AMOR E REALIZAÇÃO PESSOAL

                     Calmeiro Matias

 

 

 

 Amar é eleger o outro como alvo de bem-querer, aceitá-lo como é, apesar de diferente.

Amar é também valorizar a pessoa do outro na sua diferença e originalidade, e facilitar a sua realização e felicidade.

O dinamismo amoroso tem como origem seres pessoais e como meta a comunhão de pessoas realizadas e felizes.

Deus é amor (1 Jo 4, 8; 4, 16). A Divindade é Relações de bem-querer.

O Amor não é uma essência, mas uma dinâmica e um acontecimento criador.

Também não é um impulso emocional. É a qualidade máxima das relações interpessoais e condição para a realização de pessoas felizes.

Deus é emergência permanente de três pessoas de perfeição infinita em total convergência de comunhão amorosa.

As pessoas divinas exprimem-se de modo sempre novo.

Deus é amor (1 Jo 4, 8).

A acção criadora de Deus acontece como força sempre nova e irrepetível de cada uma das três pessoas.

Na Divindade não existe repetição.

O amor é criativo e fecundo.

Gera vida e vence a morte.

Deus não começou a ser criador no momento em que iniciou a criação do Universo.

É Criador desde toda a eternidade, pois o amor gera novidade permanente no interior das relações divinas.

As pessoas humanas, enquanto estão na História, não estão em plenitude de comunhão amorosa.

O Homem é um ser em realização. Começamos por ser o que os outros nos deram: a nível genético, cultural e amoroso.

As recusas de amor dos outros estão na base dos nossos malogros, dramas e fracassos.

Na verdade,

Ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado.

O mal amado, mesmo dando o melhor de si, ama mal.

Por outras palavras, a pessoa mal amada ama com distorções bloqueios e tropeções, mesmo quando dá o melhor de si.

Por outras palavras, o mal amado introduz distorções na dinâmica do tecido social.

De facto, estas pessoas são vítimas, não culpadas!

As suas experiências negativas construíram bloqueios e azedumes que vão marcar terceiros.

Tudo é possibilitado pelo amor.

Do mesmo modo, tudo é bloqueado ou dificultado pelas recusas de amor.

Quando alguém nos elege como alvo de bem-querer está a ser, para nós, um dom do Amor de Deus.

O Amor nunca se impõe.

Somos amados em consequência de uma eleição por parte do outro.

Nunca somos capazes de obrigar o outro a amar-nos.

Se o outro está disposto a ser dom para nós, isso deve-se a uma eleição da sua parte, mediante a qual, se nos abrem caminhos para uma nova realização pessoal.

O amor dos outros é sinal de que Deus nos quer bem.

Eis a razão pela qual, quando analisamos a nossa história, recordamos, com gratidão, aqueles que nos amaram.

O seu amor por nós foi, de facto, a base estruturante da nossa realidade pessoal.

No fundo, o amor dos outros, está na base dos nossos sucessos.

Amar é a vocação fundamental da pessoa. Mas esta, antes de amar, precisa de ser amada.

Não nos conseguimos realizar, gostar de nós ou possuir plenamente, antes de alguém nos ter amado.

A pessoa humana é um ser talhado para a comunhão.

Felizes das pessoas que se edificam como uma história de amor.

Somos seres históricos. Para nos dizermos temos de contar uma história.

As pessoas bem amadas estão capacitadas para viverem reconciliadas com a sua história.

Uma pessoa em conflito com a própria história é, com toda a certeza, uma pessoa geradora de conflitos com os outros.

Projectará os seus conflitos interiores nas relações com os demais.

Há pessoas que agem como se pretendessem alterar a própria história.

Estão constantemente a fugir de si.

Sabemos como não é bom que isto aconteça. É importante tomarmos consciência da nossa condição de seres em realização.

Ainda que o leque inicial dos talentos tenha sido limitado, se formos fiéis, chegaremos a um nível profundo de humanização.

O leque dos talentos, é dinâmico.

Uma pessoa que tenha realizado o melhor dos seus possíveis, realizou, de facto, a densidade máxima da sua humanização.

Esta pessoa tem pleno lugar na comunhão universal, pois realizou-se como pessoa e, portanto, não está a mais.

Na verdade, a pessoa realiza-se de modo único, original e irrepetível.

Reiniciar a sua história, com os mesmos talentos, significaria repetir a mesma realização essencial.

No caso de o leque ser outro, essa realização implicava a construção de outra pessoa.

Deste modo, preferir ser outra realização, equivaleria a preferir ser outra pessoa.

Na festa definitiva da vida, ou seja, na Comunhão do Reino de Deus, ninguém está a mais, pois as pessoas não se repetem.

Uma pessoa é uma emergência única e irrepetível de humanidade.

Encontra a sua plenitude na comunhão com os outros e enriquece os outros com a sua originalidade pessoal.

É esta a plenitude do Reino de Deus!