessoa.

Amar é estar atento, a fim de verificar se outro está precisando de mim.

Não basta pensar e dizer de si para consigo:

“Quando quiser que venha ter comigo”.

Amar é antecipar-se. É também fazer o que está ao nosso alcance para que o outro não fique mais infeliz e magoado sempre que está muito tempo connosco.

Amar é estar disposto a morrer a planos e gostos pessoais, a fim de dar ao outro a possibilidade de se sentir amado.