A IDENTIDADE DA
PESSOA NO REINO DE DEUS
CALMEIRO MATIAS

A
ressurreição não é uma restauração biológica. Por outras palavras, as pessoas
humanas, ao ressuscitarem, não voltam ao mesmo estado que tinham antes de
morrer.
Mas a
nossa identidade espiritual permanecerá para sempre na Comunhão Universal da
Família de Deus.
Por
identidade espiritual devemos entender o jeito de a pessoa amar e se relacionar
com os outros.
A
ressurreição é um acontecimento de ordem espiritual, não biológico.
Os
evangelhos insistem em que a nossa identidade pessoal profunda, por ser
espiritual, permanecerá a mesma na comunhão do Reino de Deus.
Ao
mesmo tempo insistem em que a pessoa humana, após a ressurreição, permanece
como grandeza de ordem meramente espiritual.
Eis o
que Jesus disse a um grupo de saduceus, isto é, um grupo de homens que
pertenciam a um movimento que negava a ressurreição:
“Acerca
da ressurreição estais enganados, pois desconheceis as Escrituras e o poder de
Deus.
Na
ressurreição nem os homens terão mulheres, nem as mulheres, maridos. Serão como
anjos no Céu” (Mt 22, 29-30).
Com
esta forma de falar, Jesus queria dizer que, na Comunhão dos ressuscitados em
Cristo, a condição das pessoas é puramente espiritual.
O nosso ser espiritual é uma realidade a emergir no nosso íntimo como o
pintainho vai emergindo dentro do ovo.
Na verdade, começamos por ser uma realidade biológica, diz São Paulo, mas
ressuscitamos como corpo espiritual (1 Cor 15, 44).
A nossa ressurreição acontece pelo facto de fazermos uma união orgânica com
Cristo ressuscitado. Ele é a cabeça e nós os membros do mesmo corpo (1 Cor 10,
17; 12, 27).
No evangelho de São João, Jesus diz que ele é a cepa da videira e nós os
ramos.
Depois acrescenta que os ramos apenas podem dar fruto se estiverem unidos à
videira (Jo 15, 4-5).
Ao falar do corpo dos ressuscitados, a Fé sempre afirmou que o corpo dos
ressuscitados não é uma realidade física, mas sim uma realidade espiritual.
Como vimos, a nossa identidade no Céu coincide com o nosso jeito de amar e
comungarmos com os outros.
No Reino de Deus todos os eleitos dançam o ritmo do amor, mas cada qual com
o jeito que foi adquirindo na história.
Este jeito de dançar o ritmo do amor foi treinado e adquirido através da
nossa marcha na história.
No Reino de Deus os seres humanos só encontram a sua plenitude de pessoas
realizadas e felizes na comunhão com os outros.
Na verdade, só na comunhão nos podemos sentir realizados e felizes.
A solidão asfixia a pessoa, bloqueando todas as suas possibilidades de
felicidade.
Por outras palavras, fora da comunhão, a pessoa não se possui nem conhece
plenamente.
O ser humano está talhado para a relação. Somos imagem de Deus que é uma
comunhão de três pessoas. Eis a razão pela qual a pessoa só se possui
plenamente dando-se.
O sangue que alimenta a vida e a nossa união de membros do Corpo a Jesus
Cristo que é a cabeça é o Espírito Santo.
O Espírito Santo é, na verdade, o sangue da Nova Aliança.
Ele é a seiva que vem da cepa, fortalecendo e tornando fecundos os ramos da
videira que somos nós.
Como diz o evangelho de João, o Espírito Santo é a Água Viva que faz jorrar
rios de Vida Eterna no nosso coração (Jo 4, 14; 7, 37-39).
A comunhão do Corpo e Sangue de Cristo, na Eucaristia, tem a ver com o
Espírito Santo.
Na verdade, diz o evangelho de São João, não se trata de uma realidade
biológica (células ou hemoglobina), mas sim do Espírito Santo.
Eis as palavras do evangelho de São João:
“O Espírito é que dá vida. A carne não serve para nada. As palavras que vos
disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 63).
A carne e o sangue, diz São Paulo, não podem participar no Reino de Deus (1
Cor 15, 51).
A nossa realidade interior é espiritual. Mas é histórica, pois emerge de
modo gradual e progressivo no nosso interior.
Na
base da nossa realização pessoal está uma cadeia enorme de decisões, opções,
escolhas, atitudes e realizações orientadas no sentido do amor.
É
esta rede de realizações que forma a nossa identidade pessoal, isto é, o nosso
jeito de amar e nos relacionarmos com os outros.
É
verdade que ninguém se pode realizar sozinho. Mas é igualmente verdade que
ninguém nos pode substituir na tarefa da nossa realização pessoal.
Somo
realmente seres em construção, tarefa esta na qual ninguém nos pode substituir.
Mas também é verdade que ninguém se pode realizar sozinho, pois o ser humano só
pode realizar-se em relações de amor.
Eis a
razão pela qual, a pessoa, à medida em que se realiza, se constitui como ser
unido e interligado aos demais.
É
esta a raiz da união orgânica e dinâmica que liga as pessoas humana umas com as
outras.
Tal
como a Humanidade, também a Divindade é uma união orgânica e dinâmica de três
pessoas.
É
verdade que os outros são mediações para nos realizarmos, mas não podem
programar nem executar a nossa realização.
Nem
Deus nos substitui nesta tarefa da nossa realização pessoal, a fim de podermos
ser livres, conscientes, responsáveis e termos património pessoal a comungar
com os outros.
Deus
está sempre connosco, mas não está nunca em nosso lugar.
Os
outros seres humanos podem favorecer ou condicionar a nossa realização pessoal,
mas a última palavra é sempre nossa.
É
aqui que radica o fundamento da nossa dignidade pessoal e também a
responsabilidade da nossa realização.
Podemos
dizer que a nossa realização pessoal é o conteúdo da nossa identidade
histórica.
Agora
já podemos compreender como a nossa realização pessoal é o conteúdo da nossa
identidade histórica.
À
medida em que se realiza, a pessoa está a edificar-se como um ser livre,
consciente, responsável, único, original, irrepetível e capaz de comunhão
amorosa.
Resumindo
o que acabámos de afirmar podemos dizer que seremos eternamente a pessoa que
realizarmos agora na história.
Seremos
eternamente aquilo que realizarmos agora na história.
Através
de Cristo, Deus diviniza o que somos como realização humana.
Mas a
humanização é tarefa nossa. Isto quer dizer que será eternamente mais divino
quem mais se humanizar na história.
Deus
criou-nos inacabados e deu-nos a missão histórica de nos criarmos completando,
deste modo, a sua obra.
O
Espírito Santo actua em nós como esse sopro divino que Deus insuflou no barro
primordial, a fim de nos conduzir na tarefa da nossa realização.
Apenas
os que bebem a Água Viva que Cristo nos oferece, isto é, o Espírito Santo,
participam da plenitude da ressurreição, diz Jesus no evangelho de São João (Jo
4, 21-23; 7, 37-39).
O
fruto da Árvore da Vida que estava no centro do Paraíso era a garantia da Vida
eterna.
Mas
devido ao pecado de Adão, diz o Livro do Génesis, a Humanidade ficou privada da
vida Eterna (Gn 3, 22-24).
São
Paulo diz que Jesus Cristo veio como o Novo Adão (Rm 5, 17-19).
No
momento da sua morte e ressurreição, o Novo Adão reabriu-nos as portas do
Paraíso e a Humanidade ficou com acesso ao fruto da Vida Eterna.
No
momento da sua morte sobre a cruz, Jesus disse ao Bom Ladrão:
“Hoje
mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).
Por
outras palavras, o Senhor ressuscitado é a Árvore da Vida que nos dá o fruto da
Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo que ele nos comunica ao ressuscitar:
“No
último dia, o mais solene da festa, Jesus, de pé, bradou: “Se alguém tem sede,
venha a mim e quem crê em mim que sacie a sua sede!
Como
diz a Escritura, hão-de correr rios de Água Viva do seu coração.
Jesus
disse isto referindo-se ao Espírito santo que iam receber os que acreditassem
nele.
Com
efeito, o Espírito ainda não tinha vindo, pois Cristo ainda não tinha sido
glorificado” (Jo 7, 37-39).
O
Espírito Santo, diz São Paulo, incorpora-nos na Família de Deus onde somos
inseridos como Filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação a Deus
Filho.
É por
este Espírito Santo, acrescenta São Paulo, que nós clamamos “Abba”, Ó Pai (Rm
8, 14-16; Ga 4,4-7).
Como
vemos, a identidade da pessoa humana, na Comunhão Universal da Família de Deus,
não é anulada mas optimizada.
A
simples imortalidade não é o centro da Boa Nova trazida por Cristo.
No
coração do Evangelho está a ressurreição, a qual implica a assunção, ou seja, a
incorporação na Comunhão da santíssima Trindade.
À luz
da ressurreição, a morte natural é o parto final, isto é, a derradeira
possibilidade de nascermos para a plenitude da vida eterna.
Por
outras palavras, a morte é o acontecimento que nos possibilita o nascimento
total.
Nesta
perspectiva, o amor surge como a única razão válida para construir a vida.
O
amor vale tanto para viver como para morrer. Uma pessoa que morreu para salvar
outra não se suicidou. Pelo contrário atingiu a plenitude do amor.
Estamos
a tocar um mistério que consiste nisto: a pessoa possui-se, dando-se, pois é
dando-se que ela que recebe.
Não
basta ser imortal para atingir a plenitude da vida. As pessoas que estão em
estado de inferno são imortais, mas não estão na plenitude dos ressuscitados
com Cristo.