A IDENTIDADE HISTÓRICA DOS RESSUSCITADOS

                                    CALMEIRO MATIAS

 

 

 

a)                       A Identidade Histórica de Jesus Ressuscitado

b)                      A Nossa Identidade Histórica no Reino de Deus

 

a)   A Identidade Histórica de Jesus Ressuscitado

O anúncio de Cristo ressuscitado não foi uma tarefa fácil para os Apóstolos.

Os judeus diziam que o anúncio da ressurreição de Jesus ou era uma fraude ou, então, fruto de uma alucinação dos discípulos perturbados devido à perda do mestre.

Nos escritos do Novo Testamento nota-se uma tendência crescente para incluir elementos físicos nos relatos das aparições do Senhor ressuscitado.

A razão deste procedimento é afirmar que a experiência pascal não foi fruto de uma alucinação, mas um reconhecimento do Senhor, o qual mantém a sua identidade histórica. O ressuscitado é o mesmo Jesus com o qual conviveram e comeram.

Eis a razão pela qual os discípulos nunca perguntam a Jesus quem é ele. Acabam sempre por reconhecê-lo.

O Novo Testamento insiste em que o Senhor ressuscitado é o mesmo que durante a sua vida terrena comeu e conviveu com os discípulos.

A única excepção é São Paulo que pergunta a identidade de Jesus. Mas isto é devido ao facto de Paulo não ter convivido com Jesus durante a vida deste e, portanto, estar impossibilitado de o reconhecer:

“Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Ele perguntou, quem és tu, Senhor?” Jesus respondeu: “Eu sou Jesus a quem tu persegues” (Act 9, 4-5).

Na pregação das primeiras décadas, o túmulo vazio não era utilizado como argumento para defender a ressurreição de Jesus.

Paulo afirma aos Coríntios que a sua pregação sobre a ressurreição de Jesus Cristo se apoia nos testemunhos que os apóstolos lhe comunicaram de viva voz:

“Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras.

Foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as mesmas Escrituras.

Apareceu a Pedro (Cefas) e depois aos Doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma só vez.

A maior parte destes ainda vive, se bem que alguns já tenham morrido. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Apóstolos.

Em último lugar apareceu-me também a mim como a um aborto” (1 Cor 15, 3-8).

Estamos perante o relato mais antigo sobre a ressurreição de Jesus.

Foi isto que os Apóstolos pregaram durante as primeiras décadas após a experiência pascal.

Como vemos, neste período ainda não se fala do túmulo vazio.

Aparece o nome de Tiago, o mais velho dos chamados irmãos de Jesus: Tiago, José, Simão e Judas (Mc 6, 3; Mt 13, 55).

No período em que Paulo escreve a Primeira Carta aos Coríntios, Tiago era o chefe da comunidade de Jerusalém.

Referindo-se a Tiago, o irmão do Senhor, Paulo diz que ele era dos principais (Ga 1, 19).

O relato de Paulo está profundamente marcado pela mentalidade judaica. Eis a razão pela qual não aparece entre as testemunhas mencionadas nenhum nome de mulher.

Se pudessem aparecer nomes de mulher, em vez de Tiago estaria o nome de Maria, como depois acontecerá nos Actos dos Apóstolos onde aparecem Maria e os irmãos de Jesus na comunidade de Jerusalém:

“E todos unidos pelo mesmo sentimento, entregavam-se assiduamente à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus com seus irmãos” (Act 1, 14).

É bonito verificar que Maria e o grupo familiar de Jesus tiveram uma experiência pascal separada da dos discípulos.

É esta a razão pela qual aparece uma referência explícita a Tiago.

Não pensemos que foi por lapso que Paulo deixou de mencionar o túmulo vazio.

Na mesma carta o Apóstolo diz expressamente que a ressurreição não é uma restauração biológica, mas uma optimização espiritual da mesma pessoa que viveu na história:

“Semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno também há um corpo espiritual.

Por isso está escrito: “o primeiro homem, Adão, foi feito um espírito vivente. O segundo Adão um Espírito vivificante”.

Mas o primeiro não foi o espiritual, mas sim o terreno. O espiritual vem depois” (1 Cor 15, 44-46).

A tradição do túmulo vazio está ligada à introdução das mulheres no grupo das testemunhas da ressurreição. Isto aconteceu apenas com os relatos evangélicos, depois dos anos setenta:

“Terminado o Sábado, ao romper do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro.

Nisto houve um terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela.

O seu aspecto era como o de um relâmpago e a sua túnica branca como a neve.

Os guardas com medo dele puseram-se a tremer e ficaram como mortos.

O anjo tomou a palavra e disse às mulheres: ‘Não tenhais medo. Sei que buscais Jesus, o crucificado. Não está aqui, pois ressuscitou como havia dito.

Vede o lugar em que jazia e ide dizer aos discípulos que o Senhor ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis. Eis o que tinha para vos dizer”.

Afastando-se rapidamente do sepulcro, cheias de temor e grande alegria, as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos.

Jesus saiu ao seu encontro e disse-lhes: ‘Salve! ‘. Elas aproximaram-se, abraçaram-lhe os pés e prostraram-se diante dele.

Jesus disse-lhes: “Não temais. Ide dizer aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão” (Mt 28, 1-10).

Como vemos, está aqui bem realçado o aspecto da identidade histórica de Jesus. Ele é o mesmo.

 Segundo Mateus, os onze foram para a Galileia tal como Jesus lhes ordenou. Aí lhes apareceu e confiou a missão de evangelizar o mundo:

“Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram adoraram-no.

Alguns, no entanto, ainda duvidavam. Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes: ‘foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 16-19).

Isto quer dizer que o ressuscitado, apesar de manter a sua plena identidade histórica, o seu modo de existir era diferente do modo de existir que tinha quando vivia na história. Dizem isto afirmando que alguns continuavam a duvidar.

Este mandato de evangelizar os pagãos em pé de igualdade com os judeus é uma conquista das comunidades apostólicas.

Se fosse um mandato explícito associado à aparição do Senhor ressuscitado, Pedro e a comunidade da palestina não teriam oferecido resistência à evangelização dos pagãos (cf. Act 10, 9-16).

Esta relutância fez que Paulo enfrentasse Pedro com dureza, como o mesmo Paulo confessa (Ga 2,11-14).

Foi também, por esta razão que se realizou o concílio de Jerusalém (Act 15, 1-6).

Lc 24, 13-35: O relato dos discípulos de Emaús é dos mais bonitos dos diversos relatos das aparições de Jesus ressuscitado.

O Senhor ressuscitado, apesar de manter a sua identidade histórica, vive em coordenadas totalmente diferentes.

Jesus, sem deixar de ser o mesmo, é de modo totalmente diferente. Por isso ele não é imediatamente reconhecido pelos discípulos.

Mas na medida em que a comunicação se vai intensificando, os discípulos vão-se apercebendo de que o caminhante é Jesus ressuscitado.

Quando têm a certeza que é Jesus este desaparece (Lc 24, 31). O ressuscitado não se pode reter em coordenadas de espaço-tempo, pois já as transcendeu totalmente.

São Marcos fala de uma aparição a dois discípulos que iam a caminho do campo (Mc 16., 12-13).

No relato do túmulo vazio, em Marcos, o mensageiro misterioso não é um anjo descido do Céu como em Mateus.

São Marcos fala de um jovem que está dentro do sepulcro aberto.

Também aqui as mulheres devem dizer aos discípulos que vão para a Galileia, a fim de verem o Senhor ressuscitado. Aqui as mulheres são três (Mc 16, 3-8).

Segundo João só havia uma mulher: Maria Madalena. Ao ver o sepulcro aberto, Maria correu a avisar Pedro e João, os quais foram os primeiros a fazer a experiência pascal (Jo 20, 1-10).

Só depois de Pedro é que vem a experiência pascal de Maria Madalena.

Noutro relato, Maria vê dois anjos e, logo a seguir, vê o Senhor, tomando-o pelo jardineiro (Jo 20, 11-16).

Ao aperceber-se de que era Jesus, Maria tenta abraçar os pés de Jesus, mas este não permite, pois tem de ir para o Pai (Jo 20, 17).

Também aqui aparece a afirmação da identidade histórica de Jesus mas, de modo idêntico, a afirmação do seu novo modo de existir.

Em Mateus, as mulheres lançam-se aos pés de Jesus e abraçam-no sem qualquer reparo de Jesus, ao contrário do que aparece em João (Mt 28, 9).

No evangelho de João, Jesus desafia a incredulidade de Tomé desafiando-o a tocar-lhe. Mas Tomé não lhe chegou a tocar, fazendo uma profissão de fé no Senhor (Jo 20, 27-29).

Neste relato temos uma catequese sobre a importância da Fé para se fazer a experiência do Senhor ressuscitado.

Por outro lado afirma-se a identidade histórica do ressuscitado, pois o próprio Jesus ressuscitado convida Tomé a tocar-lhe nas mãos e nos pés.

O Senhor é o mesmo. Mas bem-aventurados são os que acreditam, não os que precisam de tocar.

No final do evangelho de João, a afirmação da identidade histórica de Jesus atinge o cúmulo do fisicismo.

Aí aparece Jesus a assar peixe junto ao lago, a fim de os discípulos comerem quando regressarem da pesca. Depois come com eles.

Naturalmente que isto corresponde aos procedimentos do Jesus histórico, mas não ao Senhor ressuscitado.

No entanto, o jeito de ser do Senhor ressuscitado é o mesmo do Jesus histórico que repartia o pão e o peixe com eles (Jo 21, 9-13).

Ao acentuar o aspecto físico do Senhor ressuscitado, os discípulos estão apenas a afirmar que o Jesus com o qual conviveram é o mesmo Senhor ressuscitado que agora lhes apareceu.

São Paulo insistia, algumas décadas antes destes relatos, que o corpo do Senhor ressuscitado é uma realidade espiritual (1 Cor 15, 42-50).

 

b) A Nossa Identidade Histórica No Reino de Deus

Como vimos, Jesus Cristo, mediante a ressurreição, tornou-se totalmente diferente mantendo, embora, a sua plena identidade histórica.

A ressurreição não é um regresso à vida que o ser humano tinha antes de morrer.

O evangelho de Mateus faz uma catequese importante sobre a condição espiritual dos ressuscitados:

“Estais enganados, pois desconheceis as Escrituras e o poder de Deus.

Na ressurreição nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos. Serão como anjos no Céu” (Mt 22, 29-30).

Enquanto vivemos na história somos um seres com uma interioridade pessoal-espiritual a emergir dentro do nosso ser individual ou exterior.

Por outras palavras, o nosso ser interior emerge dentro do nosso ser exterior como o pintainho dentro do ovo.

A morte é como o momento em que nasce o pintainho. O ser exterior ou individual entra nos circuitos físico-químicos da natureza, enquanto o nosso ser pessoal-espiritual é assumido na Família de Deus.

Semeia-se corpo natural, diz São Paulo, e ressuscita-se corpo espiritual (1 Cor 15, 44).

A nossa incorporação em Deus acontece porque fazemos uma unidade orgânica com Cristo:

“Os que comem a minha carne e bebem o meu sangue vivem em mim e eu neles.

Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, os que comem a minha carne e bebem o meu sangue viverão por mim” (Jo 6, 56-57).

No evangelho de João, Jesus diz que ele é a cepa da videira e nós os ramos. Os ramos apenas podem dar fruto se estiverem unidos à videira.

Os ramos da videira, através da cepa, fazem entre si uma unidade orgânica (Jo 15, 1-7).

 A tradição chama corpo glorioso à configuração histórica da pessoa.

É uma maneira de afirmar a identidade histórica dos ressuscitados.

Ao falar do corpo glorioso, a tradição afirma que o corpo dos ressuscitados não é uma grandeza biológica, mas sim uma realidade espiritual. É a configuração da nossa génese histórica.

É o modo de a pessoa comunicar com os outros, a partir da sua realização na história.

No Reino de Deus os todos os eleitos dançam o ritmo do amor.

Mas cada qual dança com o jeito que foi adquirindo na história.

Este jeito de dançar o ritmo do amor foi treinado e adquirido através de uma génese histórica.

Fora da comunhão do Reino, a pessoa não encontra a sua identidade.

De facto, a plenitude da pessoa não está em si mas na reciprocidade do amor.

Isolada da comunhão a pessoa não se possui nem conhece plenamente.

As pessoas que estão em estado de perdição, isto é, reduzidas a si, não têm corpo glorioso, pois são incapazes de comunicar e comungar com alguém.

Isto quer dizer que Deus não condena ninguém. As pessoas que vão para a morte eterna condenam-se por sua própria decisão.

A pessoa apenas se possui dando-se. Só se encontra plenamente na reciprocidade da comunhão.

A seiva que alimenta a nossa união a Cristo é o Espírito Santo. É a Água viva que faz jorrar vida eterna no nosso íntimo (Jo 4, 14; 7, 37-39).

A comunhão no corpo e sangue de Cristo tem a ver com o Cristo ressuscitado.

Não se trata, portanto, de uma realidade biológica:

“O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos disse são espírito e vida” (Jo 6, 63).

A carne e o sangue, diz São Paulo, não podem participar no Reino de Deus (1 Cor 15, 51).

A pessoa apenas se realiza e estrutura em relações. A nossa realidade pessoal-espiritual está ligada aos outros mediante uma união orgânica.

Começamos por ser o que os outros fizeram de nós. É dos outros que recebemos o feixe dos talentos ou possibilidades de realização.

Mas o mais importante é o modo como nos realizamos com os talentos que recebemos dos demais.

Na base da nossa realização pessoal está uma cadeia de decisões, opções, escolhas e acções orientadas no sentido do amor.

É verdade que ninguém se pode realizar sozinho. Mas é igualmente verdade que ninguém nos pode substituir na tarefa da nossa realização pessoal. É este o núcleo da nossa identidade pessoal.

Já vimos que ninguém se pode realizar sozinho. À medida em que o ser humano se realiza como pessoa constitui-se como um ser com os demais.

Eis a razão pela qual os outros são mediações para nos realizarmos, mas não podem programar nem executar a nossa realização.

Por outras palavras, os outros podem favorecer ou condicionar a nossa realização pessoal, mas a última palavra é sempre nossa.

Aqui radica o fundamento da nossa dignidade e também da nossa responsabilidade.

A nossa realização pessoal-espiritual, portanto, é o conteúdo da nossa identidade histórica.

Agora já podemos compreender que cada ser humano, à medida em que se realiza, está a edificar-se como pessoa livre, consciente, responsável, única, original, irrepetível e capaz de comunhão amorosa.

E seremos eternamente a pessoa que realizámos na história.

A plenitude da pessoa humana, no Reino de Deus, acontece na comunhão com as pessoas divinas do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

  Seremos eternamente segundo nos realizemos agora na história.

A recriação e optimização operada pela Ressurreição consistem na nossa divinização.

Deus diviniza o que somos como realização humana. Mas a humanização é tarefa nossa.

Isto quer dizer que será eternamente mais divino quem mais se humanizar n a história.

A nossa dignidade consiste no facto de sermos responsáveis pela nossa realização. Deus criou-nos inacabados e deu-nos a missão histórica de nos criarmos a nós mesmos.

Não sem a acção de Deus em nós, mas esta não nos substitui. O Espírito Santo está connosco, mas nunca em nosso lugar.

Apenas os que bebem a Água Viva que Cristo nos oferece, isto é, o Espírito Santo, participam da plenitude da ressurreição (Jo 4, 21-23; 7, 37-39).

O fruto da Árvore da Vida que estava no centro do Paraíso era a garantia da Vida eterna.

Mas devido ao pecado de Adão, a Humanidade ficou privada da vida Eterna:

“O Senhor Deus disse: “Eis que o Homem, quanto ao conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós.

Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da Árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre.

Então, o Senhor Deus expulsou o Homem do Jardim do Éden, a fim de cultivar a terra da qual fora tirado.

Depois de ter expulsado o Homem, Deus colocou a oriente do Jardim do Éden dois querubins com uma espada flamejante, a fim de guardarem o caminho da Árvore da Vida” (Gn 3, 22-24).

 Jesus Cristo veio como o Novo Adão (Rm 5, 17-19). No momento da sua morte e ressurreição, o Novo Adão reabriu-nos as portas do Paraíso e a Humanidade ficou com acesso ao fruto da Vida Eterna.

Quando estava para morrer e ressuscitar, Jesus disse ao Bom Ladrão: “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).

O fruto da vida Eterna é o Espírito Santo que nos vem de Cristo:

“No último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede, venha a mim e quem crê em mim que sacie a sua sede!

Como diz a Escritura, hão-de correr rios de Água Viva do seu coração.

Jesus disse isto referindo-se ao Espírito santo que iam receber os que acreditassem nele.

Com efeito, o Espírito ainda não tinha vindo, pois Cristo ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7, 37-39).

É o Espírito Santo, diz São Paulo que nos incorpora na Família de Deus como Filho em relação a Deus pai e como irmãos em relação a Cristo. É por este mesmo Espírito que clamamos “Abba”, Ó Pai (Rm 8, 14-16).

Ao ser assumida na Família de Deus, isto é, na comunhão universal dos ressuscitados com Cristo, a pessoa humana fica beneficiada nas suas possibilidades de comungar com as outras pessoas humanas e com as pessoas divinas.

Isto quer dizer que na comunhão universal do Reino de Deus a identidade da pessoa não é anulada mas optimizada.

A simples imortalidade não é parte importante da Boa Nova do Evangelho.

No coração do Evangelho está a ressurreição como condição de plenitude para a pessoa humana.

A ressurreição em Cristo implica a assunção, ou seja,

A plena incorporação na Comunhão da santíssima Trindade.

À luz da ressurreição, a morte natural é o parto final, a derradeira possibilidade de renascer para a plenitude.

A morte é o acontecimento que possibilita o nascimento total.

Nesta perspectiva, o amor surge como a única razão válida para construir a vida.

O amor é razão válida para viver e para morrer. Tanto vale viver para amar como morrer por amor.

O nosso ser pessoal-espiritual não é atingido pela morte natural.

Pelo contrário,

Fica liberto das amarras e condicionamentos do nosso ser exterior, individual, egocêntrico, constantemente impelido a girar sobre si mesmo.

Eis o mistério da plenitude:

A pessoa possui-se, dando-se.

Não basta ser imortal para atingir a plenitude da vida.

As pessoas que estão em estado de inferno são imortais, mas não estão na plenitude dos ressuscitados em Cristo.

Os que estão em estado de perdição, por se terem isolado, não se possuem nem conhecem a sua identidade, pois esta apenas se torna evidente nas relações de comunhão com os outros.