A ORIGINALIDADE DA VIDA CRISTÃ
CALMEIRO MATIAS

O Cristão distingue-se dos outros homens, não por ser mais
importante ou um super-homem. Também não é por ser um asceta mais exigente ou
ter uma religião mais perfeita.
A originalidade cristã radica na vida teologal, isto é,
nos horizontes novos que lhe conferem a Palavra de Deus. Da Palavra de Deus
surge a fé cristã, a Esperança cristã e a Caridade ou amor ao jeito de Deus.
Isto significa que a essência do cristianismo é uma
realidade viva. É verdadeiramente uma dinâmica de vida nova. A vida teologal é
um dom de Deus. A teologia tradicional dava o nome de virtudes infusas às
virtudes teologais de Fé, Esperança e Caridade.
A vida cristã radica em Cristo Ressuscitado que nos
comunica a força renovadora do Espírito Santo. Segundo São Paulo, a prova de
que somos filhos de Deus é que o Espírito Santo está em nós e nos leva a dizer
“Abba”, papá (Ga 4, 6).
A vida cristã está alicerçada no grande dom da revelação
ou Palavra de Deus ao Homem. Esta Palavra atinge as pessoas, graças à acção do
Espírito Santo e pela mediação da Bíblia da tradição do Povo de Deus e pelos sinais
do tempo ou acontecimentos significativos da História.
A Bíblia fala-nos
de uma família pagã cujo chefe da Família se chamava Cornélio. Graças ao
anúncio do Evangelho realizado por Pedro, o Espírito Santo começou a actuar nos
seus corações, começando a falar em línguas e a glorificar a Deus.
Depois de ver este milagre do Espírito Santo, Pedro
concluiu que não se pode negar o rito baptismal a quem já está a viver a
dinâmica do baptismo no Espírito (Act 10, 44-48).
Este falar em línguas de que o Novo Testamento fala não é
mais que falar uma linguagem nova: comunicar e agir com os horizontes da
revelação de Deus.
Uma pessoa, seja de origem judaica ou pagã, não pode
fazer isto sem estar em posse dessa sabedoria que vem do alto, isto é, sem a
novidade da vida teologal.
Esta capacita o crente para saborear as coisas com os
critérios de Deus. Segundo São Paulo a Sabedoria que vem do alto é misteriosa e
oculta (1 Cor 2, 7). Emerge no coração dos crentes pela acção da Palavra de
Deus.
A Palavra de Deus confere aos cristãos os critérios de
Deus para a compreensão das coisas. Também os ajuda a ver as coisas e os
acontecimentos com os critérios de Deus, capacitando-os para viverem ao jeito
de Deus.
É a vida teologal que nos torna diferentes dos não
crentes. É esta Sabedoria que nos capacita para saborearmos a vida com o sabor
da Salvação. Ao comunicar-nos a Sabedoria do alto, isto é as virtudes
teologais, o Espírito Santo leva-nos a dizer “Abba”, papá (Rm 8, 14-16; Ga 4,
4-7).
À em que a vida teologal de Fé, Esperança e Amor emerge
em nós, passamos a ser capazes de compreender a bondade divina que nos concedeu
a Salvação realizada em Cristo (Tt 3, 4-6). Foi esta sabedoria que fez
compreender a Paulo o plano salvador de Deus, levando-o a abandonar a sua vida de
teólogo judeu e perseguidor dos cristãos (Ef 3, 9-11).
A sabedoria da carne, isto é, o judaísmo, não o tinha
preparado para compreender o plano salvador, como depois o veio a compreender,
graças à Sabedoria que adquiriu pela Revelação de Deus.
O plano de Deus, confessa Paulo, esteve oculto desde os
tempos antigos e é uma fonte de Boa Nova: Ao criar-nos à sua imagem e
semelhança, Deus talhou-nos para sermos seus filhos adoptivos por meio de Jesus
Cristo. A novidade da vida cristã torna-nos capazes de sermos sal, luz e
fermento no meio do mundo (cf Mt 5, 13-14).
A Fé cristã confessa um Deus que é comunhão de pessoas.
Isto significa que existe a possibilidade de diálogo e comunhão entre as pessoas
humanas e as divinas. Na perspectiva cristã, portanto, a oração é um espaço
privilegiado para a comunicação com Deus.
Graças à revelação sabemos que Deus é Amor. Tudo o que
Deus quer para nós é o que o Amor deseja. O Amor só pode querer o melhor para
aqueles que ama. Por outras palavras, se Deus é Amor, o poder de Deus é o poder
do Amor. O Espírito Santo que é a alma do nosso diálogo com Deus, leva-nos a
transformar os nossos critérios nos critérios de Deus, sabendo que isso é o
melhor para nós.
A oração é, para o cristão, um dos principais suportes da
sua vida cristã. É um espaço privilegiado, para o cristão fazer a experiência
de comunhão com Deus mediante a acção do Espírito Santo. É sempre no Espírito
Santo que fazemos o encontro com a primeira pessoa da Trindade como filhos e,
com a Segunda, como irmãos.
A prova de que somos filhos em relação à primeira pessoa
da Trindade e irmãos em relação à segunda é que Deus nos dá o Espírito Santo
que, no nosso íntimo, clama “Abba”, papá (Ga 4, 6) Somos filhos e herdeiros do
Pai, bem como co-herdeiros com o Filho (Rm 8, 14-16).
Jesus Cristo foi um homem de oração. Além disso insistiu
muito na necessidade de orar sempre. Nos momentos mais difíceis como, por
exemplo, nas horas que precederam a sua prisão e morte, Jesus encontrou força
na oração (Mc 14, 36). Sem oração o cristão não pode crescer na vida cristã.
Somos os ramos da videira que separados da cepa (Jesus Cristo), não podem dar
frutos (Jo 15, 5).
A primeira atitude para acontecer oração é colocarmo-nos
diante de Deus assim como somos. Faz parte da fé ter a certeza de que a oração
é sempre eficaz. Não no sentido de realizar magicamente o que pretendemos, mas
no sentido de que Deus nos vai trabalhando de modo a moldar progressivamente o
nosso coração de acordo com o projecto amoroso de Deus por nós.
Não devemos ter medo de nos apresentar a Deus tal como
somos e deixar Deus ser tal como é. A porta será aberta a todo o que bate (Lc
11,10). Jesus deu-nos a certeza de que mediante a oração o fardo das nossas vidas
se tornará leve.
A vida cristã é essencialmente uma vida de diálogo e
compromisso com Deus e os homens. Não pode amar a Deus quem não ama os seus
irmãos. Não devemos confundir vida cristã como mecanismos religiosos que leva
as pessoas a fazer coisas desconexas, pensando que, deste modo, estão a tornar
Deus favorável aos seus interesses.