CALMEIRO MATIAS

a)
O Sopro Primordial
b)
Densidade Espiritual da Vida Interior
a) O Sopro
Primordial
“O Senhor Deus formou o Homem do pó da
Terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida”. (Gn 2, 7).
O texto, no
original, sugere que Deus, depois de o barro estar amassado, lhe deu um beijo.
Nesse momento, o hálito da vida passou de Deus para o Homem.
“Façamos o
Homem à nossa imagem,
À nossa semelhança,
Para que
domine sobre os peixes do mar,
Sobre as aves
do céu,
Sobre os
animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.
Deus criou o
ser humano à sua imagem,
Criou-o à
imagem de Deus;
Ele os criou
varão e mulher” (Gn 1, 26-27).
O momento da
criação do Homem,
Segundo a
Bíblia,
É
distinto dos momentos em que Deus criou as outras realidades
Deus
dispõe a realizar uma intervenção especial.
O
sopro divino,
O
espírito Santo,
É
o modelador do homem interior.
O
Homem exterior,
Individual,
Vem
do barro.
É
resultado desse processo longo da marcha evolutiva.
Através
da evolução,
O
barro orgânico foi-se amassando.
Por
outras palavras,
O
processo evolutivo caminhava no sentido de uma cada vez maior complexidade
cerebral.
E
eis que o barro está amassado:
A
complexidade neurológica atingiu a especificidade humana!
Chegou
o momento do sopro.
Por
outras palavras,
O
Espírito Santo já pode iniciar a dinâmica da Humanização,
Chamando,
Interpelando,
Iluminando
e
Impelindo
o ser humano a agir segundo o princípio fundamental:
Faz
o bem e evita o mal.
De
facto,
Quando
fazemos o bem,
Estamos
a responder aos apelos do Espírito Santo na nossa consciência.
É
esta a intervenção especial de Deus na criação do Homem.
É
este o sopro divino no barro amassado graças ao qual, o ser humano se torna
barro com coração, isto é, uma pessoa com capacidade interior de decidir pelo
bem ou o mal.
O
sopro de Deus actua na consciência pessoal.
Ao
nascer, a pessoa ainda não é consciente.
À
medida em que se vai formando,
A
consciência humana torna-se o altifalante do Espírito Santo.
A
pessoa que age de acordo com a sua consciência está a agir de acordo com os
valores que os outros lhe transmitiram.
Isto
significa que
Está
a ser fiel aos talentos que recebeu dos demais.
Além
disso,
Está
a ser fiel aos apelos que o Espírito Santo faz na sua consciência.
É
neste face a face com Deus e os outros que realizamos a história da nossa
humanização.
Ninguém
se realiza sozinho.
Começámos
por ser o que os outros fizeram de nós.
No
entanto,
O
fundamental,
É
o modo como nos realizamos com os possíveis que recebemos dos demais
E
a fidelidade,
À
voz do Espírito Santo na nossa consciência.
Sempre
que optamos e decidimos numa linha de fidelidade ou recusa, às propostas do amor.
Estamos a dialogar com Deus e os outros.
É
aqui que radica o fundamento da nossa liberdade e responsabilidade.
Não
nos podemos realizar sozinhos.
Mas
nem os outros, nem Deus, nos podem substituir.
Sempre
que nos situamos numa linha de fidelidade ou recusa face aos apelos do Espírito
Santo e aos valores que os outros nos transmitiram, estamos a decidir a
densidade da nossa humanização.
Esta
Constitui o património da nossa partilha na
Festa da reciprocidade e comunhão
do Reino de Deus.
O
sopro de Deus é, na verdade, a acção personalizante do Espírito Santo.
Sendo
fieis às propostas do Espírito santo na nossa consciência, emergimos como interioridade
pessoal e espiritual.
À
medida em que agimos de acordo com os apelos do Espírito constituímo-nos em família
com os que se cruzam connosco na vida, condição para sermos membros da família
de Deus.
b)Densidade
Espiritual da Vida Interior
No princípio eram três pessoas em plenitude de comunhão
familiar.
Deus
é pessoas. A Divindade é relações. O Criador do Universo é Amor. Eis a razão
pela qual O tecido do Cosmos está marcado com o selo das relações.
A
Génese criadora do Universo caminhou no sentido da vida pessoal.
Esta
constitui-se como interioridade livre,
Consciente,
Responsável,
Única,
Original,
Irrepetível
e
Capaz
de reciprocidade amorosa.
Criador
e Criação já podem estabelecer uma Aliança de Amor.
A
Divindade é pessoas e a Humanidade também.
As
pessoas divinas, as humanas e todas as outras que possam existir formam o
coração personalizado do Universo.
A
Divindade é uma emergência permanente e perfeita de três pessoas e total
reciprocidade de comunhão amorosa.
As
pessoas humanas,
Pelo
contrário,
Vão
emergindo,
De
modo gradual e progressivo,
Em
contexto relacional.
Os
outros condicionam-nos mas também nos possibilitam.
Ninguém
é capaz de se humanizar sozinho.
A
realização das pessoas humanas é uma questão ética, isto é, depende da
fidelidade às propostas do Amor.
O
Eu pessoal humano é interior.
Tem
densidade espiritual.
O
eu exterior
Pelo
contrário,
É
biológico e psíquico.
É
a matriz a partir da qual emerge o eu pessoal.
Não
há pintainho sem ovo.
Não
há emergência da interioridade pessoal humana sem o nosso eu exterior ou
individual.
No
entanto,
A
densidade do eu pessoal e a do eu individual não coincidem.
O
eu pessoal,
Por
ser espiritual,
Vai
transcendendo o eu exterior ou individual.
À
medida em que emerge como interioridade pessoal,
Converge
para a Comunhão Humana Universal.
Graças
à dinâmica da Encarnação, o divino enxertou-se no humano.
Podemos
dizer com verdade: já somos da raça de Deus!