A LIBERDADE COMO PROCESSO

                           CALMEIRO MATIAS

 

 

 

 

 

 

a) A Emergência da Liberdade

b) Liberdade e Humanização

c) Relação Entre Amor e Liberdade

d) Liberdade e Dignidade Pessoal

e) Liberdade Fraternidade

 

 

a) A Emergência da Liberdade

Ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros e de interagir criadoramente com as coisas e os acontecimentos.

A liberdade é o resultado de uma cadeia de opções, escolhas e realizações na linha do amor.

É importante não confundir liberdade com livre arbítrio. Na verdade, muitos dos discursos que ouvimos sobre a liberdade não são mais que referências ao livre arbítrio.

A possibilidade de o ser humano ser livre radica no livre arbítrio, capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal.

O livre arbítrio tem uma vertente biológica e outra cultural.

A base biológica do livre arbítrio é o neocortex, o sector inteligente do nosso cérebro, o qual anula no ser humano a estrutura rígida dos instintos.

Os instintos são, no animal, a ditadura da espécie sobre o indivíduo. Os comportamentos instintivos são respostas exactas dos animais aos estímulos.

Devido ao sector inteligente do cérebro humano, o neocortex, os nossos instintos são diminuídos na sua força impositiva, tornando-se impulsos.

Graças a este facto, a resposta humana aos diversos impulsos já não é uma ditadura da espécie sobre os indivíduos.

Pelo contrário, vemos uma variedade enorme de respostas humanas até no que se refere aos estímulos fundamentais: fome, sexo, modo de enfrentar os perigos, etc.

Além da vertente biológica, o livre arbítrio tem ainda a vertente cultural, a qual é constituída pelo conjunto de valores e critérios que os outros inscreveram em nós mediante o processo de aculturação e educação.

O decisivo é fundamental o amor com que os outros nos amaram. A lei da humanização é esta:

Ninguém é capaz de amar antes de ter sido amado, e o mal amado ficará a amar com tropeções, bloqueios e limitações sem disso ter culpa.

É assim o leque de possibilidades ou talentos de que dispomos para nos podermos realizar e tornar mais ou menos livres.

A nossa realização pessoal tem a ver com a fidelidade aos nossos talentos.

Do mesmo modo, decidiremos o malogro da nossa humanização se formos infiéis às possibilidades de realização que recebemos dos outros.

Por outras palavras, o modo como orientamos o nosso livre arbítrio é que determina o sucesso ou o malogro da nossa realização pessoal.

A orientação do nosso livre arbítrio pode seguir o rumo do amor ou o do egoísmo, pois como vimos o livre arbítrio é a capacidade psíquica de optar pelo bem ou pelo mal.

Optar pelo bem, como vimos, significa orientar-se na linha da fraternidade e do amor.

Pelo contrário, optar pelo mal significa orientar-se na linha do egoísmo.

Os sistemas e os regimes repressivos são desumanos precisamente por impedirem o exercício do livre arbítrio e, portanto, obstruírem a emergência da Humanidade em expressões novas.

Esta emergência acontece, como sabemos, no concreto de cada pessoa de modo único original e irrepetível. Na verdade, as pessoas não são peças feitas em série.

Nenhum homem é a medida da Humanidade. Por isso ninguém pode impor ao outro a medida do seu ser.

Como vimos, o amor dos outros capacita-nos para amar, mas não nos impõe as opções na linha do amor. A opção de amar implica sempre uma decisão pessoal.

Com efeito, o amor propõe-se, nunca se impõe. Ninguém é capaz de nos obrigar a amar uma pessoa.

Amar, como sabemos, é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

 

 

b) Liberdade e Humanização

A pessoa não nasce livre. A liberdade acontece como processo de libertação.

Uma pessoa começa a ser livre quando começa a ser capaz de orientar os três dinamismos básicos da vida natural segundo os critérios da fraternidade e do amor.

No animal, os dinamismos básicos da vida natural estão sujeitos à lei da selva onde o mais forte oprime, machuca, mata e explora.

Só na medida em que a pessoa, mediante o livre arbítrio, faz opções de modo a orientar os dinamismos básicos da vida no sentido do amor caminha no sentido da sua humanização.

São estes os três dinamismos básicos da vida animal:

O instinto do ter;

O instinto do poder;

O instinto do prazer.

No caso do ser humano, devido ao aparecimento do neocortex, estes instintos ficam reduzidos à condição de impulsos.

Os impulsos são instintos diminuídos cuja resposta pode ser equacionada pelas decisões do livre arbítrio.

Para realizar a sua humanização, o ser humano não pode seguir os critérios da lei da selva na orientação dos dinamismos básicos da vida natural.

Os mamíferos superiores orientam o princípio do ter marcando o seu território com a própria urina.

Deste modo avisam os outros animais de que não podem invadir este território sob pena de incorrer em severas punições.

O princípio do poder afirma-se sobretudo na luta dos diversos machos, a fim de conquistar as fêmeas para si.

O princípio do prazer afirma-se sobretudo na actividade sexual.

O livre arbítrio permite ao ser humana orientar os dinamismos básicos na linha da fraternidade e do amor, possibilitando, deste modo, a humanização da pessoa.

Neste caso o ter pode tornar-se fonte de partilha e comunhão fraterna.

O poder pode tornar-se autoridade e serviço no sentido de edificar uma sociedade mais justa e fraterna.

Por seu lado, o prazer pode tornar-se um meio privilegiado para criar eventos de convívio e encontro amoroso.

Pode mesmo ser o veículo que facilita a realização de uma aliança de amor fiel e fecundo.

À medida em que a pessoa se vai tornando livre mais apta se torna para orientar o livre arbítrio no sentido de opções capazes da própria humanização.

A principal força que capacita o livre arbítrio para optar na linha do amor é o amor com que os outros nos amaram e os valores que inscreveram em nós mediante o processo educativo.

O principal bloqueio às opções na linha do amor é o egoísmo, força que tende a conduzir a pessoa no sentido de opções que conduzem ao auto enroscamento sobre si mesma.

Como vemos, o egoísmo a nível pessoal e os sistemas repressivos a nível social ou político são os grandes obstáculos ao crescimento da liberdade.

Tudo o que se opõe à liberdade é igualmente obstáculo à humanização da pessoa.

A lei da humanização é: Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal.

Do mesmo modo mais capaz se torna para facilitar a realização e a felicidade dos outros.

 

 

c) Relação Entre Amor e Liberdade

A expressão máxima da liberdade é o amor. As escolhas pessoais na linha do amor exprimem a liberdade como capacidade adquirida, ao mesmo tempo que dinamiza o mesmo crescimento da liberdade.

Podemos dizer que a capacidade de amar de uma pessoa é o termómetro que indica o nível de liberdade dessa mesma pessoa.

Como sabemos, o grau de liberdade de uma pessoa não é evidente, mas revela-se pelas suas escolhas, opções e orientações na linha do amor.

Do mesmo modo, o grau de amorisação de uma pessoa não é evidente, mas revela-se no seu estilo de se relacionar com os outros.

O núcleo da identidade de uma pessoa é o seu jeito de amar.

É este jeito de amar que nos revela até que ponto uma pessoa é livre, consciente, responsável, único, original, irrepetível e capaz de comunhão fraterna.

Depois de tudo o que foi dito já podemos compreender como o amor possibilita a emergência da liberdade pessoal e capacita a pessoa para agir amorosamente.

Podemos ter a certeza de que quanto mais ricas e profundas for a capacidade de comunhão de uma pessoa mais livre ela é.

Como podemos ver, a nossa liberdade não é inimiga da liberdade dos outros, tal como a nossa liberdade não é inimiga da liberdade dos outros.

Pelo contrário, a nossa liberdade possibilidade a liberdade dos outros e a dos outros possibilita a nossa.

Quando se diz que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros as pessoas estão a falar da orientação egoísta do livre arbítrio.

De facto, a nossas decisões e escolhas na linha das nossas tendências egoístas terminam onde começam as opções, escolhas e decisões de tendência egoísta dos outros.

 

 

d) Liberdade e Dignidade Pessoal

A dignidade da pessoa começa no facto de não nascer determinada.

Os animais nascem e crescem determinados pela natureza da sua espécie, a qual lhes marca o destino.

Os instintos são a ditadura da espécie sobre os animais que constituem essa mesma espécie.

A pessoa humana, pelo contrário, nasce com um leque de possibilidades que lhe proporciona uma diversidade enorme de opções, escolhas, decisões e compromissos de vida.

Graças ao livre arbítrio, a pessoa pode optar na linha do amor ou do egoísmo.

Como vimos, a pessoa só se torna torna-se livre na medida em que opta e decide na linha do amor.

Ao contrário dos animais, a pessoa está chamada a ser autora de si própria.

A realização da pessoa implica o crescimento da liberdade, essa capacidade de se relacionar amorosamente com as outras pessoas e de interagir de modo criador com as coisas e os acontecimentos.

É esta a grandeza do ser humano a emergir como pessoa livre, graças às decisões, opções e escolhas na linha do amor.

A pessoa Humana é verdadeiramente um ser semelhante às pessoas divinas.

A Bíblia diz que Deus é amor (cf. 1 Jo 4, 7; 4, 16).

É verdade que as pessoas humanas não são iguais às divinas, mas são-lhe proporcionais.

Pela sua condição pessoal, a pessoa humana pertence ao nível da transcendência, isto é, à esfera da vida pessoal-espiritual.

A liberdade, como podemos ver, pertence à esfera da transcendência.

A nível da Criação, a vida pessoal-espiritual aparece no fim. É a cúpula do processo criador.

Mas a vida pessoal foi primeiro, pois o Criador é comunhão amorosa de três pessoas infinitamente livres, isto é, autoras de si próprias.

No princípio, quando ainda não se tinha iniciado a génese das galáxias, das estrelas, dos planetas, dos asteróides ou dos cometas, já existia uma comunhão familiar de três pessoas.

Ainda não tinha acontecido a explosão primordial que iniciou a génese do Universo;

Ainda a Terra não girava à volta do Sol e o Céu ainda não era azul e a luz do dia ainda não existia;

Mas já existia a comunhão da Santíssima Trindade.

Como vemos, a comunhão amorosa de três pessoas é o começo e o fim, o Alfa e o Ómega.

Deus é o começo e a plenitude da Criação!

Só a vida pessoal tem densidade de vida eterna. A vida pessoal ou é divina ou é proporcional à Divindade.

Com o aparecimento de seres pessoais a nível da Criação, esta atinge o limiar da vida irreversível. A pessoa é a cúpula da Criação.

O crescimento da vida pessoal não é uma questão de quantidade. Não se mede ao quilo, nem é questão de volume.

Não se mede ao metro, nem se analisa pelo método das superfícies.

Só se pode valorizar pela qualidade das suas relações.

A pessoa em realização caminha para a perfeita reciprocidade. Possui-se na medida em que se dá.

A plenitude de uma pessoa não está em si, mas na comunhão amorosa.

Ao dar-se não se perde. Pelo contrário, encontra-se mais plenamente.

A nossa interioridade pessoal-espiritual, por ser livre, não emerge necessariamente. Não é uma fatalidade ou destino. Não acontece de modo espontâneo.

A realização pessoal é uma tarefa de amor. É um processo histórico. Emerge como novidade constante.

Deus é novidade constante no interior de Si mesmo.

A Divindade nunca se repete no jeito de ser Pai e Filho no Espírito Santo.

O Amor é sempre novo. Eis a razão pela qual Deus nunca é repetição. O Pai e o Filho encontram-se permanentemente como novidade constante no Espírito Santo.

Os seres pessoais, por serem espirituais, pertencem à cúpula da Vida.

Na verdade, a vida pessoal-espiritual, não vem de fora para dentro. Emerge no interior.

Não nascemos como almas feitas. Pelo contrário, somos pessoas em processo de realização. Crescer como pessoa é crescer espiritualmente.

Ao atingir o nível pessoal, a vida atinge a imortalidade. Mas só se torna sucesso eterno mediante a assunção e incorporação na Comunhão Universal cujo coração é Cristo ressuscitado.

O crescimento pessoal só acontece através de opções, escolhas, decisões e compromissos.

Por outras palavras, não há crescimento pessoal sem o exercício da liberdade.

Crescer como pessoa é crescer como ser livre, consciente, responsável, único, original e irrepetível!

Como vemos, a pessoa faz-se, fazendo. Realiza-se, realizando.

A emergência pessoal é o coração do processo de humanização cuja lei é: Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal.

O estado de perdição, isto é, o malogro total é a pessoa enroscada sobre si sem possibilidades de encontro e comunhão com as outras pessoas.

No estado de perdição, a pessoa não consegue captar qualquer movimento de amor e bem-querer.

Não tem sabedoria para poder saborear um gesto de reciprocidade amorosa.

O egoísmo é uma força capaz de enroscar a pessoa sobre si mesma, como se de um parafuso se tratasse.

Este auto enroscamento acontece de modo gradual e progressivo, destruindo todos os elos de relação amorosa.

O livre arbítrio é a capacidade psíquica de escolher pelo bem ou pelo mal.

Optar pelo mal é escolher a via do egoísmo e, portanto, da não liberdade.

Optar pelo bem é escolher a via do amor e, portanto, da liberdade.

Como vimos acima, ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros e de interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.

Cada ser humano é autor da sua realização pessoal. Ninguém o pode substituir ou colocar-se em seu lugar.

Eis do mistério da dignidade pessoal e da liberdade em construção.

É este mistério que nos coloca na esfera da transcendência.

A lei da humanização transcende as leis da natureza cósmica.

A transcendência humana encontra-se em plenitude na transcendência Divina.

Graças à Encarnação, a pessoa humana é assumida na intimidade familiar de Deus.

O Criador imprimiu na génese do Universo a semente da vida pessoal e, portanto, as sementes da liberdade.

A dignidade do Homem em construção consiste em ser autor de si mesmo.

A pessoa humana não pode humanizar-se sem Deus e sem os outros.

Mas Deus e outros não podem substituir a pessoa sob pena de impedir a sua realização de ser livre, consciente e responsável.

Na medida em que é fiel aos apelos do Amor, a vida pessoal-espiritual dilata-se e capacitando-nos para a Comunhão Universal.

O crescimento espiritual da pessoal acontece como aumento gradual e progressivo de densidade espiritual e maior capacidade de se relacionar amorosamente com os outros.

Como vemos, ser livre é uma tarefa que implica fidelidade aos talentos recebidos dos outros e a resposta fiel aos apelos que o amor nos faz nas diversas circunstâncias no dia a dia da nossa vida.

A génese da humanização culmina na incorporação da comunhão da Santíssima Trindade, condição da nossa divinização.

Como vimos acima, Deus não tem livre arbítrio, pois não tem capacidade psíquica de optar pelo mal. Mas é infinitamente perfeito, pois é capaz de se relacionar amorosamente e de interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.

Na comunhão universal do Reino de Deus, a liberdade humana é optimizada na comunhão com a liberdade divina.

 

e) Liberdade e fraternidade

Um passo fundamental para o ser humano se comprometer de modo acertado na tarefa da sua realização como pessoas livre é a tomada de consciência da sua condição de pessoa única, original e irrepetível.

Para emergir como ser livre a tem de optar a partir dos seus talentos, os quais são diferentes dos talentos dos outros.

Eis a razão pela qual a pessoa, para ser livre, não deve andar constantemente a comparar-se com os outros.

No entanto, não podemos esquecer que a pessoa apenas se torna livre em relações com os outros.

Ninguém se torna livre sozinho, mas também é verdade que os outros não nos podem tornar livres.

A dignidade da pessoa radica no facto de não nascer determinada e surgir com um leque de possibilidades que é diferente do leque de possibilidades dos outros.

O leque primordial dos nossos talentos é a matéria-prima para modelarmos o homem em construção que somos cada um de nós.

A nossa liberdade é a capacidade de nos relacionarmos amorosamente com os outros.

Mas os outros nunca nos podem substituir na tarefa de nos construirmos como seres livres.

Face à tarefa da realização dos outros a atitude mais correcta é respeitar as suas opções, escolhas, decisões e projectos de vida.

Na verdade, ninguém é a medida do outro. Eis a razão pela qual a melhor maneira de ajudar o outro a realizar-se é não determinar o que ele deve ou não decidir.

Facilitar a tarefa da realização do outro como pessoa livre é acolhê-lo na sua originalidade, unicidade e irrepetibilidade.

Só deste modo podemos facilitar a emergência das suas possibilidades de realização.

É verdade que é legítimo aconselhar ou sugerir pistas e caminhos.

Mas depois de verificarmos que o outro compreendeu o nosso ponto de vista ou sugestão só nos resta aceitar e respeitar.

Não esqueçamos que o melhor do outro não é nunca igual ao nosso melhor.

É verdade que a pessoa não pode realizar-se sem os outros.

Devemos escutar as sugestões e opiniões de outros e sentir que estas são uma mediação importante para a nossa realização.

Mas nós damo-nos conta até que ponto essas sugestões são válidas ou não para nós.

Não esqueçamos que este princípio é igualmente verdadeiro para nós.

Por outras palavras, devemos acolher as pessoas que acolhem e respeitam a nossa diferença com uma atitude de gratidão.

Na verdade, estas pessoas são um dom e uma mediação do amor de Deus para nós.

Também nós devemos agir em relação aos outros com estes sentimento de respeito, deixando que a Humanidade possa emergir nessa pessoa com a sua originalidade.

Como sabemos a Humanidade não existe em abstracto nas nuvens.

Pelo contrário, a Humanidade concreta é a que emergiu, está emergindo e continuará a emergir no concreto de cada pessoa.

Isto que dizer que a Humanidade emerge no concreto de cada pessoa que se vai tornando livre, consciente e responsável.

À medida em que emerge torna-se património para a comunhão amorosa. Eis o fundamento da fraternidade universal.

Como sabemos, Deus não nos criou acabados, a fim de termos parte na nossa realização.

Só deste modo podemos emergir como seres livres. Deus criou-nos para que nos criemos!

Uma pessoa que não procura aproveitar o seu tempo no sentido de se realizar segundo o melhor das suas possibilidades nunca atingirá uma nível de profunda liberdade.

Como sabemos, ninguém nasce livre. Ser livre é ser capaz de se relacionar amorosamente com os outros e interagir criativamente com as coisas e os acontecimentos.

Quanto mais livre uma pessoa se torna mais faminta está de futuro.

Com efeito, o futuro é o que falta ao ser humano para ser uma pessoa plenamente realizada.

Como vemos, para a pessoa livre o destino não existe. O destino da pessoa livre é ela que o edifica.

Tornar-se livre, para a pessoa humana, é construir-se de acordo com o que vai decidindo, segundo o leque de talentos ou possibilidades que possui.

Mas nunca se tornará livre a pessoa que se projecta no futuro sem se preocupar com a realização dos seus possíveis no presente.

A pessoa não é igual ao que diz, mas sim ao que realiza. Quem quiser ser bailarino tem de começar a bailar.

Se assim não fizer nunca atingirá esse ideal por mais que se projecte no futuro e sonhe com maravilhosos bailados cheios de sucesso.

Enquanto o ser humano for capaz de optar e decidir permanece em aberto a possibilidade de crescer como pessoa livre, consciente e responsável.

Com efeito, a emergência da liberdade não é algo que acontece de modo fatal.

A liberdade não é algo que uma pessoa ou uma sociedade possa dar a um ser humano.

As pessoas e as sociedades podem e devem dar condições para que os seres humanos cresçam como pessoas livres.

Mas a liberdade é sempre o resultado de uma cadeia de opções e decisões feitas na linha do amor.

A pessoa que tem medo de correr riscos não consegue crescer muito como pessoa livre.

Os sonhos e o compromisso com projectos que tentam fazer acontecer o novo e o diferente são um alimento privilegiado para a pessoa crescer como ser livre.

Os sonhos configuram a esperança do homem, condição para este ter razões para se empenhar e comprometer.

Torna-se mais livre a pessoa que inclui sempre o bem dos outros nos seus planos e projectos de vida.

Quanto mais livre se torna uma pessoa mais capaz é de fraternidade e comunhão com os outros.