A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA
Calmeiro Matias

A dignidade da pessoa começa no facto de não nascer determinada.
Os animais nascem e crescem determinados pela natureza da sua espécie, a
qual lhes marca o destino.
A pessoa
humana, pelo contrário, nasce com um leque de talentos que lhe possibilita uma
diversidade enorme de opções, escolhas, decisões e compromissos de vida.
Ao contrário dos animais, a pessoa
está chamada a ser autora de si própria. È imagem e semelhança de Deus.
A Divindade é
pessoas. A Humanidade, também. É verdade que as pessoas humanas não são iguais
às divinas, mas são-lhe proporcionais.
Pela sua condição pessoal, a pessoa humana pertence ao nível da
transcendência. Pertence à esfera da vida pessoal-espiritual.
A nível da Criação, a vida pessoal-espiritual aparece no fim. É a cúpula do
processo criador.
Mas a vida pessoal foi primeiro. Com efeito, no princípio, Só existia Deus,
três pessoas em Comunhão amorosa.
O Universo ainda não era. Não se tinha iniciado ainda a génese das
galáxias, das estrelas, dos planetas, dos asteróides ou cometas e já existia
uma comunhão familiar de três pessoas. O Espírito e o Amor estão primeiro.
Antes da explosão primordial dar início à gestação do Universo, já existia
o Amor.
Ainda a Terra não girava à volta do Sol. O Céu não era azul e a luz do dia
ainda não existia. No princípio apenas existia a comunhão da Santíssima
Trindade.
Ainda não havia pios, urros, balidos, guinchos ou uivos sonoros. Não
existia o espaço faminto de tempo. Apenas existiam pessoas em relações.
A comunhão de pessoas é o começo e o fim, o Alfa e 0 Ómega. É o começo e a
plenitude da Criação.
Só a vida pessoal tem densidade de vida eterna. A vida pessoal ou é divina
ou é proporcional à Divindade.
Com o aparecimento de seres pessoais a nível da Criação, esta atinge o
limiar da vida irreversível. A pessoa é a cúpula da Criação.
O crescimento da vida pessoal não é uma questão de quantidade. Não se mede
ao quilo, nem é questão de volume.
Não se mede ao metro, nem se analisa pelo método das superfícies.
Só se pode valorizar pela qualidade das suas relações.
A pessoa em realização caminha para a perfeita reciprocidade. Possui-se na
medida em que se dá.
A plenitude de uma pessoa não está em si, mas na comunhão amorosa.
Ao dar-se não se perde. Pelo contrário, encontra-se mais plenamente.
O eu pessoal-espiritual, por ser livre, não emerge necessariamente. Não é
uma fatalidade ou destino. Não acontece de modo espontâneo.
A realização pessoal é uma tarefa de amor. É um processo histórico. Emerge
como novidade constante.
Deus é novidade constante no interior de Si mesmo.
A Divindade nunca se repete no jeito de ser Pai e Filho no Espírito Santo.
O Amor é sempre novo. Eis a razão pela qual Deus nunca é repetição. O Pai e
o Filho, encontram-se como novidade permanente no Espírito Santo:
“ O que estava sentado no trono disse: ‘Eu renovo
todas as coisas (...). Disse ainda: ‘Eu sou o Alfa e o Ómega,
O princípio e o fim (Apc 21, 5-6).
Os seres pessoais pertencem à cúpula da Vida.
Na verdade,
O eu pessoal, não vem de fora para dentro. Emerge no interior do Eu
individual.
Não nascemos como almas feitas. Pelo contrário, somos pessoas em processo
de espiritualização.
A nível pessoal, a vida atinge a imortalidade. Mas só se torna sucesso
eterno, mediante a assunção e incorporação na Comunhão Universal cujo coração é
Cristo.
O crescimento pessoal só acontece através de opções, escolhas, decisões e
compromissos.
A pessoa faz-se, fazendo. Realiza-se, realizando. Constrói-se,
construindo...
A emergência pessoal é o coração do processo de humanização cuja lei é:
Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão
Universal.
O estado de perdição, isto é, o malogro total é a pessoa enroscada sobre si
sem possibilidades de encontro e comunhão com as outras pessoas.
No estado de perdição, a pessoa não consegue captar e perceber qualquer
movimento de amor e bem-querer.
Não tem sabedoria para saborear um gesto de partilha ou reciprocidade
amorosa.
Isto demonstra como o egoísmo é uma força capaz de enroscar a pessoa sobre
si mesma, como se de um parafuso se tratasse.
Este auto enroscamento acontece de modo gradual e progressivo, destruindo
todos os elos de relação amorosa.
A pessoa é autora da sua realização pessoal. Ninguém a pode substituir ou
colocar-se em seu lugar.
Eis a raiz do mistério da dignidade pessoal.
A transcendência humana encontra-se em plenitude na transcendência Divina.
A pessoa humana é assumida na intimidade familiar de Deus.
O Criador imprimiu na génese do Universo a semente da vida pessoal.
O barro amassado, recebe o beijo do criador. O hálito da vida passa de Deus
para o Homem e este torna-se barro com coração.
A dignidade do Homem em construção consiste em ser autor de si mesmo.
Não pode ser substituído por Deus nem pelos outros seres humanos.
Pela fidelidade aos chamamentos do Amor, a vida pessoal-espiritual
dilata-se na nossa interioridade, capacitando-nos para a Comunhão Universal.
Para isso nos vai dotando de novos elos e possibilidades de participação no
mistério do Reino de Deus, que é a festa da vida plena.
Deste modo a génese da humanização culmina no dom da divinização. É este o
mistério da salvação em Cristo.