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RESSURREIÇÃO DE CRISTO COMO FONTE DE SALVAÇÃO
CALMEIRO MATIAS

A Ressurreição de Cristo não é só uma
curiosidade. Não é apenas um sinal para confirmar a autenticidade messiânica de
Jesus. É condição de Salvação para a Humanidade. A comunicação intrínseca do
Espírito Santo é-nos feita pelo Senhor ressuscitado.
A Água viva que faz jorrar em nós uma
fonte de vida eterna é um dom que nos vem apenas por Cristo Ressuscitado (Jo 7,
37-39; 4, 14). A Hora de Jesus é o momento da sua morte ressurreição. Apenas
nesse momento ele nos dá o poder de nos tornarmos filhos de Deus, não por
vontade da carne ou do sangue, mas por vontade de Deus. No momento da morte
ressurreição do Senhor, a dinâmica divinizante da encarnação passou a circular
na Humanidade. (Jo 1,12-14).
Com a Ressurreição de Cristo, carne e
o Sangue de Jesus, isto é, o seu dinamismo vital, é difundido como fonte de
vida para todos nós. Graças a este dom somos incorporados na plenitude da
ressurreição: “Disse-lhes Jesus: ‘em verdade em verdade vos digo: se não
comerdes a carne do filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a
vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu
hei-de ressuscitá-lo no último dia (Jo 6, 53-54).
Este dom é-nos feito por Cristo
ressuscitado. Não devemos entender este dom como uma realidade. Se assim fosse,
os cristãos estariam a comer tecidos humanos, e a beber hemoglobina com
glóbulos vermelhos ou brancos.
Foi para evitar essa deturpação que
João põe em destaque a reacção dos incrédulos judeus: “Que palavras
insuportáveis! Quem pode entender isto? (...). Jesus respondeu: ‘isto
escandaliza-vos? E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes?”
(Jo 6, 62). Com esta expressão, João pretende dizer que este dom é feito por
Cristo Ressuscitado. A Eucaristia é uma realidade de ordem espiritual, não de
grandeza biológica.
Depois esclarece que o dom da carne e
sangue nada tem a ver com uma proposta antropofágica: “É o Espírito quem dá
vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são espírito e
vida” (Jo 6, 63). A carne e o sangue de Cristo ressuscitado significam o
dinamismo vital do Filho em comunhão com o Pai: o Espírito Santo. O sangue de
Deus, graças a Cristo ressuscitado, passa a circular nas “veias” do nosso eu
espiritual.
A comunhão orgânica com Jesus
ressuscitado cujo dinamismo vital, o Espírito Santo, é comum ao Pai e ao Filho,
torna-se comum a todos nós também.
Como sacramento, a Eucaristia exprime
o essencial da salvação: A Humanidade e a Divindade passam a estar unidas e
dinamizadas pelo mesmo princípio vital: “Não rogo só por eles, mas também por
aqueles que hão-de crer em mim por meio da sua palavra, a fim de que todos
sejam um só, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti.
Para que assim eles estejam em nós e o mundo
creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória (o dinamismo vital, isto é, o
Espírito Santo) que tu me deste, de modo que sejam um como nós somos um. Eu
neles e tu em mim, para que cheguem à perfeição da unidade e assim o mundo
reconheça que tu me enviaste e que os amaste como me amas a mim.
Pai, quero que onde eu estiver estejam
também comigo aqueles que me confiaste, a fim de contemplarem a glória que me
deste, pois amaste-me antes da criação do mundo.
Pai justo, o mundo não te conheceu,
mas eu conheço-te e estes reconheceram que me enviaste. Dei-lhes a conhecer
quem és e continuarei a dar-te a conhecer. A fim de que o teu amor por mim
esteja neles e eu esteja neles também” (Jo 17, 20-25).
Cristo ressuscitado é o único
medianeiro da salvação para a Humanidade (1 Tm 2, 5). Por isso a confissão do
Senhor ressuscitado é condição fundamental para que a nossa fé seja teologal.
Por outras palavras, não é cristão quem não acredita e anuncia Cristo ressuscitado.
”E Deus que ressuscitou o Senhor,
há-de ressuscitar-nos também a nós pelo seu poder” (1 Cor 6, 14). A
ressurreição de Cristo é o início da ressurreição universal. Os que precederam
o Senhor ressuscitaram com ele. E nós estamos a ser ressuscitados pela acção
ressuscitante de Cristo, a qual coincide com a missão divinizante do Espírito
Santo.
”Se acreditamos que Jesus morreu e
ressuscitou, assim também Deus reunirá com Jesus os que em Jesus adormeceram”
(1 Ts 4, 14). Está subjacente a este texto a interrogação sobre a sorte dos
cristãos que faleceram antes da segunda vinda de Cristo. Como é que eles vão
participar do Reino messiânico?
Se Os mortos não ressuscitam, diz
Paulo na primeira carta aos Coríntios, também Cristo não ressuscitou e nós somos
falsas testemunhas, pois anunciamos que Deus o Ressuscitou.
Se Cristo não ressuscitou a nossa fé é
vã e ainda permanecemos nos nossos pecados. Mas não é assim. Cristo ressuscitou
como primícias dos que morrem. Assim como por um homem veio a morte, também por
um homem vem a ressurreição dos mortos. Como todos morrem em Adão, todos voltam
à vida em Cristo.
Cada qual na sua ordem: primeiro
Cristo. Depois os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. Depois
segue-se o fim quando Jesus entregar o Reino a Deus Pai, depois de ter colocado
todos os inimigos debaixo dos seus pés (cf. sal 110,1). O último inimigo a ser
destruído será a morte (1 Cor 15, 12-26).
Está nesta mesma linha o hino
cristológico da carta aos Filipenses: Devemos ter os mesmos sentimentos que
havia em Cristo e não os que havia em Adão. Com efeito, Adão foi criado à
imagem de Deus, mas não se contentou com isto. Orgulhosamente pretendeu ser
igual a Deus. Comeu o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal para ser
igual a Deus (Gn 3, 5). Por isso foi humilhado e expulso do Paraíso.
Cristo é o Novo Adão. Ele que é imagem
perfeita de Deus. Ao contrário do primeiro Adão, Jesus Cristo não reivindicou
ser igual a Deus. Pelo contrário, assumiu a sua condição de servo de Deus. O
primeiro Adão reivindicou ser igual a Deus. Não aceitou a sua condição de Servo
(Gn 3, 6-7).
Jesus foi fiel. Por isso Deus o
exaltou e lhe deu um nome (missão) que está acima de qualquer outro. Perante
Cristo todos os joelhos se dobram no Céu, na Terra e por debaixo da Terra
(Sheol ou morada dos mortos). Com esta expressão, Paulo quer dizer que Cristo é
rei. Por isso toda a língua proclama que Cristo é Senhor, isto é, rei universal
(Flp 2, 6-11).
A condição da pessoa, depois da
ressurreição, é muito diferente da condição actual: “Assim também acontece com
a ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo é semeado
incorruptível. Semeado na desonra é ressuscitado na glória.
Semeado na fraqueza, é ressuscitado
cheio de força. Semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há
um corpo terreno, também há um corpo espiritual. Assim está escrito: o primeiro
homem, Adão, foi feito um ser vivente e o último Adão um espírito vivificante.
Mas primeiro foi o terreno, não o espiritual. Este vem depois.
O primeiro homem, tirado da terra, é
terreno. O segundo vem do Céu. Tal como era o terreno tais são os terrenos. Tal
como é o celeste, assim são os celestes. Digo-vos, irmãos, a carne e o sangue
não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção pode herdar a incorruptibilidade”
(1 Cor 15, 42-50).
Na carta aos Romanos Paulo:”Se
confessares com a tua boca: ’Jesus é o Senhor e acreditares no teu coração que
Deus o ressuscitou de entre os mortos, serás salvo” (Rm 10, 9). Cristo
ressuscitado é o centro da fé cristã.
Participamos nesta plenitude da
ressurreição de Cristo de modo orgânico, não de modo individual e isolado: “Ele
é a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criatura. Foi nele que
todas as coisas foram criadas nos Céus e na Terra. Tanto as visíveis como as
invisíveis: tronos, dominações, poderes e autoridades.
Tudo foi criado por ele e para ele. É
anterior a todas as coisas e todas subsistem nele. Ele é a cabeça do corpo que
é a Igreja. É o princípio, o primogénito dos mortos, o primeiro em tudo.
Aprouve a Deus fazer habitar nele a plenitude e, por ele e para ele,
reconciliar todas as coisas pacificando pelo sangue da cruz tanto as que estão
na Terra como nos Céus” (Col 1, 15-20).
Neste hino cristológico Jesus aparece
como cabeça da Criação. Quando Deus sonhou o seu plano criador, projectou-o de
modo a que Cristo fosse a sua cúpula. Deus quis que Jesus ressuscitado
conferisse plenitude a todas as coisas.
No momento da sua morte e ressurreição
entrou em comunhão com a Humanidade que o precedeu, introduzindo todas as
pessoas na comunhão da família divina: “Cristo padeceu pelos pecados de uma vez
para sempre. O justo sofreu pelos injustos, a fim de nos conduzir a Deus.
Cristo é o princípio e a plenitude da
Criação. Nos começos ele era a Sabedoria que, junto de Deus, actuava como
princípio inspirador. Esteve presente nos começos como medianeiro da acção
criadora de Deus (Prov 8, 22-32). Depois, na plenitude dos tempos, conduz a
Criação até Deus, tornando-se o medianeiro universal da Salvação (Jo 1, 1-14).