A NATUREZA HUMANA COMO PROJECTO

                                                                                                       CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

a) A Maravilha da Natureza Humana

b) Os Três Princípios da vida: Ter, Poder e Prazer

c) O Sentido Profundo da Vida

d) A Plenitude é Imortalidade ou Ressurreição?

 

 

a) A Maravilha da Natureza Humana

A natureza humana é um princípio de acção e estruturação da pessoa, bem como o conjunto de possíveis para edificar a Humanidade como comunhão universal.

A natureza humana precede os indivíduos, mas só se realiza de modo perfeito em pessoas.

Os seres humanos têm uma estrutura relacional talhada para o amor. Isto quer dizer que a meta da nossa natureza é o amor.

Começa por ser um dado biológico. Mas está geneticamente programada para atingir o nível espiritual.

Até atingir esta meta, a natureza humana passa por uma série de passos de estruturação os quais, por seu lado, possibilitam os saltos de qualidade que vão dar à vida pessoal.

Como vemos, a natureza humana é uma realidade dinâmica e só atinge o seu topo ao atingir a interioridade pessoal-espiritual em contexto de relações.

Não se trata, portanto, de uma essência, mas de um projecto.

A nossa natureza tem duas faces dinâmicas e interactivas: face pessoal e face social ou comunitária. Nada é estático nesta realidade em estruturação.

Isto quer dizer que a pessoa humana não encontra a sua plenitude em si, mas na reciprocidade das relações de amor.

A matriz da interioridade pessoal-espiritual é a natureza humana na sua vertente biológica e psíquica, de modo particular o cérebro.

A nossa interioridade pessoal-espiritual não se confunde com o nosso cérebro. Mas o cérebro é a matriz da nossa vida psíquica, mental e também da nossa interioridade pessoal espiritual.

A estruturação da natureza humana termina com a capacidade de amar.

O amor, portanto, pertence à cúpula da natureza. Isto quer dizer que as recusas de amor implicam um dizer não às possibilidades mais nobres da natureza Humana.

Talvez agora possamos entender melhor o que significa dizer que a natureza divina é amor, isto é, pessoas em relações de comunhão amorosa. É uma realidade dinâmica e criadora.

Do mesmo modo, também a natureza humana é algo a emergir e a estruturar-se de modo gradual e progressivo até atingir a vida pessoal-espiritual.

Somos verdadeiramente imagem e semelhança de Deus.

Os filósofos pagãos do mundo grego e, mais tarde, os filósofos cristãos medievais, pensavam que a natureza divina era uma essência estática

Ao contrário do que pensavam estes filósofos, Deus é uma emergência permanente de três pessoas de perfeição infinita, em total convergência de comunhão amorosa.

Podemos dizer que a natureza divina é imutável no sentido de não poder deixar de ser uma novidade a emergir e a exprimir-se de modo sempre novo.

Deus é novidade permanente no modo de a primeira pessoa se exprimir como Pai, a Segunda como Filho e a terceira como ternura maternal divina.

Estamos muito longe de Aristóteles que definia Deus como o primeiro motor imóvel.

Esta afirmação é totalmente contrária à noção Bíblica de Deus. Segundo a Bíblia, Deus está constantemente a fazer história com o seu povo errante e nómada.

O Deus da Bíblia acompanha o povo e muda de sentimentos e emoções segundo as diversidade de situações.

Sem pretendermos tomar os relatos bíblicos à letra, devemos ter presente que eles transmitem uma verdade importante: Deus não é uma realidade estática.

O mesmo acontece com a natureza humana. Começa por ser uma realidade biológica, a qual contém em si um leque imenso de possibilidades de realização pessoal-espiritual.

A vertente biológica da natureza, interagindo com a vertente social e cultural constituem o leque primordial dos nossos talentos ou possibilidades de realização.

Como sabemos o ser humano começa por ser o que os outros fizeram dele. É este o leque primordial dos talentos:

Uns recebem cinco, outros três, dois ou um (Mt 25, 14-30).

Ninguém é herói por receber cinco, como ninguém é culpado por receber um. A heroicidade radica na fidelidade.

A pessoa realiza-se de modo pessoal-espiritual na medida em que procura realizar os talentos que recebeu como possíveis.

À medida em que se realiza como pessoa, o ser humano está a edificar aquilo que vai ser por toda a eternidade.

A luta das ciências contra o envelhecimento e a morte pode conseguir maravilhas. Mas não será nunca uma vitória total no sentido de atingir a a-mortalidade.

A verdadeira a-mortalidade é a imortalidade, mas esta não se atinge pelo prolongamento indefinido da vida biológica.

O sentido mais profundo da nossa existência não é manter a todo o custo e a qualquer preço a vida mortal.

A razão de ser da nossa vida na história é edificar a vida imortal, isto é, a vida pessoal-espiritual, a qual encontra a sua plenitude na comunhão com as pessoas divinas.

É esta a verdadeira vitória sobre o envelhecimento e a morte, como diz São Paulo de modo muito bonito:

“Por isso não desfalecemos. E apesar de em nós, o homem exterior caminhar progressivamente para a ruína e a morte, o homem interior renova-se e robustece-se dia a pós dia.

De facto, a nossa tribulação momentânea proporciona-nos um peso eterno de glória, muito além do que possamos calcular.

Por isso não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, pois as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas” (2 Cor 4, 16-18)

Crescer espiritualmente é um processo e uma tarefa.

Graças ao acontecimento da Encarnação, a comunhão humana universal está já divinizada.

Como vimos, a natureza divina, tal como a humana concretiza-se em pessoas, as quais encontram a sua plenitude na comunhão.

A Divindade é uma família de três pessoas. A Humanidade está a edificar-se como uma família de biliões de pessoas.

As pessoas humanas estão a realizar-se à imagem e semelhança de Deus. Não são iguais às pessoas divinas, mas são-lhe proporcionais, isto é, pode acontecer perfeita comunhão humano-divina.

Segundo o projecto de Deus a nossa plenitude acontece na interacção amorosa com a Divindade.

Este sonho de Deus aconteceu pelo mistério da Encarnação, enxerto do Filho eterno de Deus em Jesus de Nazaré, o filho de Maria.

Este enxerto deu-se em forma de interacção directa e permanente entre a interioridade espiritual divina do Filho de Deus e a interioridade espiritual humana do Filho de Maria.

 A pessoa de Deus Pai e a pessoa de Deus Filho formam igualmente uma interacção orgânica que levou Jesus a declarar: “Eu e o Pai somos Um” (Jo 10, 30).

 Graças ao mistério da Encarnação, a Humanidade passou a fazer também uma interacção orgânica e dinâmica com Cristo, como diz o Evangelho de São João:

“Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer.

Se alguém não permanece em mim, é lançado fora como um ramo e seca. Depois é lançado ao fogo e arde” (Jo 5, 6).

A salvação das pessoas humanas, portanto, consiste na sua incorporação e assunção na comunhão com as pessoas divinas.

A plenitude da natureza humana, portanto é a sua divinização, a qual acontece como dinâmica de comunhão orgânica e dinâmica.

Como podemos ver, os mistérios de Deus e de Cristo são como que dois faróis que fazem ver o sentido mais profundo da natureza e da vida humana.

O evangelho de São João sintetiza de maneira maravilhosa a dinâmica comunitária da divinização da humanidade:

“Pai, não rogo apenas por estes mas por todos os que hão-de crer em mim, por meio da sua Palavra, a fim de todos serem um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti.

Faz que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste.

Eu dei-lhes a glória que tu me deste, de modo que eles sejam um, como nós somos um:

Eu neles e tu em mim, a fim de poderem chegar á plenitude da unidade e assim o mundo reconheça que tu me enviaste e que os amaste a eles como me amaste a mim”. (Jo 17, 20-23).

É esta a dinâmica que confere plenitude divina á natureza humana.

 

 

 

 

 

b) Os Três Princípios da Vida: Ter, Poder e Prazer

A vida natural do ser humano assenta sobre três pilares que interagem entre si e estão permanentemente presentes nas nossas emoções, atitudes e planos de vida.

TRATA-SE DO PRINCÍPIO DO TER;

DO PRINCÍPIO DO PODER;

DO PRINCÍPIO DO PRAZER.

Estes três princípios dinamizadores da vida são interactivos e estão sempre presentes nas nossas relações com os outros.

Segundo os critérios do mundo, o homem edifica-se desenvolvendo ao máximo a força destes princípios.

Por outras palavras, segundo os critérios do mundo, o ser humano vale pelos bens que possui, pelo poder que tem sobre os outros e pelas possibilidades que tem de usufruir arbitrariamente muitos prazeres.

Neste ponto como em muitos outros, o evangelho está diametralmente oposto aos critérios do mundo.

Jesus Cristo foi muito claro: o homem não vale pelo que tem mas pelo que é.

O princípio do ter, bem como o princípio do poder e o princípio do prazer devem ser conduzidos pelo princípio fundamental do amor.

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

O ser humano só pode humanizar-se mediante o princípio do amor.

Amar implica eleger o outro como alvo de bem-querer. Aceitá-lo como é, apesar de ser diferente e agir de modo a facilitar a sua realização.

Se o homem se deixa conduzir arbitrariamente pela dinâmica do poder, do ter e do prazer cai na lei da selva, onde o mais forte domina, explora e oprime.

A lei da selva é oposta à humanização do ser humano.

A lei da humanização é:

1-A nível singular: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal.

2-A nível da Humanidade: emergência dos diferentes grupos étnicos, culturais, linguísticos, rácicos e culturais e convergência para a Comunhão Universal.

 

c) O Sentido Profundo da Vida

Como vemos, não nascemos para o vazio da morte.

A nossa natureza está talhada para crescer e comungar.

A nossa vida está marcada com o selo do amor.

É verdade que a nossa vida,

Na sua vertente exterior,

É tocada pela morte.

Mas a pessoa humana não se esgota na sua dimensão exterior.

Deus é a vida que a morte não pode tocar. E nós estamos talhados para comungar eternamente com Deus.

Logo no princípio, Deus imprimiu no homem o sopro da vida que o animal não tem, isto é, a dinâmica primordial que nos capacita para amar.

Por ser a interioridade máxima do Universo, Deus entende a linguagem das pedras, dos animais e das estrelas.

Mas é no coração humano que marca o encontro com o jeito da aliança.

A natureza humana está estruturada de modo a comungar amorosamente com a natureza divina.

Deus está próximo de todas as coisas,

Mas transcende-as infinitamente,

Por estar a construir-se como pessoa e comunhão de pessoas, o Homem é proporcional a Deus. É capaz de diálogo e comunhão com o Criador.

Por ser imagem e semelhança de Deus,

Pode comungar com a Divindade.

Deus ouve os sons e sente as ondas harmoniosas do Cosmos em construção.

Conhece também a multidão dos mistérios ocultos à inteligência dos homens.

E porque Deus fala,

A voz da verdade continua a soar na aridez do mundo cheio de mentira e falsidade.

Graças ao Espírito Santo,

Presença íntima que consagra profetas e apóstolos,

Ainda há vozes de denúncia neste mundo louco e sem critérios válidos para humanizar a História.

E porque Cristo ressuscitou,

O Espírito Santo habita no coração humano,

Perpetuando ensinamentos de verdade e configurando horizontes da esperança.

A dinâmica do Pentecostes continua a gerar forças de comunhão e renovação espiritual,

Fazendo jorrar a Água Viva no coração do homem que se decide pelo amor.

A presença de Deus no Homem continua a murmurar palavras de verdade e justiça.

O Espírito Santo continua a inspirar melodias de fraternidade no nosso coração.

Também a Palavra de Deus agita e optimiza a nossa Palavra,

Capacitando-nos para gritar corajosamente o amor incondicional de Deus.

Muitos são os sábios que sofrem ao ver a loucura humana seguir caminhos contrários aos da Palavra e do Espírito Santo!

Eles sabem que foram atitudes destas que mataram o Filho de Deus.

Mas o Espírito Santo,

No mais íntimo do seu coração,

Assegura-lhes que Cristo não foi um fracassado,

Apesar da sua morte ignominiosa.

Deus tomou partido,

Ressuscitando-o!

A ressurreição de Cristo dá-nos a certeza de que Deus está por nós quando optamos pelo amor.

Isto é verdade mesmo quando à nossa volta todos se viram contra nós.

O próprio Espírito Santo nos fortalece e convida para sermos testemunhas do Cristo vitorioso,

Caminho único para chegarmos para o Pai!

O Senhor Ressuscitado é a via única para podermos encontrar essa dinâmica criadora que tanto vale para viver como para morrer: O Amor!

Quando é a bússola que orienta a nossa vida,

Esta deixa de ser trevas e tormento.

Felizes os seres humanos que se deixaram conduzir pelos convites do amor!

Estes,

Ao chegarem à véspera da partida definitiva,

Farão na sua mente a síntese do que foi o seu caminhar:

Nesse momento,

Tornar-se-ão evidentes os diversos percursos que o amor realizou ao longo da sua vida.

Compreenderão que,

Apesar da diversidade das suas realizações,

Tudo está radicado na raiz fundamental: o Amor.

Nesse momento,

Tomará consciência de que as suas opções de amor são,

Para si,

O alicerce da vida em plenitude,

A qual assenta no encontro e no diálogo.

Na Vida eterna,

Cada pessoa é um ponto de encontro e uma possibilidade de comunhão amorosa.

Eis o paladar que,

Na véspera de partir,

Se apodera dos que viveram elegendo os outros como alvo de fraternidade.

De facto,

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem as pessoas e como meta a comunhão.

No momento de partir,

A pessoa une-se organicamente ao coração da vida Eterna:

A Santíssima Trindade.

O Espírito Santo,

Como amor maternal de Deus,

É o princípio animador desta Vida em Plenitude.

 

 

d) A Plenitude: Imortalidade ou Ressurreição?

Cristo Ressuscitou!

É este o núcleo da Boa Notícia do Evangelho.

A ressurreição de Cristo é boa notícia para nós,

Não apenas por ser uma curiosidade,

Mas por ser a garantia da nossa própria ressurreição.

Ressuscitar com Cristo é a condição fundamental para possuirmos a Vida Eterna.

Mas para isso é necessário estarmos organicamente unidos ao Senhor como os ramos da videira estão unidos à cepa (Jo 15, 1-7).

Apenas os que bebem a Água Viva que Cristo oferece,

Partilham da plenitude da ressurreição do Senhor (Jo 4, 21-23; 7, 37-39).

Partilhar da ressurreição em Cristo é formar um só corpo com ele (1 Cor 10, 17; 12, 27; 12, 13).

De modo simbólico,

O Evangelho de São João compara Jesus Cristo com a Árvore da Vida.

No relato do livro do Génesis,

A Árvore da Vida estava no centro do paraíso e concedia a Vida Eterna àqueles que comessem dos seus frutos.

Depois do pecado,

Diz o livro do Génesis,

Adão foi expulso do paraíso,

A fim de não ter acesso ao aos frutos desta Árvore e,

Deste modo,

Conquistar a Vida Eterna (Gn 3, 22-24).

Ao longo de todo o Novo Testamento,

Jesus aparece como o portador da vida Eterna.

Por vezes é apresentado como aquele que vem reparar os danos provocados por Adão no projecto Humano.

Adão trouxe-nos a morte,

Cristo trouxe-nos a vida eterna (Rm 5, 17).

O evangelho de São João faz uma associação simbólica de Cristo com o maná (o Pão do Céu) e mais veladamente com a Árvore da Vida.

Jesus Cristo é a Árvore da Vida que nos dá a Vida Eterna.

A Vida Eterna

Não é apenas imortalidade:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia (Jo 6, 54).

O fruto da Árvore da Vida que nos dá a vida eterna é,

Naturalmente,

O Espírito Santo,

A água viva que Cristo nos dá (Jo 7, 37-39; 37-39).

Com a sua infidelidade,

Adão fechou-nos as portas do Paraíso (Gn 3, 22-24).

Graças à fidelidade incondicional do Novo Adão,

Jesus Cristo,

Abrem-se de novo,

Para nós,

As portas do Paraíso:

“Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43)

No momento da sua morte e ressurreição,

Jesus põe ao alcance de todos o fruto da Vida Eterna,

Isto é,

Põe-nos em comunicação directa com o Espírito Santo.

E a vida Eterna ficou ao alcance de todos nós.

Graças à nossa condição de seres pessoais,

Já somos espirituais e,

Por consequência,

Imortais.

Mas a simples imortalidade não é o núcleo da Boa Nova do Evangelho.

A possibilidade de ressuscitarmos com Cristo está na nossa condição de seres espirituais e,

Por consequência,

Imortais.

É na nossa condição de seres imortais que radica a possibilidade de atingirmos a Vida Eterna em Cristo.

Mas é também a nossa condição de seres imortais que nos dá a possibilidade da morte eterna.

Com efeito,

O estado de inferno é eterno,

Precisamente porque o homem é imortal.

A ressurreição em Cristo

Implica a assunção e incorporação na Família Divina

De tudo aquilo que nos seres humanos tem densidade amorosa e espiritual.

A Ressurreição em Cristo é a glorificação do que há de imortal no ser humano e tem condições para ser divinizado.

Não se trata,

Portanto,

De uma reanimação daquilo que no homem é mortal.

Para melhor entendermos esta verdade,

Basta ter presente a dinâmica da ressurreição de Jesus,

A qual aconteceu no próprio acto de morrer sobre a cruz.

Com efeito,

Cristo venceu a morte no próprio acto de morrer.

Por outras palavras,

Jesus não esteve um só momento sob o domínio da morte,

Pois no próprio acto de morrer sobre a cruz a morte foi vencida.

Na medida em que aquilo que havia de mortal em Jesus ia morrendo,

O Espírito Santo ia glorificando e incorporando na comunhão Divina,

A sua realidade imortal.

De tal modo o acto de morrer e a dinâmica ressuscitadora do Espírito Santo actuavam em simultâneo que Jesus,

No momento em que acabou de morrer,

Estava totalmente ressuscitado.

É importante termos presente de que não se trata de uma simples libertação da alma imortal de Jesus a qual,

No momento de morrer,

Saiu do seu corpo mortal.

Ressuscitar é recuperar de modo glorioso a própria identidade pessoal histórica,

Na comunhão universal do Reino de Deus.

No momento em que acabou de morrer,

Jesus não ficou reduzido a uma simples alma imortal.

Pelo contrário,

Nesse momento,

Jesus torna-se ressurreição e vida para todos:

“Disse-lhe (a Marta) Jesus:

Eu sou a Ressurreição e a Vida.

Quem crê em mim,

Mesmo que tenha morrido,

Viverá.

E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre” (Jo 11, 25-26).

Poucos momentos antes de morrer,

Diz o evangelho de Lucas,

Jesus garante ao Bom Ladrão que,

Nesse mesmo dia,

Se vão encontrar os dois na plenitude da Vida Eterna (Lc 23, 43).

Segundo o evangelho de Mateus,

No momento em que Jesus morre e ressuscita muitos santos ressuscitam e começam a aparecer (Mt 27, 52-53).

Ressuscitar com Cristo é participar da dinâmica ressuscitadora que emana dele e nos torna participantes da sua vitória sobre a morte.

O evangelho de João exprime isto de maneira muito bonita ao falar da Eucaristia (Jo 6, 51).

A nossa Fé garante-nos que a nossa meta não é o vazio da morte.

A vitória pertence a Cristo Ressuscitado,

Fonte da Vida Eterna.

Não basta ser imortal para atingirmos a plenitude da vida.

É preciso ressuscitar Com Cristo.

Ressuscitamos com Cristo porque formarmos um todo orgânico com ele (Jo 15, 1-7; 1 Cor 10, 17; 12, 27).

Os que estão em estado de inferno não fazem uma comunhão orgânica com Cristo.

Estas pessoas são imortais,

Mas não estão na plenitude dos ressuscitados em Cristo.

A ressurreição em Cristo acontece pela assunção na comunhão da Família divina mediante o Espírito Santo.

Somos assumidos porque formamos o corpo de Cristo.

Como diz São Paulo,

Nós somos os membros do Corpo e Cristo é a Cabeça (1 Cor 10,17; 12, 27).

A ressurreição de Cristo proporciona-nos a Vida Eterna,

Não a simples imortalidade.

Do mesmo modo,

A imortalidade não dá acesso à ressurreição em Cristo.

Só na medida em que fazemos um todo orgânico com o Senhor somos ressuscitados e assumidos na plenitude da Vida Eterna.

Esta união orgânica com Cristo culmina na comunhão com a Santíssima Trindade:

O Pai no Filho,

O Filho em nós,

Formando uma comunhão humano-divina (Jo 17, 20-23).

O princípio animador desta comunhão familiar humano-divina é o Espírito Santo (Ga 4, 4-7; Rm 8, 14-17).

A dinâmica da Vida Eterna é constituída por relações de comunhão amorosa.

Na verdade,

O amor é um movimento de bem-querer que tem por origem as pessoas e por meta a comunhão.

Estamos talhados para a comunhão com Deus. Estamos vocacionados para ser divinos.

Esta vocação essencial encontra condições de realização na ressurreição de Cristo.

Graças ao amor do nosso Deus,

Temos a garantia da Vida Eterna em Cristo ressuscitado!